Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas O MILAGRE DOS SINAIS, INTRODUÇÃO – Autoentusiastas

O MILAGRE DOS SINAIS, INTRODUÇÃO

Minha primeira imagem - ao vivo pela internet - visto da sonda Pathfinder (fonte: NASA

Minha primeira imagem – ao vivo pela internet –visto da sonda Pathfinder (fonte: Nasa)

Primeira Parte

Era o dia 5 de julho de 1997 e eu estava na frente do computador e conectado na internet pelo meu então potente modem de 14,4 kbps, ansioso como todo e bom nerd. No dia anterior, feriado nacional americano, a sonda Mars Pathfinder havia pousado em segurança em Marte, e para o sábado, a Nasa havia anunciado a cereja do bolo: ela transmitiria “ao vivo” a liberação do rover Sojourner preso a uma das “pétalas” da sonda para circular entre as pedras e areias de Marte.

Não havia tanta tecnologia na internet da época, e fazer o download de uma simples foto pequena era um desafio pesado para muitos computadores caseiros. A internet ainda não possuía muitas das ferramentas que a tornam tão flexível como hoje. Não havia qualquer  tipo de vídeo online, e o máximo eram fotografias de baixa resolução que demoravam muito para serem baixadass através de conexões discadas precárias que podiam cair a qualquer instante.

Em termos mundanos, a  Sojourner não fez grande coisa. Durante toda sua vida útil não as moveu mais que 100 metros e não se afastou do olhar atento das câmeras da Pathfinder mais que 12 metros. Ainda assim, foi um grande momento. Aquilo não foi no jardim das nossas casas, mas num distante mundo alienígena perdido nas profundezas do espaço. De certa forma, era como estar em Marte junto com aqueles valentes desbravadores eletro-mecânicos…

 

Foto de 360 graus em torno da sonda Pathfinder mostrando a trajetória de pesquisa do rover Sojourner (Fonte: NASA)

Foto de 360 graus em torno da sonda Pathfinder mostrando a trajetória de pesquisa do rover Sojourner (Fonte: NASA)

Mas, esperem! Vamos parar aqui e pensar um pouco. Será a aventura toda foi só isso? Será que não há outras maravilhas aqui, ocultas pelo brilho dos atores principais? Certamente que há.

O primeiro deles é, como uma sonda tão pequena, alimentada por painéis solares num mundo mais afastado do Sol que o nosso consegue funcionar e ainda nos enviar seus sinais através do espaço profundo? E como conseguimos captá-los aqui?

Estas perguntas começaram a mexer com a minha mente naquela hora, e logo a mesma internet começou a me mostrar resultados ainda mais saborosos. Enviar sinais para serem captados pela pequena antena de alto ganho da Pathfinder não era problema. Joga-se energia sem limites nos transmissores e o sinal que lá chega é suficiente para a sonda nos ouvir. Porém o desafio de ouvir aqui a sonda era muito maior. A potência de transmissão, limitada a poucos watts e centrada numa frequência de 8 GigaHertz, e após atravessar 190 milhões de quilômetros, o sinal chegava com a ínfima potência de 0,0000000000000000025 watt,  captado pelas antenas de 34 metros do Deep Space Network, da Nasa. E esse ínfimo canal de upload da sonda para a Terra enviava dados digitais a uma velocidade entre 1 e 2 kilobits por segundo, o que é muito lento perto das comunicações por internet atualmente.

 

DeepSpaceNetwork

Antena australiana do Deep Space Networt, conjunto de transceptores para enviar e receber dados em sondas no espaço profundo (fonte: Nasa)

Mas isso não é tudo. A potência recebida era tão pequena que representava apenas uma parte contra 6000 de ruído de fundo que compunham tudo que era captado pelas antenas. O sinal precisava ser amplamente tratado para ser recuperado totalmente antes dos dados serem processados, e eles podiam ser dados técnicos da sonda e do rover, como dados científicos dos sensores ou imagens das câmeras.

Só depois disso que os dados foram disponibilizados na internet, e todo um complexo sistema de sinais codificados fez a foto sair de um servidor na Nasa, viajar pelo mundo através de links e roteadores da internet e finalmente chegar em minha casa para ser decodificado pelo modem e pelo computador.

Este é só um vislumbre do tipo de milagre promovido pelo processamento de sinais. Hoje há toda uma parte da engenharia dedicada ao processamento de sinais. Ela está por toda a parte, mesmo onde as pessoas nâo vêem, e, claro, isso faz parte dos automóveis. Não é possível criar automóveis modernos sem a engenharia de processamento de sinais.  Sistemas mais avançados de segurança, como ABS e bolsa inflável, novos sistemas de comunicação como internet 3G4G para integração do automóvel com a internet, motores mais econômicos, menos poluentes e mesmo assim ainda mais potentes, dependem da evolução da ciência dos sinais.

Dois grandes processadores de sinal

Quando eu disse que o sinal da Pathfinder chegou muito fraco até nós, a ponto de ser apenas 1 parte em 6000 constituída de ruído de fundo, e ainda assim o sinal foi recuperado com êxito, límpido como se tivesse sido emitido da sala ao lado, não mencionei como isso é feito.

O sinal altamente ruidoso precisa passar por um sistema de filtragem para recuperar o sinal original. Isto pode ser feito por meio de filtros analógicos, projetados para esta função, ou pode ser tratado por um computador.  O computador é um processador de sinais por excelência, graças à sua capacidade de processar enormes quantidades de dados numéricos através de cadeias de comandos estruturados, os chamados programas. Troque o programa e o computador estará fazendo um tipo completamente novo de filtragem e tratamento de dados.

No caso do sinal da Pathfinder, os computadores integravam o conjunto de antenas do Deep Space Network para funcionarem como uma única antena gigantesca do tamanho do planeta Terra, e ao mesmo tempo ser capaz de focar o sinal enviado pela sonda no meio de tanto ruído.

Podemos não perceber, mas fazemos algo muito parecido de forma natural. Quando conversamos com alguém em ambiente aberto, há muito ruído em torno de nós, mas nosso cérebro consegue focar na fala de nosso acompanhante de forma que conseguimos uma percepção perfeita do que ele diz, “apagando” o ruído em volta. É uma capacidade natural significativa do nosso cérebro.

Nosso cérebro é uma poderosa máquina de processamento de sinais. Quando você se concentra para ouvir uma pessoa com quem conversa ou presta atenção num num avião passando no céu, ele está realizando um intenso processamento de sinais antes que os dados filtrados cheguem à parte racional. Assim sendo, cérebro e computador são dois poderosos representantes de sistemas para processamento de sinais. Um vindo do mundo natural enquanto o outro, do mundo tecnológico.

