FUSCA E UM DOMINGO ESPECIAL – POR JACSON MAFFESSONI – 17/05/15

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Manhã de domingo em Chapecó-SC. Cidade onde nasci e tenho grande parte da minha família. Basta um feriado que prolongue o final de semana e lá estamos. Pegar a estrada com minha esposa Elisângela e dois filhos, com destino ao velho oeste catarinense, é de praxe. Não abro mão de estar perto de familiares e amigos, a distância é mera coadjuvante nessa história. Meu habitat é a estrada, então tudo forma um conjunto que para mim é maravilhoso. Mas este domingo que fechava o feriado de primeiro de maio, foi especial por algo tão simples, mas maravilhoso. A primeira volta de meu filho Lucas a bordo de um Fusca.

Vejam como são as coisas. Com três anos de idade eu provavelmente já tinha dado pelo menos uma volta ao redor do mundo dentro de um Fusca — sim, é exagero, mas eu cresci dentro de umas dezenas de Fuscas que meu falecido pai teve. Lembro sempre da frase que volta e meia largava, ”Fusca bom tem ser 1500 para cima, o 1300 é fraco.” Talvez esteja aí minha paixão por motores mais fortes.

 

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Mas voltando ao assunto, meu filho Lucas com pouco mais de três anos nunca tinha andando de Fusca. No sábado ele ficou boa parte da tarde brincando no Fusca junto com seu irmão menor, Fernando. Foi aí que percebi o quanto o Fusca representa para um autoentusiasta. Não tem outro carro onde um menino de pouco mais de três anos tenha tamanha facilidade de chegar ao motor, de sentar no banco e ter volante e alavanca do câmbio ao seu alcance. Era um entra em sai fervoroso do Fusca do tio Vânio que depois de algum tempo as mãos já sujas de poeira e óleo do motor deixavam marcas por toda lataria. O Fusca antes amarelo, virara agora uma banana cheia de manchas pretas.

Lucas parecia estar em um parque de diversões, principalmente quando mexendo no motor, brincando de consertar. Suas mãos cheirando gasolina e óleo não o afugentavam da brincadeira de ser mecânico e piloto. Falava constantemente que o Fusca “tem motor atrás, os outros carros têm motor na frente” Dentro do Fusca, não teve sequer um botão sem receber as impressões digitais dos dois meninos.

 

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Enquanto isso, Valmor, o avô materno, que devido a um acidente ficou paraplégico, quase já estava andando tamanha a bagunça e correria. Deram uma canseira no avô.

Mas Lucas queria mais, ele queria dar uma volta no Fusca do tio. Então marcamos grandioso evento para a manhã do domingo. Eu realmente estava disposto em levar meu filho a dar uma bela volta de Fusca. Então foi só chamar ele e dizer, “vamos andar de Fusca”, que ele veio correndo com um sorriso aberto.

O Fusca do tio Vânio não está em perfeitas condições, foi comprado para ser “pau pra toda obra”. Tem vazamento de óleo, folga na direção, freio que só entra em ação após duas bombeadas no pedal, embreagem trepidando, cheiro de gasolina tal qual como se estivéssemos sentado em cima de um barril cheio do combustível e que faz o motor já desregulado sofrer ainda mais para entrar em funcionamento e de se manter em marcha-lenta.

Mas entramos no Fusca como se ele fosse um Porsche. No volante o tio Vânio, eu e o Lucas no banco ao lado. Sim é proibido, mas é legal, como o próprio Lucas disse ao estar no banco da frente pela primeira vez em um carro em movimento. Todos acomodados nos bancos, que nem sei de qual carro são. Foi dada a partida do motor, teimoso pegou e mesmo com múltiplas bombadas ao acelerador logo morreu. Mais uma tentativa e agora mantendo o motor a rotações mais altas com aquele movimento repetitivo do pé direito que parece que o cidadão tem Mal de Parkinson. Depois de infinitos minutos limpando a garganta do carburador, o cheiro de gasolina mal queimada mais óleo bem queimado invade o interior do Fusca e faz o Lucas perguntar “Que cheiro é esse?” Respondo que é cheiro de carro de verdade e ele ouviria a frase “carro de verdade” muitas e muitas vezes durante o trajeto.

Então saímos, ladeira abaixo graças a Deus, pois se fosse a subir acho que teríamos que interromper nosso passeio já no início. Primeira marcha engatada, uma leve trepidação ao arrancar e lá fomos nós, ao infinito e ao além. Segunda marcha e a falha continua, Lucas não tira os olhos do tio, que braveja alto reclamando da gasolina. ”É puro álcool”.

