JUVENTUDE DURA, VELHICE FELIZ – POR DANIEL S. DE ARAÚJO – 28/06/15

Daniel A c  JUVENTUDE DURA, VELHICE FELIZ – POR DANIEL S. DE ARAÚJO – 28/06/15 Daniel A c

Nasci em algum dia de 1983 em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, e me levaram para Garça (SP), onde seria deixado num concessionário, que se chamava Sotebra, para ser adotado. E assim, em 23/08/1983, fui adotado por uma família de fazendeiros. Confesso que a experiência me deixava ansioso e ao mesmo tempo me assustava. E realmente foi assustador porque descobri que tinham me comprado para substituir a Azulona, outro irmão mais velho meu, uma Kombi 1977 que já estava exaurida de tanto ser abusada nas lidas rurais.

Meu dono, que todo mundo chamava de Dr. João (em respeito à sua pessoa, reta e boa), sempre andava comigo e se preocupava com minha saúde e integridade física. Fazia-me ser sempre atendido nas oficinas da Sotebra, na época referência em bons serviços aqui na minha cidade. Contudo, o trabalho agrícola era pesado e as pessoas que me dirigiam me tratavam muito mal, abusando de minha saúde que, embora forte, também tem limites!

E assim fui sendo usado diariamente. Durante a semana saía para rodar pelo café, geralmente apenas com o administrador da Fazenda. Vez ou outra, o Dr. João, meu legitimo dono, ia comigo. Quase que todos os dias ia à cidade (algumas vezes, mais de uma vez ao dia), distante uns 25 quilômetros de casa (sendo 13 km de terra) para fazer atividades da Fazenda ou transportar alguém.

Eu andava tanto que conhecia os buracos da estrada como ninguém. As pessoas me conheciam pelo bagageiro: um dia colocaram um na minha cabeça e ao longo do meu trabalho viviam colocando coisas nele, mas o comum era uma escada dessas estilo companhia telefônica, além do meu estepe, em cujo local original costumavam, inicialmente, colocar sacos de cimento, ferramentas e que depois acabou apodrecendo, ficando um buraco.

E assim passava a semana andando no café, acompanhando os serviços da Fazenda, carregando ferramentas, pessoas, levando gente doente para o hospital, grávidas para dar a luz, enfim, servia de carro, picape e, principalmente, jipe, porque andava sempre na lama e areia e raramente atolava, a despeito dos meus Pirelli Tornado Alfa 5,60-15 de andar no asfalto.

Nos fins de semana era comum eu acompanhar os jogos de futebol rural. A Fazenda tinha um time e naquele tempo, colocavam um toldo no Fordão — o Ford F-600 Perkins — e eu ia levando o “cartola”. Vez ou outra tinha que buscar algum jogador em outra fazenda, mas depois, a tarde de domingo era na beira do campo. Pena que eram raras as vezes que não tínhamos que sair correndo: sempre tinha briga.

Também fiz muitas amizades, mas amizade sincera mesmo foi com um menino na época com 7 anos, chamado Daniel, lá por 1986, que me conheceu e ficou meu amigo. Ele era neto do Dr. João e sempre que vinha à Fazenda, enquanto os primos dele freqüentavam a piscina ou andavam a cavalo, o menino ia brincar comigo.

Nessa trajetória rodei 290 mil km. Fiz muitas viagens, fui à praia, São Paulo, Bahia. Sofri quatro reformas no meu coração 1300, usei (e abusei do álcool), mas no final das contas, não fugindo ao meu DNA germânico, me sinto melhor com benzin (gasolina). Óleo e gasolina raramente me faltaram, mas carinho… Isso me fez sofrer muito, até que um dia de 1993 fui encostado. Guardaram-me no fundo de uma garagem e meu coração acabou travando. Arrancaram-me os pára-lamas, meus pneus murcharam e acabei virando um estorvo, ocupando espaço. A Dona Morte começou a me rondar, vários sucateiros querendo me comprar por quilo. Tinha um em especial que queria porque queria me carregar no seu C-60, cuja correia do ventilador era uma corda! Sentia-me um lixo. E era mesmo. Nessa época abriguei até uma galinha poedeira. Fui berço para uma ninhada de pintinhos!

