UM CORVETTE NA NOITE – CAPÍTULO 2

 

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Caro leitor ou leitora,

Dando continuidade à publicação aqui no Ae do livro do Arnaldo Keller, “Um Corvette na noite e outros contos potentes”, hoje é a vez do segundo capítulo, “Meu Velho Rick”. Tenho certeza de que muitos de vocês terão grandes lembranças, especialmente pelo jeito especial do Arnaldo de contar histórias.

Boa leitura!

Bob Sharp
Editor-chefe

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UM CORVETTE NA NOITE E OUTROS CONTOS POTENTES

Por Arnaldo Keller

 

Capitulo 2 – Meu Velho Rick

 

Eu ainda sentia o cheiro dos seus cabelos. Bastava fechar os olhos por um segundo e dilatar as narinas que me via envolto por aqueles cabelos castanho-claros. Aquele cheiro de mulher fogosa, misturado a perfumes finos. Sentia seu corpo em meus braços. Meus lábios em sua pele, levemente úmida de suor, com gosto de mulher ofegante e saciada. Lembrava-me bem, também, de como me sentia naquele momento: sentia-me muito bem. Satisfazer a mulher amada nos deixa bem. Os cientistas dizem que o olfato é o sentido que mais fundo cala em nossa memória. Dizem que é o mais instintivo, o mais selvagem, o que mais fortes lembranças traz. Concordo, pois o cheiro daqueles cabelos, daquela nuca que me dava ganas de morder, me chamava, me movia adiante, me fazia acelerar.

Há pouco parara num posto para desentupir um giclê de baixa de um dos carburadores Weber, são três duplos. Conheço a fundo meu Jaguar E-type. Qualquer falhadinha, qualquer barulhinho, não me é estranho; vou logo ao ponto e sei consertar. Este probleminha era moleza. Saquei o giclê com uma chave de fenda e nele soprei ar do calibrador de pneus. E pronto! Foi só montar tudo de volta e dar a partida pro motor virar liso, com marcha-lenta serena. Meu Jaguar é conversível, seis cilindros, 4,2 litros, 265 cv. Cor vinho, ano 1970. Um capô enorme e voluptuoso, no qual, enquanto eu seguia velozmente rumo sul, reflexos do sol poente à minha direita ondulavam por suas curvas. Tenho, portanto, um legítimo e impecável conversível inglês; com cheiro de carro inglês. Os carros ingleses têm um cheirinho próprio. Acho que é couro misturado a madeira, gasolina e óleo; não sei bem, mas que têm, têm. Só sei que basta enfiar a cabeça dentro de um para sentir uma sensação boa. Gosto muito dele. Seu banco em concha me firma perfeitamente. Do contato justo com ele sinto todos os movimentos do carro. Ao contrário do que muitos pensam, o Jaguar de seis cilindros é melhor que o de doze – o de seis é mais ligeiro, mais leve; faz curva e freia muito melhor, e acelera praticamente igual. O seis é o bom, ao gosto do inglês, feito como era pra ser; o projeto original. O motor Jaguar V-12 apareceu depois, pra vender pra americano que só sabe guiar carro com câmbio automático e acelerar na reta. Acho que esse é o único carro com motor V-12 que eu não gosto.

E da limpeza que fiz no posto pra cá o motor vinha mesmo trabalhando de forma esplêndida. O ar entrava aos borbotões pela boca afilada da entrada do radiador, refrescando também o longo bloco de ferro e o cabeçote de alumínio, de duplo comando, com câmaras hemisféricas. Sua ampla faixa de torque — com pico de 39 kgfm a 4.000 rpm —, oferece potência consistente desde baixas rotações. E essa potência eu usava repetidamente, acelerando forte em cada saída de curva e levando o giro lá pra cima, até ao ponto em que ao puxar a próxima marcha ela já viesse embutinada, em força plena, mantendo erguida aquela frentona engolidora de asfalto. A longa distância do entre-eixos lhe dá tremenda consistência nas curvas de alta velocidade, além de ótima estabilidade direcional. Correndo forte está em casa.

