CHOCOLATE, ALFACE…



Legenda 01 Boné Kangol
Boné Kangol

Escolhi divas do jazz, remake do Sinatra e a lady Alberta Hunter como fundo musical. Muito gelo no whisky, pistache e rabanetes.

Lua pintando o mar na sexta-feira, mas meu programa era procurar canhoto de cheque na velha cômoda, exigências de comprovação de pagamento antigo. Exumei uma porcariada, incluindo uma caixinha: Lucas Original Electric Parts, peças para resolver defeitos bobos, imobilizadores de carro britânico antigo, como meu MGC conversível: rotor, condensador, platinados e velas. Separei.

Fim da primeira gaveta, nada do demandado canhoto, mas surge um envelopinho. Letra feminina, impositiva, anotou: Godofredo de Bulhões. Sou eu. Dentro, pequeno cartão com duas palavras, afirmativas: “Quero você”.

Ótimas lembranças começando com uma entrevista sobre vinhos e culinária. A dona da letra era a agitada fotógrafa que, gentil, apanhou-me em insólito Mustang conversível, prata, motor seis-cilindros e três marchas. Nada mais inadequado na violência social do Rio de Janeiro.

A moça conduzia o automóvel (como se convive com especificações tão ruins: motor seis-cilindros e câmbio de três velocidades?) e no caminho explicou a reportagem. “Como uma pessoa comum harmonizaria comida e vinho”. Queria sugestões da minha feição Cinderela, organizado apreciador de vinhos, daí irmos à Pedra de Guaratiba para ter intimidade com pratos simples à base de frutos do mar.

Para os fins, escolha adequada: a carta de vinhos tangenciava a pobreza. Restaurante minimamente arrumado, mas de cuidada limpeza, sem cheiro de peixe. Eu forneceria as sugestões aos leitores, pelo visto sem muita noção. Paguei pelo pré-julgamento. A dona, servindo, recomendou a cavaquinha espiritossantense com arroz com banana da terra e mariscos — cavaquinha é para quem entende de mar e cozinha — só existe na curta plataforma continental do pequeno estado. Entrada: ostras frescas. Santas mãos.

De vinhos, a Carta não servia sequer para bilhete. Mas havia Anna de Codorniù, cava espanhola indevidamente listada como champagne. Salvou a tarde divertida e o início de intimidades.

Ela deixou-me em casa ao final da tarde. Beijinhos, se cuida, apareça… — o conhecido estelionato social.

Meses após, em minha vida de Gata Borralheira, palestrante e consultor em informática, falando num fórum para executivos engravatados, móvel figura chamou atenção, clicando o evento. Era ela: cabelos como saídos do banho, jeans, blusa quase-grife. Um colete-de-fotógrafo mascarava a boa distribuição de massas e volumes. Quadris com quase uma polegada a mais, ancas ultrapassando suavemente o limite da calcinha. Polivalente.

Fim da minha fala, pessoas se aproximam, e a moça me entrega o envelope. Sorri e desaparece.

Com a declaração “quero você”, tão objetiva e clara, senti novamente a difícil verdade: homens não comem, são comidos. Romance, transa, não partem da vontade do macho, mas da fêmea, sinalizando com seus hormônios e dando impressão de seduzida.

Preâmbulos, afinidades de pele, cheiros e calores… Tudo rolou fácil e bom.

A moça era interessada, participante, de sensualidade assumida. Recém passara os 30 anos, a grande barreira feminina para tomar, dar e gozar sem pudor. Nua, nela tudo se expunha acintosamente, no limite do desafio à gravidade.

Foi uma complementação sentimental com intensidade física, tesão. Divertido. Durou, envolveu, gratificou. Porém, rompeu-se: ela voltava ao interior para assistir pais idosos. Vimo-nos algumas vezes, mas as visitas de final de semana foram se espaçando e se acabaram. De vez em quando pensava nela.

A retomada

O pequeno cartão me provocou, e daí a ações rápidas. Dá tempo? 21h. Noites de sexta-feira são flexíveis. O coração acelerou — há certamente um circuito ligando o coração aos países baixos. Liguei. Estará? Casou? Me esqueceu?

Atendem:

— Ana?
— Não, é a empregada. Da. Ana saiu.
— E o marido dela ? perguntei para definir.
— Ela não é casada, veio a resposta que eu queria ouvir.
— Ela viajou ou volta hoje?
— Volta, deve estar chegando para o jantar.

Deu.

Adiei a atividade de busca e dediquei-me ao novo desafio. São 4 horas de viagem, melhor sair na madrugada, chegar ao alvorecer. Longo banho e curta dormida. Acordei para a operação reconquista. Peguei a sacola, presente dela: roupa leve, uma garrafa de Prosecco para comemorar. E também uma revista PC Tech, com texto meu defendendo a inclusão digital dos idosos, com chamada e retratinho na capa.

