Rio 450

A cidade do  Rio de Janeiro (São Sebastião do Rio de Janeiro) foi fundada por Estácio de Sá no dia 1° de março de 1565, portanto acabou de completar 450 anos. Para tanto, a revista Veja publicou edição especial sobre a data, com todo louvor.

No entanto,  nada foi dito sobre a tradição da cidade no que diz respeito ao automobilismo e as pessoas ilustres que praticaram, o que gerou indignação do eminente cidadão, piloto e autor de livros sobre o  tema, Paulo Scali, sob a forma de carta à revista e que me autorizou publicá-la, tornando-se desse modo uma carta aberta. Ei-la:

“Como leitor desta conceituada revista, que sempre surpreende com a qualidade de informações muitas vezes desconhecidas por nós, muito apreciei a reportagem que escolheu os 450 nomes de pessoas que passaram pelo Rio de Janeiro e aqui deixaram suas marcas. Com o quadro de renomados personagens escolhidos não poderia ser de outra forma, destacando pessoas de todas as classes sociais, além de muitos esportistas que deixaram sua marca. Entretanto, senti falta de menção de algum personagem e do Circuito da Gávea, conhecido também como “Trampolim do Diabo”, no qual foram realizadas importantes provas internacionais de automobilismo no período de 1933 a 1954.

Muitas destas competições aqui realizadas contaram com a participação dos melhores pilotos da época, já que elas antecedem ao Campeonato Mundial de Fórmula 1. Nomes renomados, inclusive o argentino multicampeão de Fórmula 1 Juan Manuel Fangio e seu compatriota José Froilán Gonzalez, duas vezes vice-campeão na F-1, e os italianos Giuseppe Farina, primeiro campeão Mundial de F-1, Luigi Villoresi, Achille Varzi e, especialmente, Carlo Pintacuda, que inclusive teve seu nome mencionado em marchinha de carnaval, além do alemão Hans Stuck e da francesa Hellé-Nice, que também ficou famosa aqui no Brasil. O circuito da Gávea também teve vitórias importantes de pilotos brasileiros como Chico Landi, vencedor de três edições na Gávea, sendo o primeiro brasileiro  a correr na F-1, bem como Gino Bianco, brasileiro naturalizado que sempre viveu no Rio e foi o segundo piloto a representar o Brasil na F-1. As provas do Circuito da Gávea, também conhecido como “Trampolim do Diabo”, foram um importante evento na cidade chegando a ter público estimado em 300.000 espectadores. Além disso, esse circuito teve como um de seus criadores o diplomata Manuel de Teffé, membro de tradicional família do Rio e que, inclusive, foi o vencedor de duas edições do Circuito da Gávea.

Outro carioca conhecidíssimo, o arquiteto Sérgio Bernardes, pessoa querida de uma família do Rio. Sérgio era pai do Serginho, pessoa ligada ao cinema, e do Cláudio, também arquiteto, que morreram  prematuramente, todos conhecidos nos mais variados locais, agradáveis, mostrando sempre um Rio que produz. Sérgio também correu Gávea, bem como Rubem Abrunhosa, vencedor de uma edição no Circuito da Gávea, comandante de voos internacionais da saudosa Panair, empresa que deixou saudades no Rio. Lembro da mesma forma do petropolitano que morou no Rio, Irineu Corrêa, vencedor na Gávea e que morreu posteriormente em acidente no circuito, assim como Nino Crespi, que também faleceu em  acidente no Circuito da Gávea.

Outro personagem que merecia um reconhecimento é o saudoso Wilson Fittipaldi, pai dos campeões Wilson Jr. e Emerson e que era um apaixonado pelo Circuito da Gávea, e sempre se lembrava de que acompanhou as provas desde 1936, quando tinha apenas 16 anos de idade, foi de trem, era escoteiro, e nunca mais se esqueceu. Wilson Fittipaldi faleceu recentemente no Rio de Janeiro, cidade onde escolheu para residir seus últimos anos de vida. Outro paulistano, Chico Landi, que venceu as edições de 1941, 1947 e 1948 do Circuito da Gávea, também residiu aqui no Rio e, naquele período, foi sócio do cantor Chico Alves numa empresa de táxi, falecido na Via Dutra em 1953. Lembrei-me do Arthur Souza Costa Filho, marido da minha amiga Emilinha Borba e filho do ministro Souza Costa na era Vargas. Por sinal, Getúlio Vargas acompanhou desde a primeira prova em 1933 até a última em 1954.