 

Daniel B c  JUVENTUDE DURA, VELHICE FELIZ – POR DANIEL S. DE ARAÚJO – 28/06/15 Daniel B c

“ATENÇÃO: Adicionar 25 ml de aditivo recomendado para motores a álcool para cada 10 litros de combustível”

Nesse tempo, meu único amigo ainda era o Daniel, aquele menino que conheci muitos anos antes, mas ele não ia sempre à Fazenda. Quando ia, se esforçava em me deixar um pouco mais feliz, tentando limpar um pouco da sujeira e tentando fazer meu coração pegar novamente, mas era difícil. Sem ferramentas, sem ajuda. As pessoas à minha volta falando abertamente do meu destino. Já tinha até gente cobiçando as minhas partes, quando um dia de 1995 me arrastaram para fora da garagem e pensei que a morte tinha chegado. Mas não! Jogaram-me em cima do Pingüim (um Mercedes L-1214 que o Dr. João comprara da cervejaria Antárctica) e me levaram para a cidade, onde lá ganhei um câmbio novo e arrumaram meu coração 1300 já meio combalido.

Neste dia fiquei sabendo que eu tinha um novo dono: o Dr João me deu para o neto, aquele menino de 1986, agora com 16 anos. Era 1995. E de lá até hoje venho sendo tratado com muito carinho. Ganhei coração novo e pulsante (um 1600 reconstruído por um antigo mecânico de Volkswagen), meu interior ficou idêntico aos dos meus irmãos de exportação da época, enfim, ganhei uma nova vida e hoje me dou ao luxo de ser até sistemático! Outro dia o Daniel me deixou no galpão de um amigo dele, mas não me contou das pombas que faziam as necessidades em todo lugar e em cima de mim. Fiquei tão nervoso que quando ele foi me buscar peguei fogo na partida. Mas nada de mais, o fato é que ele gosta muito de mim e eu dele.

 

Daniel C  JUVENTUDE DURA, VELHICE FELIZ – POR DANIEL S. DE ARAÚJO – 28/06/15 Daniel C

O volante que me dá direção é meio estranho, é um “V” invertido – não parece porque quando meu dono fez a foto eu estava desprevenido

E, assim, vou para o meu 32º aniversário (veja minha foto atual no início da minha história) com saúde e repleto de carinho do meu novo dono e das crianças dele, que gostam de andar comigo. O Théo, o mais novinho, com apenas 1 ano, sorri o tempo inteiro quando anda em mim e quanto ao Caê, de 10, ele fica especulando quando vai poder me levar para passear! Não tenho placa preta, mas quem precisa dela quando temos um dono que gosta da gente e nos estima?

E em homenagem ao Daniel, meu dono, mostro as fotos de duas pessoas importantes na vida dele: O Dr João, meu primeiro dono e seu avô paterno, e D. Almira, sua avó materna e que tanto gostava e falava dos Fuscas que ela teve!

 

Daniel D c  JUVENTUDE DURA, VELHICE FELIZ – POR DANIEL S. DE ARAÚJO – 28/06/15 Daniel D c

D. Almira, a avó materna do meu dono atual, e Dr. João, o avô paterno dele

DSA

Fotos: autor

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  • Otavio Marcondes

    Parabéns pela história. Que ele dure muitos anos, com mais histórias para serem contadas.

  • Newton (ArkAngel)

    Muito boa a história, lembrei-me agora do Brasília 79 que meu pai tem até hoje. NF original, e o painel intacto, nunca teve nem rádio instalado.

    https://www.flickr.com/photos/ark_an_gel20042003/

    • Daniel S. de Araujo

      Nossa, mas que Brasilia!!!!

    • CorsarioViajante

      Que beleza, parabéns ao seu pai por cuidar tão bem!

    • Danniel

      Parabéns pelo carro!!

    • Carlos

      Meu pai teve dois brasas!!!!
      Que saudade! Parabéns

    • Eduardo Copelo

      Cara, que Brasa!!!! Esse está lindo demais! Parabéns para o seu pai por mantê-lo desse jeito!!

    • Marcelo R.

      Que Brasília lindo! Parabéns!

