Young woman driving car

Recentemente estive no centro velho de São Paulo várias vezes e bastante tempo cada uma. Como andei muito a pé tive a chance de observar coisas que quando se passa de carro não dá tempo. Gosto do centro, apesar de que acho que poderia estar mais conservado e limpo. Mas gosto especialmente dos prédios antigos, do Teatro Municipal, do Edifício Martinelli, da Praça Antônio Prado.

Atravessei o viaduto do Chá — o que dá 240 metros. Quando cheguei do outro lado, era outra pessoa. Não diria mais espiritualizada que não colou, pois já tenho minhas próprias convicções, mas certamente mais surda. Quatro “bispos” tinham tentado me converter para quatro religiões diferentes com todo tipo de argumento. E isso em somente alguns metros. Pensei em sair correndo, mas nunca se sabe com quem poderia ser confundida e o que seria de mim. Ainda não entendo porque eles gritam tão alto. Deus não é onipresente? Se ele está aí do lado, mesmo, para que gritar? Ou seria para mim que eles gritavam? E os golpes na Bíblia? Coitadinha, fiquei com dó. Eu que gosto tanto de livros pensei se algum sebo as aceitaria depois de uma semana de uso…

Num extremo do viaduto um grupo de indígenas tocava todo o repertório de música italiana do festival de San Remo 1968 com arranjo andino, com flautas e “quenas”. Mas, para dizer a verdade, estavam vestidos como cherokees de algum filme da Sessão da Tarde. Logo adiante um sujeito que tentava parecer Jack Sparrow (na versão e trejeitos do Johnny Depp) fazia mímicas ao som de um forró. Peraí, a nave do pirata não singrava as águas do Caribe? E o forró é do Norte do Brasil. Então, . Próximo! E por aí vai. A variedade de pessoas estranhas parece não ter fim.

E já que o assunto é fauna exótica, não é que a erroneamente chamada engenharia de tráfego fez mais uma trapalhada bem no centro da cidade, a somente alguns metros de distância da própria Prefeitura? Bem ao lado do viaduto do Chá inventaram uma ciclofaixa na rua Xavier de Toledo, colada no meio fio. Mas logo depois tem ponto de táxi e de carga e descarga. Dou um doce ao motorista que vem dirigindo pela rua e de repente dá de cara com um carro parado e adivinha o que está acontecendo. Eu que estava a pé e sou inteligentinha demorei a entender do que se tratava. Com isso, sobram apenas duas faixas para que os táxis que não estão parados no ponto se espremam, os carros que passam por ali e os ônibus. Mas, alto lá. A faixa da direita é exclusiva para ônibus por exatos 200 metros. Como vocês sabem que adoro números, pesquisei e por aquele quarteirão passam 36 linhas e cerca de 203 ônibus por hora, no horário de pico. Mesmo quem não é de São Paulo ou nunca esteve na terra da garoa imagina a confusão que isso provoca, não?

 

Xavier 1

Calçada, ciclofaixa, ponto de táxi e de carga/descarga e depois duas faixas de rolamento. Deu para entender? (foto: autora)

Como já disse aqui, evito tratar de temas regionais, mas como a toda hora vejo comentários de leitores de que coisas parecidas acontecem em outras cidades, vamos lá. É sempre bom aprender com os próprios erros, mas é melhor ainda aprender com os dos outros. Poupa tempo e recursos.

Eu juro que tento não voltar ao tema das trapalhadas das empresas e autarquias que deveriam cuidar do trânsito da cidade de São Paulo, mas elas não me deixam. Toda hora tem alguma surpresa. Pena que quase sempre desagradáveis, inconvenientes e desastrosas. E paro por aqui porque minha mãe me disse que certas palavras são feias e não devem ser ditas por uma pessoa bem educada como eu que, no máximo, seria “mal aprendida” porque educada eu fui, sim senhor. Se não aprendi aí é problema meu.

