Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas AUTOMOBILISMO PERDE GUY LIGIER – Autoentusiastas

Poucas pessoas foram tão importantes para o automobilismo de um país como Guy Camille Ligier: sua devoção ao esporte passou pelo remo e pelo rugby antes de maturar no esporte a motor, onde atuou em duas e quatro rodas, nesta última modalidade como piloto e construtor. Em seus 85 anos de vida este francês de Vichy (estância do departamento de Allier, famosa por sua água e sua sopa), iniciou sua vida profissional ajudante de açougueiro, empreiteiro de obras públicas, piloto, fabricante de automóveis de corrida e minicarros, porém ficou conhecido pela amizade que dedicava a seus amigos e pela determinação em fazer valer suas opiniões.

Bastante próximo a François Mitterrand (presidente da França entre 1981 e 1995) e Pierre Bérégovoy (primeiro-ministro entre 1992 e 1993), Ligier foi um dos articuladores da transformação do circuito de Magny-Cours em um pólo tecnológico numa região tipicamente agropecuária; o gado de corte da raça Limousin é uma das riquezas locais. Para impulsionar o empreendimento o construtor mudou a sede de sua equipe de F-1 de Abrest, próximo de Vichy, para o circuito localizado nas cercanias de Nevers, capital do departamento do mesmo nome.

Depois de fazer parte da equipe B da seleção francesa de rugby no final da década de 1940, Guy Ligier voltou-se aos esportes motorizados e chegou a disputar 12 GPs entre 1966 (com Cooper-Maserati) e 1967 (Brabham-Repco), ano em que marcou seu único ponto na F-1, no GP da Alemanha. Nessa corrida ele ficou em sétimo na classificação geral, mas como os organizadores permitiam a participação de carros da F-2 para compensar a longa extensão do clássico traçado de Nürburgring, ele cruzou em oitavo lugar, mas como Jackie Oliver (Lotus) e Alan Rees (Brabham) terminaram em quinto e sétimo com carros da categoria menor, ele recebeu o ponto correspondente ao sexto lugar.

 

Ligier disputou 12 GPs entre 1967 e 1968 (foto RétroViseur)

Ligier disputou 12 GPs entre 1967 e 1968 (foto RétroViseur)

No ano seguinte Guy Ligier abandonou a carreira de piloto chocado com o destino trágico do amigo Jo Schlesser durante o GP da França. Na prova disputada nas estradas de Reims o Honda arrfecido a ar de Schlesser bateu na segunda volta, seu carro pegou fogo e ele morreu no local. Foi o início de sua fase de construtor esportivo e a oportunidade que encontrou para homenagear o amigo: todos os seus modelos foram identificados pela sigla “JS”. Sua primeira vitória importante como construtor aconteceu no Tour de Corse, equivalente francês da Mille Miglia, em 1974, com o Ligier JS2-Maserati.

 

O jornalista Jonny Rives e o piloto Gerard Larrousse junto com Ligier em 1974 (foto arquivo Johnny Rives)

Johnny Rives (esq., de azul) Gerard Larrousse e Guy Ligier no Tour de Corse 1974 (foto arquivo Johnny Rives)

Suas conexões com políticos de atuação nacional ajudaram na consolidação como construtor: quando a Matra decidiu interromper seu programa de competições foi ele quem incorporou todo o espólio da gigante francesa de armas e tecnologia de ponta. Empresas estatais como a Seita (detentora do monopólio de cigarros e fósforos), Total e Loto, entre outras, sempre apoiaram sua participação na F-1.

Enquanto existiu na categoria, seus boxes e motorhome eram verdadeiras embaixadas da França nas pistas internacionais. Entre os brasileiros que passaram por sua equipe estão o piloto Raul Boesel e o engenheiro Ricardo Divila. Pedro Paulo Diniz também defendeu a equipe francesa em 1996, ano em que era comandada por Flavio Briatore e Tom Walkinshaw e quando Olivier Panis obteve a última vitória da equipe, em Mônaco.

Divila lembra com carinho dos seus tempos na fábrica de Magny-Cours:

“O Guy aparecia toda sexta-feira e nesse dia era uma festa. Reunia todos os amigos para beber e conversar sobre automobilismo. Era um cara 100% racer, entoru na F-1 pela paixão, não pelo dinheiro. Quando decidiu vender a equipe ˜ão aguentou ficar muito tempo fora: pouco tempo depois se associou a Tico Martini, outro construtor, e acabou assumindo o controle de sua fábrica. Nos últimos tempos estava envolvido com a construção de protótipos de Endurance.”.

Tanto quanto a morte de um expoente do automobilismo francês, o esporte perdeu ontem um verdadeiro entusiasta da vida, homem que se reinventou várias vezes a pontos de lançar uma linha de fertilizantes naturais e microcarros, duas vertentes de grande importância social.

A causa de sua morte, na França,  não foi revelada.

WG

 

Atualizado às 19:00, 23/8/2015



Sobre o Autor

Wagner Gonzalez
Coluna: Conversa de Pista

Jornalista especializado em automobilismo de competição, acompanhou mais de 300 grandes prêmios de F-1 em quase duas décadas vivendo na Europa. Lá, trabalhou para a BBC World Service, O Estado de S. Paulo, Sport Nippon, Telefe TV, Zero Hora, além de ter atuado na Comissão de Imprensa da FIA. É a mais recente adição ao quadro de colunistas do AUTOentusiastas.

  • Pércio Guimarães Schneider

    Desenhou belos carros, com exceção do JS5.

    • Wagner Gonzalez

      Isso por que você não viu os micro carros que ele fabricou…rs

  • Essa notícia já devia ter saído da primeira página, das últimas notícias.