Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas CAMINHONEIRO POR UM DIA – POR DANIEL S. DE ARAÚJO – 11/10/15 – Autoentusiastas

Quando se tem uma propriedade agrícola, um dia é diferente do outro. Nada ocorre repetidamente como em um escritório ou em uma fábrica. Há sempre uma surpresa, um fato novo que dificulta demais o planejamento, mas ao mesmo tempo faz da fazenda um local criativo para se ter idéias e mesmo fazer atividades que raramente uma pessoa comum, que fez uma faculdade de Administração de Empresas e deveria estar confinado num maciço de concreto da Vila Olímpia ou na avenida Paulista faria. E assim aconteceu comigo nos idos de maio de 2004…

Naquele ano, havia plantado uma significativa área de milho e o milharal estava carregado como raramente se vê, com produtividade nunca vistas até então na região. Contudo, para a colheita precisava de uma plataforma de milho para acoplar a uma colheitadeira e essa plataforma estava em Guaraci, cidade do norte do Paraná. O motorista da fazenda já vinha com alguns problemas de saúde, intestinais, que naquela manha de maio o fizeram abrir mão da viagem justamente na hora de sair. Era imperativo buscar o referido equipamento para a colheita (afinal, sem colheita, sem dinheiro…) e o único que tinha habilitação categoria D era eu e, assim, acabei fazendo meu primeiro “vôo solo” (viagem solo?) pela estrada afora.

 

Shimo mapa

A missão!

Assim, de manhã, umas 9h30 de uma quinta feira (fazia um frio danado!), virei a chave do F-11000 da fazenda e seu MWM 229 6-cilindros instantaneamente veio à vida soltando seus canudos de fumaça branca, típicos de dias frios. E assim comecei o trajeto Garça–Guaraci, um trecho de 295 quilômetros passando por Marília, Assis, Londrina, Cambé, Rolândia, Jaguapitã — muitos deles de pista simples e com excesso de caminhões. E assim fui indo, motor sempre entre 2.000 e 2.800 rpm para não perder o ritmo da viagem (o 229 gosta de funcionar acima de 2.000 rpm), cruzando as marchas (câmbio e diferencial de dupla redução) sempre buscando reduzir ao mínimo a perda de velocidade. Era divertido ultrapassar os Mercedes turbinados nas subidas, afinal o Ford série F- sempre foi o “patinho feio” dos caminhões, e deixar um Mercedes para trás acaba tendo um sabor especial…Ainda mais porque o 11000 é conhecido como caminhão de 80… 80 km/h!

 

Shimo Continental

Cigarros Continental, era um sucesso (quemdisse.com.br/autores/cigarrocontinental.jpg)

Quando cheguei em Cambé, resolvi parar em um posto de gasolina para tomar um café e me senti o próprio alienígena descendo de seu disco voador — caminhão Ford 100% original todo sujo de terra em meio a Mercedes L-1618/1620 e carretas Scania 113, todos “tunados” com pneus radiais e adesivos em todos os vidros. E devia estar estranho mesmo até nas vestes, pois estava de camisa polo bem passada e botina bem engraxada e o povo de regata e sandália Havaiana ou outra marca. Mas, tudo bem, encostei no balcão, pedi um pingado, comprei dois maços de Continental (descobri que nesses lugares não existia Marlboro dourado, o cigarro que eu fumava), montei no 11000 e fui embora.

 

Shimo cluster

Painel do Ford: à esquerda, as luzes do pisca-alerta (superior) e ar do sistema de freio. Os instrumentos maiores são, da esquerda para a direita, o manômetro de ar dos freios, velocímetro e conta-giros. Os pequenos da esquerda são o marcador do nível de combustível (superior) e temperatura do liquido de arrefecimento. No lado direito, na mesma ordem, amperímetro e manômetro de óleo (foto do autor)

Às 2 da tarde parei em Guaraci, destino final. E para minha “alegria” descobri que não havia nada programado para minha chegada e que o dono da fazenda que liberaria o carregamento, além de não ter falado nada, estava em Londrina. Sem saber o que fazer, resolvi sentar e esperar, comendo os salgadinhos com a Coca-Cola que havia comprado no posto de Cambé. E nessa espera, entre um cigarro Continental “estoura-peito” e outro, vejo entrando porteira a dentro um Vectra prateado: era meu pai e o motorista dele. Disse que tinha acordado mais tarde e quando soube do meu paradeiro resolveu ir atrás — para desespero meu que, além de saber das dificuldades físicas de meu pai (fazia apenas um ano e meio do AVC que sofrera), o “motorista” improvisado dele dirigia muito mal e que o risco deles saírem dali e irem parar em Curitiba, ao invés de subir para Garça, era considerável. Isso sem falar que o cara havia perdido a carteira de habilitação há mais de cinco anos!