 

Xavier 2

E o que dizer do estado de conservação (?) da ciclofaixa? (foto: autora)

Vocês leitores não tem idéia do trabalho que dá não falar disso aqui. Eu bem que tento. Pesquiso números, assuntos, indicadores de todos os temas possíveis, leio tudo quanto é jornal e site de notícias, mas vira e mexe acabo falando exatamente daquilo que tento evitar. Seja porque me vejo envolvida numa situação bizarra como a da rua Xavier de Toledo, seja porque meu sangue basco-espanhol- italiano-argentino ferve com tanta barbaridade. Mas acho importante analisarmos esses assuntos. Quando era pequena meu pai me disse que se a gente está no ônibus e alguém está pisando no nosso pé, temos obrigação de avisar: olha, você está pisando no meu pé. Aí a pessoa pode se desculpar e tirar o pé de cima do nosso. Ou não, mas aí ela é que é mal educada. Mas se não avisamos, como o outro pode fazer o certo? Vamos supor que não percebe que está pisando no nosso pé…

Sim, já sei, a questão com as autoridades de trânsito de São Paulo é que a gente avisa o tempo todo que estão pisando no nosso pé e nada! Pai, como era mesmo a história?

Mudando de assunto: recentemente o Bob Sharp me enviou um link com um vídeo super-bacana do Alessandro Zanardi. Geralmente não gosto daqueles discursos e seminários tipo “hei de vencer, apesar de tudo”, mas este vale a pena ver. E por coincidência chegou num dia que estava meio murchinha, que eu também tenho meus dias assim. Para quem quiser ver, é só dar um clique aqui.

NG

Foto de abertura: huffingtonpost.com
A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.


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  • Aldo Jr.

    Nora, a esposa esteve em Blumenau, recentemente, e contou sobre a forma com que a Prefeitura de lá fez as faixas de bicicletas utilizando uma parte da calçada de um dos lados da rua. Segundo ela disse, tudo bem feito, sinalizado e sem prejudicar ninguêm. Quem é de lá poderá dar melhores detalhes. Mas a mensagem que fica é de que, com boa vontade, dá para criar lugar para todo mundo. O problema é que, por aqui, não adianta avisar: o prefeito, (com minúscula, mesmo), avisou que ia “pisar no pé” até antes das eleições, e colocamos o mal-educado lá da mesma forma. Que esperança temos de que ele “tire o pé”? Abraços;

    • Nora Gonzalez

      Aldo Jr. conheço exemplos de boas ciclovias aqui no Brasil, como a de Sorocaba, totalmente integrada, em canteiros centrais ou nas calçadas, mas com espaço para os pedestres. Ou seja, é possível, sim. Vou checar a de Blumenau de comento em outra oportunidade.

  • Mingo

    Na primeira foto tem asfalto deteriorado, prédio ocupado, ciclofaixa mal feita e pichações por todo lado. Isso é o que se consegue ver, mas para quem anda pelo centro de São Paulo, também é possível sentir o fedor constante de urina e fezes, que são a marca registrada da maior cidade do Brasil.
    Excrementos. Essa é a cara dos administradores públicos brasileiros.

  • Roberto Aiello

    é Nora, essa doença virou pandemia autoritária, se é que isso existe. não há uma “autoridade” que vise a mobilidade urbana, são adeptos do quanto pior melhor.

  • Mr. Car

    Ok, Nora, papai e mamãe (os meus, inclusive) ensinaram que certas palavras são feias e não devem ser ditas por pessoas bem educadas, mas o escritor Mark Twain me ensinou que “em certas circunstâncias, um palavrão provoca um alívio inatingível até pela oração”, razão pela qual não me furto de proferir várias destas palavras toda vez que administradores públicos me apresentam as “certas circunstâncias”, e você sabe: administradores públicos nos apresentam estas circunstâncias em quantidades gigantescas, todos os dias. Daí, não tem como eu não seguir o conselho do velho Twain, he, he!
    Abraço.

    • Ilbirs

      Eu considero o palavrão um arquivo zipado de um determinado sentimento a ser expresso.

      • Nora Gonzalez

        Ilbirs, adorei a definição! adotá-la-ei. Ou, no discurso moderno, farei benchmarking.

