Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas LEI QUE NÃO PEGA – Autoentusiastas
Partes estruturais principais do veículo, quando mal reparadas, oferecem risco à segurança viária (fonte: opopular.vrum.com.br)

Partes estruturais principais do veículo, quando mal reparadas, oferecem risco à segurança viária (fonte: opopular.vrum.com.br)

O leitor do AUTOentusiastas já está acostumado com as nossas constantes matérias reclamando dos habituais desmandos das autoridades e dos responsáveis pelo trânsito, que só servem para afundá-lo ainda mais profundamente no caos que já se encontra. Pois desta vez o caso é ao contrário. O caso refere-se a uma seqüência de resoluções do Contran (Conselho Nacional de Trânsito) surgidas a partir do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), de 23 de setembro de 1997,  que implementam um importante mecanismo de segurança viária, mas que é sumariamente esquecido.

Estas resoluções determinam um procedimento padronizado de avaliação de veículos acidentados e regulam seu retorno seguro às ruas, e no caso disto ser impossível, obriga o descarte deste veículo.

Histórico

O início dessa legislação começa com a regulamentação do CTB, na forma do Decreto nº 2.327, também de 23 de setembro de 1997. Este novo código foi criado para atualizar o anterior, o Código Nacional de Trânsito, de 21 de setembro de 1966, já bastante obsoleto. Entretanto, o código em si apenas menciona algumas melhorias, que deveriam ser aos poucos ser regulamentadas através de Resoluções do Contran.

Segue-se então a emissão de uma série de resoluções provisórias do Contran sobre mecanismos do novo Código, entre elas a Resolução 25/98. Esta resolução apenas dava a classificação dos danos sofridos pelo automóvel num acidente em de pequena, média e grande monta, mas não especificava como chegar a esta classificação e  suas conseqüências.

Tudo ficou no ar por 10 anos, quando então é emitida a Resolução 297/2008 que, aí sim, instituía todo o mecanismo de classificação dos danos e de procedimentos de regularização de veículos acidentados.

Esta resolução só foi regulamentada por meio de outra do órgão, a 322/2009, para logo em seguida ser substituída pela 362/2010, na qual muitos pequenos detalhes foram atualizados, como a permissão de transferência de propriedade para a seguradora e o registro fotográfico do veículo acidentado.

Embora em pleno vigor há meia década, ela ainda não foi operacionalizada e é praticamente desconhecida até mesmo no meio jurídico.

Procedimentos, segundo a Resolução 362/2010

Logo após o acidente, a autoridade de trânsito deve lavrar o Boletim de Ocorrência de Acidente de Trânsito (BOAT), e junto a este, deve preencher um formulário padrão, cujo tipo e interpretação depende do veículo acidentado. Os formulários padronizados e parâmetros de interpretação constam da própria resolução.

 

Formulário

Formulário padrão para automóveis, segundo a Resolução 362/2010 do Contran (fonte: Contran)

Diagrama orientativo do formulário para automóveis, segundo Resolução 362/2010 do CONTRAN (Fonte: Resolução 362/2010)

Diagrama orientativo do formulário para automóveis, segundo a Resolução 362/2010 do Contran (Fonte: Contran)

No caso específico de automóveis, os itens listados no formulário padrão devem ser marcados como não danificados, danificados ou não avaliados. Itens não avaliados são aqueles onde não foi possível à autoridade de trânsito avaliar seu estado após a colisão. Há uma pontuação associada a cada item marcado como danificado ou não avaliado, e estes pontos serão somados após todos os itens serem avaliados.

Se a soma for igual ou inferior a 20 pontos, os danos são considerados de pequena monta, e não há restrição à circulação do veículo. É o caso de uma colisão leve, que peças superficiais, como o pára-choque ou o pára-lama.

Se a soma ficar entre 21 e 30 pontos, os danos são considerados de média monta. Neste caso, o registro do veículo fica impedido de circular pelas vias públicas, devendo ser reparado e a restrição à circulação só pode ser retirada após uma vistoria em posto autorizado pela autoridade de trânsito.

Se a soma ultrapassar os 30 pontos ou se componentes estruturais importantes forem afetados (longarinas, por exemplo), os danos são considerados como de grande monta e torna-se obrigatória a baixa dos documentos e o descarte total do veículo.

Caso os danos do veículo sejam considerados como de grande monta, a Resolução 362/2010 abre espaço para um recurso junto às autoridades de trânsito, ao qual será anexado um laudo feito por especialista (engenheiro mecânico) atestando que o veículo ainda é reparável, sendo que este recurso será reavaliado pela autoridade de trânsito competente para este processo, que dará sua palavra final.

Polêmicas e “gérsons”

A Resolução 362/2010 e suas antecessoras geram muita polêmica nos restritos círculos em que são conhecidas. É evidente que é preciso retirar das ruas qualquer veículo que ofereça risco aos cidadãos, porém a forma de ela ser implementada pode ser motivo de todo tipo de distorções.

Alguns afirmam que este é um procedimento que aumenta a burocracia para o cidadão. Num país onde há excesso de burocracia, será mais uma razão para criar dificuldades para vender facilidades. É um terreno fértil para alimentar despachantes inúteis, propinas e outras corrupções, entraves e custos na vida do cidadão dono do veículo.

Outros apontam que este seria mais uma ferramenta de opressão das autoridades de trânsito sobre o proprietário do veículo acidentado. O sistema de marcação dos itens danificados está sujeito à subjetividade da autoridade de trânsito, e bastam poucas marcas em uma coluna a mais que em outra para mudar a categoria dos danos.

Por outro lado, muitos dos que reclamam da Resolução 362/2010 são aqueles preocupados com seus próprios interesses.  São aqueles “gérsons” que quando o veículo se acidenta com gravidade e sabem que nunca mais o carro vai prestar, mas também não querem ficar com o prejuízo. Então mandam fazer um reparo rápido e barato para vender logo e se livrar do veículo problemático sem perder dinheiro. São os autores do famoso “conserta aí pra me livrar logo dessa tranqueira e deixa o mico pra quem comprar”.

 

Na colisão, a longarina direita desa pickup retrocedeu mais de 15 cm, porém a porta direita abre e fecha sem dificuldade. A parte frontal da longarina já havia sido substituída, mas mal soldada e se soltou. A ação na justiça contra o vendedor é anterior à colisão pelo veículo oferecer instabilidade direcional e ter estranhos barulhos de lata sendo amassada (Fonte: autor)

A longarina retrocedeu mais de 15 cm (foto: autor)

Na colisão, a longarina direita desta picape da foto acima retrocedeu mais de 15 cm, porém a porta direita abre e fecha sem dificuldade. A parte frontal da longarina já havia sido substituída, mas foi mal soldada e se soltou. A ação na justiça contra o vendedor é anterior à colisão devido ao veículo apresentar instabilidade direcional e estranhos barulhos de lata sendo amassada.