 

Shimo milho

Plataforma de milho idêntica à que carreguei (foto br.vazlon.com/static/pics/2014/02/13/Plataforma-de-milho-R-20140213044409.jpg)

Pois bem, as 16h30 aparece o dono da fazenda com a nota fiscal feita, mas ai surgiu o problema do cartão de ponto: faltando meia-hora para o final do expediente não havia uma viva alma disposta a carregar a plataforma no caminhão e liberar minha partida. Depois de muito pedir, o dono da fazenda precisar quase implorar para um maquinista bochechudo ficar mais meia-hora sem cobrar hora extra, carregaram a plataforma de 2,5 toneladas no Ford, junto com diversas peças e baldes de lubrificantes para a colheitadeira, dando umas 8,5 toneladas de peso bruto total. O carregamento terminou umas 18h00 debaixo de uma chuva torrencial e logo pus o pé na estrada novamente. E dessa vez escoltado (literalmente) pelo meu pai e seu “motorista sem CNH”, que grudou em mim de tal maneira que se eu pisasse mais forte no freio corria o risco do Vectra bater na bola do diferencial do Ford…

Cheguei em Jaguapitã, encostei o Ford no posto e enquanto abastecia o caminhão, recebi um telefonema: era meu encarregado na fazenda que precisava tirar um dinheiro no banco para pagar uma consulta médica de um funcionário. Como o Banco do Brasil ficava a uns três quarteirões do posto, pedi uma bicicleta emprestada ao frentista, fui ao banco, fiz a transferência no caixa eletrônico e voltei, ensopado e pensando na sinusite que viria no dia seguinte.

Fui até meu pai e seu motorista e avisei: “Olha, o caminhão não está muito pesado mas está chovendo demais e a viagem é cansativa. E agora as subidas serão ainda mais devagar. Sendo assim, chegando em Londrina, farei um sinal com a mão e vocês me ultrapassam. Daí por diante para chegar a Garça é uma linha reta, não tem erro!”. Meu pai, que já estava cansado da aventura, não estava a fim de chegar à meia-noite em casa, de imediato concordou e partimos no rumo de casa.

E dá-lhe chuva! Pista simples…naquele dia descobri as mazelas da drenagem ruim das pistas. E como uma pista bem sinalizada com “olhos de gato” faz toda a diferença. Como no lugar do rádio no painel havia um enorme tacógrafo, tive que me contentar em cantar, medindo minha voz com a fala do MWM e da água batendo nas caixas de rodas. E o Continental “estoura-peito” que naquele momento era mais saboroso que uma cigarrilha. E nessa tocada fui indo. Em Londrina fiz sinal e uma fila de carros passou, entre eles meu pai, e continuei minha marcha solitária, noturna, e embaixo da mais intensa chuva que presenciei até hoje.

Nessa viagem compreendi todos os conceitos que o Bob Sharp, então colunista do Best Cars, dizia sobre curva de potência, torque e transmissão: mais do que nunca, conhecer a curva de potência do motor, mesmo que no feeling, foi de uma utilidade muito grande. O 229, abaixo de 2.000 rpm, perde rapidamente o giro e o embalo na subida cai assustadoramente, acabando com o desempenho e a velocidade média. Assim, espera-se o motor cair para 2.000 rpm e ao atingir essa rotação baixa-se uma marcha, e o 229 volta para 2.500 rpm, e assim sucessivamente, minimizando a perda de velocidade.