  • Fat Jack

    Tenho comigo a convicção de que a “ciclofaixa” (de forma geral) é uma abominação, pois mesmo que bem estudada, feita e mantida simplesmente desloca o problema para as demais faixas (onde antes haviam 3 faixas de tráfego, haverão somente 2), que dirá esta coisa “dantesca” mal feita, mal estudada e sem as menores condições de uso em sua grande maioria (gostaria de ter escrito mal conservada, mas ela está absolutamente pior que isto), sua função atualmente tem sido a de proporcionar acidentes causados pelos “motoqueiros esperto e cheios de razão” que fazem uso dela praticamente na cidade toda.
    Antes que pensem que sou um “anticiclista atropelador de velhinhas”, destaco que sou totalmente a favor a ciclovia, esta sim, uma via específica, separada dos demais agentes de tráfego, que permite ao ciclista o uso de forma correta, tranquila e riscos absolutamente menores para eles. Acontece que fazer ciclovias exige tempo, dinheiro e boa vontade, e é aí que a coisa deixa de funcionar em São Paulo.
    Quanto ao centro velho da cidade, há algum tempo fiz um curso nos arredores da Praça da República (por onde passei muito quando adolescente) e a situação é lamentável e muito triste, prédios (muitos deles bastante antigos e com uma arquitetura bela e interessante) todos pichados, comércios e mais comércios fechados, um odor flagrante de urina e muitos dependentes de drogas (que passariam despercebidos em qualquer episódio da série “The walking dead”).
    O centro velho mesmo com tantas e tantas promessas encontra-se abandonado há bastante tempo (pelo menos uns 20 anos), é preciso que algum administrador municipal tenha realmente vontade de resolver o problema (que certamente não é tão fácil nem tão barato), pois de quê adianta ter a Av. Paulista como a “Fifth Avenue” paulistana enquanto as imediações da Luz e República mais lembram o Bronx?
    (Nora, desculpe-me o tamanho do comentário…)

    • Marcelo R.

      “Acontece que fazer ciclovias exige tempo, dinheiro e boa vontade, e é aí que a coisa deixa de funcionar em São Paulo.”

      Fat Jack,

      Eu sou totalmente contra as ciclofaixas. Mas, concordo contigo quanto as ciclovias. Essas sim, são a solução correta. Porém, aqui em São Paulo, não existe espaço físico para elas, a menos que se façam milhares de desapropriações para se abrir espaço… Até as faixas de ônibus são erradas. Nenhuma delas (pelo menos até hoje não vi uma só sequer que) tem (tenha) um recuo nos pontos de parada, para que os ônibus possam embarcar/desembarcar os passageiros deixando uma área livre para ultrapassagem dos outros que não tem a necessidade de parar naquele ponto. Do jeito que a “caca” foi feita, hoje, ou fica aquela fila de ônibus (que não vão desembarcar/embarcar passageiro algum), esperando o 1º da fila executar essas operações ou o(s) motorista(s) saem da faixa e invadem a dos carros, como sempre faziam antigamente…

      • Fat Jack

        Perfeitas colocações Marcelo!

    • jrgarde

      Fat Jack, a Paulista também está sendo deteriorada, no pedaço, junto à Consolação, uma nova Villa do Crack já se formou. Ambulantes por toda a extensão e calçadas mal cuidadas.

      • Fat Jack

        Infelizmente as coisas pioram com a velocidade em metros/segundo e se restabelecem (quando isso acontece) em metros/ano..

  • Boni

    Mas o que é isso na última foto? Uma ciclofaixa off-road?

    Impressionante.

  • Marcelo R.

    “E já que o assunto é fauna exótica, não é que a erroneamente chamada engenharia de tráfego fez mais uma trapalhada bem no centro da cidade, a somente alguns metros de distância da própria Prefeitura?”

    Nora,

    Qual a causa do espanto? (rsrs) Aquela criatura, que ocupa o gabinete do prefeito, deve ter dado a primeira mão de tinta nesta faixa e naquela outra que passa em frente a prefeitura, a qual (muitas vezes) eu uso para andar a pé, já que é difícil eu ver uma “bike” ali, e a calçada é muito cheia…

  • Juvenal Jorge

    Nora
    muito bom, é isso mesmo, precisamos avisar.
    Juvenal Jorge avisa muita coisa em seu livro ” O Dia Em Que São Paulo Parou”. Ficção, mas com claros fundos de verdade.
    Ótimo texto, e que fim de mundo passar tinta nos buracos e remendos não ? Baixo nível total.
    Abraço

    • Nora Gonzalez

      Juvenal Jorge, como assim, ficção? É pura verdade que São Paulo parou. Infelizmente. Você bem que avisou…

  • Fabio Toledo

    Excelente Nora! É difícil manter a elegância com essa prefeitura, parabéns por conseguir, além do texto gostoso de ler!