  • CorsarioViajante

    Muito bonita a história, me lembrou na hora do famoso comercial da Mercedes, o Reincarnatio, só que o seu teve um final feliz! Parabéns!
    https://youtu.be/TWtAP_CqMCo

  • Antônio do Sul

    Contada em primeira pessoa pelo Fusquinha, a história ficou interessante. A maior sorte que um carro antigo pode ter é a de achar um proprietário que goste dele.

  • marcus lahoz

    Muito bacana. Sucesso com o Fusquinha!!!

  • Mr. Car

    Muito boa idéia ter deixado o próprio Fusca contar sua bela história, he, he!

  • Fernando

    Muito legal a história contada na “vida” do Fusquinha, o contato familiar também é algo que nos impulsiona ainda mais quando ligados a algo assim, um carro como este não é só mais um.

    Infelizmente recebi o do meu avô após ele já não estar mais conosco, mas também cuido com muito carinho e para que filhos(e netos) façam o mesmo.

  • Mr. Car

    X 2.

  • Guilherme Jun

    Que bela história! Tomara que tenha uma continuação feliz ainda.

  • Mineirim

    Sensacional! Parabéns, Daniel.
    Força para o Fuca.

    • ccn1410

      “Fuca” é coisa de gaúcho, hehehe…

      • Mineirim

        Foi mal, sô!

  • Em termos de carros (principalmente os antigos!) tenho uma teoria tola: Além de terem “alma” (embora mecânica), são que nem os cachorros e os cavalos… Costumam “escolher” os donos e só funcionam ou obedecem a este…Sei que é bobagem, mas se me perguntarem, por mais pragmático que eu seja, vou jurar de pés juntos que é verdade…!

    • Huttner,
      Teoria tola nada, é fato. Outro dia meu neto de quase 7 anos ouviu minha filha dizer que o Celta dela estava muito velho e disse “Mamãe, não diz isso não porque ele vai ficar triste!”, e ficou alisando o banco, fazendo carinho. Sempre que chego de alguma viagem dou um tapinha no painel e digo “Obrigado, amigão”.

      • Eduardo

        Bob,
        Eu tenho comportamento parecido ao chegar de uma jornada mais longa. Paro na garagem, fico um tempo ainda no interior do carro num pensamento sem termos (chamam de meditação), Saio e olho para ele agradecendo o bom serviço prestado.

      • Aldo Jr.

        Bob: Fico aliviado em saber que, então, não sou o único. Desde a época de corridas ou quando fazia viagens longas, dez ou doze horas seguidas, aprendi a ter um sentimento de gratidão pela máquina que me levou em segurança, as vezes em condições bastante difíceis. Achava estranho me sentir na obrigação de externar isso para um ser “inanimado” mas, agora, não mais. Abs.;

      • Daniel S. de Araujo

        Bob, Huttner e Aldo Jr, isso dai é muito sério! Também levo a sério essa questão da “alma mecânica” ela existe.

        Em especial, tive uma Saveiro que, bastava alguém dirigi-la que nao fosse eu que assim que eu a pegasse para dirigir, sabia que alguém mais tinha pego o carro, como se ela me avisasse. Isso sem mexerem em bancos ou espelho retrovisor.

        O Branquinho também é sistemático: É meio preguiçoso na partida a quente e costuma engasgar para sair da imobilidade em aclives. Ja revisei carburação (troquei inclusive), bomba de combustivel mas não adianta, é dele.

        Na Fazenda tivemos um trator Ford 6600 que em funcionamento em marcha lenta, batia tudo internamente, no motor. Cheguei a mandar refazer o motor em uma ocasião e ele voltou igualzinho. Mas era engatar a primeira e colocá-lo em marcha que ele se transformava. E impressionava pela força descomunal, de chamar a atenção do operador mais experiente.

      • Cris Dorneles

        Bob:

        Eu tive um Celta também, minha esposa na época conversava com ele, agradecia após chegarmos ao destino, chamava ele ”minha abelinha”… Quando foi vendido, ela quase chorou…

      • $2354837

        Vamos lá partir para física quântica…. Segundo o experiência da dupla fenda, quando o fóton é observado há uma mudança de comportamento do mesmo.
        Toda matéria na terra é constituído de átomos. Já há um consenso entre alguns físicos que a matéria possui inteligência, um padrão, toda matéria possui informação (DNA?). Toda matéria vibra e é instável no ponto de vista molecular, portanto toda matéria possui inteligência.
        Não é absurdo perante a ciência dizer que o carro possui alma. Só os céticos não acreditam.