Naquela hora meu conversível era o melhor amigo que poderia ter, pois o melhor amigo seria quem me levasse o mais rápido possível ao encontro daquela mulher, daqueles cabelos, daquele corpo que se moldava ao meu, daquele macio e quente conforto para a alma. Fechei os olhos por outro segundo, dilatei as narinas, e sorvi aquela imagem cheirosa. Imaginei meus lábios roçando aqueles bicos de seios excitados. Abri os olhos, e em seguida abri ainda mais as seis borboletas dos Weber, pedindo pressa ao companheiro. Tem momentos em que um homem de verdade não se deve conter. Deve seguir seu ímpeto de avançar, e avançar, e avançar…

Uma longa reta descortinava-se à frente. Eu corria pela calha plana de um enorme vale antigamente escavado por deslizamentos de gigantescos glaciares. Via o sol se pondo atrás da silhueta escura das montanhas ao longe. Ora ele aparecia, injetando raios ofuscantes em minha direção, ora sumia.

Saíra de Las Vegas, onde tinha meu negócio: um cassino de segunda linha que herdei do meu pai, o Velho Rick. O Velho Rick, depois de peripécias na Resistência Francesa durante a 2a Guerra, resolveu aposentar-se no deserto de Nevada abrindo um pequeno cassino, o “Play it Again”. Conheceu minha mãe quando ela apareceu no cassino procurando emprego de dançarina. Ela imediatamente estourou seus miolos com mais contundência que as bombas nazistas. Casaram-se. Nasci, e após amamentar-me em seus fartos seios ela nos deixou; foi-se embora com um milionário sul-americano. Fui, portanto, criado em meio a bailarinas e outros mais variados artistas. Era o xodó das vedetes, daí que carinho e colos aconchegantes não me faltaram. Diferentemente do usual, associo a imagem de mãe com o roçar de plumas e cheiro de pó de arroz. São amorosas as bailarinas. A maioria gosta muito de crianças. Eu vivia com a cara cheia de marcas de batom.

O Velho Rick, que então não era velho, só de meia-idade, esse sim, depois da partida de minha mãe nunca mais foi o mesmo. Apesar dos modos gentis, do summer imaculado, dos cabelos corretamente assentados pela brilhantina, seu olhar era triste. Por várias vezes o vi parado na calçada defronte o cassino, por horas, olhando distante, fumando o seu cigarro Gauloises, como se à espera de alguém. Alguém que nunca voltou.

Os inúmeros artistas do cassino, muitos só temporários, tinham em mim a sua diversão, o seu aluno. Aprendi mágicas, sapateado, algumas acrobacias, um monte de palavrões nas mais diversas línguas e, claro, desde cedo aprendi a manejar cartas e blefar com cara de pau. Quando era um adolescente, uma polonesa contorcionista, desconfio que incitada por meu pai, iniciou-me nos exercícios do leito. Pelo visto, comecei bem. Ela fazia sexo, eu diria, de uma forma tridimensional e envolvente. Não falava minha língua e creio que isso facilitou nosso entrosamento inicial. Acabamos aproveitando os momentos de descanso para trocarmos aulas de linguagem. Do vocabulário polonês me restou na memória: “tenha calma rapaz”, “clítoris inchadinho”, “pentelhinhos loiros”, “pentelhinhos raspadinhos”, “vagina”, “lábios gostosos”, “assim dói o bico do peito” e “bundinha macia”.

Certa vez, lá pelo início dos anos oitenta, apareceu para trabalhar no cassino o italiano Espósito. Era um cantor do tipo bonitão, crooner de orquestra. Um tremendo cantor que maltratava a bela e aveludada voz com cigarros, bebida e noites mal-dormidas. Vivia enroscado com mulheres; muitas ao mesmo tempo. Não conseguia ter um caso só e, ainda por cima, procurava as mulheres mais escandalosas, o que fazia de sua vida uma confusão dos infernos. O Espósito era gente boa e logo travamos amizade fiel. Passei a ser seu confidente e ajudante na resolução dos imbróglios em que se metia. Ele sofria com isso, pois dizia que amava a todas, que queria o bem de todas e que gostava de dar-lhes afeição, pois elas eram carentes e solitárias. Os italianos são sentimentais, mesmo os safados, como o nosso Espósito.