    • Nora Gonzalez

      Fabio Toledo, obrigada pelas suas palavras, mas às vezes dá um trabalho manter a elegância…

  • Diogo

    As ciclofaixas são uma das coisas mais inúteis que a prefeitura de São Paulo já fez. Não pelo conceito em si, já que de fato diversas cidades têm ciclovias que são bem aproveitadas e que fazem parte do equipamento urbano de transporte. O problema em São Paulo é que simplesmente não há demanda de ciclistas para essas faixas. O prefeito-que-eu-recuso-a-escrever-o-nome achou que após a pintura, seria questão de horas para São Paulo se transformar naquelas cidades chinesas, com hordas de bicicletas pelas ruas. Ou se transformar em Amsterdã, como ele prefere. Mas em São Paulo o deslocamento da população é pendular, todo dia de manhã 3 milhões de pessoas saem da zona leste e se deslocam 20 quilômetros até o centro, 2 milhões de pessoas saem da zona sul e se deslocam 30 quilômetros, e à tarde/noite fazem o movimento contrário. Em nenhuma das cidades citadas pelo ilustre alcaide as pessoas fazem deslocamentos tão grandes de bicicleta, nem em Paris, Nova York, Nova Delhi, Lagos, Tóquio, Cidade do México…

    Mas nós somos brasileiros e não desistimos nunca, nem mesmo de governantes incompetentes. Em qualquer lugar civilizado, mesmo aqui na América Latina, esse senhor já teria perdido o cargo. Destacar funcionários da prefeitura para negociar com traficantes foi extremamente grave, e dá uma boa mostra da disposição do partido governante em se relacionar com o lado cinza da sociedade. Mas a maioria da população elegeu e agora merece pagar pela péssima escolha.

    • Ilbirs

      Acrescente-se também a essa história o fato de São Paulo ter uma topografia mais acidentada que boa parte dessas cidades de que você falou e dá para entender perfeitamente o porquê de só vermos o vermelho das ciclovias e praticamente nenhuma magrela sobre as referidas.

  • Rodolfo

    Eu até andaria na ciclofaixa de bicicleta para trabalhar, moro a uns 3,5 km do meu trabalho, mas só faria isso se no meu trabalho tivesse chuveiro no banheiro, pois a gente chega suado no trabalho se for de bicicleta e então ninguém merece ficar fedendo o dia todo.

  • Rodolfo

    Esqueci de dizer que também falta estacionamento particular a preços acessíveis para bicicletas perto do meu trabalho.

    Pois eu não tenho coragem de deixar a minha bicicleta estacionada em um bicicletário público na rua.

    • Mingo

      Eu só vou usar bicicleta para ir ao trabalho no dia em que o Haddad, Tatto e o diretor da CET as usarem também para trabalhar (se eles sabem o que é isso lógico).
      Por quê um trabalhador pode chegar suado, correr risco de vida e nem ao menos ter um lugar seguro para estacionar sua bicicleta e esses nababos andarem de carro blindado com motorista particular?

  • Acyr Junior

    Bem-vindo ao meu mundo Mr. Car. Fui muito bem educado mas, como bem disse a querida Nora, também eu fui mal aprendido !!
    E para desopilar a alma, nada melhor um palavrão bem entonado. E vamos combinar que um palavrão proferido por um tiozão de 50 primaveras tem peso …

  • Rodolfo

    Pior que eles andam de Helicoptero.

    • Mingo

      Rodolfo, essa turma que vive do dinheiro público detesta que uma pessoa comum como nós tenha um carro, possa viajar, colocar os filhos numa boa escola, ter uma casa bonita e limpa, entre outras coisas. Para eles, o que dá prazer mesmo é ver o povo lascado, andando de chinelo, com os filhos na Fundação Casa e pedindo algum tipo de “bolsa” para eles, pois isso dá voto, e muito!

      • $2354837

        Não Mingo, o poder público está pouco se lixando se você vive na rua ou em uma mansão. Tanto faz.
        O que eles odeiam é que você pense. Ou vote no seu adversário. Só.