 

Shimo uma mais

MWM D-229/6,um excelente motor conhecido pela economia, robustez e peso; enquanto um motor Mercedes OM352 equivalente pesa pouco mais de 350 kg, o D-229/6 pesa mais de 500 kg! (foto do autor)

E foi absorto nesses pensamentos que de repente veio uma incontrolável vontade de atender às necessidades fisiológicas…mas, como parar em meio ao temporal? Mas em seguida, no meio da serra de Echaporã, próximo a Marília, a chuva deu uma ligeira trégua. Assim, encostei o Ford numa alça de acesso a uma fazenda, desci, bati pneus e fui fazer “tirar a água do joelho” — até ver um carro se aproximando lentamente, mas a uma distância considerável. Naquela hora meu único pensamento foi a falta que fazia o revólver 38 que meu avô tinha, cano de 2” e coldre de colocar na bota. Como a única “arma” que tinha era um martelo de madeira para bater pneus, tratei de me arrumar rapidamente e com as calças de qualquer jeito subi e toquei o bonde até chegar em Garça depois de 6 horas de viagem e 300 quilômetros, onde meu encarregado me esperava num posto de gasolina para me dizer que era possível chegar até a fazenda com o caminhão sem maiores problemas.

Para meu espanto, alguns minutos depois encosta meu pai e o motorista dele. Ao ver minha reação de espanto, eles logo se explicaram: em Londrina eles me passaram, mas quando chegou na divisa com SãoPaulo eles ficaram com medo de seguir viagem e resolveram me esperar e me seguir, mas para não me causar susto resolveram me seguir de longe. E ficaram me esperando de longe na hora que parei para “desaguar”, com receio de me assustar. E assim chegamos todos são e salvos, meu pai com câimbra e nervoso com o motorista dele (que dirigia tremendamente mal de dia; à noite e com chuva, então…) e com sono, e eu bravo com os dois pelo susto que eles me deram a ponto de eu quase urinar nas calças….de necessidade fisiológica e medo.

Agora, o esquisito dessa viagem aconteceu meses depois. Na fazenda havia uma mulher que morava com a filha e o genro (o rapaz era nosso funcionário) e que tinha graves problemas mentais, já tendo sido internada em sanatório e tudo mais. E essa mulher saiu de casa em julho de 2003 e nunca mais foi vista até junho do ano seguinte, quando uma assistente social de Jaguapitã conseguiu contato com a fazenda dizendo que essa mulher estava há meses morando no lixão da cidade como indigente. A família foi buscá-la e a trouxe para casa, onde providenciou os cuidados. Pois essa mulher, ao me encontrar, virou-se para mim e disse: “Patrãozinho, quase que peguei uma carona de volta para casa. Te vi lá em Jaguapitã e você pegou a bicicleta do frentista e foi no centro e voltou. Só não pedi carona porque quando fui embora o caminhão da fazenda era branco e agora é esse cinza…”

 

Shimo ultima

A única foto que tenho do F-11000 e compartilhei com o Evandro Fullin do Caminhões Antigos do Brasil (http://caminhaoantigobrasil.com.br/). Nessa época já o havia repintado, substituindo o cinza escuro pelo prata

DSA

ooooo

 

Sobre o Autor

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  • Mr. Car

    Bela aventura, he, he! E embora tenha tido minha fase “produtor rural” (aliás, em Lins, que é relativamente até perto de Garça e Marília), nunca precisei dirigir um caminhão. A coisa ficou mesmo na picape Pampa e nos tratores MF 65-X e MF 55-X da fazenda. Rapaz, deu até saudade dos meus tempos de interior, agora. E para matar a saudade, vai uma do Serjão, he, he!: https://www.youtube.com/watch?v=h7Bzwi0dqdk. E desce mais uma pinga para afogar as mágoas!

  • RoadV8Runner

    Caramba, que aventura! Pelo visto, viagens ao Paraná, saindo do interior de São Paulo, são sempre recheadas de uma dose de aventura. Fiz uma viagem de Londrina até Sorocaba quando comprei meu Opala SS 1980. Ao contrário de seu caminhão, em boas condições, o Opala estava bem “interessante” para pegar estrada por mais de 500 km… Rssss!

    • Daniel S. de Araujo

      Bacana, um Opala SS é um show! O seu ainda tem a frente antiga ou já e a de farol quadrado?

      • RoadV8Runner

        O meu já é com farol quadrado, último ano dos SS.

        • Domingos

          Teve SS com farol quadrado???