Um dos ramos da ciência busca agora respostas para o significado dos sinais das sinapses, de forma a poder futuramente integrar o cérebro do operador ao computador hospedeiro. E vários progressos vem sendo feitos nesse sentido, derrubando muitas das fronteiras entre ambos.

Uma antiga piada

Existe uma antiga piada que conta que um cardiologista cirurgião se aposentou e decidiu fazer um um curso de mecânica de automóveis. Ele era entusiasta e gostava de se manter ativo. Quando ele estava para terminar o curso, precisou fazer duas provas para tirar o certificado de conclusão. Uma prova era teórica e outra prática, cada uma valendo 10 pontos, num máximo de 20 pontos. Ele fez as provas com tranqüilidade e tinha certeza de sua aprovação.  No dia de as notas saíram, a surpresa: para ele a nota havia sido de 30 pontos!

O velho médico, certo que havia algum engano, foi conversar com o professor, e este explicou:
Não há erro algum. Sua nota é essa mesma. Você teve nota máxima na prova teórica, portanto, 10 pontos. Você montou o motor completo sem o menor erro de montagem, mais 10 pontos. Mas ter montado o motor completo e sem erros através do cano de escapamento é um feito que merece um 10 adicional!

Por incrível que pareça, esta piada mostra um aspecto importante da moderna ciência do processamento de sinais.

Pense no que é o controle que temos da nossa TV através do controle remoto. Há apenas um link de infravermelho entre o controle remoto e a TV, e ainda assim o controle executa funções bastante complexas. O controle remoto envia pelo link de u=infravermelho um sinal pulsado que é interpretado pela TV e esta obedece o comando.

 

Controle remoto: exemplo de quão complexo pode ser algo tão simples e funcional. (Fonte: Wikipaedia)

Controle remoto: exemplo de quão complexo pode ser algo tão simples e funcional. (Fonte: Wikipedia)

Pense na internet, onde uma conexão por par telefônico ou fibra ótica temos acesso ao mundo. Por todos os lados, vemos que o milagre dos sinais imita a piada do escapamento, criando um duto estreito, por onde funções bastante complexas podem ser enviadas e posteriormente recuperadas e realizadas. Este é um dos poderes ocultos da tecnologia dos sinais que está revolucionando o mundo moderno.

Informação e ruído

Todas as vezes que alguém se refere a um sinal, de certa forma esta pessoa estará falando em informação, e o que não for informação é ruído. Apesar desta definição parecer simples, ela não é.

 

Sinal e ruído: uma questão de referencial e de compreensão do processo (fonte:datascientistinsights.com)

Sinal e ruído: uma questão de referencial e de compreensão do processo (fonte:datascientistinsights.com)

Pense que você está ouvindo música numa rádio comercial, quando de repente ao fundo surge o áudio de uma rádio pirata comunitária dando notícias da comunidade. O áudio da rádio pirata contém informação, mas se você quer ouvir sua música sem interferência, então para você a rádio pirata representa um ruído. Porém, a partir do instante que a rádio pirata começa a transmitir uma notícia que chama sua atenção e você deseja ouvi-la, a transmissão da rádio pirata passa a ser o sinal e a música da rádio comercial passa a ser o ruído.

Esta definição é bastante importante e obriga os especialistas a se manterem alertas sobre o que é ou não ruído. Muito do que hoje é tratado como ruído pode trazer informações importantes sobre o processo e é sumariamente rejeitado.

Vejamos o exemplo do sensor MAP (manifold pressure) utilizado em muitos motores. Este sensor mede a pressão absoluta no coletor de admissão. O gráfico do sinal elétrico do sensor pode ser visto na figura a seguir.

 

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Sinal de um sensor MAP analógico (Fonte Bosch)

É fácil perceber que no meio do sinal altamente oscilante há um valor médio para esta pressão. Para muitas ECU de injeção a estratégia de leitura do sensor MAP é bastante simples: filtra-se toda oscilação e usa-se apenas a média instantânea desse sinal para cálculo da quantidade de ar admitida no motor. Assim toda oscilação é descartada como puro ruído.

Mas qual a natureza desse ruído? Ele é constituído das pulsações de pressão no ponto de instalação do sensor. Essa pulsação ocorre quando a válvula de admissão se abre e o ar é sugado para dentro do cilindro, causando uma baixa na pressão, depois, com o fechamento da válvula, o fluxo de ar recompõe a pressão do coletor. Ao mesmo tempo, o fluxo animado de velocidade é instantaneamente freado pela válvula bruscamente fechada, causando uma pulsação que ressona no coletor de admissão assim como num tubo de órgão de igreja.

Motores são projetados com cruzamento de válvulas, ou seja, a válvula de admissão é aberta antes da válvulas de escapamento se fechar. Se, durante a fase de cruzamento de válvulas a pressão do cilindro for superior à do coletor de admissão, surge um refluxo de gases queimados para dentro do coletor de admissão, e isso pode atrapalhar a injeção de combustível que possa estar ocorrendo naquele exato instante. E evidentemente esse processo de refluxo também afeta a pressão de coletor. Vemos então que há bastante informação nessa oscilação.

Sabemos que os pulsos positivos de pressão ajudam significativamente na entrada de ar fresco para dentro do cilindro, e que os pulsos negativos prejudicam essa entrada de ar. É evidente que se calcularmos a quantidade de ar admitida apenas pela média da pressão do coletor, hora iremos injetar a mais e hora a menos, e hora na medida precisa.

Sendo assim, uma ECU que trate a oscilação do sinal do MAP obterá muito mais informação sobre o funcionamento instantâneo do motor do que a ECU que apenas avalia a média. Essa ECU mais poderosa pode tirar proveito dessa informação adicional, permitindo que se obtenha um motor mais potente, mais econômico e menos poluente do que o com a ECU mais simples, que rejeita a oscilação do sinal como ruído.

Este tipo de fato é que vem permitindo que muitas outras tecnologias avancem. Não é questão de estarmos fazendo descobertas novas. Apenas estamos interpretando melhor o que ocorre e agimos de forma mais adequada e com maior precisão. Esse tipo de evolução vem ocorrendo por todos os lados.

Muitos dos avanços em tecnologias como sistemas ABS mais eficientes e sistemas de bolsas infláveis mais capazes de discernir entre um simples ruído mecânico no sensor de uma colisão real para um disparo mais preciso das bolsas, partem de uma análise mais completa dos sinais vindo dos sensores.

