Muitos prospectos e anúncios de turismo que promovem Cingapura mencionam este equivalente ao Principado de Mônaco encravado no sul da península malaia, como “A Fine City”, alusão a uma cidade fina e elegante. Não deixa de ser verdade, mas o humor inglês capitalizou essa referência a um substantivo e não a um adjetivo: “fine” também pode ser traduzido como multa e cai muito bem aos costumes locais. Em seus 718,3 km2 mascar chicletes, fumar em lugares públicos, arrancar flores de um jardim e mais uma enorme lista de direitos é considerado uma infração grave. O assunto é levado a sério, quase com a mesma fúria que a prefeitura paulistana e sua CET marcam a vida de seus munícipes.

Cingapura é também um dos países mais abertos a novos negócios, mas em um passado recente acabou sendo palco de uma negociata que acabou custando caro a um brasileiro e muito mais caro a um italiano. Em uma relação que se desgastava a cada volta completada na temporada de 2008, Nélson Piquet Jr. vivia um período de inferno astral digno de uma eternidade, conseqüência da ganância insana de Flavio Briatore e, por que não, da juventude com que desembarcou na F-1.

 

Outrora tido como sucessor de Ecclestone, Briatore já não circula mais na F-1 (foto Renault)  A fina cidade das multas 20150915 F1 Briatore FreeStocckIllustrations

Outrora tido como sucessor de Ecclestone, Briatore já não circula mais na F-1 (foto Renault)

Na ânsia de garantir sua permanência na equipe Renault em 2009, Nelsinho sucumbiu à pressão de Flávio e aceitou bater contra o muro de proteção na volta 14, manobra que desencadeou a entrada do safety car e ajudou a consolidar a vitória de Fernando Alonso, que jogava uma de suas últimas cartadas para disputar o título da temporada. Briatore chegou a ser banido para sempre da F-1 e mesmo revertendo a situação através da Justiça, atualmente só dá pitacos eventuais, algo ineficaz para resgatar seu nome. Nelsinho, por seu lado, recupera pouco a pouco seu prestígio como piloto.

 

Nelsinho é o primeiro campeão mundial com carros elétricos (foto F-e.com)  A fina cidade das multas 20150915 Coluna NPiquet Jr F e

Nelsinho é o primeiro campeão mundial com carros elétricos (foto F-e.com)

Quem também desperdiçou uma rodada nessa ocasião foi Felipe Massa: em luta direta pelo título ele foi prejudicado quando a mangueira de reabastecimento — era permitido reabastecer — ficou presa no bocal do tanque do seu Ferrari. Uma prestação bem cara numa temporada em que ele perdeu o título para Lewis Hamilton (98 a 97 pontos) na última curva da última volta da última prova do ano, em Interlagos, apesar de ter vencido a corrida. Trocando em miúdos, o primeiro GP disputado em Cingapura foi pleno de emoções…

 

Pit stop desastrado fez Massa perder importantes pontos em 2008 (foto free-stock_illustrations)  A fina cidade das multas 20150915 Coluna Massa free Stock Illustraions com

Reabastecimento  desastrado fez Massa perder importantes pontos em 2008 (foto free-stock_illustrations)

Até hoje nenhum brasileiro venceu nesse traçado de 5.065 metros de piso ondulado, típico de pista de rua, condição que aliada a muitas curvas “de quarteirão” e inúmeras freadas resulta em velocidade média baixa para os padrões a F-1. Em 2014 Lewis Hamilton fez barba-cabelo-e-bigode, andando a 172 km/h para garantir a pole position, mas na corrida caiu para 150 km/h. Em 2014 ele fez barba (pole position com 1’45”681, 172,635 km/h), cabelo (60 voltas em 2h0’4”795, média de 151,780 km/h) e bigode (1’50”417 e 165,137 km/h na volta mais rápida da prova). Curiosamente, resultado semelhante ao que ele obteve em Monza na semana retrasada, desta vez com cabelos alourados…

 

Hamilton dominou o fim der semana do GP de 2014 (foto Mercedes-Benz)   A fina cidade das multas 20150915 Coluna Hamilton Merc

Hamilton dominou o fim der semana do GP de 2014 (foto Mercedes-Benz)

A diferença da velocidade média registrada na prova de classificação e volta mais rápida em relação à da corrida é resultado das batidas e consequente intervenção do safety car para auxiliar na remoção dos carros acidentados e limpeza da pista. Sebastian Vettel sabe muito bem como é cansativa essa prova: ele venceu em 2013 (1h59’13”132), 2012 (2h0’26”144) e 2011 (1h59’6”757). Além dos períodos em ritmo reduzido, a alta umidade local, mesmo com a corrida sendo disputada à noite, é outro fator de desgaste. Este ano também será necessário ficar de olho na qualidade do ar: uma nuvem de poluição paira sobre Cingapura há algumas semanas e alguns eventos esportivos a céu aberto foram cancelados recentemente.

