Volto ao assunto porque é preciso. O Brasil está formando motoristas idiotas e tornando assim o que não são, exclusivamente por ridícula formação de condutores e absurda gestão de tráfego, respectivamente.

A placa de aviso mostrada na foto no bairro onde moro, em Moema, capital paulista, se vê por todo o país. O que ela coloca na cabeça dos motoristas? Só os cruzamentos assim sinalizados requerem cuidado. Isso quando não diz “Cruzamento perigoso”. Pronto, está dada a primeira “aula”: há cruzamentos perigosos e há os que não o são.

Está na cabeça até de quem não dirige. Quando há uma acidente grave em cruzamento não semaforizado, mas sinalizado com placa “Pare”, é comum repórteres televisivos entrevistarem testemunhas ou moradores e se ouvir a invariável opinião de que “é preciso colocar um sinal aqui”. Ou seja, só com sinal o motorista brasileiro entende que tem que parar no cruzamento. Placa “Pare” é para os trouxas.

 

Cruzamento capotagem

Acidente comum (foto g1.com)

Associado ao “espírito de Gérson” incutido na personalidade do brasileiro, sinal apagado por qualquer motivo virou sinônimo de “Oba!!! Não vou ter que parar!” e, pronto, lá vêm os repórteres televisivos dizerem que “o semáforo apagado causou o acidente”.

Aí entra a má gestão. Todo sinal tem de ter um no-break para em caso da falta de energia entrar em amarelo piscante para todas as vias.  Ih, mas isso dá um trabalho danado… Amarelo piscante significa: pare. E parar só tem um significado, parar o veículo. Não tem outro. É parar, avaliar o tráfego transversal e reiniciar a marcha.

Tenho dito e vou repetir: eu e minha família jamais provocaremos acidente ou seremos vítimas de colisão em cruzamentos. Como assim? Como se pode afirmar uma coisa dessas? Simples: basta considerar todo cruzamento como sendo perigoso e esquecer que há placa “Pare” na via transversal, semáforo em verde, se é dia ou noite. É entrar na zona de cruzamento olhando para os lados (esquerda, direita, esquerda) e em velocidade que permita parar caso alguém não respeite a sinalização.

Claro, isso no nosso patropi. Quem dirigir na Alemanha, por exemplo, se vir um sinal verde pode confiar, porque ninguém cruzará à sua frente ou lhe acertará a lateral. O motorista alemão fica parado no vermelho mesmo às 3 da manhã, ruas desertas. Questão de disciplina e civilidade.

 

Pare campo grande

De novo, não custa repetir: desobedecer à placa de parada obrigatória é infração de mesmo teor que desobedecer o sinal vermelho, infração gravíssima, R$ 191,54 de multa e débito de 7 pontos na CNH (CTB, Art. 208).

O leitor do Ae sabe que combato a indústria da multa, mas uma câmera de vídeo nos cruzamentos  ou pontos onde há parada obrigatória faria dois milagres acontecerem: contribuir para os cofres municipais de maneira incrível e, em pouco tempo, dar uma “aula de reforço” àqueles já formados na EBMI, mesmo que há décadas, com efeitos altamente benéficos para a segurança do trânsito. Esse é o lado saudável da vigilância eletrônica.

Isso leva à questão de ter de haver ou não semáforo. Este só é necessário num cruzamento quando o volume de tráfego numa das vias ou em ambas é alto, ou quando a via a cruzar é de pista dupla, como uma avenida larga. Fora isso, a placa “Pare” é mais que suficiente, ou deveria ser, caso entendida como realmente parar o veículo, avaliar o tráfego e reiniciar.

Outro exemplo de não respeitar a obrigação de parar ao cruzar linha férrea sem cancela. É inadmissível um veículo de rodas com pneus ser colhido por um trem. Diante da sinalização específica para esse caso, a cruz de Santo André, tem que parar, olhar para os dois lados para certificar-se de que não há trem vindo, e reiniciar a marcha. Não existe outro procedimento.

 

Cruz santo

(foto cimais.com.br)

Esse tipo de obediência sistemática deve começar na região onde se vive, pois é comum dizer-se “eu conheço, moro aqui”, mas uma dia pode-se estar em outro lugar e a condição ser diferente da que se está habituado. Isso vale tanto para cruzar linha férrea quanto para placa “Pare”. Tem de ser automático.

Voltando à placa “Pare” e à questão da gestão de trânsito, as cabeças que a regem geralmente são de perfeitos ignorantes. Vêem-se essas placas aplicadas de maneira totalmente errada pelo país inteiro, como na entrada de rotatórias e faixas de aceleração, em que o correto seria a placa “Dê preferência”. O que essa aplicação errada da placa “Pare” gera? Descrédito e, em conseqüência, desobediência contumaz.

Falando em rotatória, uma ótima solução para maior fluidez em determinados cruzamentos, autoridades de trânsito de várias cidades instituíram a mini-rotatória. Só que por suas diminutas dimensões cancelam a regra universal de quem vem pela direita tem preferência (países de mão direita), uma vez que numa rotatória tem preferência quem já está nela. Resultado: conflitos comuns entre motoristas e não raro, batidas. Além disso, veículos de porte grande, até uma picape grande, podem ignorar a demarcação da mini-rotatória para conseguirem passar pelo cruzamento, ou seja, a mais absoluta zorra, pois inverte-se a regra da rotatória. E, pior, a demarcação da rotatória impede as existência da faixa para pedestres e, ainda mais grave, há tachões de separação de pista que podem levar uma pessoa a tropeçar e cair.

 

rotatoria_04

Sem faixa de pedestres (foto jornalvicentino.com.br)

E há a “aula magna” de EBMI, a lombada, que tanto comento aqui no Ae. Os “formandos” e “formados” aprendem que se não houver lombada pode-se acelerar à vontade, a pista está livre. Derruba-se, assim, toda e qualquer noção de responsabilidade. A lombada é um objeto, ou melhor, um dejeto viário totalmente desnecessário. A maior prova esta na matéria Milagre em Barroso que publiquei em março último, cuja leitura ou releitura recomendo.

Essa escola, a EBMI, tem de acabar e seu prédio, implodido. Senão, nada feito, continuaremos a subir no pódio de países de trânsito letal. Vou voltar a esse assunto mais vezes, pois há muito mais o que falar.

BS

 

 

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