Era uma bela manhã de verão em Paris, e o sol distribuía seus raios ainda fracos pelas ruas da Cidade-Luz. O dia acordava preguiçoso no bairro de Montmartre, famoso por ser então lar da boêmia parisiense, e local de morada de um sem-número de artistas destinados à fama eterna. Corria o ano de 1890, bem no meio de uma época que se convencionou chamar de bela (La Belle Époque), onde a paz, prosperidade, e grandes avanços tecnológicos viviam lado a lado com o aparecimento obras-primas da literatura, pintura e música. Paris era a capital do mundo na Belle Époque, e em nenhum lugar ela era mais viva do que em Montmartre.

Ali perto, onde hoje existe um parque com seu nome, existia então o galpão/fábrica de um grande pioneiro do automóvel, que criava carruagens a vapor avançadas, uma a uma sob encomenda de clientes. Naquela bela manhã seus funcionários abriam as portas do galpão e conversavam tranqüilamente enquanto fumavam seus cigarros e arrumavam a oficina para começar o dia de trabalho, naquela bagunça barulhenta, alegre e sonora que, na suave língua francesa, apenas dava música ao ainda sonolento bairro boêmio.

Dali a pouco uma figura conhecida aparece. O menino não podia ter muito mais que dez anos de idade, e era extremamente tímido, mas todo santo dia daquele mês de férias escolares aparecia por ali para ver o trabalho avançar em um dos mais novos e modernos automóveis do mundo de então. Com o tempo, acabava ajudando os funcionários com trabalhos pequenos. Limpar chão, trazer uma ferramenta, acender mais um Gauloises, coisa assim. Mas aquele dia seria diferente. Os funcionários avisam o menino logo na sua chegada que o patrão quer vê-lo em seu escritório; estava intrigado com a presença constante do infante. Titubeante, o menino vai ao encontro do criador daquelas máquinas tão incríveis que o fascinavam profundamente.

O dono da fábrica queria saber o que desejava o menino que aparecia todo dia sem ser chamado. A resposta foi clara e inequívoca: andar em uma das maravilhosas máquinas que eram construídas ali. O patrão, uma pessoa agradável e solícita, fita o menino longamente em silêncio do outro lado da mesa. Depois do que pareceu ser um século para o pobre rapaz, abre um largo sorriso e diz: porque não disse antes? Vamos já resolver isso!

O menino mal podia acreditar naquilo. Aboletado ao lado de seu novo herói, sentia uma emoção que nunca tinha conhecido. O veículo se movia como se fosse mágica, vibrando, chiando, rangendo, parecendo algo vivo. O barulho, o vento na cara, o impossível heroísmo do homem operando alavancas e pedais com uma destreza estranha, mas que efetivamente o colocava em controle total daquele enorme leviatã a vapor, o deixam pasmo, em silêncio completo. E a velocidade! A maior lembrança do menino deste evento foi a incrível, impossível, atordoante velocidade com a qual seu novo herói conduzia aquela traquitana magnífica pelos bulevares parisienses. Homens paravam pasmos, mulheres levavam a mão à boca, crianças se agarravam às saias de suas mamães assustadas, cachorros latiam. O futuro chegava de forma inequívoca, barulhenta, definitiva. E era um futuro veloz, corajoso e indomável! O menino mal podia acreditar naquilo tudo, e quase sem palavras tentava absorver todo aquele turbilhão de novas emoções.

Decidiu ali mesmo, inequívoca e definitivamente, que dedicaria a sua vida àquela estranha máquina. Seu talento nato para mecânica recebia, na tenra idade de 13 anos, o impulso que faltava. Não sabia exatamente como, mas sabia que tinha descoberto, ao andar naquele incrível “auto-móvel”, o que todos buscam por vidas inteiras, muitas vezes sem sucesso: um sentido para a vida. Um propósito maior. Uma vocação.

Seu nome era…

Acompanhe aqui no Ae a continuação dessa história contada pelo MAO.

Ae/MAO

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