Vettel espia, Rosberg disfarça e Hamilton questiona: o clima da F-1 em Mônaco (foto Ferrari.com)

Vettel disfarça, Rosberg espia e Hamilton questiona: o clima da F-1 em Mônaco (foto Ferrari.com)

Na largada os três protagonistas já se destacaram (foto Mercedes Benz)

Na largada os três protagonistas já se destacaram (foto Mercedes Benz)

Mônaco nunca foi um lugar para ter certeza de alguma coisa, em que pese a lenda de que a pole position é meia roleta girada a caminho da vitória. Numa F-1 cada vez mais robotizada, decisões tomadas pelo cérebro humano com base em dados matemáticos são tão desastrosas quanto distrações mundanas. Pode-se dizer que aí está uma das belezas da vida, o elemento surpresa ou, diriam muitos, o espírito do Imponderável de Almeida que o mundo viu estampado no rosto de Lewis Hamilton ao dividir o pódio de Mônaco com seu inimigo de equipe e o alemão Sebastian Vettel. Perto dali, o bam-bam-bam da Mercedes na F-1, Totto Wolf, buscava nos cantinhos de cada bolso do seu uniforme um fiapo que pudesse cobrir o clima de fim de festa sob o desperdício do champagne quente borrifado em mecânicos inebriados com mais uma vitória da marca alemã.

 

Hamilton recebeu pedido de desculpas de Totto Wolf (foto Mercedes/Florent Gooden/DPPI)

Hamilton recebeu pedido de desculpas de Totto Wolf (foto Mercedes/Florent Gooden/DPPI)

Deve ter sido muito duro perder uma corrida ganha, mas eu não tenho dúvidas que ele (Hamilton) vai superar isso rapidamente, como já se recuperou no passado

As palavras de Totto Wolf após a corrida não podiam ser muito diferente, mas dizer que Hamilton se recupera rápido de contratempos pode soar como um otimismo exagerado. Não há como deixar de lado os percalços extra-pista de Hamilton, das suas paixões aos seus empresários, e até o divórcio de seu ex-mentor e ex-mecenas Ron Dennis. Dito isso, um novo revés no GP do Canadá (dia 7 de junho), pode causar danos consideráveis à sua relação com a equipe, algo que nem a renovação do seu contrato, em números estratosféricos, possa evitar.

 

Rosberg: " Ele merecia a vitória, mas...~(foto Mercedes.com)

Rosberg: ” Ele merecia a vitória, mas…~(foto Mercedes.com)

Não foi a primeira vez, e tampouco será a última, que um GP teve um desfecho tão sorumbático. Além do próprio vencedor ter admitido que o seu principal rival merecia ter vencido, a derrota do líder do campeonato fez surgir um equilíbrio tão moderado quanto inesperado entre os três primeiro classificados na tabela de pontos — Hamilton (126), Rosberg (116) e Vettel (98). Não dá nem para pensar que o alemão de Maranello é favorito, como não se pode negar que ele se mantém no páreo. Afinal, diminuiu a diferença para o líder e foi o único rival de verdade para os carros prateados; os dez segundos e cinco posições que separaram os dois Ferrari (Kimi Räikkönen terminou em oitavo), mostram novamente um finlandês mais próximo do marcador de pontos da Lotus de 2012 do que do campeão mundial de 2007, sintomas de mudança de ares no final da temporada.

 

Vettel segue se afirmando como líder e motivando a equipe (foto Ferrari.com)

Vettel segue se afirmando como líder e motivando a equipe (foto Ferrari.com)

Enquanto isso, Rosberg e Vettel vão mineiramente comendo pelas beiradas. Não que se espere um revival da catastrófica e bizarra temporada de 1982, quando tudo indicava o domínio dos Ferrari de Villeneuve e Pironi e, tragicamente, nenhum dos dois chegou ao final do campeonato. Em tempos de uma F-1 politicamente correta e de carros nascidos em computadores da próxima geração, a marcação homem-a-homem a cada GP aproxima coadjuvantes de luxo da glória do título.

 

Kvyat e Ricciardo fizeram jogo de equipe no final (foto RedBull/Dan Istitene/Getty Images)

Kvyat e Ricciardo fizeram jogo de equipe no final (foto RedBull/Dan Istitene/Getty Images)

Nem todo mundo, porém, está focado nessa briga de cachorro grande: Renault — via suas equipes Red Bull e Toro Rosso —, Force India, Sauber e, pasme, McLaren, aproveitaram as circunstâncias para tirar suas casquinhas, tarefa facilitada pela apresentação fora de esquadro da Williams. Daniil Vvyat (quarto), Daniel Ricciardo (quinto), e Carlos Sainz (décimo) aplicaram doses de bálsamo nas feridas que unem a marca francesa e suas equipes.