Tempo e freqüência

Sem querer complicar o assunto para o leitor, é importante saber que o processamento de sinais se divide em dois domínios: o do tempo e o das freqüências. O sinal lido no tempo como o que vimos do coletor de admissão pode ser decomposto na soma de vários sinais senoidais elementares com diferentes freqüências e amplitudes.O mero processamento do sinal no domínio do tempo sem o processamento no domínio das freqüências pode estar jogando fora metade da informação útil contida no sinal. O gráfico a seguir nos dá uma idéia de como isso funciona.

 

Como um sinal analógico complexo no tempo é analizado no domínio da frequência.

Como um sinal analógico complexo no tempo é analisado no domínio da freqüência.

Não é preciso que o não especialista se aprofunde no tema ao nível de domínios temporal e de frequência. Basta saber que eles existem.

Os pioneiros

Podemos dizer que a moderna ciência do processamento de sinais começou com a evolução do rádio. Já haviam muitos modelos matemáticos, mas ficaram na teoria e a implementação deles na prática era complexa.

Guglielmo Marconi ainda é reverenciado em muitos locais como o pai do rádio moderno, embora ele tenha travado intensa batalha com Nikola Tesla por essa primazia. Marconi conseguiu a patente americana que deu início à Era do Rádio, mas recentemente o serviço de patentes americano a desconsiderou, pois Marconi se aproveitou de 17 patentes de Tesla sem licenciamento e sem menção ao autor original para criar seu rádio.

 

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Tesla e Marconi (fonte: ranker.com)

Edward Howard Armstrong patenteou seu rádio super-heteródino em 1918. Este modelo de rádio resolvia os principais problemas dos rádios da época. Com um sistema de ganho automático ele eliminava o problema do volume do som da estação variar com a distância ou da potência do sinal, e o uso de um sistema de freqüência intermediária conseguia uma recuperação mais fiel do som original transmitido. Isso tornou o rádio num dispositivo prático e fácil de ser usado, até por pessoas sem treinamento.

Outra invenção importante foi a da televisão, feita por várias equipes nos Estados Unidos, Europa e Japão na década de 1920. Juntando várias experiências com tubos de descarga de elétrons que haviam revolucionado a ciência do eletromagnetismo no século 19 com o rádio super-heteródino, de forma que uma válvula transformava uma imagem bidimensional projetada numa superfície foto-sensível em um sinal unidimensional por meio de uma técnica de varredura, transmitido por rádio e depois um receptor recria a imagem em processo inverso, realizando a varredura sobre uma tela fosforescente. O princípio da varredura futuramente daria a base para a criação dos sistemas de digitalização de imagens, incluindo as novas técnicas de impressão 3D.

Estes eram sistemas dos primórdios da Era do Rádio, quando muitas outras tecnologias ainda eram jovens, como automóveis e aviões, e assim como eles, usava ainda muitas técnicas elementares e sem refinamento.

Um salto das técnicas de tratamento de sinais estava por vir, porém ela surgiria de uma fonte altamente improvável.

A bela que era fera

Hedwig Eva Maria Kiesler era uma atriz austríaca, que em 1933 estrelou o filme checo “Ekstasy”, um marco no cinema por ter sido um dos primeiros a retratar um nu feminino total e o primeiro a mostrar um orgasmo feminino, uma revolução em tempos moralistas e machistas. O sucesso do filme alavancou a carreira da atriz.

 

Eva em cenas do filme Ekstasy. (fonte:vietgiaitri.com)

Eva em cenas do filme Ekstasy. (fonte:vietgiaitri.com)

Ela era considerada uma das mulheres mais belas de toda Europa, e logo casou-se com o poderoso empresário  Friedrich Mandl em agosto do mesmo ano. Em suas memórias, Eva descreve Mandl como um marido altamente ciumento e controlador, que a mantinha trancada dentro de casa para ficar longe dos olhos dos outros homens e a impediu de seguir sua carreira de atriz.  Enciumado, Mandl gastou uma pequena fortuna comprando cópias do filme para destruí-los.

Eva não era apenas uma bela mulher e boa atriz. Ela tinha muitos outros talentos. De pais judeus, sua mãe estava convertida para o catolicismo, influenciando desde cedo na opção religiosa de Eva, algo que a faria passar despercebida aos olhares dos nazistas anos depois. A mãe era pianista e lhe ensinou música e piano. Do pai banqueiro e entusiasta, ela pegou o gosto pela tecnologia. Quando os dois viajavam juntos, o pai ia mostrando as novidades dos mundo moderno (locomotivas, eletricidade, telégrafo, rádio etc.) e a ia ensinando como essas maravilhas funcionavam. Ela se formaria em engenharia eletrônica antes de assumir a carreira de atriz.

Já Mandl era herdeiro de uma poderosa indústria de armamentos e dono de uma das maiores fortunas da Áustria.  Ele tinha fortes tendências fascistas, e naturalmente se aliou aos nazistas quando estes subiram ao poder na Alemanha. Desse conjunto de coincidências ocorre o primeiro fato improvável.

Mandl usava a beleza de sua esposa para atrair a atenção de empresários, cientistas, políticos e militares da Alemanha e da Itália em jantares suntuosos que ele promovia, e que vez ou outra incluía a presença de Hitler e Mussolini, quando então aproveitava para fazer negócios. É evidente que assuntos de alto sigilo militar eram abertamente discutidos.

Um dos temas favoritos de Mandl nesses jantares era a tecnologia de mísseis e torpedos radiocontrolados. Armas sem fio ofereciam maiores distâncias de controle do que as alternativas controladas por fios que prevaleciam na época. Eva sentava-se nestes jantares com certo “olhar burro”, absorvendo tudo o que podia ouvir, sem que ninguém suspeitasse de sua capacidade de compreensão de assuntos tão técnicos.

Como judia, ela odiava os nazistas e detestava as ambições de negócios de seu marido.  Em um destes jantares,  Eva  acompanha a conversa de Mandl com um oficial alemão sobre como era fácil interferir na freqüência usada pelos americanos para controlar um novo tipo de torpedo guiado por rádio.

Um dia, não suportando mais o ambiente que a cercava, Eva decide fugir. Ela convence Mandl para que ela apareça em um destes jantares com toda coleção de valiosíssimas jóias. Ela droga Mandl para que ele durma profundamente, e com a ajuda de uma empregada e de posse das jóias, escapa para os Estados Unidos.