  • joao

    É para os Suvesbikes…

  • Ilbirs

    Uma coisa que já comentei ontem e que vale a pena continuar falando a respeito: vamos ficar atentos a que destino darão para o fim do Minhocão, pois suspeito que se possa fazer em grande escala uma porquice tão grande quanto essa das ciclovias.

    • Fat Jack

      Essa é outra ideia genial (demolir o minhocão), sob a falsa afirmação de que ele prejudica o desenvolvimento local, basta dar uma olhada rápida pelo (totalmente degradado) centro velho da cidade pra ver que não é o minhocão o gerador de problemas e sim a falta de atenção do poder público. Porque ao invés de demoli-lo (gerando toda dor de cabeça que um só motorista paulistano pode imaginar) pode não se faz de forma a exemplar a sua manutenção (limpeza e pintura) e revitaliza-se a sua iluminação?

      • $2354837

        Para mim transformaria em um jardim suspenso. Embaixo uma rua comercial com bares e afins. Por baixo metrô que já tem e carro na marginal a 110 km/h de limite na expressa.

      • Ilbirs

        Não vejo problema em se demolir o Minhocão, desde que ele seja substituído por alguma outra coisa que faça sua função. Achei bom o projeto da avenida seguindo o trajeto da linha da CPTM e o cunho que querem para o mesmo (que é o de eliminar barreiras que dificultam um espalhamento da população paulistana para áreas de menor densidade). Poderia também ser um túnel no lugar do elevado, seguindo o mesmo trajeto e talvez com mais saídas e entradas (por exemplo, na rua Mário de Andrade).

        Há o inegável fato de o Minhocão ser feio e gerar uma barreira ao fluxo normal da cidade. Seu trajeto também demonstra que não só é feio como é daquele tipo de obra em que só se pensou na função primeira e dane-se a estética e sua inserção no entorno. Há partes dele que estão tão próximas dos prédios ao redor que se conta na casa dos (poucos) centímetros, a ponto de um morador de edificação excessivamente próxima conseguir pôr a mão na grade do viaduto. Também temos o problema do barulho, que reduz a qualidade de vida local, e os carros estarem em um nível que também afeta a privacidade dos moradores do entorno.

        Assim como já falei que as pessoas são atraídas pelo belo e a correlação disso com outras coisas, isso também é válido para obras viárias. O Minhocão é um “Etios” de concreto. Faz uma determinada função? Faz. É bem construído? Sim, a se julgar pelo fato de estar bem inteiro apesar dos muitos anos sem maiores cuidados. Porém, é aquele tipo de coisa em que há alternativas mais bem executadas e que não causariam os problemas que ele causou. Que se observe como era a região da São João antes do elevado:

        https://quandoacidade.files.wordpress.com/2013/06/517.jpg

        http://www.implicante.org/wp-content/uploads/2014/09/pca_marechal_deodoro_minhocao.jpg

        https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/236x/0f/3a/e2/0f3ae24cd76ac6649c21c2be29ce5fd6.jpg

        https://quandoacidade.files.wordpress.com/2011/12/58.jpg?w=545

        https://quandoacidade.files.wordpress.com/2011/12/53.jpg

        https://quandoacidade.files.wordpress.com/2014/05/6851.jpg

        https://ieccmemorias.files.wordpress.com/2011/07/1958-largo-do-arouche.jpg

        Imagine se em vez da estrovenga que conhecemos tivesse sido feito um túnel. Não estaríamos aqui conversando sobre os prejuízos causados e provavelmente a região em questão continuaria tendo sua importância. Poderia ser que São João e Amaral Gurgel tivessem hoje em dia uma função parecida à que tem hoje, por exemplo a Berrini, com a vantagem de estarem em uma área com bem mais infraestrutura. Talvez sequer se construísse a Berrini, uma vez que já haveria algo cumprindo sua função, desestimulando aí a periferização do crescimento da cidade.