Em compensação a meus valiosos serviços, me levava em seu Jaguar E-type — este mesmo E-type — para dirigir nas longas retas do deserto. Naquele tempo este carro andava meio mal cuidado, já que os dotes de cantor mal rendiam ao italiano o bastante manter seu elevado consumo de mulheres, uísque, e cigarros. O E-type, portanto, ficava para segundo plano. Sua cor era prata, desbotada pelo sol. A capota tinha a costura de alguns remendos. Os pneus, como dizem, iam pela meia-vida. Mas isso não importava, dizia o italiano, “O que importa é a alma!”, afirmava. E o carro, realmente, tinha alma, e dela o Espósito, ele mesmo, cuidava muito bem. O motor sempre trabalhava na mais sutil afinação e, convenhamos, acertar o exato ponto de ignição, as folgas das válvulas e os seis carburadores só no “ouvido”, era tarefa para um bom músico. Eu ficava ao volante, enquanto ele — debruçado sobre o motor e sob o capô, que sobe junto com os pára-lamas, com cigarro no canto da boca, mãos sujas de graxa, testa suada me ordenava: “Agora, ragazzo, desliga essa porra desse rádio que eu vou fazer este motor cantar!” e concentrado ia afinando cada mistura de lenta dos Weber como se fossem cordas de um violino. Ao final, quando satisfeito, me mandava bombear forte o acelerador. Com isso bailava ao redor do E-type. “Como canta! Como canta este motor!”, e dava lá seus passinhos ensaiados de palco. Eu tinha muito orgulho de ser amigo de Espósito.

Ah, Espósito! Que cafajeste simpático! Lembro-me de nós dois, sob o sol do meio-dia, acelerando o Jaguar de capota baixada nesta mesma reta sem fim. Eu com uns quinze anos, ligadão na direção, e ele na maior ressaca, após ter varado a noite nos braços de uma porto-riquenha maluca. Ele meio desmaiado ao lado e só acordando quando batia a cabeça na dobradiça da capota, o que devia doer um bocado. Coitado do Espósito. Mas ele fizera questão de me pagar prontamente pelos serviços que lhe prestara na noite anterior para conquistar a moça. Que fôlego de leão o italiano! Que obstinação em seu papel de macho! Já eu, não. Sou um sujeito de uma mulher só, ao menos uma de cada vez. Acabei descobrindo que todas estão contidas numa. Naquele dia fiquei empolgado, pois, pela primeira vez cheguei perto dos duzentos. Dei 120 milhas por hora. O Espósito nem se deu conta.

Com ele aprendi a conhecer o E-type. O desmontávamos e montávamos. Aprendi a rigorosa seqüência das tarefas. Aprendi a guardar as peças cuidadosamente limpas e separadas, a senti-las com o tato procurando qualquer imperfeição, e a montá-las bem assentadas. Aprendi a encostar ao ouvido a ponta de um pedaço de cabo de vassoura e a apoiar a outra extremidade em pontos estratégicos do motor. Ainda volta e meia faço isso, pois desse modo consigo ouvir o motor por dentro. Ouço se há alguma válvula presa, algum rolamento roncando, algo errado. Hoje, sei acertar a sintonia do motor a ponto de fazê-lo virar suave como uma roleta azeitada.

Assim a coisa ia até que o Espósito aprontou uma forte demais e teve que se mandar na calada da noite; se é que isso existe em Las Vegas. Ele teve um caso com a mulher do dono do Cassino Roma e a coisa ficara perigosa. Como na fuga o carro sui generis delataria seu rastro aos capangas do Joe Romano, o Velho Rick comprou-lhe o Jaguar. Oito mil dólares. Deu-me as chaves o carro, dizendo: “São essas pequenas loucuras que dão prazer à vida! Divirta-se!”, e em seguida, com um raro afago, desmanchou meus cabelos.

Mas quem me levaria para guiá-lo no deserto? Meu pai? Mas ele não costumava correr! Guiava calma e vagarosamente seus grandes Buick, manejando com suavidade. Andar com ele dirigindo era flutuar numa nuvem empurrada por ventos alísios, portanto, nada de emoções fortes. Eu achava que não teria graça o Jaguar nas mãos do Velho Rick. De qualquer modo, sobrou para meu pai. Antes, porém, ele mesmo levou o carro para trocar os pneus. Saímos numa manhã de sol. Las Vegas, onde sempre faz sol. Capota arriada. Eu estranhava como o E-type, tendo o Velho Rick ao volante, rodava macio pela cidade. Freava macio, acelerava suave, curvava suave, redondo, tudo tranqüilo, sem solavancos; contrastante à carreira chacoalhante quando conduzido pelo italiano. Fiquei meio chateado, pois o Jaguar caminhava com passos de flamingo, feito um dos Buick, quase sem emoções… “Xii! Já vi tudo! Meu velho não vai nem me deixar passar das 60 milhas! Que modorra!”.

