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Entre os carros que duraram muito tempo na Argentina provavelmente o mais folclórico seja o Citroën 3CV, que por si só merece um longo texto. Era um charme de simplicidade e um símbolo da classe emergente argentina.

O modelo era francês, com motor de dois cilindros horizontais opostos arrefecido a ar, que significava um barulho extremamente peculiar e fazia com que dentro dele fosse muito difícil qualquer conversa. Tinha meros 602 centímetros cúbicos e 30 cv. A tração era dianteira e o câmbio tinha quatro marchas com uma alavanca muito esquisita que lembra o cabo de um guarda-chuva e ficava sob o painel, operando horizontalmente. Outras peculiaridades eram que a partida era dada por outra alavanca e o teto de lona permitia que fosse aberto como se fosse um conversível e que lhe valeu o apelido de “guarda-chuvas ambulante”. Um carro para mim cheio de personalidade e um charme único e do qual guardo ótimas lembranças.

Embora tenha começado a ser desenvolvido nos anos 1930, foi lançado no pós-guerra na França para ser um carro resistente e barato e, de fato, cumpria ambas as missões. E ainda por cima econômico. Chegava a fazer 20 km/l. Velocidade? Veja bem… na lista de coisas que o carro tinha de ter ao ser projetado certamente esse item nem entrou e assim resultou que a rã (“rana” como também era chamado na Argentina) não passava dos 80 km/hora, mas isso somente na descida e com muito vento a favor.

Inicialmente, o modelo francês desenvolvido por Pierre Jules Boulanger era o 2CV ou Deux Chevaux (dois cavalos), mas nos modelos fabricados a partir de 1970 na Argentina foi rebatizado como 3CV e “Tres Caballos”, embora fosse apenas uma versão ligeiramente mais moderna, já com os 602 centímetros cúbicos no lugar dos iniciais 425. Sim, já sei, argentino tem mania de grandeza, vocês dirão… Aliás, o nome Dois Cavalos era uma referência à medida de potência fiscal (por isso o CV em maiúsculas, para diferenciar de cv potência nominal) já que era exatamente essa a que se originava do motor de 375 centímetros cúbicos e 9 cv dos primeiríssimos protótipos franceses. Como adoro saber a origem das palavras e dos nomes, e lembrando que em português há uma confusão entre cavalo-vapor e cavalo fiscal, vamos à explicação do porquê do nome. Este último é uma fórmula matemática e como faz tempo que não torturo meus leitores com este tipo de informação, lá vou eu:

Fórmula AOnde:

Pf = Potência fiscal
T = 0,08 para motores de quatro tempos, 0,11 para motores de dois tempos
D = Diâmetro do cilindro em cm
R = Curso do pistão em cm
N = Número de cilindros

Na Argentina o 3CV (ou 2CV como quiserem) foi fabricado entre 1960 e 1979. Em 1980 a Citroën deixou de fabricar os carros mas continuou montando-os a partir de kits CKD numa versão bastante modificada até que em 1982, devido ao apoio francês aos ingleses na Guerra das Malvinas, a fábrica foi confiscada e entregue a uma empresa argentina.

Atualmente o modelo faz grande sucesso com os turistas que visitam a província de Mendoza, na Argentina e alugam este carrinho para visitar as vinícolas. Se a idéia é flanar pelas lindas paragens e entre plantações de uva bem lentamente, nada me parece mais indicado.

Outra característica deste carro eram a simplicidade com que tudo se resolvia nele. As portas e o capô podiam ser desmontadas pois estavam colocadas sobre trilhos sem parafusos.

A suspensão era um capítulo à parte, pois era composta de braços longitudinais presos ao chassis por varetas fixas a molas helicoidais colocadas longitudinalmente a cada lado. Estas molas ficavam dentro de cápsulas cilíndricas colocadas sob as portas e que suspendiam, ao mesmo tempo e a cada lado, uma roda dianteira e uma traseira. O resultado? Uma tremenda dor nos rins depois de muito tempo piorada pelos bancos que pareciam cadeiras de praia… Mas esse rodar que parecia cambaleante era também característico do 3CV e vê-lo fazer curvas um pouco mais rapidamente era um verdadeiro desafio às leis da gravidade e um acinte às forças centrípeta e centrifuga — e a mais alguma que ele certamente desafiava. O ângulo de inclinação lateral que a carroceria alcançava era inimaginável. Isso não impediu que fossem fabricadas diversas versões, inclusive uma para carga.