          • RoadV8Runner

            Sim, saíram alguns Opala e Caravan 1980 do modelo SS, tanto SS-4 quanto SS-6 (este último, verdadeira raridade, principalmente Caravan). Não consegui levantar os números corretamente, mas pelo que li, devem ter sido vendidos cerca de 1000 Opala e Caravan SS 1980.

          • Domingos

            Legal saber, nem fazia idéia – muito menos que teve também o SS-4 até esse ano, pensava que esse tivesse existido só em poucos anos-modelo.

    • Fórmula Finesse

      Conte mais; um SS 1980 vermelho está na minha garagem dos sonhos!

      • RoadV8Runner

        Vou ver se preparo um texto sobre o carro e envio para o Histórias do Leitor aqui do Ae. O meu é verde samambaia metálico, mas o vermelho é simplesmente maravilhoso! Aliás, os SS 1980 saíram em bege, branco, vermelho, verde metálico e prata. Ainda estou na fase de garimpo de peças , para depois restaurar (e à procura de um bom restaurador, mas que não me cobre um rim como pagamento…).

  • Alessandro Peres

    Se com um caminhão cabine avançada não é fácil virar esquina, fico imaginando como é virar com este caminhão “bicudo”…

    • Daniel S. de Araujo

      O 11000 não é dos piores. Triste era uma série de F-14000 com 5,3 metros de entreeixos…esses eram difíceis mas com direção de assistência hidráulica é tranquilo.

  • Daniel S. de Araujo

    Lins é aqui pertinho mesmo! Região de café no passado.

    Realmente dá saudades mesmo. Na fazenda não peguei a era do 50X (ja havia sido vendidos) mas tivemos uma “coleção” de tratores que incluiu Ford cafeeiro e um rarissimo MF 85X de motor MWM D-225.

  • H_Oliveira

    Muito legal. Desde que eu tirei a minha CARTEIRA (sou mineiro!) de motorista e comecei a pegar estrada a passeio, fico pensando em tirar a carteira D ou E… Só não o fiz ainda devido ao preço, e pela falta de intenção, ao menos inicialmente, de trabalhar com isso… Mas apesar das dificuldades, da violência… não deve ser ruim trabalhar na estrada não.

  • Arthurum Tuca

    Quem me dera fosse fazendeiro, tivesse uma bota bem tratada, um “caminhão”, fizesse uma “viagentura” dessas, tivesse um um João, que nem ligou para o Rubinho Barrichello no volante, e terminasse tudo nos conformes. Tirando o estoura-peito(continental. Nossa essa bomba ainda existe ? ). Viajei com você nessas palavras. Como seria bom se na vida cotidiana tivessem acontecimentos inesperados como esse todos os dias.
    Escreva mais !
    Forte abraço.

    • Daniel S. de Araujo

      Valeu Arthurum!!!! Essa viagem foi incrivel, andei 300km embaixo da mais intensa chuva que vi. Foram 6 horas de chuva.

      Quanto ao Continental, outro dia descobri que saiu de linha.

  • CCN-1410

    Eu gosto disso.
    Valeu!