 

Vettel venceu três anos seguidos em Cingapura: 2011/2012/2013 (foto Red Bull/Getty Images)  A fina cidade das multas 20150915 Coluna Vettel RedBull Getty

Vettel venceu três anos seguidos em Cingapura: 2011/2012/2013 (foto Red Bull/Getty Images)

Pérez e Maldonado

O mexicano Sérgio Pérez e o venezuelano Pastor Maldonado foram nomes dos mais citados na imprensa especializada nas últimos semanas, ambos por causa dos seus endereços para 2015. Enquanto o primeiro deve resolver o assunto neste fim de semana — há possibilidade da Force India confirmá-lo para 2016 na próxima quinta-feira —, o segundo trata de acalmar seus críticos e na esperança de manter seu lugar na Lotus, que segue vivendo dias de penúria. A cada dia que passa este sofrimento se caracteriza mais e mais como uma manobra da Renault para forçar os seus atuais controladores a aceitar uma oferta mais baixa e, finalmente, assumir novamente a condição de equipe.

 

Honda testa no Japão

 

Honda quer testar motor de F-1 em carro da Super Fórmula japonesa (foto superformula.net)  A fina cidade das multas 20150915 Coluna SuperFormula net

Honda quer testar motor de F-1 em carro da Super Fórmula japonesa (foto superformula.net)

O site Italia Racing publicou que a Honda considera testar no Japão o motor de F-1 que fornece à equipe McLaren. A operação utilizaria um carro da Super Formula, equivalente à GP2 européia, e seria uma forma de avaliar a real eficiência do motor frente às críticas relacionadas à sua potência. Durante o fim de semana o espanhol Fernando Alonso foi taxativo com relação à falta de performance desse equipamento: na ocasião ele declarou que perdia cerca de meio segundo por volta nas curvas e quase três nas retas, onde a potência é diretamente proporcional à velocidade final.

 

Austrália up & over

Enquanto segue o debate sobre a permanência de Monza no calendário da F-1, Melbourne já resolveu o assunto. Conhecido na Europa como a terra do “down under” (clara alusão à sua posição oposta no globo terrestre), a Austrália garantiu a permanência do traçado de Albert Park até 2023 e, comparado ao tradicional circuito milanês, está por cima da burocracia.

 

Depois de Munro, McLaren

 

Bruce McLaren (1937/1970) terá vida contada em filme de Roger Donaldson (foto comunidade.xl.pt)   A fina cidade das multas 20150915 Coluna McLaren comunicade xl

Bruce McLaren (1937/1970) terá vida contada em filme de Roger Donaldson (foto comunidade.xl.pt)

Quem já assistiu o filme “The World’s Fastest Indian” (Roger Donaldson, 2005), que retrata a saga de Burt Munro em participar do festival de recordes de Salt Lake City (EUA), certamente pensou em uma obra semelhante dedicada ao seu compatriota Bruce McLaren. Se você está entre eles, seus problemas acabaram: Donaldson conseguiu o apoio do governo neozelandês e do banco ANZ para fazer um documentário sobre um dos maiores pilotos e construtores do automobilismo mundial. Bruce, que nasceu em 1937 e faleceu em 1970 em um acidente quando testava um modelo Can-Am em Goodwood, disputou 100 Grandes Prêmios e venceu quatro, o último deles o GP da Bélgica de 1968, a primeira vitória de sua equipe, resultado que Denny Hulme repetiu nas duas corridas seguintes, Itália (Monza) e Canadá (Mont-Tremblant).

WG

A coluna “Conversa de pista” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

Sobre o Autor

Wagner Gonzalez
Coluna: Conversa de Pista

Jornalista especializado em automobilismo de competição, acompanhou mais de 300 grandes prêmios de F-1 em quase duas décadas vivendo na Europa. Lá, trabalhou para a BBC World Service, O Estado de S. Paulo, Sport Nippon, Telefe TV, Zero Hora, além de ter atuado na Comissão de Imprensa da FIA. É a mais recente adição ao quadro de colunistas do AUTOentusiastas.

Publicações Relacionadas

  • Lemming®

    E teria o por que “aliviar” para o Nelsinho? Falta de caráter de quem é “corrompido” não existe?

    • Wagner Gonzalez

      Lemming,

      Sem dúvida os dois lados envolvidos em uma trapaça são delinquentes. Pior foi esperar tanto tempo para deflagar a negociata…

      • Augustus

        Wagner,
        Se o Piquet Jr. não fosse demitido em 2009 acho nunca saberíamos desta história. E depois , o Piquet pai, um grande piloto, mas que nunca foi um exemplo de ética na Fórmula 1, vem falar que o Senna era um piloto sujo.

        • Wagner Gonzalez

          Augustus,

          Concordo com o que você escreveu: o “Singaporegate” jamais viria a público caso o Nelsinho continuasse contratado. Com relação ao “affaire” Prost-Senna” em Suzuka tratou-se de revidar a pizza do ano anterior, duas situações lastimáveis e condenáveis.