Puxa! O quanto eu estava enganado! O quanto o Velho Rick era endiabrado! Bastou chegarmos ao asfalto liso, reto e vazio, para meu pai me dar um tapinha ardido na perna e dizer: “Te prepara, garoto!”.

Escutei o Jaguar dar o maior dos seus gritos. Uááááhhrrr!!! O giro subiu lá pra cima, os pneus traseiros se lixaram no asfalto, a traseira saiu um pouco de lado e largamos feito um rojão. Me arrepiei inteiro colado ao banco, de olhos arregalados e sem atitude até para respirar. Via o conta-giros torcendo seguidamente, sentia as marchas sendo trocadas com uma rapidez e maciez impressionante. O asfalto negro afunilava, as pedras ao lado formavam riscos, os cactos zuniam. As pontes dos riachos secos passávamos voando! Fomos até onde dava. Fomos até o Jaguar abrir o bico, gorgolejando em quarta marcha. O velocímetro batia nas 160 milhas/h, uns 260 km/h, e nada do Velho Rick aliviar, nada! Seu pé cravava fundo o acelerador. Quando consegui olhei pra ele, e em vez de ver um sujeito com feições alucinadas e aferrado ao volante, vi-o tranqüilo, tal qual quando dirigia elegantemente seus Buick.

—Uuaauu!!!! Caramba! Não sabia que você pilotava desse jeito! Que bárbaro! — exclamei.

Dando um sorriso maroto, e com o olhar fixo adiante, o Velho Rick me conta:

— Filhão, me desculpe, mas acabei não te contando que andei pilotando caças Spitfire na guerra. Aquilo sim é que era loucura. Nas horas vagas me divertia com os pilotos ingleses tirando uns rachas nos campos de aviação. Inglês é osso duro. E aí? Tá gostando do seu carro?
— Puxa se estou! Mas tô gostando mais é de ver você! — respondi, alegre.

Uma estradinha asfaltada saía à direita em direção às montanhas. Seguia reto por uns cinco quilômetros até chegar ao sopé e depois sumia pelas gargantas da serra. O Velho Rick trouxe o carro para a pista da esquerda e avisou: “Vamos ver se o teu carro é bom de curvas. Nessa serrinha sei que há das boas”. E nada de frear para dobrarmos para a estradinha. Nada de frear. Quando eu já achava que ele havia mudado de idéia e que seguiríamos reto, exclama: “Te segura!”, e freia forte fazendo os quatro discos guincharem. Reduz direto pra segunda marcha e toma a tangência na rapidez de um záp. Vou de encontro a seu ombro, que me esperava, escorando, e quando me dou conta já estamos saindo, alinhando com a próxima reta, escorregando e acelerando no melhor dos berros que um gostoso seis cilindros sabe dar. E eu também gritava: “Iahúúúú, Velho Rick! Iahúúú!! Você é demais, é demais!!!”

— Carro inglês é bom de curva — o Velho Rick comenta —,  quando fui trocar os pneus, vi que a suspensão traseira é independente e aliviada de peso, pois os freios estão junto ao diferencial. Mesmo assim vamos baixar a pressão dos pneus traseiros, pois ela está um pouco dura, quicando um pouquinho. Assim ela está escapando e dá pra melhorar. Vamos deixar a traseira mais macia pra ela assentar melhor.

Paramos. Demos quatro segundos pra cada libra baixada, e voltamos pra farra. Não preciso dizer que o Velho Rick entrou por aquela serra feito um tiro de fuzil. Das curvas fazia retas e nas retas, voava. Sua suavidade me desconcertava. As forças que ele fazia o carro resistir — ora freando, ora acelerando, ora curvando de um lado pra outro — eram imensas, mas, de algum modo ele fazia com que passar de uma para outra oposta fosse de uma forma rápida e gradual, sem o mais leve tranco; parecia que estávamos no céu e nos apoiávamos nas nuvens… Na certa meu pai lembrava-se então do seu Spitfire.

Enfim paramos no topo da serra. Motor desligado, os dois calados olhando para o vale deserto. Ao longe víamos e escutávamos carros solitários na estrada vazia. Os olhávamos como se fôssemos felinos olhando a caça, sabendo que, se quiséssemos, baixaríamos num bote infalível, surpreendente e certeiro. Uma fera ensinando o filho a caçar – privilégio de poucos filhos, e de poucos pais.

