Carros produzidos no Brasil estão, paulatinamente, um pouco mais próximos em segurança aos de regiões do mundo desenvolvido e de maior poder aquisitivo dos compradores. Os seguidos testes de colisão contra barreira fixa deformável com 40% de área de contato (lado do motorista) executados pela organização não governamental Latin NCAP, sediada no Uruguai, comprovam isso. O SUV compacto Jeep Renegade, por exemplo, acaba de receber a classificação máxima de cinco estrelas tanto para os passageiros adultos nos bancos dianteiros quanto para crianças no banco traseiro.

É a primeira vez que um veículo fabricado no Brasil consegue essa dupla pontuação máxima e merece aplausos. Porém, mais uma vez, as coisas são mal comunicadas pela Latin NCAP. Seu método de avaliação é algo confuso, injusto, sujeito a erros primários, apesar de estar umbilicalmente ligado ao mais experiente Euro NCAP, que também faz das suas de vez em quando.

O arcabouço técnico regido por protocolos de todos os Programas de Avaliação de Carros Novos (NCAP, na sigla em inglês) é conflitante. Há nove deles ao redor do mundo. Só nos EUA são duas entidades, que às vezes se trombam (a do governo, NHTSA e a das seguradoras, IIHS), e ainda na União Europeia, Sudeste Asiático, Japão, China, Coreia do Sul, Austrália e América Latina. Todos se baseiam em protocolos que se alteram ao longo do tempo e causam ruídos de comunicação.

Testes de colisão – feitos no Brasil há mais de 40 anos – dependem da velocidade, do tipo de barreira e de atingir toda a frente do veículo ou 40%. Em países ricos, que podem e exigem soluções caras para seus produtos, até quatro veículos são destruídos em cada teste. Latin NCAP, no máximo dois, por bom-senso: se um modelo alcança cinco estrelas na avaliação frontal, aí se submete uma nova unidade ao choque lateral.

A proteção de crianças no banco traseiro partiu de premissas erradas da entidade regional. No protocolo anterior nenhum carro compacto ou subcompacto podia alcançar nota máxima porque não havia espaço atrás para colocar três bancos infantis. Viram a mancada (mais uma) e mudaram o protocolo meio à surdina. Coincidiu de o Renegade ser o primeiro a se beneficiar do novo regulamento. O próprio esquema de pontuação dupla foi abandonado na Europa e o deveria ser aqui também. Euro NCAP já revê exigências consideradas absurdas na sua própria região.

Para pôr ordem na casa o governo brasileiro teria obrigação de criar seu próprio NCAP. Se Austrália ou Coreia do Sul, cujos mercados internos são 75% menores que o brasileiro podem, por que não o Brasil? Além de entidades sérias de engenharia automobilística, AEA e SAE, há instituições fortes como Inmetro (federal) e IPT (paulista), entre outras.

Em novembro próximo, Brasília sediará a 2ª Conferência Global de Alto Nível sobre Segurança no Trânsito – Tempo de Resultados e seria um excelente fórum, dentro do âmbito da Década de Ação para a Segurança no Trânsito (2011-2020) criada pela ONU em 2009, e da qual o País é signatário. Serão dois dias de uma extensa agenda de discussões, quando caberia revisar programas desconexos e fora da realidade econômica.

 

RODA VIVA

Anfavea confirma o que analistas da indústria já indicavam. Mercado de veículos novos neste segundo semestre será, no máximo, igual ao do primeiro semestre, sem viés de alta. Seriam cerca de 2,8 milhões de unidades, mas ainda há os que apostam que será menor (2,6 milhões). A recuperação, bem lenta, deve ficar para o final do primeiro trimestre de 2016.

VENDAS muita fracas implicarão o fechamento de concessionárias. Mesmo com algumas redes ampliadas recentemente, como a da marca Jeep que tem fábrica nova, para a Fenabrave o balanço no final de 2015 indicará um recuo sem precedentes. Estima que o total de 8.000 de pontos de venda recuará no mínimo 500 unidades, incluindo motocicletas e máquinas agrícolas.

AUDI conseguiu um bom pacote no Q3 ano-modelo 2016. Em antecipação ao início de produção nacional, no primeiro trimestre do próximo ano, a versão ainda importada é oferecida a partir de R$ 127.190, preço realmente competitivo entre os utilitários esporte médios-compactos premium. Motor turbo 1,4 L/150 cv e simplificação de acabamentos explicam a precificação.

CUPÊ verdadeiramente esporte, Jaguar F-Type une beleza de linhas, dimensões externas na proporção certa e ótimo acabamento. Apesar do capô longo, a visibilidade é boa, mas para trás nem tanto. Motor V-6 (na realidade, V-8 com 2 cilindros ocos), 3 L com compressor e 380 cv lida muito bem com os 1.614 kg do carro e sua sonoridade excita.