  • Lorenzo Frigerio

    Coisas do campo…

  • Diogo

    Belo relato, algumas viagens realmente marcam nossa memória. É incrível a intensidade das chuvas nessa região. Uma vez indo a Cianorte, na beira da estrada diversos eucaliptos e pinheiros estavam tortos devido a uma tempestade que caíra no dia anterior. Nesse sentido lembro de três viagens que me marcaram: uma ainda no longínquo 1996, eu era adolescente e ia com meus pais de Assis a Ipaussu num Tempra que pertencia à frota da empresa em que ele trabalhava. A Raposo Tavares naquela época ainda tinha pista simples, com sulcos enormes formados pelos pneus dos caminhões que formavam verdadeiros rios no meio da estrada. O Tempra tinha aquela velocidade esquisita dos limpadores, igual ao Tipo, que dava uma limpada ultrarrápida, parava 2 segundos e continuava. E tinha a velocidade máxima, que era REALMENTE rápida. Mesmo assim a visibilidade era mínima. Foram incontáveis as vezes em que houve aquaplanagem, mas meu pai sempre dirigiu bem e se hoje sei dirigir minimamente bem, devo uns 99% a ele. Outra ocasião foi nesse mesmo trajeto, mas dessa vez eu dirigia sozinho um Fiesta Sedan 1.6 2003, daqueles primeiros mexicanos. Mesma estrada, mas agora já duplicada. A qualidade do asfalto não melhorara muito, pois ainda não havia sido privatizada e a faixa da direita tinha os mesmos sulcos enormes de antigamente. Além disso o peso dos caminhões deixa o asfalto compactado e liso, uma tragédia para dirigir quando há lâmina d’água. Era dia, pouco depois do almoço, mas a estrada ia quase deserta devido à chuva. Atrás de mim havia dois carros. Eu seguia em velocidade baixa, tanto pela falta de visão quanto pelo excesso de água na pista, e toda hora eu olhava pelo retrovisor o carro de trás próximo a mim. Por vários quilômetros pensei que o estivesse incomodando pela baixa velocidade, reduzi ainda mais para que ele pudesse me passar pela faixa da esquerda. Mas ele nunca ia. Até que me deu um estalo e concluí que na verdade ele estava me seguindo, já que a visibilidade era de pouquíssimos metros. E de fato foi assim até que eu saí no trevo de Ourinhos e ele continuou adiante. A terceira ocasião foi a viagem mais difícil. Saí de Assis rumo a São Paulo, num Renault 19 RT, sob chuva torrencial até Sorocaba. Minha preocupação era que havia alguma bucha de suspensão do lado direito estourada, de modo que toda vez que eu freava essa roda claramente saía de posição e a direção puxava. Com pista molhada, meu receio era precisar frear bruscamente e rodar. Além disso a velocidade máxima dos limpadores era bem baixa. Por outro lado, a Castello Branco tem drenagem muito boa e o ar condicionado manteve os vidros sem embaçamento. O relato ficou longo, mas para concluir e não fugir do tema, também tenho carta D mas sou caminhoneiro frustado: nunca tive a oportunidade de dirigir nem ao menos uma Ducato. Creio que pegar estrada com veículos grandes seja uma experiência muito interessante para quem não está acostumado.

  • Eduardo Palandi

    Daniel,

    ótimo texto, repleto de situações inusitadas, excelente leitura. nota dez!

  • Bom, muito bom…
    São relatos destes, registrados desta maneira que “salvam” do esquecimento estas passagens de nossas vidas. Como ia se saber deste périplo incrível com todas estas nuances e com este inusitado final? Sim, agora sabemos, curtimos, torcemos para tudo dar certo, vibramos com os detalhes e ficamos surpresos com o desfecho absolutamente inesperado!
    Obrigado por este presente, parabéns por compartilhar e que não fique nesta, pois certamente de onde esta veio tem muitas outras para contar para nós caro Bob Sharp!!!

  • Fórmula Finesse

    As histórias pessoais sempre são as mais saborosas…parabéns Daniel! Como as velhas F-1000 parecem que se encaixam na descrição do comportamento da F-11000…(a hesitação em baixa rotação; o “apagar das luzes” quando a segunda marcha é colocada – caixa de quatro – e o MWM quatro cilindros dá uma rateada clássica, principalmente em aclive leve); muitas lembranças com esse painel de metal clássico!
    Creio que o próprio motor da F-1000 pesava incríveis 360 kgs se não me engano; parecia o motor de um tanque leve.
    Um pouco off, mas creio que gostará pois és partidário das máquinas pesadas: ontem visitei um museu militar onde tinha – entre várias máquinas incríveis – um blindado com tração 6×6, e vi com muita alegria dois blocos de OM (acredito) perfilados lado a lado na traseira do bicho; que configuração bacana!

    • Daniel S. de Araujo

      Formula, bem lembrado, a F-1000 tinha aquela bomba injetora em linha e todo aquele sistema de varetas de acelerar, e o movimento da cabine e do motor acabavam dando aqueles “tranquinhos” e o “réu-réu-réu” quando saía…

      No trator, o MWM 4-cilindros rendia muito bem em termos de economia, mas a faixa de giros dele era pequena: limitada em 2.300 rpm, os tratores funcionavam bem entre 1.800 e 2.300 (máximo) dando pouca faixa de trabalho. O 6-cilindros por sua vez sempre fez um casamento feliz com caixas de transmissão com múltiplas marchas. O 11000 por exemplo, são 10 marchas (9 efetivamente usáveis) sendo 5 no câmbio multiplicada pelo diferencial de dupla redução.