Pós-Gávea, o piloto  Norman Casari, que foi figura expressiva da vida social do Rio de Janeiro nos anos sessenta e setenta, também não teve nenhuma referência, apesar de ter conquistado vários títulos de campeão e o título de recordista brasileiro de velocidade, em 1966. Assim, sinto com pesar que não só a Gávea foi esquecida, mas também o “Automobilismo do Rio”. Na verdade estou falando de algo muito específico, como automobilismo esportivo, mas reconheço que vocês talvez não teriam espaço para escrever sobre isso e, da mesma forma, também teriam motivos até para desconhecer, pois a Cidade Maravilhosa, que há poucos anos tinha um dos melhores autódromos do Brasil, no qual foram realizadas provas internacionais de Fórmula 1, Indy, Motovelocidade, hoje não tem mais esse autódromo, que foi demolido e não tem previsão real da construção de um novo circuito. Para nós, automobilistas sem autódromo, é o mesmo que o pessoal do futebol sem o Maracanã. Também reconheço que, se vocês por acaso tivessem procurado os dirigentes do nosso automobilismo, provavelmente muito pouca coisa seria acrescentada, já que a maioria deles desconhece a nossa rica história esportiva e também não teriam interesse algum em divulgá-la… Fico triste com a não citação do Circuito da Gávea e também de personagens conhecidíssimas que não apareceram, mas que foram figuras marcantes do Rio. Por sinal, o Renato Murce, pessoa muito especial que vocês destacam na reportagem, também correu no Circuito da Gávea nos anos trinta, mas parece que o Circuito da Gávea não foi importante pra ele. No entanto, várias pessoas comentam da felicidade de ter corrido no Circuito da Gávea. Mesmo assim, tenho que parabenizá-los pela reportagem. Talvez nós automobilistas também tenhamos um pouco de culpa pelo fato do esporte pelo qual somos apaixonados ser tão pouco reconhecido pelos políticos e dirigentes do Rio de Janeiro, apesar do Brasil já ter conquistado oito títulos mundiais na Fórmula 1.

Muito Agradecido.

Paulo Scali”

Veja respondeu:

Assunto: Resposta

Prezado leitor (a),

O departamento de Atendimento ao Leitor de VEJA recebeu seu e-mail

Sua mensagem eletrônica será encaminhada para a pessoa que melhor poderá atendê-lo. Se sua carta é destinada à publicação na seção dos leitores, queremos adiantar que por uma questão de espaço nem toda a correspondência que recebemos é publicada. Qualquer comentário que ela contenha será encaminhado aos nossos editores para que eles tomem conhecimento de suas críticas e observações. Se o objetivo de sua carta é outro, por favor, aguarde uma resposta posterior.

Agradecemos o interesse por VEJA e esperamos atendê-lo o mais rápido possível.

Atenciosamente,

Atendimento ao Leitor
Revista VEJA

Ou seja, uma reles resposta-padrão — Prezado leitor (a)! — para um assunto dessa importância, sem menos identificar quem a escreveu e seu cargo na empresa jornalística, prática, aliás, cada vez mais comum hoje. lamentavelmente.

 

Quem é Paulo Scali

 

Paulo Scali4 cPetropolitano, 62 anos, advogado, Paulo Scali vem se dedicando há vários anos a escrever livros sobre o automobilismo brasileiro. Suas obras, na ordem de publicação, “Chico Landi de Ponta a Ponta”, “Circuito da Gávea”, “Interlagos, Autódromo Internacional da Cidade de São Paulo” e “Circuitos de Rua 1908–1958” contam em detalhes toda uma época, seus pilotos, seus carros. Podem ser adquiridas nas principais livrarias ou, caso esgotadas, em sites como www.estantevirtual.com.br/paulo-scali .

Paulo, atualmente, está trabalhando num livro que conta a história do piloto Christian Heins, o primeiro a dirigir a equipe Willys e que faleceu num acidente na 24 Horas de Le Mans de 1963, uma das grandes perdas do automobilismo brasileiro.

Ae/BS

 

 

(149 visualizações, 1 hoje)