 

Legenda 03 Mgc
MGC

Desci à garagem, passei pelo confiável plastimóvel e fui a meu MG. Com boné Kangol – mandatório à equitação clássica e conversíveis antigos — coloquei a caixinha Lucas Spare Parts no porta-luvas. No ritual da partida, virei a ignição e ouvi os tec-tec-tec da bomba elétrica de combustível enchendo os carburadores SU. Ao parar, dando sinal das cubas dos carburadores estarem cheias e vedadas, acionei o arranque, sem acelerar, para o óleo circular. O MG ronronou em inglês. God save the Queen.

Firmei a sacola entre o tanque extra de combustível — trato o MGC com gasolina de avião — e a caixa-de-socorro-para-antigomobilista-solitário: as ferramentas originais, lanterna, luvas, funil, flanela, correias, mangueiras, parafusos e porcas em Polegada Imperial, insólita medida da Velha Ilha.

Início da estrada, baixei a capota. Com os vidros suspensos, liguei o aquecedor. São 2h00 da madrugada de sábado.

Acendo os faróis-de-milha Lucas, 11″ de diâmetro com tensor anti-vibrações. Há anos trazidos da Inglaterra, eram o máximo. Hoje são mero aditivo, distantes da  mais modesta tecnologia em iluminação, porém adequados ao carrinho inglês.

Raras ultrapassagens com o MGC, série limitada de 1969. Elegante, o roadster traz motor de seis cilindros, sete mancais, 3 litros e 145 cavalos. O pouco peso permite acelerações fortes até os 200 km/h. Creio o único no País, ex de diplomata inglês, com o volante à direita.

O motor gira tranqüilo, os equipamentos elétricos Lucas funcionam bem — algo raro. Dizem os críticos, ingleses gostam de cerveja quente porque usam geladeiras Lucas…

 

Legenda 04 Motor de caminhão em carro leve dá comportamento esportivo
Motor de caminhão

Longa reta, ótima para seguir velhos manuais — leve uma das marchas à faixa vermelha, para expurgar depósitos, lacas, vernizes… porcariada acumulada nas entranhas do motor. Da quinta velocidade trago à terceira, e levo, como a quarta, a 5.500 rpm. Em quinta, o velho MG satisfeito marca 190 km/h. Solto o acelerador até baixar e cruzar a 130 km/h. O carro parece sorrir. Minha alma também.

A vida

A manhã e eu chegamos à cidade às 6h. No Mercado Municipal pego um alentado buquê de flores do campo, colorido, vistoso, oloroso.

Em frente à casa conhecida — sob a grande amendoeira, antes generosa sombra para meu carro — há um picape mal parado, gasto, arranhado, sujo de barro e bosta de boi.

Junto ao buquê, está a PC Tech. Na lateral da casa, o Mustang, bem pior. Toco a campainha e imagino o despertar dela, a dúvida de quem seria, a surpresa, as flores… o agradável caminho de volta.

Ruídos na fechadura e, — não era ela. Surge um sujeito grande, peludo, de short sob espessa meia-lua de barriga, barba de cinco dias, perguntando com gentileza de primata: — Que qui é, pô?

Nada mais me ocorreu: — O seu Zé Florista mandou p’ra Dona Ana.” O orangotango esganou o buquê pelo laço e as flores quase choraram.

Voltei ao carro, andar tático-político: nem tão rápido parecendo fuga, nem tão devagar sugerindo provocação. Afinal, um entregador de flores jamais usaria um boné Kangol, nem brilhante MG, de rodas raiadas cromadas contrastando com a pintura Tartan Red.

Saí. Pelo espelho, percebi o ogro peludo me olhando, ridículo com as flores, com a certeza de que entregador não anda em carro histórico.

Sábado, pouco mais de 6h30, testosterona nas orelhas, a 200 km de casa, frustrado, tinha uma dúvida acadêmica: e se ela me descobrisse na revista e ensaiasse um retorno? Como seria isto pós orangotango?

Apontei o MG para o Norte, dei o gás exigido pela testosterona, botei os cavalos PSI* a suar, e fui tomar café com minha idosa e surpresa tia.

Na estrada, aflorou detestável frase de mal disfarçado machismo:

— Qual mulher não comeu uma barra de chocolate por ansiedade; um alface por vaidade; e um cafajeste por saudade?

 

Legenda 02 PSI do MGC

*Neste AUTOentusiastas de amplo leque de leitores e leitoras, PSI deve ser esclarecido. Não é abreviatura de Psicologia; nem a de Para Sua Informação; ou o PSI for Windows, sistema de troca de mensagens; nem como poderia imaginar o interesse técnico da maioria dos leitores, a medida de pressão de libras por polegada quadrada. Porém os com vezo por equinos saberão, trata-se de Puro Sangue Inglês, raça apurada por séculos, de animais altos, velozes, elegantes. No caso, tracionando o MGC.

RN

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