  • Newton (ArkAngel)

    Muito legal, o bacana de tudo isso é que você vai ter boas histórias para contar aos netos.

  • Fernando

    Muito legal Daniel, obrigado por compartilhar!

  • Curió

    Este comentário é apenas para pedir por mais publicações do Daniel no Autoentusiastas.

  • Curió

    Numa viagem semelhante, mas mais curta (90km de ida e volta) e em estrada de chão batido, dirigi pela primeira vez um caminhão, ou melhor, um 3/4. Tinha 13 ou 14 anos, e estava junto com meu tio indo buscar um carregamento de sal para a fazenda no fim da tarde, quando o céu já está laranja. Era um F-4000, motor MWM também, aspirado, câmbio de quatro marchas, sem reduzida. Eu devo ter guiado por uns 10km, já à noite, na volta, debaixo de uma chuva não muito forte. Desde lá não perdi o encanto por esses caminhões Ford. Este texto me fez lembrar daquilo. Valeu, legal demais.

    • Daniel S. de Araujo

      4000 é um 3/4 bem gostoso de dirigir. Comparado ao 608D é um carro!

      Atualmente a 4000 acabou restrita a uma aplicação que requer um veículo mais pesado que uma caminhonete e mais leve que um caminhãozinho, e de quebra, a única com a opção de 4×4. E na história da industria automobilistica, depois do Fusca, foi o único veículo que saiu oficialmente de linha e depois retornou as linhas de produção graças a pressâo dos consumidores e dos Concessionários.

      • Lucas Vieira

        Mas ainda está dificil engolir esse motor novo, esses dias conversando com um dono de uma 350 nova, disse que a antiga mecânica é bem mais forte, chegam a ser incomparáveis, que a nova só ganha na velocidade final, mas em arrancada e em subidas carregadas perde feio… Fico imaginando o F-4000…

  • Rubem Luiz

    Falando em habilitação e F-11.000, meu primo é um pouco mais novo que eu, aos 15 anos de idade começou a trabalhar num posto de combustíveis como frentista. Como aqui é roça o que menos tem é cliente então o posto foi perdendo clientes e funcionários até o ponto que ele fazia tudo, abastecimento, cuidava de algum registro do dinheiro (Num caderno), e isso foi lá por 1999. Até que o dono do posto comprou um F-11.000 com um tanque pra entregar de óleo diesel nas fazendas, e claro que meu primo de 15 anos é que fazia isso.
    (Precisa dizer que com 15 anos ele não tinha habilitação na categoria certa? Nem na categoria errada, por sinal)

    Como aqui é roça os problemas legais seriam zero, e realmente ele trabalhou com isso uns 5 anos, até que tirou habilitação (E naturalmente a primeira não pode ser pra caminhões) depois de ter reprovado 2 ou 3 vezes (Prática não faltava!). O F-11.000 pode ser lento, e duro, mas nas estradas de chão da roça tanto faz, é 20-50Km/h o tempo todo, 5h de viagem até a curutela vizinha a 100Km de distância, numa cabine que esquenta (Chevrolt C60 e cia também esquenta demais, na baixa velocidade o calor do motor acerta a cabine em cheio, e claro que um caminhão velho e mal cuidado nunca terá isolamento térmico! A nossa F-1000 com 9 anos de uso já perdeu todo o isolamento, imagina um caminhão com o dobro disso), acho que meu primo trabalhava com isso porque nenhum adulto se prestaria a esse sofrimento, fiz umas viagens com ele e era terrível.

    (Especialmente pelo banco de um couro sintético esquisito, que escorrega, e… cinto de segurança? Pra que isso? Deve ter sido removido na primeira semana de uso. O negócio é ficar escorregando naquele banco inteiriço de tecido liso, um solavanco leve o suor ainda grudava a gente no banco, senão o jeito era segurar na porta, porque transportar líquido tem um problema com inércia, se o líquido chacoalha ele não para tão cedo, você chacoalha muito até parar)

    E isso não é história dos anos 70, é de 16 a 11 anos atrás, pra ver como é a disparidade de cenários no Brasil.
    (Hoje o pouco de polícia que se encontra na roça é em busca de armas, parece que recebem 1 folga extra remunerada por arma apreendida então eles se esforçam muuuuuuito para achar elas)

  • Lucas CRF

    Que bacana, Daniel! Gostei da aventura. Você foi corajoso de encarar volta à noite e com chuva. Acredito você tenha outras boas histórias para nos contar!

