HISTÓRIA E GLÓRIA DA BRASA 77, UM CARRO DE FAMÍLIA

Essa Brasília tem história.

Lembro-me como se fosse hoje quando em 1979, eu com quatro anos, fui junto com meu pai para comprá-la, e pode-se dizer que foi amor à primeira vista!

Em uma viagem ao litoral de São Paulo em 1981, eu já estava com seis anos e pelo que me lembro foi a primeira vez que ficamos “na mão” com ela. Na viagem de volta, à noite, deu problema no regulador de tensão, e a bateria parou de ser carregada. Tivemos que deixá-la em um posto de gasolina em Cubatão e voltar pra casa de ônibus, até que no dia seguinte meu pai e meu tio-avô foram lá buscá-la e a trouxeram de volta sã e salva.

Durante minha infância toda eu via meu pai e meu tio-avô às vezes fazendo manutenção na “Brasa”, e ficava junto olhando e tentando aprender algo. Desde criança sempre me interessei por mecânica, principalmente por automóveis.

Por volta de 1983, meu pai trocou nosso segundo carro, um Fusca 75 verde abacate, por um Passat verde Álamo ano 82, na época foi preciso uma verdadeira engenharia financeira (meu pai deu o Fusca como entrada e financiou o restante). A partir daí, a Brasa passou a ser nosso segundo carro. Então era minha mãe que a dirigia na maior parte do tempo. Como eu ainda era muito criança, ela me levava e me buscava na escola todos os dias.

Em 1985, aconteceu a maior tragédia de toda a minha vida: perdi a minha mãezinha querida, que faleceu no dia 10 de outubro por conta de uma infecção na corrente sanguínea.

Foi um acontecimento que mudou a minha vida e a de todos em nossa família. Eu tinha apenas 10 anos na época.

Bem, a Brasília começou a ficar mais parada depois disso. Eu passei a dar atenção para ela, talvez até como uma forma de desviar um pouco o foco da tragédia. Apesar de ter apenas 10 anos, eu costumava abri-la, pois gostava de ficar lá dentro. Brincava de dirigir (obviamente sem ligá-la, é claro). De vez em quando gostava de lavá-a, passar cera e “pretinho”.

Conforme os anos iam passando, meu pai já começava a falar em vendê-la, pois como estava sendo pouco usada ia acabar estragando e tal. E eu sempre falava para ele “Não vende não pai, quando eu fizer 18 anos quero dirigi-la!”.

E os anos foram passando, fiquei adolescente, os anos passando, e já com mais idade comecei a ligar o motor de vez em quando, mas nada mais que isso. Às vezes convencia meu pai a darmos uma volta com ela por aí de fim de semana, para que não estragasse.

A ansiedade já atingia níveis sobre-humanos, até que completei 18 anos em maio de 1993, e no mês seguinte tirei minha carteira de motorista. Então finalmente chegou o tão esperado dia: pela primeira vez na história eu iria tirar a Brasa da garagem e realizar o antigo sonho de dirigi-la. E foi logo numa sexta-feira à noite, pois se fosse fácil não teria a menor graça, não é?

Eu estava indo jogar meu futebol com os amigos de toda sexta-feira, coisa que faço (mal) até hoje. Meu melhor amigo estava comigo, para me dar apoio moral (na verdade acho que era mais para me zoar mesmo…(rs)…). Então, com muita emoção e cautela manobrei a danada, e fui saindo da garagem. Inacreditável a emoção que senti quando transpus o limite da rua! Parecia que estava fazendo algo errado! Mas não estava. E fui pelas ruas e avenidas sossegadas (só que não) em plena sexta-feira à noite. Foram cinco quilômetros em 20 minutos de pura emoção. Quando finalmente cheguei ao futebol, parecia que havia acabado de atingir o topo do monte Everest, tamanha a emoção que sentia.

Daí para frente, ela se tornou de vez a minha parceira inseparável. Sim, combinei com ela que nada poderia (e nem nunca poderá) nos separar ! Nem mesmo uma mulher.

