italia72 manchetes  HISTÓRIA DE LEITOR: O TEMPO NO COMPASSO DA FÓRMULA 1 – POR JOSENILSON VERAS – 21/06/15 italia72 manchetes1

Edição especial da revista Manchete de quando Emerson se sagrou campeão em mundial em 1972, que incluía um disco compacto (likarp.blogspot.com)

Passei a me interessar pelas corridas de Fórmula 1 quando tinha por volta de 10 anos de idade. Para os garotos daquela época, início dos anos 1970, Emerson Fittipaldi era o grande herói das pistas de corrida no Brasil. Eu morava na minha cidade natal, no sertão da Bahia, e lá não havia sinal de televisão regular. Digo regular, pois a bem da verdade, havia sinal, mas precário. Ora pegava bem, ora somente chuviscos na tela. Então meu conhecimento do assunto era adquirido pelas páginas das revistas Manchete e O Cruzeiro, que meu pai assinava.

Fascinavam-me as formas dos carros e todo o glamour que envolvia as corridas. A figura ímpar de Emerson com suas inconfundíveis costeletas, seu sorriso vitorioso que me transmitia sentimento de uma pessoa simples e que inspirava confiança. No meu quarto havia um pôster (algo muito comum para decorar os quartos dos jovens naquele tempo) da clássica fotografia dele no pódio com uma guirlanda em volta do pescoço comemorando o campeonato de 1972. Tudo isso me fisgou e passei a ser um apaixonado pela categoria mais importante do automobilismo.

Em uma das freqüentes viagens que meu pai fazia a São Paulo ele me trouxe um presente inesquecível. Tratava-se de um exemplar da revista Manchete em comemoração do campeonato vencido por Emerson. Era um exemplar repleto de grandes fotografias, textos com detalhes do carro, entrevista e o melhor de tudo, o mais tecnológico para a época: um disco compacto no qual Wilson  Fittipaldi, o “Barão”, narrava a vitória do filho. Lembro que essa revista não saiu de perto de mim por semanas. Eu lia e relia tudo. Observava os detalhes de cada foto.

Ouvia o disco e tentava descobrir outros sons na narração, no ronco dos motores, em tudo. Para que possamos ter a magnitude do que aquela revista representou para mim, temos que lembrar que era uma época em que o acesso à informação era restrito e caro. Não havia o poço sem fundo de informações que temos hoje com a internet a nosso dispor.

Tudo chegava via revistas, livros, rádio ou a precária televisão em preto e branco. Hoje em dia podemos pesquisar vídeos, fotos, textos, todo tipo de mídia a qualquer hora, ver e rever um vídeo quando quisermos. Acho que assim o leitor tem a dimensão da minha adoração pela tal revista.

O tempo foi passando e nosso grande bicampeão deixou a F-1 abrindo as portas para os outros talentos que o seguiram. Ainda no seu tempo tivemos José Carlos Pace, um piloto de muito carisma para mim, até chegarmos aos tricampeões Piquet e Senna. Ao correr os anos 1980 a categoria foi se profissionalizando, ficando mais organizada, mudando e deixando para trás o jeito improvisado vigente até então. Era a chegada da face empresarial, de grande negócio, trazida por Bernie Ecclestone. Nas manhãs de domingo, até meados dos anos 1990, era atração imperdível na maioria dos lares brasileiros.

As corridas, campeonatos, vitórias dos nossos pilotos e tudo mais que dizia respeito à categoria eram eventos que iam marcando minha vida. A fase quando morava com meus pais e via as corridas na grande sala da minha casa. Depois, já como estudante de engenharia mecânica, em que eu acompanhava as corridas por uma pequena televisão no meu simples apartamento de estudante. Assim a Fórmula 1 passou a marcar meu calendário ao longo do ano. Se para muitos brasileiros o ano começa após o Carnaval, para mim o primeiro grande prêmio é que abria os trabalhos.

O ano vai transcorrendo e vou me guiando ao longo da temporada, odiando quando acontecem os grandes intervalos entre corridas e sentido um quê de tristeza quando o campeonato e o ano terminam. Para não perder o contato, acompanho as pequenas notas na imprensa sobre as atividades nesse momento de preparação de uma nova temporada até chegar o momento de apresentação dos novos carros, testes de pré-estréia no inverno, e por aí tudo recomeça.