        Aqui temos sempre de pensar no que atrai o ser humano. Apesar de hoje em dia haver iluminação pública, isso não muda nossa natureza de animais diurnos, que veem melhor com a luz do sol e com dificuldades à noite. Logo, isso significa que somos naturalmente apreciadores de áreas que ofereçam naturalmente uma boa iluminação e temos um medo instintivo daquilo que não nos permite ver de maneira ampla, sendo por esse motivo que áreas ermas e escuras nos afastam. Somos animais surgidos na savana africana e os ambientes que de alguma forma ofereçam propriedades dela são os que nos fazem sentir bem:

        https://joaquimnery.files.wordpress.com/2012/03/dsc_0255_0001-2.jpg

        Horizonte amplo, visibilidade desimpedida, alta iluminação e uns poucos lugares para nos esconder de perigos são aquilo que nos talhou por milhões de anos. Podíamos nos recolher para cavernas à noite, mas fora isso somos animais feitos para longas distâncias, para o qual nos favorece a postura bípede, que também eleva o ponto de vista quando nos comparamos a nossos parentes próximos. Gorilas são do tamanho de um homem alto, mas só se ficarem em pé conseguem isso:

        http://assets.nydailynews.com/polopoly_fs/1.1466956!/img/httpImage/image.jpg_gen/derivatives/article_970/dallas-anti-social-ape.jpg

        Logo, nosso ponto de visão é mais elevado que o do maior dos primatas atuais e não é à toa que este vive em áreas de horizonte mais restrito, como selvas e montanhas. O mesmo vale para chimpanzés, que podem atingir a altura de um homem médio:

        http://www.aceshowbiz.com/images/still/chimpanzee-pic02.jpg

        Esses macacos, como sabemos, são mais arborícolas, significando que podem atingir um ponto de visão mais elevado que o do ser humano, mas por razões a eles externas. Se formos então pensar em orangotangos, o próprio nome derivado do malaio (“homem das árvores”) já diz que é animal com ambiente bem diferente daquele do qual viemos e no qual nos sentimos bem.

        Logo, querendo ou não, nossos ambientes são mais savanizados e tudo aquilo que se assemelhe a isso nos gera conforto. Avenidas com prédios dos dois lados não nos é problema, uma vez que visualmente análogos em padrão a paredões que pudessem haver no relevo dessa mesma savana. Desde que possamos ver o céu e a luz solar, não nos é problema. E, se olharmos para as grandes civilizações e suas cidades, veremos a tentativa de fazer com que o ambiente se assemelhasse mais às tais savanas:

        http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d3/Teotihuac%C3%A1n.jpg

        http://placehunt.co/wp-content/uploads/2015/01/angkor-wat.jpg

        http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/12/Akropolis,_t%C3%A4nkt_i_rekonstrueradt_skick,_Nordisk_familjebok.jpg

        Temos aqui vistas o mais desimpedidas que se pode, possibilidade de ver longe e privilégio à luz solar. Um viaduto como o Minhocão vai contra essa natureza que possuímos justamente por impedir a tal vista maior, seus baixos serem permanentemente escuros e estar a uma distância das construções próximas que também torna o que estiver abaixo dele ermo, além de também obstruir a vista para cima, aqui também dentro da história de gostarmos de horizontes amplos e que a vista tenha um ponto de fuga facilmente encontrável. Logo, seria natural que acontecesse o que aconteceu.
        É verdade que o Minhocão não é o único problema do centro paulistano, mas aqui é sempre necessário lembrar do impacto que uma obra tem em seu entorno, ainda mais se ela é feita desprezando-se a natureza humana, como foi o caso.

      • SergioCJr

        É real a questão que o minhocão foi um dos fatores que degradaram o centro, enquanto valorizou a região da Francisco Matarazzo, pela “facilidade” de acesso criada à pompéia.

        Familiares já moraram em um prédio de frente para o minhocão (vamos lembrar que os prédios já existiam antes do minhocão) e, realmente, para os moradores é extremamente desagradável (barulho entre as 6 e 22h, fuligem, falta de privacidade e insegurança (alguns indivíduos utilizam o minhocão para acessar apartamentos de prédios mais colocados)).

        Ainda, há a questão que sob o minhocão muitos moradores de rua se instalam, boa parte da iluminação natural do comércio foi prejudicada e, quando chove, os carros que passam no minhocão jogam o excesso de água para a calçada, prejudicando quem está ali com o guarda-chuvas.

        Se vale a visão de alguém que está na região por mais de 30 anos, se a questão do fluxo de veículos for devidamente resolvida e se a especulação imobiliária na área for controlada, creio que a demolição do minhocão só fará bem para a região.

