A chuva não cumpriu o que a meteorologia previa para Spa, mas não faltou drama no fim de semana do automobilismo, muito pelo contrário. Na Bélgica pneus deram show nos treinos e na corrida e nos Estados Unidos a prova de F-Indy em Pocono terminou em clima carregado, conseqüência de um acidente que vitimou Justin Wilson, piloto inglês que faleceu ontem à noite.

 

Mais do mesmo

 

Hamilton venceu novamente e se aproximou ainda mais do terceiro título (foto Mercedes-Benz)

Hamilton: outra vitória e cada vez mais perto do terceiro título (foto Mercedes-Benz)

A nova dobradinha da equipe Mercedes não foi nenhuma novidade, afinal foi a sétima em onze provas. Com relação aos pneus, não se pode dizer o mesmo, ainda que o acontecido em Spa esteja longe de ser uma novidade: num passado recente muitas corridas foram decididas, no mínimo marcadas, quando esse equipamento falhou antes do pit stop necessário. Desta vez, porém, o pneu traseiro direito que estourou na penúltima volta colocou frente a frente um ícone do automobilismo, um piloto hoje idolatrado pela fanática torcida italiana e uma marca importante para o negócio F-1.

Nem por isso pode-se deixar de considerar alguns fatos e possibilidades que envolvem o incidente que na 42a das 43 voltas da prova (uma volta do percurso original foi anulada depois que o carro de Nico Hulkenberg deixou de funcionar no grid definitivo), tirou Sebastian Vettel de um possível lugar no pódio. O alemão não poupou exclamações que um eufemismo descreveria como “elogios em forma reversa” à Pirelli e o diretor esportivo de Maranello, Maurizio Arrivabene, optou por uma postura menos agressiva até examinar todos os dados disponíveis. Já os borracheiros de Biccoca enveredaram por uma apavorada distribuição de comunicados de imprensa que terminou pateticamente com o pedido para deixar o dito pelo não dito. Algo como esquecer declarações como “Notícia Importante: Pirelli confirma que estouro pneu de Vettel foi por ocasionado por desgaste após uso excessivo” e usar “Em novembro de 2013, a Pirelli solicitou que fossem definidas regras para gerenciar o número máximo de voltas que podem ser dadas pelo mesmo jogo de pneus, entre outros parâmetros inerentes ao uso correto dos pneus.”

 

Vettel e Ferrari: aposta arriscada demais (foto Ferrari/StudioColombo)

Vettel e Ferrari: aposta arriscada demais (foto Ferrari/StudioColombo)

Detalhes imutáveis: limites existem para serem superados, especialmente em competições, e é essa busca que gera a atração que mantém o esporte emocionante. Situações semelhantes a essa de Spa já aconteceram na Stock Car brasileira, que também usa pneus Pirelli. Para superar limites as equipes, principalmente as da F-1, aperfeiçoam seus equipamentos num ritmo que poucas empresas e organizações conseguem acompanhar. Fábricas como a Honda, por exemplo, usam seus programas nessa categoria para treinar engenheiros que após a experiência voltam a trabalhar na linha de produção. Fábricas também arriscam à sua maneira: veja o número de recalls que os meios de comunicação publicam com freqüência cada vez maior…

Quando a Pirelli assumiu o fornecimento de pneus para as corridas de Grande Prêmio, um dos pontos acordados foi que esses produtos deveriam agregar valor à competição, algo que seria conseguido com o desgaste supostamente controlado a ponto de exigir várias trocas durante a corrida. A alternativa funcionou temporariamente mas foi crucificada no GP da Inglaterra de 2013, quando  Lewis Hamilton, Felipe Massa, Jean-Eric Vergne e Sérgio Pérez tiveram pneus estourados em grande estilo. O valor agregado aparentemente foi maior que a encomenda.

 

Massa: corrida discreta, quarto lugar no campeonato (foto Williams/Steven Tee)

Massa: corrida discreta, quarto lugar no campeonato (foto Williams/Steven Tee)

A chegada do novo regulamento, em 2014, serviu de bálsamo para muitos: menos potentes, os carros ficaram mais lentos, os pneus passaram a durar mais, até que… Até que tudo continuou como antes e a evolução dos carros e motores foi maior que…a dos pneus. Reticências à parte, resistências cresceram a ponto das equipes rejeitarem propostas da Pirelli para estabelecer a quilometragem máxima de uso para cada jogo de pneus.

Ano novo, vida nova e as mesmas mazelas: carros evoluem a cada prova, pneus a cada quatro, se tanto. Em 2015 o desenvolvimento continuou no mesmo ritmo e os problemas supostamente superados em 2013 ressuscitaram em grande estilo. É plausível admitir que o que aconteceu neste fim de semana seja conseqüência de uma situação onde os carros tornaram-se mais eficientes em uma proporção em que as margens de segurança tornaram-se mais críticas e, portanto, perigosamente mais próximas da realidade.