Um dos grandes medos dos “gérsons” com respeito a esta resolução é o histórico dos acidentes sofridos pelo veículo, até os mais leves, passar a constar no Registro Nacional de Veículos Automotores (Renavam) e serem facilmente acessíveis antes da compra por quem se interessar em adquiri-lo.

Hoje um carro acidentado pode ser reparado ao ponto de ser difícil perceber que não é original, especialmente por compradores inexperientes, e o veículo não perde valor de revenda. Mas se o histórico for para a ficha do carro e ela ficar acessível ao interessado antes da compra, como estipula a resolução, a desvalorização do veículo é certa ou a transação simplesmente não ocorrerá por desistência do comprador.

É claro que quem pensa apenas em minimizar prejuízos pessoais maquiando o veículo e passando-o para algum incauto pelo valor do carro em perfeitas condições, arranjará todo tipo de desculpas para dizer que a Resolução 362/2010 é ruim.

O ponto mais polêmico desta resolução é o fato de ela estabelecer um patamar de danos que obriga o descarte do veículo. Muitos veículos são reparados em oficinas especializadas com danos superiores aos que a resolução obriga o descarte e recuperam a aparência original. Por isso, muitos acham que a medida é exagerada.

Entretanto, há alguns fatores importantes que não são considerados dentro desta crítica. Carros possuem estruturas de deformação programada. Como veremos adiante, esta estrutura é calculada pelo fabricante para uma absorção adequada da energia de um impacto e isso é rigorosamente respeitado durante o processo de fabricação, mas não há garantia de que este importante fator de segurança seja mantido. Em nome da segurança, o patamar para se classificar o veículo como irrecuperável é muito mais baixo do que simplesmente o da capacidade de se recuperar uma aparência de original.

 

Este Gol sofreu uma colisão dianteira tão severa que criou um afundamento no teto, que foi nivelado com espessa camada de massa plástica, que posteriormente se destacou. (fonte: autor)

Teto afundado reparado com massa plástica, que veio a se soltar (foto do autor)

Este Gol da foto acima sofreu uma colisão dianteira tão severa que criou um afundamento no teto, que foi nivelado com espessa camada de massa plástica, que posteriormente se destacou. É mais um caso de veículo acidentado gravemente, reparado a custo baixo e às pressas, vendido para se livrar do “mic0”.

O mesmo Gol foi repintado com demãos muito finas de primer e tinta. O aspecto era tal que o veículo foi apreendido na vistoria de transferência, com suspeita de carro roubado. (fonte: autor)

Exemplo de pintura mal feita (foto do autor)

O mesmo Gol foi repintado com demãos muito finas de primer e tinta. O aspecto era tal que o veículo foi apreendido na vistoria de transferência, com suspeita de ter sido roubado.

Talvez a categoria mais preocupada com esta questão seja a dos motociclistas. A motocicleta é um veículo muito mais frágil que o automóvel, e os critérios da Resolução 362/2010 são muito mais severos com ela. Assim, a probabilidade da motocicleta sofrer um acidente de grande monta e ela ser descartada é muito maior, e mesmo considerando danos de média monta, haverá burocracia que retardará e encarecerá o conserto da motocicleta, algo que aqueles que vivem desse tipo de veículo não admitem.

Para completar a polêmica, motociclistas, em especial os motoboys, e autoridades de trânsito são desafetos declarados há muitos anos, e a Resolução 362/2010 pode ser mais uma arma a alimentar essa guerra.

 

As motocicletas serão os veículos que mais sofrerão com a Resolução 362/2010 (fonte: motosblog.com.br)

As motocicletas serão os veículos que mais sofrerão com a Resolução 362/2010 (fonte: motosblog.com.br)

O risco oculto da reparabilidade

Veja a foto abaixo. Ela mostra como duas partes de um monobloco viram  uma.

Algumas oficinas fazem da remontagem de carros "frankenstein" uma arte (fonte:opopular.vrum.com.br)

Algumas oficinas fazem da remontagem de carros “frankenstein” uma arte (fonte:opopular.vrum.com.br)

As partes foram soldadas e as uniões disfarçadas com massa. A soldagem não é feita nos gabaritos originais e nem a solda calibrada na fábrica e aplicada precisamente por robôs, é realizada. O carro fica visualmente perfeito, mas o monobloco assim refeito não reage mecanicamente da mesma forma que o original.

Será que num impacto mais severo o habitáculo assim reparado não irá se romper? Será que até mesmo o simples uso normal do veículo não irá estressar os pontos de solda, e o carro irá trincar e se desmanchar em pouco tempo? Um carro com esse grau de reparação não é um carro confiável, e não deveria nunca retornar às ruas. Mas o valor de sua revenda a um incauto fala mais alto.

Vejam este vídeo do Cesvi Brasil (Centro de Experimentação e Segurança Viária, unidade brasileira):

 

Aqui, algumas fotos comparativas do mesmo teste:
(fonte: opopular.vrum.com.br)

Deformação da longarina original (fonte: opopular.vrum.com.br)

Deformação da longarina incorretamente reparada (fonte: opopular.vrum.com.br)

Deformação da longarina incorretamente reparada (fonte: opopular.vrum.com.br)

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Deformação da longarina devidamente reparada (fonte: opopular.vrum.com.br)

Agora reparem no vídeo a seguir:

No ponto onde o vídeo foi posicionado o apresentador fala claramente em pegar veículos com perda total nas concessionárias para correção na mesa alinhadora (também conhecida como “Cyborg”).  O apresentador passa uma impressão de profissionalismo, e de fato o tem, mas a realidade técnica é bastante diferente.

Desentortar com equipamento hidráulico é uma coisa. Garantir que a estrutura permaneça íntegra e resista a um impacto de maneira prevista, como é garantido por uma estrutura original de fábrica, é outra completamente diferente.

O vídeo do Cesvi é bem enfático que zonas de deformação programada não devem ser reparadas e que longarinas não devam ser estiradas, mas sim sofrerem substituição parcial conforme indicação do fabricante, que inclui a soldagem MIG em vez da oxi-acetilênica ainda usada por muitas oficinas. Mas o vídeo da oficina é claro quanto ao repuxo da longarina do veículo com perda total, no caso uma picape.

Quanto custa a reparação preconizada pelo Cesvi? Quanto custa colocar o carro batido na mesa alinhadora? Qual opção a maioria dos donos de carros batidos irá escolher? Quem vai querer ficar com um carro restaurado assim, e quem vai ser “gérson” de se livrar dele logo depois do reparo?

Assim como esta oficina, há muitas outras especializadas e capacitadas na recuperação de carros com perda total, especialmente de seguradoras.

Quanto vale um veículo destes no mercado de carros usados? Esse é um valor que se perde caso a lei obrigue o descarte do veículo. Em vez disso, vários carros “frankenstein”, feitos a partir de 2 ou 3 veículos com perda total e sem critérios técnicos adequados de reparação voltam a circular, mas sem as mínimas condições de segurança para seus ocupantes ou para as pessoas em torno do veículo.