Rica, linda, judia perseguida, e atriz talentosa com um filme de sucesso no currículo, ela consegue facilmente trabalho em Hollywood, onde assume o nome artístico de Hedy Lamarr, pelo qual é mais conhecida. Em pouco tempo ela se tornaria um das estrelas maiores dessa indústria nesta época.

 

Eva já como Hedy Lamarr (fonte: good-wallpapers.com)

Eva já como Hedy Lamarr (fonte: good-wallpapers.com)

Porém, com o recrudescimento da guerra, e os alemães usando submarinos para afundar navios de passageiros inocentes, Hedy Lamarr sente que precisa fazer algo além do trabalho de atriz para contribuir com o esforço de guerra. Então, em 1941 ocorre o segundo fato improvável.

Após um jantar informal, Hedy conversa casualmente com seu amigo, vizinho e compositor George Antheil e eles decidem fazer uma pequena brincadeira. Eles imaginam como desenvolver um piano controlado à distância. Vão para uma sala onde há dois pianos, e Anthiel escolhe uma de suas composições como base e deixa Hedy com a finalidade de “automata” para segui-lo. No meio da brincadeira os dois perceberam um fato importante. Não havia uma forma de Hedy saber previamente entre as 88 teclas do piano qual seria a nota seguinte apenas ouvindo a melodia tocada por seu amigo. Para que ela o acompanhasse com precisão era necessário que ela também tivesse uma cópia da partitura ou soubesse a música de cor. Esta era a resposta que Hedy procurava.

Hedy e Anthiel se juntaram e do conhecimento técnico da primeira e do conhecimento prático de  sonorizar espetáculos ao vivo do segundo surgiu um sistema que utilizava duas fitas de papel perfurado e dois mecanismos de relógio que comutavam entre 88 freqüências aleatoriamente, porém em absoluto sincronismo, uma adaptação dos pianos automáticos usados em espetáculos. Transmissor e receptor estariam sempre em contato, porém qualquer um que tentasse interceptar ou interferir com a transmissão não saberia em qual freqüência  deveria atuar após uma comutação do sistema. Isso permitiria não só criar um sistema de guia de torpedos à prova de interferência, como criar um sistema de rádio onde a interceptação de mensagens completas seria absolutamente impossível.

Ambos levaram os diagramas do sistema para a Marinha americana, mas ninguém levou a sério uma proposta técnica tão mais avançada que a de cientistas e engenheiros envolvidos no esforço de guerra, feita por uma atriz de cinema e um compositor do show business.  Ainda assim, Hedy e Anthiel criaram a patente Nº US 2292387 A “Secret communication system”, onde o sistema de chaveamento de frequências (“frequency hopping”) ficou estabelecido.

Mas tal sistema não foi usado durante a guerra, caindo no esquecimento.

US2292387-0

Diagramas da patente US2292387-0 (fonte:Google)

O sistema foi resgatado apenas no começo da década de 1960, durante a crise dos mísseis cubanos. Os americanos estavam desenvolvendo seus sistemas de mísseis balísticos e o link de comando do foguete não poderia sofrer facilmente de interferência. Além disso, um trabalho de pesquisa mostrou que um sistema de chaveamento de freqüências múltiplas é capaz de gerar um sinal muito mais forte e imune a ruídos do que um sistema de frequência única.

Mas a patente de Hedy e Anthiel já havia expirado e nenhum deles jamais recebeu um centavo pelo seu esforço. A patente de Hedy e Anthiel abriu as portas para uma tecnologia ainda mais ampla, chamada “spread spectrum technology”. Hoje essa tecnologia é fundamental para várias coisas à nossa volta, e nem a notamos. Ela está no alicerce de tecnologias como a dos telefones celulares, do WiFi e do Bluetooth que usamos todos os dias.

Em 1997 , Hedy Lamarr e George Anthiel foram homenageados com o prêmio Electronic Frontier Foundation (EFF) Pioneer Award. E, mais tarde , no mesmo ano, Lamarr se tornou a primeira representante do sexo feminino a ganhar o BULBIE Gnass Spirit of Achievement Award , um prêmio de prestígio para inventores que é apelidado de “o Oscar dos inventores”.

 

Invention&Tecnology

Hely Lamarr é hoje tão referenciada por sua invenção quando por seu trabalho de atriz

O sistema pioneiro de Hedy de George Anthiel usavam duas guias de papel com perfurações, o que tornava as trocas de freqüência fixas a cada ciclo da fita de papel, e com o tempo essas trocas podiam ser rastreadas e mapeadas caso não fossem constantemente trocadas, tornando-as vulneráveis. As novas tecnologias tipo “spread spectrum technology” possuem pelo menos dois canais paralelos de comunicação entre as partes, um para o tráfego principal (o áudio do sistema de celular, por exemplo) e um outro de serviços, que, entre outras funções (no caso do celular é também usado para enviar e receber SMS, short message service) é usado para combinar a nova freqüência de chaveamento e outra alternativa, para o caso dessa nova freqüência estar congestionada ou cheia de ruído. Com o uso do canal de serviços a troca de freqüuências pode ser realmente aleatória.

O próximo grande passo

O trabalho de Hedy Lamarr e  e George Anthiel foi o primeiro sistema rumo ao tratamento complexo de sinais. Havia também nesta época a evolução da TV, que transformava imagens bidimensionais e um sinal unidimensional, por meio de uma técnica de varredura. Quanto mais a eletrônica evoluía, mais complexos se tornavam esses sistemas e os tornando melhores.

O passo seguinte foi dado em 1957 por Russel Kirsch, ao tirar uma foto de 176 x 176 pixels de seu filho de 3 meses de idade. O passo de Kirsch não foi importante apenas para a fotografia digital. Sua invenção mostrou que muitas outras coisas do mundo real poderiam ser transformadas em sinais, e estes sinais poderiam ser tratados pela capacidade matemática dos computadores.

 

Primeira foto digital da história (fonte: stri.ms)

Primeira foto digital da história (fonte: stri.ms)

Hoje não apenas fotografias, mas músicas, filmes e mais recentemente objetos tridimensionais podem ser processados por computador.  O feito de Kirch vem aos poucos diluindo a barreira entre o mundo real e o cibernético. Na próxima parte iremos aprender alguns fatos curiosos sobre sinais. Eles não são o que parecem ser.

AAD



Sobre o Autor

André Dantas

Engenheiro Mecânico / Mecatrônico formado pela USP/São Carlos e técnico eletrotécnico pela Escola Técnica Federal de São Paulo. É um tipo de Professor Pardal e editor de tecnologia do AUTOentusiastas. Também acumula mais de 20 anos de experiência em projeto, montagem, ajuste e manutenção de máquinas e equipamentos pesados com sistemas de automação além uma empresa de Engenharia Pericial com foco no ramo automobilístico.