  • Fat Jack

    “…desde que ele seja substituído por alguma outra
    coisa que faça sua função…”
    Ilbris, creia em mim: isto não vai acontecer, o que se espera é que todo o tráfego que passa por lá “de acomode naturalmente”utilizando as vias próximas (e é aí o ponto em que a demolição do elevado trona-se um absurdo).
    Concordo plenamente com as suas observações a respeito da “beleza” e do “foco primário” do Minhocão, pois sem dúvida alguma ele não é a solução ideal sob diversos pontos de vista e, desde que se execute e entregue para o uso (porque tal qual as “obras pra Copa”, não há garantia de se/quando algum projeto vai ser implantado até o dia de sua inauguração) uma
    obra corretiva para o trânsito local, sou francamente a favor a demolição do Minhocão, nem um dia antes.
    A possibilidade de um túnel já lamentavelmente foi descartada (salvo engano) devido ao fato de no trajeto haver uma série de empecilhos como as estações do metrô e seria sim uma ótima alternativa desde executada da forma correta, inverso do que se fez no Anhangabaú.
    Deveria também ter sido dado prioridade ao uso comercial dos
    imóveis da região (apartamentos), hoje algo mais complicado de se corrigir.
    E que bela sequência de fotos, hein! Sacanagem…, isso é
    pra convencer até o mais Malufista (não, não é o meu caso) a se engajar na
    demolição do” Elevado Costa e Silva”. Porém, preciso destacar que a área da Av. São João onde não há o elevado encontra-se atualmente tão degradada quanto.

  • Fat Jack

    Sergio, peço que você dê uma lida na resposta do comentário que eu recebi do Ilbirs, de qualquer forma preciso comentar que alguns dos fatores que você mencionou não são exclusivos da área “sob o elevado” como degradação e moradores de rua (problema que infelizmente aflige todo centro velho da cidade, e as autoridades cada vez fazem mais “vista grossa” para o assunto).

  • Fat Jack

    Luiz, verdadeiramente falando essa é a ideia que menos me agrada, desvirtua o uso do elevado, não ameniza a situação do entorno (na verdade piora-a devido ao intenso fluxo de veículos que estas vias – já cheias de ciclofaixas – herdariam), nem os problemas de iluminação e mendigos/usuários de drogas sob ele, bares (frequentáveis) ali, infelizmente sem chance:
    1- como todo restante do centro velho só se houvesse uma “revolução” no local (pessoalmente duvido disso)…
    2- já há bem próximo uma rua (limpa, segura e frenquentável: R. Canuto do Val)
    Quanto ao limite da expressa, atualmente, mantendo-se em 90 km/h já me parece lindo, haja visto a redução que querem implementar lá…

    • $2354837

      Eu acho que elevado é uma arquitetura já superada em todo mundo. Em todos os lugares onde foi implantado houve degradação da área em volta.
      Usuários drogados e mendigos o problema é social. Que você tenha uma bela praça ou um elevado o problema vai continuar existindo enquanto o poder público tratá-los como excluídos e marginais.
      Sou contra o elevado, acho que foi a pá de cal na degradação do centro e precisamos o uso racional dos carros. São Paulo já foi degradada durante o século XX inteiro. A conta tem aparecido cada vez mais por causa do grande adensamento populacional.
      Eu defendo um êxodo da capital, com benefícios para empresas e pessoas picarem a mula daí.
      Cidade comporta bem 5 milhões de habitantes e só.

      • Fat Jack

        “…elevado é uma arquitetura já superada em todo mundo…”
        Fato!
        Só que é preciso apresentar e executar uma alternativa verdadeiramente funcional aos atuais usuários dele antes de demoli-lo, feito isso, sem dúvida sua demolição seria (a meu ver) benéfica para toda região. O que não pode é demolir e depois começar a pensar numa alternativa que levará décadas para/se for implantada (e é exatamente isso que eu temo).
        Quanto ao uso racional dos carros (concordo sem dúvida alguma, limitações físicas existem em determinados casos), porém o que tem sido feito ultimamente aqui em São Paulo é são os famosos “proíba-se” ou “restrinja-se” sem investir sequer um centavo no viário da cidade, em termos de avenidas por exemplo a última que eu me lembro de cabeça (nas proximidades da área central) foi a ampliação da Av. Brigadeiro Faria Lima…