 

Cartoon Nora

O 2CV era o carro da família de Mafalda — nada mais típico da Argentina dos anos 1970

Mas se até James Bond dirigiu um 2CV em “Somente para seus olhos” imaginem se eu não teria uma história da minha família para contar sobre este possante? Claro que sim, e foi muito legal relembrá-la com meu querido tio Horacio.

Ele deve ser o recordista de Citroën que eu conheço. O primeiro que comprou foi quando acabava de prestar o serviço militar e não tinha dinheiro para nada melhor do que aquilo. Era um modelo 1962, em frangalhos praticamente. Ainda assim, ele levou a dois de meus primos, minha irmã e eu à Cidade das Crianças, a 50 quilômetros de Buenos Aires. Até hoje lembro com carinho das confusões de um tio pouco mais que adolescente cuidando de quatro pirralhos e da estrada que parecia interminável naquela velocidade. Depois veio o cinza da história que conto a seguir e que ficou com ele por uns três anos. Seguiram-se um modelo 1972 que durou quatro anos até ser roubado (sim, tinha mais gente que queria esses carros, inclusive alguns amigos do Alheio) e o último foi um modelo 1978 cor de vinho que também foi roubado menos de um ano depois de ser comprado.

Vamos, então à história de valentia do segundo 2CV do meu tio.

Fevereiro de 1973, Buenos Aires. Meu tio Horacio comprou um Citroën 2CV usado, modelo 1965. Numa sexta-feira, às 4 horas da tarde, o recebe e sai no dia seguinte de madrugada rumo a Comodoro Rivadavia, cidade distante pouco mais de 1.800 quilômetros e onde morava minha tia Irene. Sim, a família é grande e felizmente muito unida.

A viagem seria feita em duas etapas: a primeira até Puerto Madryn, ou quase 1.300 km e daí até Comodoro. E só ele dirigindo. Mas pouco depois de sair de Buenos Aires, na altura de Bahía Blanca, o forte vento da Patagônia já se fazia sentir e meu tio não conseguia engatar a quarta marcha, indo a somente 50 km/h. Na hora que foi ultrapassado por um caminhão grande, ele, químico e com cabeça de Ciências Exatas, pensou em como vencer a resistência aerodinâmica, o atrito, o arrasto ou sei lá o quê e se colocou atrás dele. Assim, com a proteção do veículo à frente, conseguiu engatar uma quarta marcha. Seguiram assim por uns 120 quilômetros. O gentil caminhoneiro ainda avisava quando cruzavam por algum obstáculo para que o gado não atravesse a estrada, tipo mata-burro, muito comuns naqueles lugares e quando entrou num posto de gasolina fez questão de descer e conversar com meu tio para saber se estava indo bem assim e dizer que sairia da “Ruta 3” um pouco adiante e que a partir daí o Horacio teria de seguir sozinho. Se despediram e cada um seguiu seu caminho. Mas por sorte o vento já não atrapalhava tanto. O que atrapalhava era o cansaço de apertar o acelerador. Foi aí que a lógica voltou a predominar e meu tio encostou o carro e pegou uma pedra que colocou sobre o acelerador para poder descansar o pé. Digamos que era um precursor do controle de cruzeiro de hoje.