  • Mr. Car

    Do meu ponto de vista, arrancar flores de um jardim (a menos que seja de seu próprio jardim), não é um direito.

    • Wagner Gonzalez

      Mr.Car,
      Também concordo. Nas ruas de Jerez de la Frontera, por exemplo, as laranjeiras das calçadas também enfeitam o visual com belos frutos. E não é por se tratar de uma variedade próprias à conservas e geléias, que ninguém arranca.

      Abraços.

    • André Castan

      E jogar goma e a bituca no chão também não.

      • Wagner Gonzalez

        Apoiado!

  • Eduardo Sérgio

    O episódio com Nelsinho Piquet em Cingapura em 2008 foi um verdadeiro tiro pela culatra do brasileiro. Ao contrário de tentar se firmar por seus méritos próprios, aceitou participar de um teatro – no papel de vilão –, para garantir a vitória do mocinho (Fernando Alonso).

    A manobra deu certo dentro da pista, mas fora dela foi sua perdição. Sem resultados convincentes, tentou usar essa armação como carta na manga para continuar ao pilotando pela Renault. Não conseguiu.

    • konnyaro

      o Briatore não acreditou que o Piquet pai fosse jogar cocô no ventilador caso o Jr. não continuasse como piloto da Renault em 2009, e deu no que deu…

      • Wagner Gonzalez

        Dançou…aliás, dançaram…

  • RoadV8Runner

    Dentre as pessoas que jamais irão ganhar meu respeito, Piquet Jr. e Alonso figuram ente elas. Não há justificativa ou explicação que se aplique a esse deprimente episódio. Pior ainda para o piloto brasileiro, que manchou severamente sua carreira e serviu para absolutamente nada em termos de sua permanência da Fórmula 1. Quanto ao Alonso, eu o classifico como um menino mimado e dono da bola que, quando as coisas não saem como ele quer, leva a bola embora e acaba com a diversão de todos. Como já comentaram por aqui, em todos os escândalos recentes da Fórmula 1, o nome do espanhol aparece… No meu entender, todos esses três (Piquet Jr., Alonso e Briatore) tinham que ser banidos dos esportes a motor, zero em atitude desportiva.
    Mudando de pista, não deixa de ser outro absurdo o risco de Monza não figurar no calendário da Fórmula 1. Tanto quanto outras pistas famosas (e incrivelmente entusiastas), seria uma perda enorme para a categoria não correr em Monza. Já chega a mutilação que foi feita em Hockenheim e Interlagos.
    Legal saber que Bruce McLaren terá sua vida retratada em filme. O filme que conta a história de Burt Munro é simplesmente fantástico!

    • Domingos

      Tinha respeito pelo Alonso em 2005 e 2006, onde o enorme talento dele ficava sozinho e não aparecia a personalidade egoísta e manipuladora dele.

      O cara entre outras coisas é não-desenvolvedor, o que automaticamente o faz um piloto qualquer e, pelo que ele pede/cobra/causa de problema, exige e se acha demais pelo que é.

      Só vai ser campeão novamente se pegar carro pronto ou se aprender algo nesse ano difícil.

      O Nelsinho foi uma vergonha mesmo. Gostei de ver que tanto ele como o pai estão trabalhando para superar isso, sem negar o erro que foi.

  • Domingos

    Essa prova promete com os novos motores da Renault, pela primeira vez no ano atualizados, e a Honda que promete ser melhor num circuito que não privilegia muito a potência.

    A Ferrari aposta no mesmo também. Vai ser legal.

  • Augustus,
    Sem entrar no mérito se o Senna era sujo ou não, o que ele fez na primeira curva após a largada em Suzuka 1990, jogar o carro contra o Ferrari de Prost, sem frear, e ambos irem parar na caixa de brita, não é atitude de quem joga limpo. Depois daquela minha admiração por ele zerou.

    • Augustus

      Wagner e Bob,
      De forma alguma estou inocentando o Senna destas atitudes condenáveis, apenas estou dizendo que o Piquet, acredito eu, não tem lá muita moral para julgar tanto Senna ou qualquer piloto de sua época. Aliás, também acho que os pilotos de Fórmula 1( pelo menos desde os anos 80) podem ser exemplos de garra, determinação, superação, mas não de ética.

      • André Castan

        O Piquet não julgou Senna. Apenas retratou fatos reais que só não viu quem não quis. E até que provem o contrário, nunca ele bateu propositalmente em um concorrente.

        • Augustus

          De fato Piquet nunca jogou o carro propositalmente em ninguém, porém utilizou meios pouco ortodoxos para obter alguma vantagem, como, por exemplo, procurar desestabilizar emocionalmente o seu colega de equipe, ofendendo a mulher do mesmo ou no caso de Senna questionar sua opção sexual com o mesmo objetivo de lhe tirar a concentração. Ataques de baixo nível, parecendo coisa de adolescente do ensino médio. Repito o que disse anteriormente: Senna nunca foi santo, mas Piquet tem o telhado de vidro.