Quando estudante lembro bem que a aproximação do Grande Prêmio do Japão, o único na Ásia naquela época, era sinal que as férias de final de ano estavam chegando e eu poderia passar dois meses na casa dos meus pais desfrutando de todo conforto que não tinha durante o ano de estudos. Acordar tarde, não ter compromissos e tudo mais que um jovem tem o privilégio de viver. Num desses anos, acho que devo ter ido bem nas provas a ponto de as férias chegarem mais cedo. E a viagem de volta para a casa dos meus pais coincidiu com o dia do GP nipônico.

Viajamos à noite, a estrada estava em obras e o motorista não percebeu um desvio e seguiu reto batendo contra um monte de asfalto retirado da pista para conserto. Não foi nada grave, mas impediu o ônibus de trafegar e teríamos que esperar a vinda de outro carro para seguirmos viagem. Havia um pequeno posto de combustível à beira da estrada, nos dirigimos para lá a fim de esperar a solução do problema. Como havia um televisor na lanchonete, pude acompanhar a corrida naquela madrugada.

Lembro claramente que no dia do acidente fatal de Ayrton Senna eu perdera a hora e quando liguei a TV a corrida já havia começado e a cena era o Williams parado na curva Tamburello, a equipe de salvamento prestando socorro. Na hora imaginei que não seria nada grave. Tentando me enganar, imaginava que um cara como ele não poderia morrer assim numa simples batida em que o carro ainda estava inteiro. Seria uma forma muito trivial de morrer para um herói como ele.

Aquilo devia ser fingimento, espetáculo da TV e logo ele sairia do carro andando após ser reanimado, pois haveria desmaiado ou coisa parecida. Pensei que aquilo era uma chatice já que iria atrasar a corrida. Mas foi um final bem diferente desse enredo que eu sonhava e sabemos o final.

 

Senna atendido  HISTÓRIA DE LEITOR: O TEMPO NO COMPASSO DA FÓRMULA 1 – POR JOSENILSON VERAS – 21/06/15 Senna atendido1

Senna sendo atendido (carinfo.co.za)

Hoje concordo com a opinião corrente que hoje a F-1 foi ficando mais pasteurizada, mais sem graça, mais previsível. Acho que de tanto evoluir nos aspectos profissionais, deixando de ter o caráter aventureiro, talvez romântico, a categoria foi ficando sem sabor. Porém, não deixo de admirar e seguir o campeonato ao longo do ano. Continuo achando nossos pilotos muito bons e torço por eles.

Acompanho a evolução dos carros e motores, gosto de observar um aspecto que muito me encanta que é a aerodinâmica dos carros. Lembro-me quando vi pela primeira vez um F-1 “rasgando” a reta de Interlagos tive o nítido sentimento que aquilo era muito leve e que somente as forças geradas pelos artefatos aerodinâmicos o mantinham “colado” ao chão! Foram segundos espetaculares.

Curiosamente, não fui a muitas corridas, também não agüento ficar na frente da TV quando a corrida vai começando a ficar monótona, mas sou um admirador inveterado dessa categoria. Acompanhado a sua história vemos refletida a evolução tecnológica, social, econômica e política da nossa sociedade. O campeonato é uma forma, para mim, de ver  o tempo passar.

JV

Edição: AUTOentusiastas
Foto da chamada: jotajorge.wordpress.com

ooooo

 

  • André Castan

    Belo texto amigo e já que o tema é esse, segue um vídeo espetacular do evento desse fim de semana. Época em que a F1 era F1. Época em que os carros eram carros. Basta ver a reação do Rosberg (o Nico, não o Keke) no minuto 3:40. Emocionante!!! Já os “carros” de hoje…

  • Mineirim

    JV,
    Muito bacana essa visão de F1 e a vida da gente. Na morte do Senna, também não acreditei. Estava num clube e a comoção foi geral.
    Sobre ficar monótona, confesso: saio da sala quando começam as paradas no box. Fica tudo embolado, classificação “falsa”. Só volto a assistir depois.

  • Mingo

    Josenilson, muita gente daria um rim por essa Manchete com o disco compacto. Eu, como um colecionador de revistas antigas, sei o prazer que é encontrar e ler um exemplar que às vezes procuramos por anos a fio, apesar que a bendita “estante virtual” tem facilitado muito as coisas atualmente.

    • Josenilson

      Quem sabe não encontro essa Manchete! Boa dica.