O Cesvi mostra que muitos destes carros até são recuperáveis, mas desde que adotando técnicas de reparação bastante precisas e caras. Sabemos que a maioria prefere as técnicas de reparação mais baratas e menos recomendadas. Depois de efetuados, pode ser difícil perceber que houve o reparo, e mais difícil ainda perceber se ele foi feito da forma adequada ou não.

Por outro lado, as próprias fabricantes preconizam correção de monoblocos danificados em acidentes e até provêm treinamento para os profissionais da rede de concessionários. Muitos têm mesas alinhadoras com a mostrada no vídeo da oficina existentes até nos centros de treinamento das fabricantes. Mas uma vez efetivada a Resolução 362/2010 isso poderá mudar.

A Resolução 362/2010 certamente irá desagradar a muitos ao impor o descarte dos veículos irrecuperáveis ou criar entraves na livre circulação daqueles que sofreram danos moderados até que sejam devidamente reparados. Também não irá agradar constar às claras no Renavam todo o histórico de acidentes e restaurações sofridas pelo veículo que possa desvalorizá-lo profundamente. Porém, o prejuízo individual não deve se sobrepor à segurança de todos.

O autoentusiasta que se impressiona com as imagens espetaculares de destruição dos testes de impacto dos NCAP deveria entender e se preocupar com o comportamento de um veículo mal recuperado e maquiado. Mais do que ninguém, esse entusiasta compreende a importância da Resolução 362/2010.

O custo para a sociedade

É evidente que há um ônus para a sociedade quando um veículo sem condições de segurança volta a circular.  Todos os motoristas passam por dezenas ou centenas de outros carros todos os dias, e é inconcebível que haja uma margem de risco de acidente porque no meio destes tantos carros haja alguns que não estão em plenas condições de circular.  Caberia ao motorista consciente e às autoridades todo empenho para que estes veículos fossem tirados de circulação.

Entretanto, há muitas outras situações igualmente perversas que ocorrem por este motivo e que seriam facilmente evitáveis se estes veículos fossem descartados ou devidamente reparados. A justiça está abarrotada de casos que seriam muito mais simples e teriam julgamento mais justo se estes carros não voltassem à circulação e fossem definitivamente descartados.

Um caso genérico que é bastante recorrente nos tribunais é da pessoa humilde que possui um carro velho que ajuda no sustento e manutenção da casa e da família. Apesar de velho, o carro é bem cuidado e confiável. Um dia, por culpa de outro motorista, este veículo sofre um acidente com danos de grande monta. O motorista culpado se responsabiliza pelos danos, manda para uma oficina, porém o veículo retorna torto e cheio de problemas porque o serviço é feito para ser barato e apenas para sanar a responsabilidade do motorista culpado. Acionada a justiça pelo dono do carro mal reparado em ação de perdas e danos, cabe ao juiz estipular uma pena ao réu uma indenização que cubra o prejuízo material do autor da ação, no caso a desvalorização sofrida pelo veículo em função do acidente. Quando o veículo avaliado, descobre-se que ele já valia muito pouco antes do acidente, e como ainda funciona e mantém algum valor, a indenização pela desvalorização do veículo torna-se pífia.

O dono do carro, além de um desgastante processo na justiça onde recupera um valor ínfimo, agora possui um veículo problemático, provavelmente inútil, e até potencialmente perigoso. É uma situação na qual ele ganhou o processo, porém a justiça não foi feita.

Caso o veículo acidentado fosse classificado como irrecuperável e obrigado a ser descartado conforme manda a Resolução 362/2010, caberia ao juiz a sentença de que o réu deveria pagar o valor integral do bem perdido, o que seria uma decisão mais justa para o autor da ação e mais segura para todos.

Outro caso genérico bastante comum e potencialmente muito mais perigoso que o anterior está relacionado aos “gérsons”. O veículo acidenta-se gravemente e fica imprestável. Para não ficar com o prejuízo, o carro é mal e porcamente recuperado, até porque o reparo tem que ser bem barato, mas maquiado para parecer um carro em bom estado. Este carro é vendido para o primeiro inocente que aparece, geralmente pelo preço de tabela ou até mais caro. Quando o novo dono vai usar, os defeitos do carro aparecem e ele fica com o “mico na mão”.

Há carros tão mal reparados nestas condições, que o aspecto deles levanta suspeitas de carro adulterado durante a vistoria de transferência, e ele acaba sendo recolhido ao pátio de veículos apreendidos até que um longo e penoso processo os leve a uma perícia para comprovar sua autenticidade. E esses casos vão parar nos tribunais.

Também já houve muitos casos onde o consumidor compra um carro usado aparentemente perfeito numa loja, o usa sem problemas por um tempo e quando vai fazer o seguro do veículo tem o pedido negado por constar nos registros da seguradora que aquele veículo já fora descartado por perda total.

Estes são casos genéricos bastante comuns na justiça, mas não são os únicos. Eles sobrecarregam desnecessariamente o sistema judiciário e tornam muitas decisões completamente injustas, além de manter em circulação carros inviáveis em termos de segurança para todos.

Implantação: descaso e oportunidades

Nós, brasileiros pagadores de impostos, já estamos acostumados. Quando é para o governo implantar qualquer medida referente a arrecadação de impostos, ele é referência de eficiência para o mundo. Porém, quando é para implantar aquilo que beneficia a sociedade, esta eficiência é deixada de lado. O “novo” código de trânsito em breve completará 18 anos, e a Resolução 362/2010 já beira meia década de sua publicação, mas na prática, não saiu do papel. O sistema Renavam já deveria ter sido reformulado para receber os registros de acidentes, os Detrans estaduais já deveriam ter toda integração de informações para que os registros de veículos acidentados fosse nacional, mas nada realmente foi feito e implantado. Não há interesse nisso.
Perde com isso toda a sociedade.

Entretanto, talvez a perda possa ser encarada como uma oportunidade. A Resolução 362/2010 é praticamente uma desconhecida de grande parte das autoridades e de grande parte da sociedade. O tempo que passou não pode ser recuperado, porém um maior conhecimento público de sua existência permite que os processos de implantação sejam cobrados e fiscalizados pela sociedade, em vez de ela ser pega de surpresa com medidas impostas de cima para baixo, sem espaço para a salutar crítica aos detalhes.   Se a sociedade se mexer, a falta de implantação pode ser a oportunidade para que a Resolução 362/2010 seja implantada da maneira mais justa possível.

Este atraso também é uma oportunidade para uma conveniente atualização tecnológica de seus procedimentos. Um dos grandes defeitos da forma como a Resolução 362/2010 foi proposta é o uso de um formulário padrão a ser preenchido pela autoridade de trânsito.  Quando uma ficha em papel é preenchida sempre há o retrabalho de lançar os dados no sistema informatizado. Além da duplicidade de esforço, há ainda larga margem para erros. Isto está obsoleto.

Hoje, um smartphone e uma conexão móvel de internet não são bichos de sete cabeças e nem custam fortunas. Os procedimentos dos formulários são facilmente transportados para um aplicativo de smartphone, e os dados entrariam diretamente do local do acidente para a base de dados do veículo junto ao sistema Renavam, sem retrabalho e sem erros.