SEGUNDO a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, nos últimos 10 anos problemas de não conformidade dos combustíveis enquadraram-se em padrões internacionais. Em 2004, a média era de 4,9% para gasolina e 7,4% para etanol. Em 2014, caiu: 1,2% para gasolina e 1,6%, etanol. Em abril último, índice foi de 1,5% para ambos.

FC

Foto de abertura: latinncap.com
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A coluna “Alta roda” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.


  • Malaman

    V8 com cilindros ocos? O que vem a ser isso?

  • Mauro

    V8 com dois cilindros ocos? O bloco é de um V8 mas com seis pistões? Como ficam os cabeçotes, comandos, válvulas e virabrequim? Os furos das velas? E a pressão interna? Esse motor merecia um post…

    • Bruno Passos

      Pelo que entendi é isso mesmo, da uma olhada nessa matéria publicada no link http://www.roadandtrack.com/car-culture/a6865/avoidable-contact-engines-ive-blown-65-7-roa0314/ : “It’s also incredibly easy to build a V6 from an existing V8. Jaguar, for
      example, doesn’t even bother changing the outside dimensions of its
      block. The company’s V6, available in every new Jag sold in the U.S., is simply its V8 with shorter cylinder heads and balancing weights on the crankshaft where the last two piston throws should be”.
      Interessante…

  • A Audi realmente quer que o Q3 seja um campeão de vendas na categoria. Aqui em SC o modelo 2016 está sendo ofertado com desconto por R$ 119.990,00.

  • Totiy Coutinho

    Muito çabio por parte do colunista , questionar a credibilidade dos testes de impacto por “falhas de comunicaçao e metodologia´´,acredito piamente que a quantidade de bancos infantis para crianças mudarao os resultados dos testes !

  • V_T_G

    Sinceramente, na minha opinião, quanto mais longe da influencia das fabricantes e do governo local esta instituição estiver, potencialmente menos influencia vai ser exercida sobre os testes e seus resultados…

    • Oli

      Exato, a criação ou alocação da tarefa para um ente governamental, no brasil, só gera ineficiência e corrupção.

  • ccn1410

    “VENDAS muita fracas implicarão o fechamento de concessionárias”.

    Se não baixarem os preços logo ficaremos parecidos com Cuba.

  • Leonardo Mendes

    Na condição de concessionário eu afirmo: pode colocar nessa conta do recuo os concessionários que se cansaram dos abusos do fabricante e entregaram/venderam a bandeira pra se dedicar a outros negócios.

  • Dieki

    O bloco do V6 e do V8 da Jaguar são idênticos?

  • Diogo

    O Latin NCAP pode não ser lá essa coisas, mas criar um órgão estatal para avaliar a segurança dos carros me parece uma péssima idéia.

    • Roberto

      Aí cria-se um dilema. Confiar em um órgão do governo sujeito a corrupção ou ficar a mercê de uma entidade particular, que apesar de até agora ter se mantida idônea, não tem obrigação com ninguém de se manter assim?

      • Oli

        Como assim não tem obrigação com ninguém? Ela tem obrigação com a própria imagem. Se ela privilegiar alguém e um concorrente demonstrar que fez isso (o que é simples, bastando reproduzir os testes) ela perde a sua reputação pra sempre além de ser processada. O mercado sabe se cuidar muito bem.

        • Roberto

          Processada por quê? Posso estar enganado, mas até onde eu sei, a Latin NCAP é uma entidade não governamental que segue os seus próprios padrões e só tem obrigação de responder aos seus patrocinadores. Na realidade acho muito difícil ocorrer alguma fraude do tipo, mas não é impossível. O Google, por exemplo, vendia a ideia de que nunca embutiria propaganda nos seus sites e hoje é difícil assistir um vídeo no YouTube sem ter que ver alguns segundos de algum anúncio de patrocinador.

          • Oli

            Processada por afetar a imagem de um veículo de maneira desonesta. Vamos lá, você testa o carro X que eu fiz e da uma nota 2. Eu não me conformo com a nota, pois fui eu que fiz o carro e julgo que a nota seria maior. Eu refasso o teste que você fez, utilizando exatamente os mesmos critérios e chamando a imprensa e técnicos de prestigio, de universidades, do crea, etc. Se a nota for maior que 2, você ta ferrado, eu vou te processar por danos morais e divulgar pro mercado todo que você falsifica notas. Ninguém mais vai acreditar nos teus resultados nao vao mais lhe ceder veículos e vc provavelmente vai falir.