  • REAL POWER

    Andre Dantas, maravilhosos seu texto. Bato palmas a distância. Abraços.

  • BlueGopher

    Interessantíssima e para mim inesperada a história da Hedwig Eva Maria Kiesler/Hedy Lamarr.
    Eu não conhecia a faceta tecnológica desta tão memorável atriz.

  • Rafael Guerra

    É incrível como a eletrônica age nos automóveis atualmente. Tenho um Tiida sedã e descobri há pouco tempo com um dispositivo OBD2 que a borboleta de admissão nunca abre mais que 80%, além do corte de rotação também ser controlado pela borboleta. A indústria mostrou que o controle eletrônico tem menor custo final e maior facilidade de parametrização, porém não temos esse custo menor repassado ao consumidor quando temos algum problema eletrônico no carro.

    • Mr. Car

      Só temo que no futuro, essa corrida eletrônica toda inviabilize (seja por falta de componentes, já que tudo se torna obsoleto muito rápido e param de fabricar, seja pelo preço estratosférico, quando encontrar) que se possa manter um carro dos dias de hoje totalmente original e funcional, e muito mais ainda, que se possa restaurar um, se for preciso.

      • André K

        Isso me parece meio que inevitável. Talvez reste uma esperança com a emulação de componentes antigos via microcontroladores programáveis. Talvez…

    • Rafael Sumiya Tavares

      Rafael, estou bastante curioso para comprar um transmissor OBD2 via bluetooth para acompanhar os parâmetros do meu carro. Ahhh, e pelo seu relato agora entendi porque o meu March tem corte limpo e não sujo.

      • Rafael Guerra

        É bem interessante, com um dispositivo desse mais um bom software para tablet ou celular é possível fazer até um cluster com instrumentos virtuais sem precisar passar nenhum fio ou instalar transmissores.

      • Cadu

        Então pesquise bem, porque há casos que não funciona muita coisa
        Um HB20 que tinha era bem limitado
        Já o Jetta tenho acesso até à central de faróis, teto solar, portas, ABS, airbags etc

        O melhor app é o torque para android

        • Domingos

          Não precisa do programa específico da VW para acessar esses ajustes mais secundários? Ou já tem isso no app?

          Se funciona direto no padrão OBD2, é interessante mesmo. A rigor qualquer um com um scanner padrão regula o carro inteiro!

          • Cadu

            Sim, no Jetta você precisa do programa específico da VW para alterar os parâmetros. Isso direto na OBD2
            No hb20 eu mal conseguia ler os parâmetros

            Mas porque o sistema Audi/VW é mais permissivo

            Tem inclusive, reprogramações e preparações para estes motores via OBD

      • Domingos

        Todo carro com corte limpo usa modulação da borboleta mesmo. A não ser diesel, que dá para fazer reduzindo o volume injetado pelos bicos (eles não têm borboleta para aceleração…).

  • Com a internet, temos acesso a uma infinidade de dados, como nunca antes na história da humanidade. Usamos um “filtro” para discernir entre o que nos interessa (informação) e o que é desprezível (ruído). Interessantíssimo texto, parabéns!

  • Newton ( ArkAngel )

    As guerras sempre trazem grandes evoluções tecnológicas. A necessidade sempre foi o principal motor do desenvolvimento tecnológico.

    • Newton, concordo com você. Mas você tem que concordar que o caso da Hedy Lamarr foi bem atípico e inexperado.

      • Newton ( ArkAngel

        Verdade, jamais imaginaria algo assim.

  • André Stutz Soares

    Xará “Gryphon”, seus posts são um banquete, como sempre. Não tenho muito tempo para ler, mas os seus eu arrumo uma brecha! Aguardarei a próxima parte.

    Abração desde os tempos idos daquela “news” de carros em que eu participava (quando eu era moleque), com Route66 e outros. Hehe!

    • Valeu, Xará!!! O Route66, masi conhecido por aqui pelos outros leitores como CMF, continua por aqui.

      Bom saber que o pessoal das antigas ainda me lêem.

  • Domingos

    “uma revolução em tempos moralistas e machistas” Bom, então o autor acredita que nunca houveram orgasmos femininos, nudez e também que o moralismo de tal época era ruim. Bom é a falta dele, como hoje. Apenas hoje existe nudez e orgasmos…

    Mais que óbvio que duas coisas absolutamente comuns e mundanas naquela época foram ao cinema apenas e exclusivamente para chamar atenção – tal qual como é hoje. O “grande feito” da artista ainda bem que se deu por sua futura invenção de uma forma primitiva de criptografia.

    Já o casamento dela era bem pouco moralista. Com certeza por interesses e imagens, por ambas as partes.

    Me interessa mais essa parte. O resto das coisas de matemática que a gente se deslumbra tanto é sabido há milhares de anos e geralmente muito mais simples do que parece, além de ter pouca importância.

    É o chamado gnosticismo. Um computador atual não difere basicamente em nada de um computador dos anos 80, tendo apenas a fórmula bem humana do “mais e mais e mais”.

    Até os modems funcionam exatamente da mesma forma que o de 14,4 ou até que os hoje jurássicos da época das centenas de bits por segundo. Só funcionam com mais tratamento dos sinais e mais capacidade de processamento.

    Existiam também desde o começo do século XX meios analógicos para cada equivalente digital que temos hoje, que funcionam basicamente do mesmo jeito só que mais eficientes.

    Não acho uma área nada fantástica quando se começa a enxergar que primeiro não resolvem antigas questões do homem, depois que costuma ser usada para apresentar-se como solução a tudo e a justificar outros humanismos e gnosticismos que igualmente não levam a nada.

    Ter a mesma capacidade que um computador completo de poucos anos atrás no seu bolso com um smartphone aumentou o número de traições com “coisas geniais” como aplicativos de encontro e também tornou as pessoas ainda mais fúteis, numa busca de atenção desesperada.

    Um “java phone” que já acessava a internet com muito menos recursos e de forma muito mais descomplicada já estava de bom tamanho.

    Mas “precisa” ter GPS, triangulação, sensor de movimento e enorme capacidade de armazenamento para achar alguém para trair ou absolutamente instantaneamente mandar uma foto em alta definição para se exibir a alguém.

    Não dá nem para esperar chegar em casa e usar a mais adequada internet via cabo (seja par trançado, coaxial ou o que for).