A velocidade do Citroën era tão reduzida, mas tão reduzida, que quando num momento cruzaram com um grupo de “ñandúes”, uma espécie de siriema típica da Argentina, meu tio buzinou para o bando que saiu correndo e o ultrapassou! Mas como ele lembra, a lentidão era tanta que dava para apreciar a paisagem e várias vezes parou para ver um tatu que andava pela estrada, algumas raposas e até mesmo aranhas grandes que atravessavam o caminho. Ou seja, além do pitoresco, tudo ia sem problemas até uns 50 km antes de Puerto Madryn. Para se manter alerta, pois a retidão da estrada é maçante, meu tio resolveu fazer zigue-zague na estrada que, claro, estava vazia naquela época. Se vocês pensaram que foi uma péssima idéia, têm razão. Resultado? Beliscou o acostamento e furou os dois pneus do lado direito. E foi então quando começaram a ficar evidentes as virtudes do Citroën. O Horacio trocou o pneu e colocou o estepe na roda dianteira e pôs toda a bagagem do lado esquerdo. Seguiu com o pneu traseiro furado e conseguiu percorrer os 50 quilômetros que faltavam até Madryn, o ponto mais civilizado e próximo de onde estavam. Saudades dos tempos de pneus com câmara!

Parada então num borracheiro para arrumar os pneus e, inclusive apenas consertar aquele que rodou vazio, que não sofreu nenhum estrago a ponto de ser suficiente um remendo comum. Aí foi só aproveitar as lindas paisagens de Península Valdez, num total de uns 200 quilômetros de pedra (o famoso “ripio”). Pronto, turismo feito, rumou ele para Madryn por um caminho diferente do da ida. Meu tio naquela época e com aquele carro dirigia de algumas maneiras, quais sejam: 1) a toda, 2) a toda, 3) a toda, e 4) a toda. Como o diabo está nos detalhes, passou por um daqueles mata-burros em conserto e voou uns 5 metros. Apesar da batida muito forte no chão, meu tio nem quis olhar o tamanho do estrago e seguiu dirigindo até um acampamento em Puerto Madryn onde ficou por alguns dias para aproveitar a linda região.

 

Deuz chevaux Nora

2CV modelo, parecido com o do meu tio (http://autos.mitula.com.ar)

Começou então a segunda etapa da viagem. Faltavam uns 440 quilômetros até Comodoro, mas 300 eram de pedra e cascalho. Quando faltavam uns 100 quilômetros para o destino uma pane elétrica parou o 2CV irremediavelmente. Nem meu tio conseguiu consertar, mas outro gentil caminhoneiro parou e se ofereceu para puxar o carro. E aí se iniciou um novo perrengue. Já perto de Comodoro Rivadavia, a Ruta 3 é toda em descida, e o motorista ia o mais devagar possível, mas o Citroën ia mais rápido e meu tio tinha de frear. O cambão que o puxava era muito curta e a extensão feita por ele com arame no melhor estilo McGyver quebrou e o 2CV ultrapassou o caminhão sem que o motorista o percebera e continuou descendo. Ao terminar a pirambeira, os dois veículos se reencontraram e fizeram uma nova manobra de engate e assim meus tios foram puxados até uma oficina mecânica em Comodoro Rivadavia. O motivo do defeito? Apenas o condensador em curto-circuito, o que foi rapidamente consertado.

Mas minha tia Irene morava a uns 15 quilômetros da cidade, em Rada Tilly, de frente para a praia. E aqui vale um parêntese. O vento lá é tão forte que as ondas do mar quebram para dentro. É estranhíssimo ver a onda se curvar para o outro lado e ir embora em vez de terminar na areia. E meu primo ia jogar futebol sozinho na areia. Pegava a bola e chutava contra o vento. Ficava fulo quando voltava depois de ter perdido dele mesmo…

Ao chegar na casa da minha tia, nova surpresa. Ela ainda não havia chegado de Buenos Aires e não havia ninguém na casa. Sem celular nem outro meio de comunicação, meu tio pegou a barraca de camping que levava e a montou no jardim da minha tia. Foi dormir e de madrugada chegaram minha tia Irene com meus primos e meu tio, mas não viram a barraca e também foram dormir. Só se viram todos no dia seguinte.

Mudando de assunto: o mês de maio me traz lembranças tristes em termos de automobilismo. E o mês em que Nélson Piquet sofreu aquele horrível acidente em Indianápolis, Ayrton Senna morreu e quando meu outro ídolo Gilles Villeneuve morreu também num acidente que até hoje evito ver. Mas é também o mês do meu aniversário. Ufa…

NG

Foto de abertura: huffingtonpost.com
A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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