Na Red Bull um fato inusitado: Ricciardo deu pinta que poderia atacar Hamilton nas voltas finais e teve autorização para superar Kvyat; quando ficou claro que isso estava fora do seu alcance, o australiano foi instruído a devolver sua posição ao russo, que finalmente pontuou na casa de dois dígitos por corrida. Sainz, mais uma vez, andou forte nos treinos e correu focado na base do grão em grão para encher o papo. Seu companheiro de equipe impressionou, é verdade, mas novamente se deixou trair pelo excesso de confiança ao não contar com a astúcia de Romain Grosjean, que freou um pouquinho mais cedo na St. Dévote. A batida forte reeditou o desfecho da participação de pai no GP de 1996.

 

Sergio Perez conseguiu o melhor resultado do ano (foto Sahara Force India)

Sergio Perez conseguiu o melhor resultado do ano (foto Sahara Force India)

A aparição desastrosa e pífia da Williams, cujos carros jamais mostraram um rendimento a altura do esperado, permitiu que equipes como a Force India e McLaren, fizessem a festa. O arrojo de Sérgio Pérez e o estilo cantilênico de Jenson Button foram as principais causas dessas equipes pontuarem; ao que tudo indica, apenas se a equipe de Felipe Massa incorrer no mesmo erro e ficar fora dos pontos é que tais proezas poderão acontecer num futuro próximo. A Force India promete novidades significativas só para o GP de Silverstone e a McLaren, agora com pintura mais escura, ameaçou renascer das cinzas: num raro circuito onde a potência é menos importante que torque acabou dando a primeira alegria à Honda em forma de três pontos.

 

Jenson Button andou sempre nos top 10 e obteve os primeiros pontos da equipe em 2015 (foto McLaren Media Centre)

Jenson Button andou sempre nos top 10 e obteve os primeiros pontos da equipe em 2015 (foto McLaren Media Centre)

Na mesma balada, Felipe Nasr colheu mais dois importantes pontinhos para a equipe Sauber, resultado que ajuda a chamar a atenção de equipes maiores e consolidar a Sauber como equipe apropriada para desenvolver novos talentos. Certamente no final da temporada o progresso de Nasr trará bons dividendos a ambos.

 

Felipe Nasr segue fazendo um bom trabalho e é o melhor estreante da temporada (Foto Sauber/D.Reinard)

Felipe Nasr segue fazendo um bom trabalho e é o melhor estreante da temporada (Foto Sauber/D.Reinard)

O resultado completo do final de semana em Mônaco você encontra nesta página.

 

Montoya vence a segunda em três tentativas

 

Montoya, segunda vitória em tres tentativas na Indy 500 (foto Indycar.com)

Montoya, segunda vitória em três tentativas na Indy 500 (foto Indycar.com)

O colombiano Juan Pablo Montoya não se classificou entre os primeiros, largou em 15° em um grid de 33 concorrentes, fez uma entrada inútil no box e voltou à pista antes de poder trocar a carenagem traseira do seu carro danificada por Simona de Silvestro e, ao final de 3h5’56”5286 cruzou a linha de chegada como vencedor da 99ª Indy 500, a milionária e importante prova do calendário mundial de automobilismo. O prêmio de Montoya, que já tinha vencido a corrida no ano 2000, foi cerca de U$$ 2.449.055…

 

Tony Kanaan andou sempre entre os primeiros mas bateu ao sair dos boxes (foto Indicar.com/J.Haines)

Tony Kanaan andou sempre entre os primeiros mas bateu ao sair dos boxes (foto Indicar.com/J.Haines)

Will Power, seu companheiro na equipe Penske e que liderou várias das 200 voltas da clássica competição, terminou em segundo pela escassa margem de 0”1046. Os brasileiros Tony Kannan e Hélio Castro Neves não tiveram bons resultados: o primeiro despontava como candidato a vitória e andava no pelotão dianteiro até bater após uma troca de pneus com três quartos de corrida; Helinho ameaçou mas um ataque na fase final mas um toque com um concorrente desalinhou seu carro e ele fechou em sétimo lugar.