  • Mr. Car

    Curiosa maneira de marcar o tempo, he, he!
    PS: se eu for fazer um “top 10” das figuras públicas que mais admiro, o “Rato” entra fácil. Além do piloto que nos orgulhou e orgulha como brasileiros, me parece um ser humano de primeiríssima grandeza. Nunca ouvi nada de ruim sobre ele, como muitas vezes acontece de ouvirmos sobre pessoas famosas que admiramos.

    • Josenilson

      Concordo plenamente quanto ao Emerson, Mr. Cat. Figura exemplar.
      Quanto a marcação do tempo, cada doido com sua mania! rsrs
      Abraços

    • Carlos

      Tirando o Helinho, ninguém tem nada a dizer do Rato.

  • Marcus Dias

    Bem por aí! Está ficando bem “pasteurizada”, mesmo! Hoje tenho 31 anos e aprendi a gostar da formula 1 com meu pai que é um apaixonado até hoje e não perde uma corrida. Lamentavelmente também vi o dia da ultima corrida do Senna que ficou marcado para mim como um dos dias mais tristes da nação (se não o mais triste!), durante todo meu tempo de vida.
    Acredito que um dos motivos para essa “monotonia” seja a padronização de fatores técnicos dos carros, exemplo: RPM limitado a certo valor máximo, peso limitado, capacidade cubica do motor, configuração do motor “V6, V8, V10, turbo, naturalmente aspirado” dentre outros. Se houvesse certa flexibilidade nestes parâmetros já daria ao fanático (como nós) maior entusiasmo, assim como ocorre no MotoGP e 24 Horas de Lemans.
    Gostei do relato.

  • Juvenal Jorge

    Jonenilson,
    muito bom seu texto, gostei mesmo, e concordo com você quanto ao “início e final” de ano. Quando acaba o campeonato de F-1 e também de outras categorias, o ano entra em sua fase mais chata.
    Mas aí março chega e começa tudo de novo, com maio e as 500 milhas de Indianápolis junto com o GP de Mônaco fazendo, para mim, o dia mais bacana do ano para ficar em casa.
    Sobre a revista, sei exatamente o que é isso. Tenho algumas (muitas) que marcaram horas e dias de leitura, releitura, trileitura ou apenas olhar e olhar as fotos. E isso sobre carros e aviões, duas paixões enormes que tenho.

    • Josenilson

      Juvenal,
      Não por acaso, eu também sou um apaixonado pelos aviões? Acho que quem admira os carros, naturalmente já foi capturado pela paixão pelos aviões. Assim como todos os leitores do Ae, fico para lá de feliz ao ler cada uma das suas contribuições falando a respeito de aeronaves. Sempre muito densas em dados e informações, além de fáceis de ler.
      Obrigado por seu comentário. Ainda hoje sinto muito não ter conservado comigo a edição da Manchete a qual me refiro no texto.

  • JT

    Comecei cedo a me interessar por Fórmula 1, por causa do desenho do Speed Racer. Eu tinha cinco anos de idade, o carro do Speed Racer era número cinco, e quando passava as corridas na TV, lembro de perguntar para o meu pai quem era o número cinco. Era o brasileiro Nelson Piquet com seu lindo Brabham Parmalat azul a branco. Que felicidade ver recentemente, numa livraria, a miniatura desse carro à venda. 50 mangos bem gastos!

  • Fat Jack

    Excelente post!
    A pasteurização a menu ver é decorrente de 2 fatores:
    1- A eletrônica embarcada, cada vez menos o “feeling” do piloto conta: hoje se o carro começa a indicar um aquecimento nos freios traseiros por exemplo a equipe vê pela telemetria, avisa o piloto e ele “vira uma chavinha” mudando o balanço dos freios, antes era o piloto quem tinha que notar o que e porque o carro estava “estranho” e mudar sua forma de guiar para levar o carro até o fim da corrida…
    2- A mudança de “esporte” para “espetáculo”, hoje o que importa realmente na F1 (lamentavelmente) é quanto se vai lucrar, quanto os sheiks árabes vão pagar (não falei investir, porque isso já não importa) pra terem a F1 correndo no seu país e etc… O lucro deixou de ser a função secundária da categoria para ser a primária, e eu particularmente eu acho que o responsável por isso é o Sr. Bernie Ecclestone.
    Nossa, não há melhor descrição para o que passei naquele fatídico dia:
    “…Lembro claramente que no dia do acidente fatal de Ayrton Senna eu perdera a hora e quando liguei a TV a corrida já havia começado e a cena era o Williams parado na curva Tamburello, a equipe de salvamento prestando socorro. Na hora imaginei que não seria nada grave. Tentando me enganar, imaginava que um cara como ele não poderia morrer assim numa simples batida em que o carro ainda estava inteiro….”