Um dos diferenciadores entre a Resolução 362/2010 e sua antecessora, a 297/2008, é a obrigatoriedade de se documentar fotograficamente o veículo acidentado em oito ângulos diferentes, tais fotos também fazendo parte do registro do veículo. Todo smartphone possui pelo menos uma câmera, o que torna seu uso como ainda mais apropriado ao procedimento.

O desenvolvimento de um aplicativo que concentre todos os procedimentos da Resolução 362/2010 não oferece qualquer dificuldade, e pode ficar pronto em pouco tempo. Não oferece dificuldades de logística, como a distribuição de formulários padrão, e as atualizações do aplicativo podem ocorrer automaticamente, de tal forma que não se precisa esperar que o sistema esteja totalmente refinado para que seja implantado. Não há, portanto, razões impeçam a implantação plena da Resolução 362/2010 via computação móvel. Ela pode até facilitar a implantação da Resolução na sua totalidade.

Bem ou mal, os procedimentos da Resolução 362/2010 são necessários.  Mas será que mais uma vez, por descaso das próprias autoridades responsáveis, este importante mecanismo de justiça e segurança viária será deixado de lado?

Será mais uma lei que não pega?

AAD

Link para o texto completo da Resolução 362/2010 do Contran

 



Sobre o Autor

André Dantas

Engenheiro Mecânico / Mecatrônico formado pela USP/São Carlos e técnico eletrotécnico pela Escola Técnica Federal de São Paulo. É um tipo de Professor Pardal e editor de tecnologia do AUTOentusiastas. Também acumula mais de 20 anos de experiência em projeto, montagem, ajuste e manutenção de máquinas e equipamentos pesados com sistemas de automação além uma empresa de Engenharia Pericial com foco no ramo automobilístico.

  • Fabio Vicente

    André realmente é uma lei que não pega, e se pegar, irá gerar uma reação em cadeia no que refere-se aos valores para segurar um automóvel (aumentariam consideravelmente), necessidade de uma abrangente atualização tecnológica nos órgãos responsáveis (novos equipamentos e um sistema de gerenciamento mais abrangente, eficiente e a prova de fraudes internas e externas), e talvez até um meio de credenciar as lojas que revendem carros usados, para facilitar a rastreabilidade em caso de fraude ou alguma conseqüência mais grave.
    O fato é que neste país – onde eu perdi quase que completamente a esperança de vê-lo com um mínimo de decência – o sistema é adotado de modo a beneficiar os gérsons e penalizar o cidadão (lembremos que todo gérson é um cidadão, mas nem todo cidadão é um gérson). Eu mesmo conheço várias pessoas que compraram carros condenados, alguns inclusive experientes no ramo automobilístico. E infelizmente, o prejuízo ficou apenas e tão somente com a vítima da fraude em todos os casos.
    Para que esta lei seja implantada com eficiência, é necessário primeiramente consertar nossa sociedade, para que leis como esta seja implantada e aplicada com eficácia.

  • Mr. Car

    São tantas as formas de malandragem possíveis no comércio de um usado, que mesmo sabendo que posso comprar um com dois ou três anos apenas, e até de categoria superior pelo mesmo dinheiro, prefiro o 0-km, exceto nas condições específicas que já citei por aqui: carro usado de alguém de suas relações, único dono, que você tenha certeza absoluta de nunca ter batido, e que cuide muitíssimo bem do carro, não o esmerilhando na forma de usar, nem negligenciando a manutenção. Aí, sim.

  • Carlos A.

    O texto nos leva a uma reflexão muito séria sobre esse assunto. Eu acho natural se essa Lei de fato entrar efetivamente em vigor, por compreender perfeitamente essa questão de resistência dos materiais e todas as variáveis levadas em conta no projeto original com seus cálculos. Talvez pelo fato de ter cursado Eng Mecânica.
    Mas ao leigo que não faz idéia da complexidade da estrutura de um veículo, fica muito difícil enxergar tudo isso. Principalmente se for mexer no bolso como de fato vai ocorrer.
    Infelizmente, no Brasil com toda burocracia é preocupante o rumo e a proporção que essa lei pode tomar no sentido de criarem ‘jeitinhos’ para não descartar esses veículos.

  • Sérgio Afonso

    Eu mesmo, presenciei a reparação de um Peugeot 208, que era de uma funcionária, aqui da concessionária VW (!) . O veículo foi simplesmente “emendado”. Conseguiram a metade danificada num desmanche e fizeram o “serviço” – “porco”, diga-se de passagem.

  • RoadV8Runner

    A ideía da resolução 362/2010 é excelente, mas em se tratando de Brasil, na prática a história vai ser outra, bem outra… Por que? Porque não vai ser dado treinamento adequado a quem for efetuar a vistoria, o que levará a erros de avaliação, gerando liberação de um carro condenado e descarte de outro que poderia ser recuperado. Para funcionar corretamente, o carro teria que ser levado a um centro especializado em avaliação, com pessoal totalmente capacitado em reparação e análise estrutural dos veículos.
    Levanto essa questão por causa do lado antigomobilista que tenho. Por exemplo, o Opala SS 1980 que comprei para reformar tem a longarina dianteira direita trincada e a longarina traseira esquerda com corrosão, mas comprei ambas as longarinas novas, originais GM e serão substituídas por restaurador capacitado, que conhece do assunto e, o que é melhor, conhece a linha Opala. A parte do habitáculo do carro está perfeita, bem como é evidente que o carro nunca sofreu colisão severa, pois todas as longarinas e pontos de solda são os originais de fábrica.
    Concordo plenamente que os carros frankstein precisam ser retirados de circulação, mas para a lei funcionar corretamente, exige um preparo bem feito dos profissionais que serão envolvidos em toda a cadeia de análise. Senão vamos cair na mesma encrenca que foi para eu conseguir regularizar o número do motor de meu Opala no documento. Na época em que o carro foi fabricado, a GM não usava um número de série no motor, mas sim número de rastreamento, só que a lei que obriga cadastrar o número do motor no documento do veículo não levou isso em consideração (duvido que o bando lá na ilha da fantasia, que fez a lei, sequer saiba que isso existe…). Resultado: existem vários motores com o mesmo número, que foram instalados em carros diferentes, tornando um verdadeiro inferno regularizar a documentação. Gastei R$ 700 somente em laudos e na regravação do motor. Foram ao todo seis meses de briga para que o delegado da Ciretran autorizasse a gravação das letras “DASP” no bloco do motor, pois a lei não contempla esses casos, que podem ocorrer em motores da linha Opala, Monza, Kadet, Chevette, VW Fusca, Brasília, Kombi…

    • Christian Govastki

      RoadV8Runner

      Meu pai comprou uma Veraneio 79 no leilão do Senado Federal, ao fazer a transferência, os supercompetentes vistoriadores notaram que o carro não tinha número do motor e com toda a sapiência do mundo disseram que o motor era roubado.