    • Sandro

      E se começar a dizer que quer vender, então… aí que o bicho se enche de birra. Inexplicável.

    • Thiago Teixeira

      Somos muitos com essa mesma teoria.

  • Paulo César_PCB

    Memórias de um Fusca………

    Já leu ?

    • Daniel S. de Araujo

      Nâo li. Preciso ir atrás!

    • Leonardo Mendes

      De Orígenes Lessa, foi o primeiro livro que li na vida.

  • Rafael Ribeiro

    Que legal ler notícias de família num domingo! Você não me conhece, sou um irmão mais velho, 1300-L 1978. Fui adotado inicialmente por uma clínica, usado para levar enfermeiros e médicos aos atendimentos (por isso a criança tinha que ser branca, não era preconceito…). Depois de 4 anos, uma senhora me adotou e me manteve por longos 29 anos, bem tranqüilos aliás. Para falar a verdade, eu pouco rodava. Desde 2011 estou numa nova família, onde sou tratado com carinho, sempre limpo e passeando só nos finais de semana, participando de alguns passeios e exposições com outros membros da família. Grande abraço irmão, mande notícias sempre!

    • Rafael Ribeiro,
      Espetacular, parabéns!

    • Daniel S. de Araujo

      Puxa irmão, que bom que arrumou também boas famílias! Aqui onde moro tem um irmão (dos nossos 21.529.464 irmão que tivemos) que deve ser gêmeo seu. Foi adotado por uma costureira e esta com ela até hoje!!! Deixa eu te mostrar uma foto dele!
      Grande Abraço
      Branquinho

    • Cris Dorneles

      Parabéns!

  • Állek Cezana Rajab

    Muito boa a história e o texto. Parabéns e tudo de bom para você e o Fusquinha. Que o Théo e/ou o Cauê possam continuar a história desse velho amigo seu.

  • awatenor

    Bicho, só sei dizer que fiquei emocionado.

  • Linda história! É fantastico o personagem narrando!

  • Carlos

    Emocionante!

  • vstrabello .

    Bela história!!

  • Davi Reis

    Daniel, que história ótima! Muitas felicidades por mais muitos anos com o Fusquinha guerreiro!

  • Carlos A.

    Muito legal mesmo a história contada pelo Fusca. Parabéns pelo carinho cuidado e zelo que tem com esse carro!

  • Marcelo R.

    Memórias de um Fusca! Me lembrei do livro!

    Parabéns pela história e pelo carro, Daniel!

    Um abraço!

  • Leonardo Mendes

    Fiquei tão nervoso que quando ele foi me buscar peguei fogo na partida
    Nada como o doce sabor de vingança de um carro…

    • Daniel S. de Araujo

      Pior é que da maneira como foi, parecia que ele estava morrendo de raiva mesmo! Vingança no duro!

  • Rafael Ribeiro

    É a minha cara, quer dizer, traseira! Vejo que usa os mesmos calçados, lanternas bicolores, como mandava a legislação da época, e tem espelho plástico como eu, que nasci em julho (os irmãos até a primeira série de 1978 nasciam com espelhos metálicos). Manda um abraço para ele!

  • Rubem Luiz

    Caiu um cisco aqui no meu olho…

  • rafaelaun

    Opa! Temos mais um encarnado! Coisa boa!
    Daniel, excelente texto. Parabéns, ficou de chorar.
    Um abraço,
    Rafael Aun

  • Josenilson

    Daniel, parabéns. Excelente texto. Como tantos outros leitores, também me emocionei. Vida longa ao fusca.
    Josenilson

  • NICKS31

    Essa questão de carro com alma é intrigante, tenho um grande amigo que possui um Fusca 68 há uns 2 anos, o carro já passou algumas temporadas na garagem aqui de casa, é bem cuidado mas fica muito tempo parado. O engraçado é que o Fusca funciona muito melhor comigo do que com o próprio dono, até minha esposa já notou essa birra do carrinho.