 

Helinho liderou uma volta mas perdeu rendimento no final (foto Indicar.com/J.Haines)

Helinho liderou uma volta mas perdeu rendimento no final (foto Indicar.com/J.Haines)

 

Piquet Jr lidera F-E

 

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COm o terceiro lugar em Berlim, Nelsinho Piquet assumiu a liderança na F-E (foto F-E.com)

Lucas Di Grassi venceu a etapa de Berlim do Campeonato FIA de F-E, disputada sábado no circuito de Tempelhof, mas foi desclassificado depois que os comissários técnicos da categoria descobriram um reforço ilegal na fixação da asa dianteira do seu carro. O belga Jêrome d’Ambrosio herdou o primeiro lugar e Nélson Piquet foi promovido a terceiro, atrás do francês Loic Duval e agora soma 103 pontos no torneio, contra 101 do suíço Sébastien Buemi e 93 de Di Grassi. O campeonato prossegue dia 6 de junho, em Moscou. Atração à parte nessa etapa foi o desfile que reuniu nada menos de 577 carros elétricos, número que superou em 70 veículos o recorde mundial da “especialidade” estabelecido em setembro de 2014, no Vale do Silício, em setembro último.

 

Prova teve o maior fesfile de carros elétricos já realizado: 577 veículos de duas, três e quatro rodas (foto F-E.com)

Prova teve o maior fesfile de carros elétricos já realizado: 577 veículos de duas, três e quatro rodas (foto F-E.com)

 

WG

A coluna “Conversa de pista é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.


  • Mineirim

    Foi lamentável a parada do Hamilton. O Safety Car estava na pista, faltavam menos de 10 voltas para o final. Se fosse no meio da corrida, tudo bem, outros carros teriam que parar. Continuo torcendo para o Rosberg.

    • Wagner Gonzalez

      Pois é, Mineirim,

      Apesar de toda tecnologia embarcada e estacionada (nos boxes), erros assim acabam dando um colorido inesperado e interessante.

  • Fat Jack

    Foi absurda a chamada de Hamilton para os boxes, uma “lebre morta” com direito a dobradinha da Mercedes, ou alguma alma vai me dizer que acredita numa disputa com o Rosberg atacando o Hamilton???
    Se alguém teve dúvidas de que na penúltima etapa já houve uma manobra (sutil) visando o favorecimento do Rosberg, (por quem eu antigamente até nutria alguma simpatia) e o equilíbrio do campeonato, desta vez a coisa foi descarada.
    Confesso ter ficado especialmente decepcionado ao ver alguém como Niki Lauda no meio desta sujeira. Depois de quase 2 horas, ver um final como este… Para mim ficou a clara mensagem ao fim da corrida:

    • WSR

      Que palhaço feio. Terei pesadelos hoje, rs.

    • Wagner Gonzalez

      Como tudo na F-1, e em vários setores da vida mundana de cada dia, é preciso colocar em perspectiva e digerir com calma (o que pede bons vinhos), o que se lê e escuta sobre a categoria. Se num primeiro momento a culpa foi toda da Mercedes – e até Totto Wolf se desculpou publicamente –, 48 horas depois surgiram notícias de que Hamilton optou por entrar no box, o que elimina as teorias conspiratórias de que foi uma jogada para avivar o campeonato. Pessoalmente, acho o episódio uma salada de erros e quem contribuiu menos para os ingredientes da salada foi Nico Rosberg, que semeou por muitas voltas e colheu os frutos na hora mais adequada.

      • Fat Jack

        Ah Wagner, eu gostaria tanto de conseguir crer que estas notícias não são apenas para formação de uma cortina de fumaça…, mas não consigo, acho que se tivesse partido dele (Hamilton) a “genial” ideia:
        1- ele não teria ficado tão consternado no pódio;
        2- a Mercedes não teria se desculpado publicamente, assumindo a culpa;
        3- não teriam demorado 48 horas para divulgar a “mea culpa” do piloto.
        Tem sentido ou estou delirando?

        • Domingos

          Também acho o mesmo. Aliás, junto com o DRS esses dois últimos campeonatos têm sido um show de fabricação.

          Até as faíscas exageradas que colocaram nos assoalhos é coisa de quem tem que inventar…

          • Fat Jack

            Nossa, nem me fale dessa “aberração”!!!
            A coisa está chegando a um ponto no qual eu já começo a me envergonhar de acompanhar a categoria. Acho que se mais alguma palhaçada acontecer este ano eu desisto…

  • Fabio Toledo

    Pode ter sido uma palhaçada… Mas não não vou muito com a lata do Hamilton e achei demais a carinha dele no pódio! kkkkkkk

    Gostei do… “o estilo cantilênico de Jenson Button”… Sou fã!