    • André K

      “É espantosamente óbvio que nossa tecnologia excede nossa humanidade.” Albert Einstein

      • Domingos

        Nada mais verdadeiro. Diria até que não é que ela excede, nós que já somos “excedidos” no uso de qualquer ferramenta na verdade, pela nossa presença em usar as coisas de maneira errada.

    • Domingos, você tem que olhar pra história de Hedy Lamarr dentro de um contexto amplo e unificado. Se ela não tivesse feito aquele filme, seu futuro teria sido diferente, e quase certamente ela nunca teria feito uma invenção 20 anos à frente de seu tempo e que hoje é a base de muitas das tecnologias modernas.

      Se Hedy Lamarr não tivesse inventado o sistema de chaveamento de frequências, outros o teriam feito, mas muitos anos depois e provavelmente de forma fragmentada por muitos inventores para depois serem unificada por mais um ou dois gênios. Poderíamos estar 20 anos atrasados de onde estamos.

      Todos os grandes gênios tem histórias semelhantes. O acaso sorriu não uma ou duas vezes durante a vida, mas várias, e sempre no timing correto.

      A questão do filme erótico que ela protagonizou não é relevante por este aspecto, mas é importante porque desencadeou todo um processo que culminou numa idéia genial da qual hoje dependemos tanto.

      • Domingos

        Sim, entendi esse contexto. E realmente a vida é cheia dessas coisas, às vezes por providência.

        Só não achei a classificação desse ato em particular como algo heróico ou positivo. Uma feminista doida hoje ia dar mais enfoque a essa enganosa “liberação sexual” que à sua idéia de criptografia, pode apostar…

        Concordo que teríamos nos atrasado. Alguém acaba descobrindo essas coisas sempre, dado que são constantes físicas ou matemáticas ou muitas vezes simples idéias com interpretações geniais – essas mais difíceis de acontecerem por várias pessoas.

        Porém, nada de drama. Essa é a questão. Se não tivéssemos chaves de 1024 bits disponíveis para uso doméstico, teríamos o que com esse atraso? As “velhas” 128 bits? Estaríamos engatinhando nas de 56 bits ainda?

        Seria o suficiente para nossas tarefas cotidianas… Mas com certeza na hora, na época, aquilo serviu a algo bem maior e necessário – questão dos mísseis.

      • Antônio do Sul

        Exatamente. Hedy Lamarr, apesar de talentosíssima como cientista e como atriz, não deixava de ser humana. Como tal, era portadora de virtudes e defeitos, teve atitudes corretas e erradas. Fazendo-se um balanço, ainda teve mais acertos do que erros.
        De mais a mais, os novos recursos tecnológicos são ferramentas que podem ser bem ou mal usadas.

    • Cadu

      Que cabecinha pequena hein? Você veio da mesma época da história do texto?

      O AAD não fez nenhum julgamento moral. Apenas retratou que a nudez feminina e a sexualidade não eram exploradas abertamente no cinema. Ela foi pioneira. Ponto. Se é bom, ruim, se acha certo ou errado, é outra história
      E, sim, há moralismo hoje!

      Então, a culpada por traições e exibições é a tecnologia? Não é um desejo humano?

      É como culpar a arma pelo assassinato!

      • Domingos

        Não, e ter vindo da mesma época do texto relativamente seria um elogio.

        Não tem mentira maior que “evolução linear”, que seria algo como pensar que o ser humano dos anos 30 era um celular CDMA e o atual um iPhone – algo que até cientificamente é incorreto.

        O que quis colocar foi que justamente vemos a tecnologia como solução para tudo, nos deslumbramos com obras meramente humanas com fórmulas terrívelmente simples (adicione mais e mais de algo sabido há séculos) e na verdade somos constantemente provados como errados.

        Não tinha aquelas previsões que a tecnologia iria acabar com a fome, as guerras, a pobreza? Exatamente isso.

        E sim, foi feito um julgamento moral. O qual eu pessoalmente não achei correto e percebi um paralelo com toda essa questão e com a atualidade: Um assunto antigo, que todos sabem da existência, é colocado de forma polêmica por nenhuma utilidade que chamar atenção e acaba servindo de justificativa para se passar a um comportamento danoso – afinal “virou bacana”.

        Mesma questão de um século atrás, só com diferenças de posição. Quase o mesmo que com a tecnologia, que depois da fase de comunicação abundante passou a meramente repetir as mesmas questões e problemas de sempre – não os resolvendo.

        E não, a culpa não é da tecnologia. Sempre é do homem. E sua crença que coisas vão resolver seus problemas sempre. Essa é a questão levantada.

  • Victor De Lyra

    Parabens pelo texto André Dantas, como sempre excelente!

  • francisco greche junior

    Sinceramente, não conheço nada melhor que o Ae e teus textos André Dantas. Me faltam palavras pra dizer o quanto fico feliz em ler teus textos. Eles trazem passado, pioneirismo, futuro, presente, tudo junto e correndo ordenadamente, agregam muito conhecimento a que lê. Obrigado AE e André.

  • Dieki

    Traições são invenção moderna? A traição sempre foi um grande tema, como retratam grandes livros do porte de “Anna Karenina” e a famosa história da Cleópatra (com seus casamentos nada interesseiros). Os nobres e ricos sempre tiveram amantes, sempre subverteram a moral que eles tanto defendiam e pregavam. Os pobres também tinham, só não havia o glamour e a romantização da coisa. Nada de novo.

    A revolução que se vê hoje está centrada no desempenho assombroso dos sistemas e principalmente na incorporação de sistemas eletrônicos de controle nos sistemas mecânicos que existiam a décadas. Exemplo simples é a possibilidade de substituir todo o sistema de acionamento pneumático por solenóides. O esquema das válvulas é, inclusive, idêntico. Mas o sistema eletro-eletrônico falha menos.

    Quanto às questões fundamentais do homem, a filosofia caiu em desuso com o avanço da ciência e o desenvolvimento da psicologia. A coisa ficou meio “matematizada” e as respostas, ou pelo menos um guia, ficaram pelo caminho. Temo que viveremos a era da conexão virtual, mas nunca mais viveremos uma época de pensamento filosófico dominante (como a era do pensamento positivista).

    • Dieki, exatamente pela descrição que você faz é que sou tão persistente nas discussões filosóficas.

      E calma, porque elas ainda virão nesta série.