    Abraço!

    Lucas CRF

  • Daniel S. de Araujo

    F-11000 é exatamente como falou. Lento, duro mas um conjunto fora de série. Nosso 11000 raramente frequentava oficina. Para serviço pesado e caminhos ruins o 11000 é inigualável. A Ultragaz só aposentou a frota dela devido a limitação de tráfego de caminhões em Sâo Paulo e a Coca-Cola aqui da região de Marília fez a renovação da frota dela esse ano, depois de mais de 25 anos de uso diário (havia uns F-13000 de 1986!!)
    Absurdo a Policia caçar armas do pessoal da Zona Rural…pelo jeito só o MST pode andar armado.

  • Daniel S. de Araujo

    Valeu Lucas! Realmente olhando para trás foi coragem mesmo pelo risco mas, acredite, dirijo melhor a noite que de dia.

  • vstrabello

    Esse dashboards dos Fords são demais! Meu avô tem um F4000 1980, Cabine Super Luxo, está parado pois tem outro, 1994 que está na labuta até hoje. Lembro das idas ao Ceasa Campinas e as vezes iamos mais longe (quando criança, iamos perto de Jaguariuna buscar adubo e algumas mudas de pêssego/goiaba) com ele de manhã, com o mais antigo.

  • RoadV8Runner

    Uma dúvida: esse câmbio da F-4000 é o que tem a segunda marcha ao lado da primeira?

    • Daniel S. de Araujo

      Road, posso estar falando bobagem mas essas eu acho que eram as primeiras 4000 com motor MWM D-226, 4,2L e camisas secas (o 229 é 3,9L e camisas úmidas).

      Depois saiu as 4000 com 5 marchas, com a primeira para baixo. Aliás, vai uma cultura inutil de F-1000: Toda F-1000 5 marchas com primeira para CIMA e motor MWM é o cambio chamado de “Clarkinho” CL2215, bastante problemático, não aguenta repotenciamento do MWM e tem 5 marcha overdrive. A maior parte das F-1000 com esse câmbio tiveram suas caixas trocadas pelo Clark CL2615, primeira para baixo (essa regra não vale para as HSD que vieram com câmbio Mazda igual ao da Ranger).

      • RoadV8Runner

        Eitcha! Essas caixas Clark CL2215 não vão bem nem mesmo nos Opala e Caravan 6 cilindros 1992 que as usam. O que dizer então de empregar essa mesma caixa em um veículo mais pesado e com mais torque?
        Faz sentido esse câmbio a que me refiro ser das primeiras F-4000, pois na que andei era muito provavelmente de fins dos anos 70, já que eu era criança na época.
        Obrigado pelas informações!

    • Odenir Maffissoni

      Os câmbios que tinham a segunda ao lado da primeira eram os caminhões chevrolet D60, não sei se o F11000 do Daniel também é assim.

      • Daniel S. de Araujo

        Odenir, os 11000 assim como os primeiros VW tem primeira para baixo, não sincronizada, mas raramente se usa a primeira nesses caminhões: A segunda reduzida já traciona bastante

  • Daniel S. de Araujo

    Posso estar errado mas acho que a Ford priorizou a economia de combustível, coisa que não era lá muito o forte do Cummins EuroMec 3/4BTAA 3,9L.

    Quando saiu novamente as F-4000, fui ver uma no Concessionário e realmente o Cummins ISF é esquisito mesmo no cofre da 350/4000: sobra cofre, o motor é bem compacto. O radiador tem uma saia enorme, saindo dele até a hélice. Parece um cone!

  • Leonardo Mendes

    Saudades da época dos F com frente de quatro faróis, era a mesma da Furgaline 87 que tivemos aqui em casa por 5 anos.
    Essa fase dos F transpirava força e brutalidade, difícil o vivente não ver essa “cara feia” chegando no retrovisor e sentir um arrepio gelado a percorrer a espinha.

    Coisa mais gostosa na Furgaline (e, por extensão, no Bandeirante 86 que veio antes dela) era usar o estrangulador pra desligar o motor… ah, como eu adorava poder fazer aquilo!