      Com toda a paciência meu pai explicou que pelo ano do carro a marcação do motor não era obrigatória, que o carro era oficial então a possibilidade do motor ser roubado era praticamente nenhuma, ainda mais se fosse considerada a origem do carro.

      A muito custo (no sentido literal da palavra) autorizaram a marcação do motor…

      Por pouco não exigiram lanternas de três cores e pisca-alerta…

      Mas a melhor é a do jipe do meu irmão, ele colocou um extintor de 2 kg, os vistoriadores não aceitaram dizendo que a regra dizia que tinha de ser de 1 kg. Sai correndo para levar o extintor do meu carro (que não encaixava no suporte) para o carro ser liberado…

      É o inferno burocrático do Brasil.

      • RoadV8Runner

        Sei bem o que significa essa encrenca de regularizar número de motor… No caso de meu Opala 1980, o número era igual a de um outro Opala também 1980, cujo motor havia sido cadastrado no documento em 2008 (comprei meu carro no final de 2012). Após eu descobrir que o número que vem no motor dos Opala/Caravan era um código de rastreamento usado pela GMB e não um número de série, foram necessários cinco meses para conseguir regularizar o motor, a um módico custo de R$ 750,00… E, mesmo assim, só consegui regularizar porque o despachante conhecia o delegado, o que permitiu que ele conseguisse conversar pessoalmente e explicasse tudo que eu havia levantado de informações. É o bacaninha de leis nesta terrinha torta, que são criadas sem ver o todo.

    • anonimo

      Por favor:
      Estou comprando um carro que tem esta sigla…
      o que ela significa na real? Por que esta no documento do carro junto ao numero do motor?
      Dá uma ajuda ai amigo!
      Obrigado!
      Att.: Abnarim

      • RoadV8Runner

        Abnarim,
        Provavelmente esse carro que você está comprando passou pelo mesmo problema que aconteceu com meu Opala, ou seja, já existia o número do motor cadastrado em outro veículo. Não sei exatamente o significado das letras “DASP”, mas elas servem para diferenciar o motor do seu carro do outro, que já havia sido registrado antes. Se isso não for feito e ocorrer roubo do outro veículo, ao bloquear o código de motor do veículo roubado, o seu carro também teria o mesmo bloqueio e daria uma dor de cabeça daquelas.
        O fato de existirem as letras “DASP” no motor e no documento não é problema, pois agora essas letras fazem parte do código do motor, por isso precisei de uma carta de autorização do delegado do Ciretran de minha cidade para autorizar a marcação dessas letras no bloco do motor.
        De qualquer maneira, o mais importante ao comprar um veículo usado, é pedir a ficha completa do carro no Ciretran ou Detran de sua cidade. Se houver algum problema, vai aparecer, mesmo que o carro seja de outro Estado. Não confie apenas na certidão que pode ser vista pela internet, tem que pedir no Ciretran ou Detran para ter certeza que o carro está OK, pois a certidão da internet não tem validade legal.
        Abraço!

        • anonimo

          Valeu caro amigo!
          Me ajudou muito, agora é só fechar negócio se ainda for tempo…rs
          Forte abraço!
          Att.: Abnarim

  • Bera Silva

    É possível ao homem comum ter acesso ao histórico de acidentes dos veículos? Pelo que entendi, somente a seguradora possuí essa informação, correto? A seguradora é proibida de repassar essa informação? Grato.

  • lightness RS

    Uma oficina aqui na frente do meu trabalho fez um desses frankenstein, um Clio 2003 com traseira de um 2006 comprado no desmanche, e o pior, depois de pronto não dava pra notar a diferença, até as soldas foram muito bem escondidas, só alguém com alguma experiência e permissão para desmontar os acabamentos do carro conseguiria descobrir seu ”segredo”

    • Essas gambiarras ficam visualmente perfeitas.

      O problema é quando esse carro bater, a solda toda vai quebrar, matar todo mundo, aí, a culpa é do “excesso de velocidade”…

  • Fabio Vicente

    Ah André, só mais um adendo: devemos lembrar que várias concessionárias vendem veículos condenados como sendo zero-km.
    Como? Dizem por aí que não é raro, um carro transportado da fábrica cair do caminhão-cegonha durante a manobra de colocação e retirada do veículo. Logo, muitas concessionárias reparam o veículo e vendem como sendo novo, e os clientes nem percebem o problema, ou percebem somente quando é tarde demais.
    Hoje mesmo, voltando para casa, vi um VW up! torto, quando a traseira parece querer “passar” a parte dianteira do veículo. Se aqueles que deveriam ser referência na venda de carros cometem este tipo de crime, imagine os demais…

  • Thiago Teixeira

    André,
    supor que as autoridades de trânsito “tem uma ferramenta de opressão contra o cidadão” é uma visão muito simplista e ofensiva contra todos quando cabe somente a alguns. Observando com mais critério o cidadão está na mão de todo o poder público; na mão do médico quando vai a uma consulta; do advogado quando vai defender uma causa; do juiz que vende a ação, do garçom, que mesmo sem educação deve ser bem tratado pelo cliente (pois ele trará seu prato, não esqueça) etc. Você esta concentrando um câncer da sociedade em um agente. Tem sempre os bons e os ruins.
    -Tanto o CTB quanto as resoluções do Contran são uma aberração em várias partes ou dispositivos. Leia com atenção e você terá essa conclusão. Vou dar um exemplo da Resolução citada no texto: Um caminhão que venha a ter apenas o pára-choque avariado já estará com média monta.
    -A partir de fotos você preenche o formulário de avarias, já se faz. Não há dificuldades. Não é feito no local nem no hora do atendimento do acidente, embora não tenha proibição. Mas não é um procedimento simples. Pede várias informações. Consulta a situação cadastral das pessoas, veículos etc. Passível de erros? Como qualquer coisa.
    – Em vários estados o agente não vai mais ao local do acidente; só em caso de vítimas. Por que? Por que a maioria dos BATs (ou BOATs) não serão procurados pelas partes; por que falta gente para trabalhar e tem muita demanda; por que um acidente se tornou algo tão corriqueiro que a polícia decidiu que existem outras urgências muito mais importantes. E ainda existe uma “lenda” de que as instituições que a fazem são por causa de lobbies políticos e empresariais, de interesse de seguradoras. Naqueles casos o acidentado vai até um posto de policia (ou faz pela internet quando disponível) é faz o próprio boletim, cabendo a autoridade apenas analisar e assinar o boletim.
    O uso de smartphones já é aplicado há tempos. Mas você tem que ver que só existe conexão de dados em grandes cidades. O Brasil tem quase 6 mil municípios. Essa tecnologia esta longe da maioria, pode apostar. Na verdade não precisa de um aplicativo específico mas apenas com IE ou similar. O entrave é a burocracia.
    – Por fim, um carro que não ofereça condições de segurança quando reformado é o que menos causa acidentes. O que causa acidente é a falta de educação; a falta uma pena ardida para quem mata outra pessoa quando dirige bêbado por ai. Falta um monte de coisa que você acaba vendo que essa questão de carro sinistrado é a mais banal.