      • Cesar

        Se hay gobierno, soy contra!

    • Mr. Car

      Será mais um órgão com quadro de pessoal “trocentas” vezes maior que o necessário, e colocados lá por critérios que não serão exatamente aqueles que se possa chamar de técnicos, ou seja, mais um cabide para empregar amigos, e “aparelhar”.

    • Marco Antônio Lima

      Sim, a meu ver, também, MAIS UMA FONTE DE CORRUPÇÃO, isto se o LATIIN-NCAP já não estiver corrompido…

  • rafaelaun

    Parece que é isso mesmo. Ao invés de cortar um V8 tiraram dois pistões/bielas e só modificaram o cabeçote e virabrequim.

    http://f30.bimmerpost.com/forums/showthread.php?p=15733557

  • CorsarioViajante

    Não entendi muito bem porque o CAlmon repete diversas vezes que o teste é “confuso”, comete “erros primários”, etc etc, por aprimoramentos na metodologia ao longo do tempo. Engraçado que o Calmon sempre se ressentiu das comparações diretas entre preços e mercados, e agora, subitamente, faz comparações diretas entre institutos de segurança dos EUA ou Austrália e o Brasil.
    Sejamos realistas, o LAtinNcap não é perfeito, mas vem melhorando e, se conforme o colunista afirma já se fazem testes do tipo há mais de quarenta anos por aqui, foi só com ele que tais testes se tornaram públicos e acessíveis a qualquer um. A Brasília por exemplo foi testada na VW e obteve resultados tão ruins na época que os mesmos nunca foram divulgados e o programa foi abafado, conforme mostrado por post aqui no AE mesmo.
    Fica parecendo que o Calmon quer tirar o mérito do programa LatinNcap e, pior, passar a responsabilidade para órgãos que muitas vezes não atendem ao interesse da população, vide a lambança do InMetro com o sistema IsoFix, até hoje empurrado com a barriga.
    Sinceramente, conhecendo o Brasil, sinto muito mais confiança num órgão com respaldo internacional que tem diretrizes diferentes de país para país (pois vai se adaptando à realidade de cada mercado) do que em testes do governo que, como sabemos, faz décadas fazem o jogo dos fabricantes.

  • Fat Jack

    “…um recuo sem precedentes…”
    Fez-me lembrar imediatamente do “… nunca antes na história deste país…’ e finalmente concordo com ele.

  • joao

    O Latin NCAP é sediado no Uruguai não é a toa. Deixa do jeito que tá. Não quero pagar mais essa conta. Ainda mais se for para ver carro aprovado no teste pelo $mando$ de alguém, quer seja político ou interessado…

  • Daniel S. de Araujo

    Isso mesmo. Vamos criar a CrashBras a novissima estatal brasileira (para se unir a Sete Brasil, Amazonia Azul, Valec, etc. etc.) para testar e avaliar os carros brasileiros criando normas técnicas que só valem em “terra brasilis”. Afinal somos melhores que todo mundo, criamos a nova matriz econômica, descobrimos a Mulher sapiens, inventamos um novo padrão de cores na TV (PAL-M), de TV Digital, etc. etc. etc.

    Ah…e só para não esquecer

    • CorsarioViajante

      Inventamos até um novo ser, o MUlheres Sapiens Mandiocauns!

  • Roberto

    Ok, eu entendi os seus argumentos, mas o que eu me refiro é que existe a possibilidade da nota de algum veículo ser propositadamente aumentada para atender o interesse de algum fabricante sem que isto implique necessariamente um dano moral. Isto poderia ocorrer em uma dessas mudanças dos critérios de avaliação (que já ocorreu, como foi relatado no texto do FC). Claro que pelo histórico e imagem do NCap é bem difícil isto ocorrer, mas não é impossível, como já sabemos de muitas instituições não governamentais.
    Todo caso, na situação citada (nota atribuída menor que a obtida no teste) acredito sim que caberia um processo por dano moral.

  • Fabricio Penny

    Não concordo como autor. Se a segurança dos carros feitos hoje no Brasil estão melhrando, agradeça ao Latin Ncap, que tem normas internacionais para segurança veicular. Claro que o insituto não é perfeito no que diz respeito aos testes, mas ainda não dá para cobrar a metodologia aplicada na europa nos carros feitos aqui, pois lá eles estão bem adiantados do que nós. E quando o Euro Ncap iniciou suas atividades por volta de 1997, varios carros foram mal nos testes, incluindo carros de alto padrão com bmws e mercedes. Enfim, é melhor deixar isso sob responsabilidade de um instituto independente do que do governo, pois onde o governo põe a mão, estraga…