E assim, quase que uma vez por semana, saíamos com o E-type. Eu já levava jeito e acabei aprendendo certinho, a ponto de uma tarde ser liberado para um vôo solo. Saí fazendo o mesmo caminho que havia feito da primeira vez que saíra com meu velho. Resolvido a andar forte acelerei o máximo nas retas, curvei a serra no meu limite, e parei no mesmo topo para olhar o vale. Sentia-me um conquistador. Porém, mal desligo o E-type e suspiro para baixar a pulsação, escuto um ronronar que bem conhecia: era o pesadão Buick encostando a meu lado… — Você está indo muito bem, Filho! Parabéns!” — comemorou o Velho Rick. Na ocasião, percebi que ainda me faltavam algumas manhas…

Fui crescendo. Comprei esportivos novos e por uns anos deixei o Jaguar encostado, juntando pó em meio a cenários no nosso barracão de almoxarifado.

Há uns anos o Velho Rick se foi para sempre. Conseguiu ir com a costumeira elegância, mostrando-se feliz por ver que eu estava bem.

Alguns meses após sua morte, revirando o que me deixara de herança, fui ao almoxarifado. Vi a silhueta do E-type por debaixo de cortinas velhas e pesadas. Aproximei-me e comecei a retirá-las, dobrando-as por sobre a frente do carro. Apareceu a afilada boca do Jaguar. Em seguida o longo cofre. Mesmo desligado me pareceu escutar o ronco do motor funcionando. Afastei mais as cortinas. Lembrei-me do lindo sorriso do Velho Rick quando estava ao seu volante. Apalpei o volante Motolita de madeira. Senti as mãos do meu pai.

Não titubeei. Eu sabia muito bem o que deveria fazer para ter um pouco do Velho Rick de volta. Eu sabia muito bem como recuperar um pouco uns dos melhores momentos que passamos juntos. Eu iria ressuscitar o E-type.

Por meses restaurei o carro, completamente, eu mesmo, infatigavelmente. Volta e meia alguma das vedetes vinha ao barracão esfregar as volumosas e sedosas tetas na minha cabeça, pedindo atenção. E aí, fazer o quê? O Velho Rick entenderia minha posição, e o Jaguar esperava um pouco. Até que finalmente chegou a hora da pintura. Pintei-o da cor vinho, a cor de todos os Buick de meu pai. A cor que tem o calor do vermelho e um toque da dor do preto. O vinho era a cor do Velho Rick.

E agora eu seguia velozmente rumo sul, rumo ao quarto de um pequeno e aconchegante hotel em Lee Canyon — um inacreditável recanto verde encravado no costado da árida serra —, onde a Corinne me esperava. E assim a imaginava defronte à janela, distraidamente apreciando este mesmo pôr do sol, pensando em mim, penteando aqueles cheirosos cabelos que se derramavam sobre seus doces seios.

Eu seguia ao encontro do meu amor. Um tipo de amor que foi negado a meu pai. Um amor que ele me ajudou a conquistar.

Obrigado, meu Velho Rick.

ooooo

(Continua outro dia)

 

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  • Edgar Lorete

    Simplesmente Fantástico. Sem palavras.

  • Guilherme Jun

    A suavidade com que elementos sinestésicos tão distintos são inseridos no texto é digna de nota. É para emocionar e querer ler mais.

  • JT

    O conto é excelente, não resta dúvidas. Tanto que mereceu figurar em um livro.

    Tenho um livro publicado e sei o trabalho que dá para escrever, revisar, ilustrar, diagramar, registrar, imprimir e distribuir um projeto editorial. A diferença é que ainda não tive a coragem, ou a generosidade, de colocá-lo de graça na Internet.

    Penso em fazer algo diferente, quando a edição impressa se esgotar em breve: fazer uma edição eletrônica para vender por alguns reais. Não pelo dinheiro em si, mas pelo simbolismo de ser remunerado pela dedicação a uma obra.

    Me perdoem a ousadia, mas vou mais longe no comentário, deixando uma sugestão para os editores do Ae: criar uma seção para divulgação de livros que tenham o selo de leitura de algum dos editores do site, assim como eles fazem testando os carros.

    Eu estudaria uma parceria com uma livraria virtual, incentivando o internauta a ler além do conteúdo postado na Internet. As pessoas poderiam comprar inclusive livros impressos e receber em casa pelos correios. O Ae poderia receber, inclusive, uma porcentagem de cada venda. E seria muito justo.

    A Revista ClassicShow já faz isto há alguns anos, mas sem intermediários.

    Tenho certeza de que muita gente compraria a versão eletrônica de “Um Corvette na Noite”, por exemplo.

    Abraços!