  • Luiz F

    André,

    Parabéns pelo texto. Conclui-se que carro usado só dá para comprar, conhecendo o dono ou talvez contratando um desses “fazedores” de carros novos para examina-los, se você confiar…
    Só como ilustração do tamanho do problema, vou contar uma história resumida: Em 2010 eu tinha comprado um Civic zero. Sofri um assalto à mão armada e levaram o carro. Ele foi achado parcialmente desmontado.Foram retirados o capô, uma das portas, as rodas, o painel foi cuidadosamente desmontado, os bancos retirados e outros iguais, mas velhos, foram largados no interior do que sobrou do carro. Conclusão, eles tinham um Civic igual o meu com vários danos e foi mais fácil roubar meu carro e remontar o deles. Nesta ocasião que descobri a indústria dos carros recuperados pelo seguro. São vendidos e “consertados” por particulares que os vendem. Curiosidade: só foram retirados os itens que eles precisavam, embora o carro tivesse 50 km rodados, nenhuma peça do motor, nem as eletrônicas, foi retirada e as rodas foram substituídas por velhas, com pneus carecas só para levar o carro até aonde foi achado. Com todos o cinco parafusos de cada roda colocados!!! Com três já dava para fixar as rodas, mas foram generosos, não?

    • Domingos

      Assalto de garbo e até uma certa moral esse aí. Pegou só o necessário e ainda devolveu bem.

      Que Deus considere isso aí. Ladrão com algum arrependimento hoje é difícil.

  • francisco greche junior

    Muito esclarecedor o texto, aquele vídeo do CESVI mostra claramente a dura realidade, que se bem feito fica próximo ao original, igual jamais, agora se mal feito é realmente sem chance.
    Torço que se implemente tal lei e com a interação proposta por você. Um interesse coletivo não deve sucumbir aos gérsons.

  • francisco greche junior

    Bera se eu entendi bem o texto e o que vejo, não existe tal histórico, somente registros das próprias seguradoras, cada uma de seus veículos. Se compartilham entre sí e com empresas de perícias eu não tenho certeza, mas me parece que sim.

    • Domingos

      Compartilham sim, tanto que vez ou outra uma pode recusar a segurar carro que passou por alguma outra e vice-versa.

  • Luciano Gonzalez

    André, vou comentar um caso que aconteceu em minha família há uns 12 anos atrás:
    Meu cunhado e minha irmã tinham acabado de comprar um apartamento (pago à vista) e com isso, não tiveram muita alternativa, para não ficar a pé, compraram um Gol CL 1990 bem íntegro de uma família amiga nossa, carro de procedência.. um belo guarda – chuva para não terem que andar de transporte coletivo.
    Pois bem: em uma viagem ao estado de MG com destino à chácara dos pais do meu cunhado (Itaverava – MG), eles enfrentaram uma forte chuva e em determinado momento, uma árvore despencou.. meu cunhado ainda conseguiu atravessar a pista e evitar o pior, mas a árvore danificou o teto do veículo e a coluna A sem muita severidade… até aí, era um problema digamos que “consertável”… meu cunhado ligou para o corretor de seguros, e este o orientou a continuar viagem se as avarias não fossem grandes e chegando à cidade de destino, procurassem uma oficina credenciada da Porto Seguro para realizar a vistoria.
    Chegaram tarde à cidade e resolveram deixar a vistoria para o dia seguinte, minha irmã, nova de carta e com pouca experiência, assumiu a direção do Golzinho e, outro acidente… no interior existem nas divisas das propriedades àquelas valas chamadas de “mata burro” e em um destes, haviam duas travessas para mirar as rodas e passar pelo mesmo… minha irmã calculou errado e deixou a traseira cair no dito cujo… resultado: eixo traseiro quebrado e halterbock amassados (alojamentos da suspensão)…
    Não deu outra, a seguradora (nunca disse isso), mas com certeza imaginou que o segundo acidente foi proposital, e de verdade, não foi… não deram perda total e lá se foi o Golzinho para a oficina credenciada Porto Seguro (aqui em SP).
    Trocaram o teto do carro e até que este serviço ficou bom, mas o alojamento da suspensão… trocaram o eixo traseiro, levaram o carro para o ciborg, fizeram o tal alinhamento técnico, mas o carro andava de lado feito um siri, a distância pneu x caixa de roda ficou visivelmente desigual… o que fazer?
    Processar a seguradora, passar o veículo para a frente, sucateá – lo?
    Eu nem retiraria o veículo da oficina e iria para a justiça, mas o meu cunhado, leigo, fez a besteira de retirar o carro, aí assinou a sentença.. ficou uma m…….. perigoso e imprevisível em situações de emergência.. acabou vendendo o carro para um “Catarina” na feira do Anhembi..
    É esse tipo de situação que não pode acontecer, pagamos seguro caro e quando precisamos, esse é o tipo de tratamento que recebemos.. entendo que esse é um caso complicado pois devem existir muitas fraudes semelhantes, mas meu cunhado era segurado há muitos anos, sem histórico de acidentes ou roubos / furtos.. o governo tem de pegar pesado com as seguradoras tb, muito pesado..
    Abraços

    • Eu não mando e oriento a todo mundo que conheço, que não mande seu carro para oficina de seguradora.
      Eles são treinados para gastar o mínimo possível, entre puxar uma barra e trocá-la, imagina o que vão preferir?

      • Lucas

        Pois é. No Brasil o que predomina sempre é o Santo Lucro. O dia que uns caras desses começarem a ser responsabilizados, como a justiça dos EUA faz (excessos a parte), quero ver se a coisa não muda.

      • Domingos

        Hoje em dia eu não recomendo sequer oficina que tenha acordo automático, as credenciadas ou associadas.

        Estão usando peças de desmanche e fazendo reparos frankenstein em vários carros sem sequer comunicar o segurado, além de coisas como peças usadas e paralelas no lugar de originais.

        Aliás, um “amigo” meu que tem funilaria disse que carro barato e com muita peça por aí (Celta, Uno etc.) pode bater à vontade que as oficinas recuperam independente de quanto tenha que cortar do carro.

        Visualmente fica perfeito, o problema é que não fica mesmo como o original e muitas vezes fica bem perigoso.

      • Marlon J Anjos

        Eu também só faço seguro com seguradora que me deixa escolher a oficina.

  • Thiago Teixeira

    Para que tenha um serviço da seguradora o segurado tem que registrar no órgão de transito o sinistro. Logo, o Detran tem os dados do veículo quanto a acidentes. O homem comum tem acesso mas tem a burocracia para ter esses dados.

    • Thiago Teixeira

      Bera, desconsidere. Vi com um corretor que em muitos casos não precisa mais de boletim da ocorrência.