E pensar que, antes de eu tirar a habilitação, meu pai vivia dizendo que eu iria enjoar rapidinho de dirigir um carro tão velho e antiquado! Bem, isso já faz 20 anos e não enjoei. Não creio que vá enjoar um dia…

No dia seguinte ao da estréia de pilotagem da Brasa, resolvi que precisava aprimorar a técnica de “rampa”. É que quando fiz auto-escola o instrutor ensinou a arrancar em rampa utilizando o freio de estacionamento para auxiliar. Só que a Brasa estava sem esse freio na época. Então, esse mesmo amigo que me deu apoio moral (me zoou) na estréia, estava novamente junto para me dar mais apoio moral (me zoar ainda mais). Fomos até umas ruas próximas da casa dele, que eram verdadeiras paredes, tamanha era a inclinação daquilo. Aí ele me deu as dicas, tipo “acelera até a metade e vai soltando a embreagem”. Eu até fiz certo, mas o câmbio começou a trepidar tão horrivelmente que achei que fosse sair andando sozinho. Trepidava tanto que a marcha escapava e o carro não saía do lugar. Depois de duas tentativas infrutíferas, falei para o meu amigo, “segura a alavanca de câmbio aí senão a gente não sai daqui hoje”(sem maldade é claro). Aí obtive êxito, e foi assim que aprendi a fazer rampa sem usar o freio de estacionamento. Depois de um tempo, descobri que essa trepidação estava sendo causada devido a uma curvatura inadequada — pouca — no flexível da embreagem.

Bem nesta época, eu também estava iniciando minha faculdade de engenharia mecânica, e a Brasa me levava e trazia da faculdade todo santo dia. Era engraçado, pois a maioria dos estudantes tinha carros novos e até carrões, e eu com a Brasilinha e seu motor a ar fazendo pópópó lá pelo campus… Acho que deviam pensar que eu era um dos funcionários…

Foi também nessa época em que comecei a mexer nela, arrumar, consertar, fuçar etc. Fui aprendendo aos poucos e tomando gosto.

Uma vez estava voltando com ela do litoral, à  noite. Eu estava sozinho, e quando faltava meia hora para chegar em casa os faróis começaram a perder intensidade. Detalhe: a luz vermelha do painel que indica se a bateria está carregando, não estava funcionando. Bem, logo percebi que era problema no circuito de carga da bateria. O mesmo problema que nos deixou na mão em 1981, o maldito relê regulador de tensão do dínamo. Então comecei a conversar com a Brasa (isso mesmo, coisa de louco), dizendo a ela o quanto ela era importante pra mim, como ele é linda, e pedindo pelo amor de Deus para que ela não parasse. Bem, claro que, além disso, resolvi também desligar os faróis e trafegar apenas com a lanterna (farolete) ligada. E deu certo. Consegui chegar em casa. Quando coloquei ela na garagem, desliguei-a. Então girei a chave para tentar ligá-la de novo, e a bateria já estava tão descarregada que não teve força nem para acionar o solenóide (Bendix) do motor de arranque. Simplesmente não deu sinal algum. Bem, depois deste episódio, troquei o dínamo por um alternador de Kombi e nunca mais tive problema.

Em julho de 1998 me formei engenheiro mecânico. Enquanto a maior parte dos que se formaram comigo fizeram formatura, festa e viagem para comemorar, minha opção foi uma pintura novinha para a Brasa, com alteração na tonalidade do vermelho. Sua cor deixava de ser vermelho Málaga e passaria a ser vermelho Ferrara da VW. Essa é a cor dela até hoje.

Em dezembro de 1999, fiz uma coisa muito louca com ela. Estava de férias e resolvi desmontá-la “de cabo a rabo” para fazer uma manutenção mais aprofundada. Então, providenciei quatro cavaletes e duas vigas de madeira, soltei os parafusos que fixam a carroçaria ao chassis, e com uso de um macaco jacaré, retirei a carroçaria de cima do chassis e a coloquei sobre os quatro cavaletes. Foi uma operação extremamente difícil e trabalhosa, dado o fato de que foi tudo feito em uma garagem de fundo de quintal, mais na base da raça mesmo. Feito isso, puxei o chassis por debaixo da carroceria, e aí ficou fácil desmontá-lo. Depenei-o, deixando somente a suspensão dianteira com as rodas, dessa forma eu conseguia movimentá-lo como se fosse um carrinho-de-mão de pedreiro, segurando por dois braços traseiros que sustentam o conjunto câmbio-motor. Raspei toda a ferrugem e o revestimento original, deixando-a quase que “na lata”.