    • Domingos

      O que seria cantilênico? A palavra tem menos de 10 resultados no Google!

      • Fabio Toledo

        Procure cantilena… Lembrei do “No latim strategĭa…” kkkkkkkkkk

  • WSR

    Adorei a prova de Mônaco. Da monotonia ao inesperado. Pelo menos isso para animar um pouco a F-1 da “Era Asa Móvel”, rs.

    • Wagner Gonzalez

      WSR (Algo a ver com a Wet Surrey Racing, do neo-zelandes Dick Bennets?),

      O manjado Imponderável de Almeida citado no texto.

      • WSR

        Não é. WSR é a abreviação do meu nome completo. Como meu primeiro nome é horroroso, prefiro usar apenas a abreviação.

  • Chico

    Esta Fórmula 1 atual está dando náuseas, carros de controle remoto e posições decididas pelos chefes de equipe .

  • André Castan

    Não gosto do Hamilton e estava torcendo contra ele, mas dou toda razão por ele ter ficado irado. Resultado armado na cara dura. Que vergonha essa F-1. Suja ao extremo. Está muito mais divertido assistir a F-E.

    • Wagner Gonzalez

      André,

      Suja, mas menos “aburrida” como diriam nossos hermanos…

      Abraço,

      WG

  • marcus lahoz

    Wagner

    Não acredito em erro, acredito sim em um acordo para agitar o campeonato.

    Canadá em geral tem boas provas vamos torcer.

    A Indy foi demais, que corrida disputada, foi muito bacana. Foi tudo que a F-1 não foi. Agitada, imprevisível e muito veloz. Senão fosse aquele retardatário no final o Montoya poderia ter perdido.

    A Nascar teve as 600 milhas de Charlotte, boa também. Mas o troféu vai para a Indy.

    • Wagner Gonzalez

      ML,

      Sem dúvida essa componente tem valor (veja comentário meu mais abaixo), mas o Nico Rosberg foi quem soube melhor se aproveitar e menos se queimar.

      Concordo que a Indy foi a mais interessante das competições do fim de semana, a cereja do bolo foi o Montoya colocando duas rodas na grama em um circuito onde a velocidade média é superior a 350 km/h…

      Abraço,

      WG

  • RoadV8Runner

    Quando vi o Hamilton entrando nos boxes, eu não tinha dúvidas que a vitória estava indo para o ralo. Ou foi um erro medonho de estratégia ou então um favorecimento velado para o Rosberg.

    • Domingos

      Eles esperavam que o Vettel parasse também. Ou ao menos é o que falaram…

      Burrada no mínimo, pois ninguém com um carro ao menos 2 segundos mais rápido conseguiu fazer uma ultrapassagem nessa corrida.

      • Wagner Gonzalez

        Caros Roadie e Domingos,

        Acho que foi uma combinação de fatores, isto sim. E Mônaco, onde o jogo é livre e incentivado, era um local apropriado para tal.

        WG

  • Fat Jack

    Concordo…, é exatamente por isso que ele encaixa bem demais na situação…

  • Mineirim

    Sabe que também pensei nisso? Tio Bernie achou um jeito mais barato de agitar o campeonato.

  • Domingos

    Agora sim… Não tinha achado uma definição antes!

    • Wagner Gonzalez

      Usar “cantilIênico” no mínimo fez algumas almas vivas aplicar minutos preciosos em uma boa pesquisa…

      Agradeço o prestígio.

  • Domingos

    Fez mesmo. Foi bom aprender uma nova palavra! Obrigado.

  • Mineirim

    A teoria da conspiração não se sustenta.
    No site oficial da Formula 1, aparece um “vídeo edit” da corrida, com a troca de pneus pedida pelo Hamilton:
    1. O engenheiro avisa pelo radio: “Safety car. Mantenha-se na pista”.
    2. O Hamilton questiona: “Tem certeza? Meus pneus perderam temperatura. Os outros estão com pneus supermacios! (option tyres).
    3. O engenheiro imediatamente responde: “Box, box!”.

    Dá pra conferir a conversa ao final do vídeo:
    http://www.formula1.com/content/fom-website/en/video/2015/5/Race_edit__Monaco_%2715.html