      • Fernando

        E inclusive já vi em diversos casos não ser feito o boletim, caso não tivessem pessoas feridas no acidente. Daí dá para ver como teriam muito mais coisas para começarem a funcionar…

  • RoadV8Runner

    O pai de uma amigo meu, lá pelos idos de 1985, teve o azar de comprar um Escort XR3 que havia caído da cegonha no momento de retirada do carro. A encrenca foi descoberta quando o carro passou a gastar pneu de forma irregular na dianteira direita (se não me falha a memória…). Na concessionária, diziam que estava tudo em ordem. Ao levar o carro em um local particular para conferir o alinhamento de direção, observou-se que estava fora e não era possível ajustar para os valores de fábrica. Foi aí que começou toda a pendenga… Como já naquela época eu tinha meu lado autoentusiasta, esse amigo comentou isso comigo e fui ver o carro. Foi então que descobrimos que a lateral direita estava com formato diferente da lateral esquerda (a direita estava mais “reta” do que a esquerda, que tinha leve curvatura, como deveria ser). Ao levar o carro a um funileiro experiente, na hora ele descobriu que a lateral direita inteira havia sido reparada. Foram bons meses de encrenca judicial até a concessionária admitir o fato e entregar outro carro em substituição.

  • Fat Jack

    Estamos num país onde existem leis “que pegam” e que “não pegam”, onde é bastante fácil notar a diferença entre elas, as “que pegam” são basicamente aquelas que geram arrecadação ao estado.
    Acalentador, não?

  • Tenho um conhecido “picareta”. Compra carro ferrado em São Paulo, “arruma” e vende aqui em Maringá. (onde o valor médio dos carros é mais alto).

    Se vocês vissem cada coisa que o funileiro desse cara faz, é incrível. Deixa os carros aparentemente perfeitos.
    Ano passado, ele comprou um Civic, que havia sido batido na lateral, danificando as portas e a coluna do meio. A coluna ficou torta pra dentro. Inacreditavelmente, ele trocou a coluna B toda, do teto ao chão, e colocou portas novas.
    Até aí beleza, vendeu o carro pra um sujeito, e tempos depois, uma moto bateu nesse carro, bem na meiuca da coluna trocada. Quebrou a solda em cima e embaixo, entrou a coluna com porta e tudo pra dentro, fez um belo estrago nos ocupantes do carro.
    Meu Conhecido?

    “Ah, já passou os três meses da garantia, não tenho mais nada com isso.”

  • Leonardo Mendes

    Por força da profissão da família conhecemos vários funileiros mas um em especial sempre me chamou a atenção justamente pela especialidade em montar Frankensteins.
    O primeiro carro do filho mais velho era um cartão de visitas perfeito… uma Parati 85, acidentada, se transformou numa 90 azul-GTi com motor 2.0, um capeta nos pegas de rua.
    Posteriormente ela foi atualizada com peças das linhas 91 e 93 (com direito as famosas Orbitais) até o filho comprar uma S10 e a Parati acabar seus dias como transporte da oficina.

    Como essa Parati (e também uma Saveiro feita de duas metades a pedido de um guincheiro que a usava como carro de apoio) tem aos milhares rodando pelo Brasil afora… sempre a espera de algum incauto pronto a entrar por um cano solene comprado um “limão” desses.

  • pkorn

    A origem de tudo isso é que os carros são caros demais no Brasil, para algumas famílias são tão difíceis de ter e manter como um imóvel, então isso alimenta toda uma indústria de recuperação de coisas irrecuperáveis.

  • Lucas

    Concordo com tudo o que o AAD coloca em seu texto, mas eu acho tão ruim ou até pior do que a negligência na aplicação dessa resolução, é a negligência em tirar de circulação tantos “paus-velhos” que circulam por aí em visível estado de falta de condições para isso, sem pneus, sem freio, sem luzes, sem limpadores de pára-brisa. Ontem mesmo, a noite e em rodovia, eu seguia atrás de uma S10 que ia lentamente porque na frente havia alguém. Dava apenas para ver que havia alguém porque a caminhonete o iluminava. Era um Del-Rey sem NENHUMA (!) luz funcionando atrás. Lâmpada!! Algo tão caro…. Mais adiante um Gol quadrado quase na mesma situação, apenas um restinho da sinaleira do lado direito funcionando. E o pior é que essa gente passa tranquilamente pelos postos de polícia rodoviária e os preguiçosos irresponsáveis não se mexem! Dá ódio de manter um carro em boas condições, para pegar estrada tranqüilamente e ver essas coisas.

    • Lucas, tanto a Resolução 362/2010 como a inspeção veicular teriam a função de tirar essas jabiracas da rua, mas temos as dirtorções que são naturais por aqui.

      Eu adoraria que esses procedimentos surgissem. Isso até forçaria um abaixamento do preço dos carros, porque ninguém iria agüentar pagar o preço atual para carro estar sendo descartado com 7 ou 8 anos.

  • Grato a todos pelos comentários.
    Vejo que meus objetivos foram atingidos.

    É visível que essa Resolução é importantíssima em diversos aspectos, mas como tudo no Brasil, é preciso que haja conhecimento da sociedade para que se evitem as distorções.

    Eu trabalho com perícia judicial na área automobilística, e passo por muitos casos que se tornam injustos pela falta de aplicação dessa resolução.
    Quando isso acontece, além de colocar o que o juiz pede no laudo, coloco a ponderação que essa resolução existe, está vigente, e caso fosse obedecida, o quadro a ser julgado na ação seria bem diferente.
    Isso é o máximo que eu posso fazer por um processo mais justo. A decisão é do juiz.

  • Vinicius

    Existe uma indústria (máfia) que atua somente neste segmento. Isso só vem a dificultar a ação dos quadrilheiros, mas não resolve a questão. Quem aqui acha que dar PT em carro de 150 mil ele vai para o lixo? Nem a pau ! Se a seguradora for obrigada a descartar 100%, vocês acham que o seguro vai custar quanto a partir de então?

  • Renan V.

    Ainda bem que isso foi publicado. Por isso que o Ae é o que é.

    • Renan, uma das coisas mais prazerosas de escrever pro Ae é a liberdade de escrever sem ter uma pauta que te amarra. Claro que tem matérias em sintonia com lançamentos e coisas assim, mas escrever o que cada um acha importante abre muito espaço para criatividade que os meios engessados não possuem. Por isso sempre estamos escrevendo sobre assuntos que ninguém está escrevendo. Também faz parte da brincadeira não só informar, mas bem informar, e isso muitas vezes passa por ponderar os múltiplos lados do mesmo assunto.
      E o retorno dos leitores é a cereja do bolo da brincadeira.
      Grato pelo elogio.

  • Newton ( ArkAngel )

    Existem limites em relação à extensão de um reparo em um veiculo, e os mesmos são fornecidos pelos fabricantes. Primeiramente, observa-se se existe a possibilidade de reparo, inclusive em relação às peças disponíveis pelo fabricante. Depois, atente-se para a qualidade do serviço e o uso de insumos e produtos homologados. Respeitando-se estas normas, é difícil um conserto ficar ruim. André, você deve ter visto nos manuais de reparação de carroceria da Toyota que existem padrões rígidos em relação a tais consertos.