Arranquei os assoalhos dos dois lados, que mais pareciam queijos suíços de tantos furos. Troquei-os por assoalhos inteiros, novinhos em folha. Apliquei tratamento e prevenção contra ferrugem em todo o chassi. Aproveitei também para soldar as travessas traseiras do chassi onde é fixada a suspensão, pois as duas estavam quebradas. Os componentes da suspensão traseira foram completamente limpos e lubrificados. Substituí toda e qualquer borracha, mangueira e rolamento que ali havia. Aproveitei também para fazer reparos de funilaria na carroçaria em lugares onde o acesso só é possível devido à retirada do chassi. Eu literalmente virei o carro do avesso. Meu avô, que na época era vivo, passava lá pela garagem de vez em quando e só balançava a cabeça negativamente. Ele dizia para minha avó que tinha até pesadelos com isso, que achava que eu nunca mais iria conseguir montar o carro. Bem, o fato é que consegui, e ela ficou redondinha, super-macia, ganhou uns dez anos de vida pelo menos. Uma pena que eu não tenha um registro fotográfico desta empreitada. Aliás, não tenho hábito de tirar foto de nada.

Em 2001, conheci minha atual esposa. Nos conhecemos pela internet, e marcamos para nos conhecermos pessoalmente em um shopping. Quando ela me viu chegando na Brasa teve vontade de sair correndo para ir embora (sim, ela me confessou isso uns anos atrás). Mas com o passar dos anos, ela foi se acostumando com a danada. E foi cada dia mais ficando com ciúmes da Brasília. Afinal, ela viu a forma privilegiada com que eu tratava (e trato) meu carrinho. Isso até hoje gera inúmeras brigas. Mas um dia lá no passado combinei com a Brazoquinha que nunca iriam nos separar, nem mesmo uma mulher. E eu sempre levei isso MUITO a sério. E levo. E sempre levarei.

Costumo dizer que a Brasília foi meu primeiro casamento. Acho que devo então ser bígamo, pois tenho dois casamentos.

Bem, minha esposa teve que engolir (a seco mesmo) a presença (ou ameaça?) constante da Brasa.

Temos um segundo carro, ano 2011, que minha esposa usa no dia-a-dia para trabalhar. Mas quando queremos viajar para algum lugar, é a Brazoquinha a escolhida. Quando tem muita bagagem, coloco o bagageiro sobre o teto, e vamo-que-vamo.

Começamos a viajar, nós três, eu, a muié a Brasa, para lugares no interior paulista em 2008.

Em dezembro de 2009, mandei-a para a funilaria e pintura, em um serviço muito bem executado mas que demorou além do previsto. Fiquei dois meses e meio sem ela, foi doloroso, mas valeu a pena.

E em novembro de 2010, mandei fazer tapeçaria completa, na cor bege, que em conjunto com a cor vermelha ficou uma coisa de louco!

Em dezembro de 2010, nasceu minha amada filhinha, hoje com 2 anos e meio. E, por incrível que pareça, ela desenvolveu uma verdadeira adoração pela Brasa! O papai aqui fica todo orgulhoso, é claro…

Em 7 de maio de 2011, bem no dia de meu 36º. aniversário, quando estávamos viajando para Serra Negra à noite, o motor da Brasília fundiu. Já não estava muito bom há algum tempo. Sempre que eu ia viajar, eu tinha que completar o óleo antes de sair de casa, e quando voltava de viagem, já estava vazio de novo. Mas dessa vez eu me esqueci de completar. Eis que na subida da serra de Mairiporã, ela foi perdendo força até que tive que encostar no acostamento. Com uma lanterna em punho, verifiquei o nível do óleo e descobri horrorizado que praticamente não havia óleo. A vareta nada acusava. Então, como eu tinha 2 litros de óleo comigo, coloquei no motor, mas de nada adiantou, pois o estrago já estava consumado. Consegui apenas andar o suficiente para chegar a um posto de combustível onde havia serviços de guincho, e foi assim que voltei para casa antes da hora.