      • Newton ( ArkAngel )

        Às vezes penso qual a lógica de programação do ser humano. Creio que seja a falta de lógica.
        Coisa do tipo “A doutrinação cerebral e o vírus do computador “, mentes programadas agem exatamente como um antivírus, rejeitando tudo que não obedeça certas regras, sem discernimento.
        Sei lá, são apenas viagens mentais.

    • Domingos

      Extamente. Isso mesmo que quis dizer e dei uma cutucada no AD. Essas coisas todas vêm desde o início, sempre aconteceram – tal como nudez e orgasmos.

      Acredito ser um engano bem grave, que leva a dialéticas como as do atual governo (agora tudo é melhor porque se tem “menos opressão”, quando na verdade é a mesma coisa de sempre com alguma fuga de realidade como feminismo, populismo etc.).

      Da mesma forma fico receoso em colocar como revolução os avanços informáticos. Claro, dentro dele mesmo, dentro da referência da própria história da informática, são revoluções.

      Mas ficamos encantados demais por coisas que são fórmulas matemáticas sendo resolvidas mais rapidamente. A principal fabricante de processadores, a Intel, tem a arquitetura básica de seus processadores já há quase 10 anos.

      Apenas evoluem métodos de fabricação e outros pequenos refinamentos, assim acumulando 2 ou 3 vezes mais desempenho nesse período.

      O básico é o mesmo lá desde então…

      E justamente esse deslumbramento que dá num resultado como você bem percebeu no último parágrafo: abandonamos a filosofia e certas noções importantes em nome de acharmos que vamos resolver as coisas “matematicamente”, automatizadamente.

      Aposto, justamente nesse ponto, que o carro autônomo vai diminuir os acidentes de trânsito e aumentar muito vários outros – devido a possibilitar o consumo ainda mais desenfreado de bebidas e outras substâncias.

      Talvez até mesmo compense menos, no longo prazo, que o que temos hoje! No sentido de termos mais acidentes/mortes/doentes com o carro autônomo do que ele consegue reduzir no trânsito.

  • Rafael Sumiya Tavares

    André, me sinto bem à vontade quando você trata de sinal e ruído, além de técnico em eletrônica também sou químico e trabalho com análises químicas instrumentais, basicamente espectrofotometria e cromatografia, muito do meu trabalho é tratar sinais e quantificá-los. Parabéns pelo texto, acompanharei as próximas partes!

    • Legal, Rafael. Mas escrever assuntos técnicos como este para público leigo é complicado.

  • Romero, está existindo na internet um fenômeno muito interessante de realimentação positiva.

    Vc vai num mecanismo qualquer de busca e procura por uma notícia. O mecanismo tenta te responder dentro da forma melhor possível quais as notícias mais relevantes para sua pesquisa.
    Aí, dentro daquelas oferecidas, vc escolhe a que mais te interessa.
    Uma vez que vc clicou numa notícia, ela ganha um ponto de relevância sobre as demais.
    Da próxima vez que alguém fizer uma pesquisa semelhante, aquela notícia aparecerá na frente das demais. Mas a tendência das pessoas é aceitar logo as primeiras opções. O resultado disso é que lentamente vai ocorrendo uma concentração de escolhas entre 4 ou 5 artigos dentro de um oceano deles. Pode até existir um bom artigo perdido por aí, mas se ninguém nunca clicar nele, ele nunca terá oportunidade de sucesso.
    Google. Bing (Microsoft), NetFlix, Pandora, todos tiveram esses problemas dentro dos seus mecanismos de sugestão. O jeito é “enganar” o usuário e sempre colocar um link quase aleatório no meio das melhores opções para que ele possa ir ganhando significância.

    Este é o perigo de ambientes extremamente fechados e controlados, como o iOS da Apple e o próprio Facebook.
    Esses ambientes são muito fechados e possuem seus próprios filtros e não sabemos como são programados e com que orientação comercial são direcionados.
    Sem controle, isso leva ao reforço de um conjunto limitado de opções, o que é ruim para todos, inclusive para o próprio ambiente.
    Nenhum dos dois são ambientes livres de verdade.

    Imagine agora o projeto do Facebook para que as pessoas usem a internet inteira sem sair de dentro do Facebook, onde ele pode vigiar tudo e filtrar tudo.

    • O segredo de uma boa pesquisa está nas palavras-chave que vão refinar o resultado…..isso diminui o número de opções (pode até zerar), mas, quando feito na medida certa, dá o filtro necessário para um resultado mais preciso.
      O Facebook teria um navegador próprio? Ele quer dominar o mundo! rsrs

    • Domingos

      Obviamente quem quiser usar a internet dentro do Facebook sabe o que está abrindo mão. E que é esquemão de coleta de dados.

      Sou a favor de menos monitoramento, porém também não fico com dó do usuário que por comodidade ou vaidade ou por querer mesmo abre mão da sua privacidade. Não coloco nesses casos a culpa na empresa não.

      E digo mais: quando esses mecanismos se tornam abertos ou conhecidos (o mecanismo do Google se fez uma espécie de engenharia reversa para descobrir como ele faz o ranking) a única coisa que acontece é… um monte de gente vendendo serviço de como colocar seu site nas primeiras posições com trapaças.

      Saber ou não algo, dentro desse nosso meio de ser e dentro do paradigma informático, às vezes é tão irrelevante que chega a a ser perigoso.

      Se abrissem hoje todos os algorítimos de motores de busca, não faríamos uma internet menos livre e sim uma zona de gente buscando posição de topo em search engine.

      A solução é simples: usar algum buscador que não ranqueie, mesmo sendo menos eficiente assim. Ou ter menos preguiça e procurar por links ao menos até a 3ª página.

  • Domingos

    Restaurar acho que vai ser impossível, ou terá de se contar em achar peças vindas de carros desmanchados.

    No entanto, em durabilidade ao menos por enquanto não vejo o que reclamar nesses sistemas. Em 20 anos usando injeção eletrônica, tive poucos problemas e com as partes mais caras/menos fáceis de achar em si um total de zero.

  • Domingos

    É flex o carro? Qual combustível estava usando na hora do teste? Se for gasolina, acho que o motivo é evitar detonação…

    • Rafael Guerra

      Só ando no álcool, mas percebo que o carro fica preso depois de 5000RPM

      • Domingos

        Que estranho… Só se usam a mesma borboleta de algum motor maior e economizam acertando as dimensões artificialmente, com abertura restrita a 80% no carro com motor de cilindrada/potência menor…

        • Rafael Guerra

          Acredito que sim, pois esse motor é idêntico ao 2.0, muda só o curso do motor. Também não acho que seja para dar turbulência, pois logo após a borboleta há um quadriculado justamente para evitar a turbulência dentro do coletor.