    • Newton, mas é isso que o texto diz. Existem boas técnicas de reparo. Mas quanto elas custam?
      Se você oferece para o dono de um carro a forma correta de reparo e forma “popular”, qual ele escolheria?

      Depois de reparado, fica muito difícil perceber a diferença, mas na segurança ela é enorme.
      Na dúvida, melhor não deixar o veículo ser reparado.

      Uma das dificuldades de escrever esta matéria foi a questão técnica da reparação. Por sorte havia o material do Cesvi à disposição.
      Quando o assunto é muito técnico, falar para o público leigo muitas vezes parece que só estou “enchendo lingüiça”, mas a diferença é importante.
      O usuário leigo normalmente julga por aquilo que ele entende, e neste caso ele entende se o carro está bonito ou não.
      Quando esse usuário precisa fazer o serviço, olha para a técnica correta e vê que ela custa muito mais que a técnica que todos usam, ele não vê necessidade de pagar mais, e é aí que está o perigo.

      Tenho discussão semelhante em alguns grupos de computação que participo, onde usuários leigos se deleitam por interfaces gráficas de computador bonitinhas e eu vivo dizendo que isso não é tão importante quanto um bom kernel do sistema operacional. Mas é coisa que nenhum não iniciado entende.

  • Felipe Felipe

    Tenho um amigo que possui uma oficina de funilaria, ele diz que para ele quase todos os carros são recuperáveis, basta ter o documento! Por ai vocês imaginam o que eles não fazem.

  • Crlos

    A picaretagem existe desde sempre! Há muito tempo atrás meu primeiro emprego foi de office-boy em um despachante oficial do Detran. Já naquela época eram ´regularizados´ carros sinistrados (final dos 70, início dos 80). Mais recentemente uma conhecida comprou seu sonhado primeiro carro em uma ´loja´ de usados. Na primeira viagem para o litoral, amigos em outro carro, notaram o carro andando de lado. Resumindo era um franskenstein.

  • Malaman

    Mais uma lei que serve apenas para criar burocracia e com isso aumentar o mercado de “favores”. E que não vai resolver o problema, que como foi muito bem mostrado pelo autor, é de grande seriedade.
    A começar pela necessidade de se fazer o BO. Quantas vezes não se vê acidentes, como por exemplo, o carro cair numa vala ou mesmo numa ribanceira, o carro bater numa estrutura e não em outro veículo e o próprio dono fazer a retirada do veículo, sem fazer o BO, por não haver vítimas ou por não causar estrago a outro? O carro nem mesmo vai constar como acidentado, quanto mais saber de qual monta é o dano. E centenas de outras situações que a lei não conseguirá alcançar, pois toda lei é restrita.
    A solução a meu ver, passa por outro tipo de atitude. Aquele que vendeu e/ou que recuperou um carro de maneira irresponsável, deveria ser julgado, dependendo de haver fatalidades ou não em um acidente com tal carro, por homicídio ou tentativa de homicídio com dolo eventual, que é aquele onde o autor assume o risco. Se isso começasse a acontecer sistematicamente, aposto que a maioria do “Gersons” iria pensar umas dez vezes antes de fazer algo do tipo.

    • Rafael Ramalho

      Perfeito seu comentário.

  • Marlon J Anjos

    E aqui em Joinville/SC que a Ciretran não colocava o número do Certificado de Segurança Veicular (CSV) – que corresponde à vistoria de veículos recuperados de acidente aprovada pelo Inmetro – no campo de observação do documento, quando este vinha de outros estados.

    Muitos carros recuperados eram vendidos aqui como de boa procedência sem que a Ciretran observasse que ele já havia sido recuperado.

  • Fernando Furini

    Excelente texto, meu amigo! É mais uma lei que na teoria é ótima, mas na prática, vai dar transtorno, pois vai ter gente recebendo um extra pra permitir que carro de perda total volte a rodar e vice-versa.
    Eu sempre disse e continuo afirmando que estrutura de carro e quadro de moto, têm vida única. Entortou, joga fora. Há um programa bem conhecido no Discovery Channel, o “Dupla do Barulho”, onde eles tentam reformar uma Ferrari F40 acidentada, com monobloco todo espatifado. Eles tracionam a estrutura a frio e no final, ainda precisam alterar pontos de fixação de componentes no carro, deixando claramente visível que continua torto! E olha que é um carro de 478 cv, que em seguida ainda recebeu preparação!
    Outra coisa, tem relação com estrutura, mas não com acidente: O Omega nacional teve um opcional que muitos são fãs, o teto solar. Hoje em dia é um tanto comum adaptar o teto em carro que não o tinha, e normalmente se faz isso trocando o teto inteiro do carro, cortando nas colunas. Só depois o cara percebe a cagada que fez ao ver que o carro não é mais o mesmo, e tenta vendê-lo, pra um “felizardo” que compra um carro que jamais foi acidentado, porém, tem a estrutura tão comprometida quanto se tivesse dado perda total.

    • Furini, as pessoas fazem as coisas pelo que elas chamam de “bom senso”, sendo que nem tudo funciona nessa base.

      Pelo bom senso da maioria das pessoas, uma folha fina de metal que é retirada do teto não é significativa. Mas pegue uma folha de papel e recorte um furo bem grande no meio dela. A resistência é outra.

      Este é mais um exemplo daquilo que eu falo sobre o cuidado que o leigo precisa ter. Ele julga tudo na base da aparência e muitas vezes a aparência engana.

    • Danniel

      Isso é mais comum que imaginava, só no clube que frequento conheço uns 3 que foram adaptados.

  • Luciano Gonzalez

    Mike, concordo com você… tive um pequeno amassado em um dos meus antiguinhos, a pessoa que bateu tinha seguro, mas simplesmente abri mão de dores de cabeça e talvez algum reembolso e arquei com o prejuízo… é duro, mas é real.. não podia levar meu carro em qualquer funileiro com o risco de aleijá – lo… abraços!

  • Barroso

    É por essas e outras que só compro carros usado de conhecidos (que cuidem bem doas carros, óbvio) e não fico trocando de carro com quem troca de cuecas.

  • Newton ( ArkAngel )

    Ja trabalhei em oficina que atendia várias seguradoras, e existem certas imposições que a empresa deve reforçar. Cerca de 90% dos serviços eram provenientes da seguradora líder do mercado, e para ser sincero, eles nunca recusaram nenhuma peça ou serviço solicitado por nós, e somente fornecem peças genuínas. Porém, você tem de provar pelos seus meios que os reparos e peças são realmente necessários. Uma vez provado, nunca criaram problemas.

    • Domingos

      Há quanto tempo isso? Hoje, infelizmente, contam certas histórias meio ruins.

      Ao menos de alguns anos para cá pareceu cair bem o nível de seriedade quanto a peças e procedimentos.