Bem, para não estragar a viagem, já que tínhamos combinado com muita gente e já havíamos reservado as diárias, fui obrigado a recorrer ao carro da minha esposa, mas muito a contragosto. Então, por volta das 4h30 da madrugada, eu transferi rapidamente a bagagem, minha esposa e minha filhinha e teimosamente peguei a estrada de novo. Nem precisava dizer que fui o único acordado durante a viagem, o que me causou uma monstruosa dificuldade de assim me manter. Mas graças a Deus conseguimos chegar sãos e salvos. Lá chegando, já eram 8h30 e muitos tomavam o café-da-manhã. Aproveitamos para fazer o mesmo, e depois não teve jeito, tivemos que dormir um pouco.

Depois de retornar da viagem, tive que finalmente mandar a Brasa para a retífica. Escolhi uma de minha confiança, telefonei e pedi que executasse então o serviço, e que fossem buscar o carro em casa, com um guincho-plataforma. Essas duas vezes foram as únicas na vida em que a Brasa esteve sob a ação de guincho, e acho que a coitada já estava ficando até deprimida.

Após uma semana, fui de carona com meu pai buscá-la na retífica. Quando liguei o motor, o ronco estava redondinho. Uma beleza, dava gosto de ouvir. Então ao sair, o dono da oficina me disse para voltar assim que completasse 5.000 km para reaperto do cabeçote e ajustes. OK.

Depois disso, a viagem inaugural da Brasa foi para a cidade de Águas de Lindóia no interior paulista, onde naquela ocasião estava ocorrendo o encontro anual de carros antigos de 2011, que ao que me parece, é o maior da América Latina. Fui apenas eu e meu amigo, o mesmo das peripécias anteriores. Faríamos apenas um bate-e-volta, por isso fomos cedo e passamos o dia vendo os carros. A Brasa foi bem, mas o motor ainda estava amaciando, por isso estava um pouco preso ainda.

Na época em que o carro saiu da retífica, eu não me lembrei de marcar a quilometragem e nem a oficina marcou. Aí o tempo foi passando e o motor foi ficando sem força, e como eu não sabia a quilometragem, também não tinha como saber se já seria o momento de levá-la para a revisão.

Até que na última viagem que fizemos, em março de 2013, não quis arriscar ir com ela, sem antes fazer o que tem que ser feito no motor. Então, carregamos o carro da minha esposa, e para minha surpresa, minha filhinha de dois anos e pouco, quando percebeu que não iríamos com a Brasa, abriu o maior berreiro da paróquia! Começou a chorar e chorar sem parar, desesperada, apontando para a Brasa e dizendo aos prantos “zília, zília”, já que ela ainda não fala o nome inteirinho. Parecia que era eu, naquele longínquo ano de 1981, chorando por deixarmos o carro naquele escuro posto de gasolina numa das estradas da vida por causa da bateria descarregada.

Para finalizar, preciso relatar que nos dias atuais ela já não está linda como nas fotos. Antes de me mudar para meu atual apartamento, onde a garagem é subterrânea, a Brasa amargou 1 ano e meio guardada em uma garagem descoberta, ao relento debaixo de sol e chuva, e isso causou muitos estragos na pintura e na funilaria, muitos pontos de ferrugem e podridão. E devido a restrições orçamentárias, estou tendo que fazer os reparos de funilaria e até mesmo de pintura (ai que dor no coração…) com minhas próprias mãos, como nos velhos tempos. Eu gosto e sempre gostei de fazer tudo nela, mas o problema é minha falta de tempo nos dias de hoje. E por isso mesmo, comecei a fazer estes reparos em dezembro de 2012 e ainda não finalizei. Cada vez que a vejo na garagem, dá um desânimo tão profundo que é até difícil de descrever.

Mas tenho certeza que ela mais uma vez dará a volta por cima e conseguirei fazer com que ela volte a ser um carro digno de participação em eventos, como ela era de 2009 a 2011.

Espero que tenham gostado da história. E acreditem, esta é apenas uma versão resumida. Existem inúmeras outras histórias a serem escritas, e outras tantas obviamente que ainda estão por vir, já que a Brasa é e sempre será eterna (pelo menos enquanto durar).

E creio que já entenderam porque no título eu a descrevi como um carro de família.

Grande abraço!

LM

ooooo

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