Eu com os pés firmes no assoalho e os braços cercando meu tesouro, largo a risada. Ao precisar frear, todo aquele processo que só o dono do carro sabe. Firmar a mão no volante puxando para o lado contrário que o carro vai ir ao acionar o freio. Novamente solto a frase “isso é carro de verdade, Lucas”, ele olha para mim e sorri. Um trecho plano e logo temos pela frente uma subida. Praticamente vencemos em primeira marcha, a segunda somente lá no finalzinho e em aceleração máxima.

O motor ganha temperatura e melhora seu humor. Já dá para colocar a terceira e passar dos 50 km/h no plano. As folgas na direção agora parecem férias, mas o tio Vânio domina o Fusca, com tranqüilidade, devido à sua larga experiência em dominar um Mercedes 1113 por vários anos. Eu já estou com uma mão na alça do painel e Lucas faz o mesmo, achando engraçado.

Paramos para abastecer e Lucas pergunta por que o homem abriu a frente do Fusca. Explico que ali esta o tanque de combustível, e novamente o cheiro forte toma o interior. Nova partida e o motor pega mais fácil e se mantém melhor em marcha-lenta forçada pela atuação do pé direito. Primeira, segunda, terceira marcha sobe forte aceleração e dou uns berros indescritíveis aqui, e Lucas olha sorrindo para o tio Vânio, no mesmo tempo que observa as trocas de marchas.

Falo que estamos a 140 km/h — mal passamos dos 60 km/h — e o barulho do motor, do vento entrado por tudo que é fresta, junto com a vibração e dureza da suspensão que faz de cada pequeno buraco se pareça a um vulcão, fazem Lucas arregalar os olhos e apertar a mão contra a alça.

Uma lombada à frente, e a freada parecer um filme de terror, ao soltar o pedal de freio, aquele barulho de metal com metal que todo Fusca tem quando o pedal de freio retorna e bate no limitador de retorno, dá para escutar à distância mesmo fora do Fusca. Viramos à esquerda e toma aceleração, nesse momento comecei a rezar para que nenhum desavisado viesse a cortar a preferencial na qual estávamos, mesmo que a velocidade nesse momento era muito mais artificial que real.

Lucas já não consegue segurar o sorriso, e volto a dizer que isso que é carro de verdade, e lembrando a ele que tudo é diferente do nosso carro, que é silencioso, macio, tem motor na frente etc. Segundos depois cai a maçaneta de abrir a nossa porta. Faz barulho e ele percebe perguntando o que é. Imediatamente pego a maçaneta e a encaixo no lugar, e o tio Vânio afirma que prendeu com um parafuso recentemente. Damos risadas e digo que a maçaneta machucou meu pé, afinal ela é feita de metal.

Mais uns gritos eufóricos, o tio Vânio segue acelerando e fazendo reduções de marchas, seguidas de estouros do escapamento, que faz com que uma moça quebre o pescoço e olhe para nós. Caímos na risada. Tio Vânio, sem perder tempo, fala “ela olha para nós de Fusca amarelo, imagina se estivéssemos de Mercedes, Porsche ou outras naves!” Nossas risadas em alto volume abafam o ronco do escapamento.

 

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Quase chegando em casa, encaramos outra subida. Novamente segunda marcha aos trancos e depois primeira, faço a promessa de regular o motor na próxima vez que o visitar. Por fim paramos na garagem, saímos falando alto, dando risada, enquanto Lucas corre em direção da mãe e tia Nice para contar sobre nossa aventura. Eu tenho certeza que este dia não sairá da minha memória, creio ter ficado mais feliz e alegre que meu próprio filho. Dou muita atenção em viver a vida de forma simples valorizando justamente momentos assim, onde a vida é mais alegre, mais saborosa.

Não esqueço meus momentos maravilhosos junto de meu pai e seus Fuscas. Aprendi a dirigir num, mas nunca até este domingo em especial eu tinha olhada de forma mais carinhosa ao famoso VW. Às vezes aprendemos mais com nossos filhos do que os ensinamos.

Este domingo ainda teve um churrasco — família reunida, vista na primeira foto — festejando aniversário de minha maravilhosa mãe, a Dona Eliane, que eu amo muito. No fim, lágrimas nos olhos e estrada pela frente, sempre ela.

Dedico esta história a meu amado pai, Antonio Maffessoni, que me ensinou a valorizar as pessoas e os bons momentos com elas. E também a todos os familiares e amigos que me recebem sempre de braços abertos.

JM

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