  • Diplo86

    Excelente texto. Me faz lembrar minha juventude e o quanto eu contava os dias esperando chegar nas bancas a revista Duas Rodas. Eu fazia questão de ler o nome do autor da matéria só no final, mas sempre conseguia identificar os textos do Josias Silveira, Gabriel Marazzi, Roberto Araújo e Geraldo Simões. Era como se fossem velhos conhecidos, dado o modo peculiar de escrever. Foi uma grande satisfação descobrir o Ae e “reencontrar” o Josias aqui.
    Quanto a morte do Senna, eu lembro que naquele domingo estava na Igreja, mas havia pedido para minha mãe gravar a corrida no vídeo-cassete. Antes do culto terminar já sabíamos do acidente. Ao chegar em casa e assistir o vídeo, o que mais me marcou foi a engasgada do Galvão Bueno quando apareceu a mancha do sangue no chão. Me emociono só de lembrar. Foi horrível e parecia interminável o silêncio do Galvão. Deve ter sido o momento mais difícil da vida dele. Já procurei este vídeo no YouTube e não encontrei. É de arrepiar.

    • Lucas Garcia

      Difícil de acreditar, mas meu pai disse que nos dias anteriores ao fatídico dia, vinha sonhando com o acidente do Senna e aquele grande cortejo que viria a acontecer, e como de costume ele sempre assistia as corridas no fim de semana mas ‘falhou’ naquela corrida por um compromisso qualquer.

      Sempre que fala de Ayrton Senna ou faz aquelas homenagens a ele relembrando ‘x’ anos de morte……., ele me fala essa história.

  • Cesar Mora

    Da um prazer enorme ler um texto e encontrar sentimentos similares aos nossos… Olha Josenilson, eu devo ter uns 20 anos a menos que você, mas me identifiquei demais! andar “pendurado” com revistas para cima e para baixo na era pré-internet, marcar o ano pelo calendário da F-1 (na época que o GP do Brasil iniciava a temporada), eu tinha até um café da manhã específico para os domingos de corrida quando pequeno, nas manhãs de inverno durante a temporada européia… A ansiedade pelo início da temporada que sempre marcava com um programete antes do Globo Esporte na hora do almoço e reprisado antes do Jornal da Globo… contando a preparação, os inúmeros testes, as novidades do regulamento… realmente não me senti o único “maluco” agora rs…

    Sobre o fatídico 1º de maio, me lembro com uma riqueza de detalhes que me assusta, por ter apenas 7 anos, por ter ficado anos sem comer feijoada que era o prato do dia, por ter sido a única vez que deixei de assistir no SBT ‘”Herbie, se meu fusca falasse” para ver o Fantástico, por ser novo demais para ir acompanhar o cortejo, e ficar o dia todo em frente á televisão, com meu “Pé-na-tábua” da Mclaren 91’.
    Lembro de fazer uma pergunta à minha finada mãezinha, que hoje adulto, imagino o nó na garganta que deu nela, pois um ano antes da perda do Ayrton eu havia perdido meu padrinho, um grande entusiasta e que plantou em mim esse amor incondicional por carros e corridas, e indaguei ela: “Mãe, por que todo mundo que eu gosto morre?”, mas em ambos os casos estas perdas deixaram um elo para que eu possa revivê-los, e por isso para mim carros não são só carros, e corridas não são só carros gastando combustível.

    • Josenilson

      Cesar,
      Excelente seu comentário, um complemento a minhas lembranças.
      Parabéns.

  • marcus lahoz

    Excelente texto. Sou de 79 assim não vi o Emerson ganhar na F-1, mas vi as vitórias na Indy. No dia da morte do Senna eu estava dormindo e meu pai me acordou, pensei: ele levanta logo, não deve ser nada.

    Acompanho a F-1 há muito tempo, e agora cada vez mais. Apesar de reclamar da categoria ainda espero pela sua melhora. Por sinal, tudo que for de carro estou assistindo. Hehehe