  • Rafael, existe aí um conhecimento que os velhos fusqueiros devem saber muito bem.

    Os velhos fusquinhas, fraaaacos, exigiam bastante do acelerador.
    Quando se andava em estrada com eles, era comum acelerar até o fundo. Mas os motoristas mais atentos percebiam que dava pra tirar mais rendimento dando uma leve aliviada do acelerador.

    É que a partir de cerca de 80% da abertura da borboleta, não há mais restrição significativa da passagem de ar, mas com um leve fechamento, a borboleta ajuda a acelerar o fluxo de ar, enchendo melhor os cilindros.

    Isso certamente faz parte da calibração da injeção do seu motor.

    • Domingos

      Isso em fase de aceleração, não? Mas na faixa de potência máxima borboleta aberta toda é melhor.

      Me parece que estão poupando alguma coisa aí, como detonação no caso de ser um flex.

    • Cadu

      Meu pai me ensinou o macete ao subir uma ladeira. “Alivia um pouco o pé que melhora”

      Era um Mille Fire
      Nada muito mais potente que os Fuscas
      Carro fraco é cheio de artimanha!

  • Lorenzo Frigerio

    Não consegui mais acompanhar a partir dos dois pianos. Não dá para fazer o “salto” para a compreensão de como o míssil e a estação se comunicam. Precisaria haver uma “chave”, e essa chave teria que ser criptografada. Se a transmissão sofresse interferência inimiga em múltiplas frequências, imagino que a chave não mais serviria.
    Não vejo dificuldade alguma, para a tecnologia da época, em aplicar uma verdadeira “chuva” de interferência e desviar o míssil.
    Tomar o controle dele já exigiria posse dos códigos.

    • Lorenzo, você já viu filmes antigos onde pianos tocavam usando uma cinta de papel furado? Acho que até aparece isso nos desenhos do pica-pau. Lembra dos rádios de carro antigos, onde você selecionava as estações por um botão mecânico?
      É um pouco das duas coisas. Há duas cintas idênticas, uma no torpedo e outra no bombardeiro.

      Antes de lançar o torpedo, as fitas são emparelhadas.
      No instante que o torpedo é solto, dois relógios vão avançando as fitas de papel, e a cada instante, chaves de freqüência vão sendo acionadas no lugar das teclas de piano.

      As fitas são feitas de papel. São baratas e fáceis de fazer, e cada par pode ter um padrão particular. Se não fizerem a besteira de manterem o padrão fixo, pegar um torpedo não significa que os próximos seguirão os mesmos comandos.

      Inundar o ambiente de interferências também não é inteligente.
      Os próprios alemães usavam essas freqüências para suas comunicações. Interferir em todo espectro era dar um tiro no próprio pé.
      Além disso, um jammer tão poderoso é um chamariz pra bombas caindo do céu feito mel pra abelhas.

      Agora olha pra isso:
      http://historywarsweapons.com/ruhrstahl-x-1/

      Os alemães tinham o mesmo problema do torpedo americano.

    • Domingos

      Acredito que as chaves eram justamente as “melodias”. Com a seqüência da próxima nota que se sabia como decifrar o resto.

      Ao menos entendi assim…

  • Viajante das orbitais

    Me sinto iluminado.
    Obrigado professor Gryphon.

  • Cadu

    História fascinante!

  • Newton, esse é um dos lados mais assustadores da ciência do cérebro. Quanto mais estudam nosso cérebro, mais os cientistas percebem o quanto ele é primitivo. Ele só potente porque sua arquitetura permite que ele seja escalado quase que infinitamente em processamento paralelo.
    Seria como se bilhões de computadores TK-82 dos anos 80 estivessem processando dados em paralelo.

    Imagine o que poderemos fazer quando dermos a uma rede paralela sintética semelhante ao do cérebro humano núcleos de processamento mais rápidos que a dos core i7 atuais. E isso pode estar ao nosso alcance nas próximas décadas.
    Isso é assustador.

    • Domingos

      Mas isso é a mesma coisa que um computador atual e um antigo, na prática.

      O famoso Pentium tinha exatamente as mesmas instruções e arquitetura básica vindas desde o 8086 – hoje usado em calculadoras de tão pouco potente.

      A diferença era só um pouco mais de eficiência e a estréia de poder trabalhar com 2 instruções por ciclo.

      Tem que ver que nosso cérebro está longe de ser um pedaço de um monte de neurônios, com funções e percepções muito acima do meramente terreno. Se não fosse assim, não teríamos saído muito do mundo tribal.

    • Newton ( ArkAngel )

      André, o que sei é que justamente ocorrem fenômenos de “processamento paralelo” quando existem emoções e sentimentos compartilhados por grande número de pessoas, o que chamamos de egrégora. Milhões de pessoas pensando a mesma coisa fazem acontecer mudanças em eventos, nem tanto fisicamente, mas quando o pensamento em comum atinge uma determinada quantidade de indivíduos, o que se chama massa crítica, coisas acontecem. Isso me faz pensar que existe comunicação entre todos os cérebros do planeta, ainda não detectável conscientemente pela maioria. Eventos inacabados ou mal resolvidos persistem ainda por muito tempo após a manifestação física dos mesmos.

      • Domingos

        Existe o chamado inconsciente coletivo. Se há comunicação ou não, não sei, mas existe sim o fenômeno do ponto crítico e do inconsciente coletivo.

  • Cadu! Bingo!

  • Lorenzo Frigerio

    Qualquer coisa que envolva codificação ou criptografia é extremamente difícil de entender para quem não trabalha com isso. Precisaria de um artigo inteiro só para explicar o funcionamento dessas fitas.
    Como você sabe, o irmão mais velho do futuro presidente John Kennedy, Joseph, morreu na explosão prematura de um avião carregado de explosivos que ia ser teleguiado na perna final de seu vôo rumo a um alvo alemão; portanto, sistemas de radiocontrole da época deviam ser muito ruins. Imagino que qualquer controle sobre um míssil ou torpedo devia ser muito precário. Aliás, parece que mesmo hoje alguns torpedos são lançados com um fiozinho de comunicação.
    Quanto ao jammer, obviamente não pode ficar num lugar fixo, a menos que seja um aparelho descartável ou que esteja a bordo de um avião, tipo um AWACS ou o Boeing presidencial.

  • Domingos

    Deve ser peça compartilhada mesmo. A borboleta 100% aberta talvez não fosse o ideal no motor menor, aí a limitaram a 80% para usá-la em ambos os modelos.