Para piorar o cenário o incidente maior aconteceu no carro italiano de um campeão típico e em uma pista tradicional. Vettel, assim como era Ayrton Senna, não vê guard-rail à frente quando as coisas não saem como deseja. Mesmo quando avisado: mais ou menos na volta 32, seu box o informou via rádio “pneus ok, devem durar até o final da prova”. A previsão não se concretizou e os pontos que viriam de um terceiro ou mais provável quarto lugar acabou sendo uma decepção incalculável.

Menos mal que o pneu arrebentou 200 ou 300 metros após a fatídica curva Eau Rouge, caso contrário as conseqüências poderiam ser trágicas. A favor da Pirelli vale lembrar que Nico Rosberg viveu episódio semelhante no treino de sábado, um indício para não apostar muitas fichas na sorte. Contra a Ferrari e a bronca de Vettel cabe o fato que a estratégia adotada foi de alto risco e estratégias podem dar certo ou dar errado. Para todos vale lembrar que nos tempos que a Goodyear era fornecedora única da categoria esse tipo de problema não acontecia.

 

Grosjean: excelente resultado ameniza crise na Lotus (foto Lotus/LAT)

Grosjean: excelente resultado ameniza crise na Lotus (foto Lotus/LAT)

Além do Vettelgate o GP da Bélgica teve outros momentos marcantes: a Williams cometendo mais uma Willianice ao instalar três pneus macios e um médio (na roda traseira direita) no carro de Valteri Bottas e as várias ultrapassagens de Max Verstappen, que terminou em oitavo, atrás de Hamilton, Rosberg, Grosjean, Kvyat, Pêrez, Massa e Räikkönen. Bottas e Ericsson completaram os dez primeiros.

Destaque também para o excelente terceiro lugar de Romain Grosjean, resultado importantíssimo para a situação de penúria e quase falência que volta a assombrar a Lotus. O resultado completo está aqui e a posição do campeonato você encontra nesta página, que mostra Felipe Massa empatado com Kimi Räikkönen.

 

Pilotos e pilotos

O francês Charles Pic aproveitou a legislação belga e conseguiu retardar o regresso dos caminhões da Lotus à Inglaterra, tudo porque ele se sentiu lesado em não ter completado a quilometragem de treinos que teria acertado com a equipe inglesa. Fontes não oficiais informaram que ontem (segunda, 24/8) o assunto teria sido resolvido e o retorno à base autorizado. Guido van der Garte, que armou grande rebuliço no GP da Austrália e quase impede a equipe Sauber de participar da prova, foi visto no paddock como convidado da Mercedes, apesar de Bernie Ecclestone ter “aconselhado” as equipes a não dar qualquer passe ou credencial ao holandês.

 

Justin Wilson não resistiu

 

Justin Wilson em ação em Pocono (foto Indicar.com/Chris Jones)

Justin Wilson em ação em Pocono (foto Indicar.com/Chris Jones)

A morte do inglês Justin Wilson em conseqüência de um acidente durante a etapa de Pocono do calendário da Indycar deverá deflagrar duas cobranças da opinião pública com relação ao atual aspecto dos carros monopostos. Sage Karam liderava a competição na volta 179 das 200 previstas quando perdeu o controle do seu carro e bateu contra o muro. Veja o acidente neste vídeo. Como previsto, seu monoposto foi desintegrando com o impacto — uma forma de segurança passiva posto que isso absorve a energia cinética da pancada e limita as lesões ao piloto —, porém uma peça acabou atingindo o capacete de Wilson, que naquele momento desviava de outros carros.

O acidente guarda semelhanças com o sofrido por Felipe Massa no GP da Hungria de 2009: durante os treinos de sábado o brasileiro foi atingido, no capacete, por uma mola do carro de Rubens Barrichello. Desde então fala-se na necessidade de tornar mandatório o uso de uma cápsula de proteção para a cabeça e braços dos pilotos, que por força das características intrínsecas de um monopostos ficam expostos.

Para muitos essa mudança acabaria com o charme e a essência dos carros de fórmula, para outros — cada vez mais numerosos —, a proposta é necessária e justificável. No caso da F-Indy, porém, deve-se levar em conta a facilidade com que pilotos com experiência discutível alinham em suas corridas em freqüência irregular.

Não era, absolutamente, o caso de Wilson, que chegou a ser cotado para grandes conquistas na F-1, categoria onde não vingou por falta de apoio financeiro e onde marcou um ponto ao chegar em oitavo lugar no GP dos EUA de 2003. Sem patrocinadores, voltou suas atenções para o automobilismo americano e em 174 largadas na F-Indy obteve sete vitórias, além de conquistar a 24 Horas de Daytona de 2012.

Mas é, sim, o caso da facilidade com que pilotos sem a experiência necessária para conduzir automóveis em circuitos ovais onde a velocidade média supera os 300 km/h participa das provas dessa categoria norte-americana. O próprio Karam, que tem potencial e apenas 20 anos, já está em sua segunda temporada. Após conquistar o Mundial de F-1 Nigel Mansell optou por disputar a F-Indy e experimentou no próprio macacão os riscos de compartilhar a pista com pilotos de fim de semana: o carro de Dennis Vitolo foi parar em cima do seu durante a 500 Milhas de Indianápolis de 1994.

WG

A coluna “Conversa de pista” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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