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LUGAR DE CARRO DE CORRIDA ANTIGO É NO MUSEU, E NA PISTA

Brabham de Nélson Piquet em Goodwood, ano de 2014 (razaoautomovel.com)

A engenharia criou os automóveis para permitir a locomoção das pessoas de forma mais rápida e eficiente. Não demorou muito, o automóvel foi usado para disputar corridas, e as corridas evoluíram até às incríveis formas de competição que vemos hoje, em diversas categorias. Os carros de corrida tornaram-se o ápice da tecnologia automobilística ao longo dos anos, uma constante evolução.

Muitos carros de corrida viraram lendas por suas proezas e conquistas. Quem já não sonhou em ver de perto um carro histórico, como um McLaren usado por Ayrton Senna, ou um Jaguar XJR vencedor da 24 Horas de Le Mans? Carros com histórico de corrida mexem com os entusiastas a fundo. São como obras de arte sobre rodas, intangíveis para nós, meros mortais.

Vemos geralmente duas frentes de pensamento sobre o que fazer com carros clássicos de competição. Há os que defendem que os carros com histórico devem ser preservados em museus, longe das pistas. Outros acreditam que seus habitats naturais não podem ser esquecidos, e o lugar certo é na pista. Há ainda o meio-termo, com carros de museu que são levados para eventos e participam de corridas de clássicos e demonstrações. Esta, para mim, é a melhor forma de ser manter vivo um clássico de corrida.

Os carros de museu geralmente são os que possuem um histórico mais rico, como vencedores de corridas importantes, ou carros que foram campeões durante a vida. Muitas vezes ficam nos museus particulares das fábricas, ou em coleções dedicadas ao tipo de carro específico. É compreensível querer preservar da melhor maneira possível um carro com tamanha importância, dado o seu valor histórico, mas também não é nenhum pecado levar o carro para dar umas voltas em uma demonstração em um ambiente controlado.

Algumas das melhores coleções de carros de corrida estão na Europa. O museu de Donington Park, com a Grand Prix Collection (veja o site aqui) é um dos maiores, com uma grande quantidade de carros, especialmente F-1. Os fabricantes possuem seus museus particulares, como o incrível museu da Porsche e o museu da Ferrari. Alguns restauradores contam com museus próprios, como a Canepa Racing, especializada em Porsche. Nos museus americanos há sempre alas dedicadas aos carros de corrida, e também museus específicos, como o Wally Parks Museum, dedicado aos dragsters e  carros associados à NHRA.

Coleção de Mclarens do Donington Collection (grandprixblogger.com)

Manter um carro exposto em um museu aberto ao público é provavelmente a melhor forma de permitir que a maioria das pessoas tenham acesso e possam ver de perto muitos modelos famosos. Pude ver alguns carros históricos em museus, alguns até no estado em que saíram da pista pela última vez, com sujeira de óleo, borracha de pneu e tudo mais. É uma boa forma de ter contato próximo. No Brasil, há o Museu do Automobilismo Brasileiro (veja o site neste link) localizado em Passo Fundo, Rio Grande do Sul, com um bom acervo de modelos. Alguns deles participam de eventos em pista.

Outros colecionadores mantém os carros em coleções particulares, não abertas ao público. Alguns usam os carros em corridas de clássicos, outros apenas os apreciam em seus próprios museus a portas fechadas. Os que levam os carros para a pista não poupam esforços para ter um bom carro e disputam corridas até acirradas.

Acidentes

Eis que surge a discussão, pois o maior medo de levar um carro histórico para a pista é o risco de acidentes. É inerente ao esporte, não há o que fazer, mas uma dose de cuidado um pouco maior pode evitar muitos estragos. Nem sempre é possível evitar um acidente, e vemos alguns carros realmente caros e raros serem danificados em batidas. É uma dor no coração, mas faz parte do risco. Como qualquer máquina, os carros antigos também estão sempre sujeitos a falhas e quebras. Faz parte do jogo.

Recentemente saiu na mídia a notícia de que o experiente piloto Jochen Mass (ex-F1 e vencedor de Le Mans) bateu com um Mercedes-Benz 300 SLS em um evento em Goodwood, acabando com a frente do 300 e com a traseira de um Lister inglês. Alguns anos atrás, um Ferrari 250 TR avaliado em alguns milhões de dólares bateu em Laguna Seca, danificando consideravelmente a frente do carro. Acidentes acontecem, mesmo com um piloto bem qualificado como Mass.

Jochen Mass teve um pequeno problema com o MB 300 (stylemagazine.com)

Será que este risco vale a pena? Será que é a melhor opção colocar um carro único sujeito a danos que podem ser graves? Para muitos sim, e para estes que gostam de colocar os carros de volta à pista existem diversos formatos e categorias de corridas para carros clássicos. Subida de montanha, rali de regularidade, corridas de sprint, corrida contra o relógio, até mesmo corridas mais longas. Um grupo de campeonatos criado pela FIA chamado Masters Historic Racing (veja mais no site oficial) reúne diversas destas categorias de clássicos em competições organizadas de forma a colocar lado a lado modelos históricos de épocas semelhantes.

Encontros especiais como o Monterey Historics em Laguna Seca e o Goodwood Festival of Speed reúnem carros de diversos tipos, uma vez ao ano, para corridas de exibição com carros e pilotos lendários do automobilismo mundial. Carros desde os anos 1920 até os anos 2000 podem ser vistos em ação, e a experiência de ver um grid formado por lendas do automobilismo não tem preço. Estive no evento de Laguna Seca há alguns anos, e vale cada centavo. Carros de todos os tipos e épocas, pilotos amadores correndo junto com profissionais e lendas vivas como Sir Stirling Moss.

Outro evento muito legal é a Mille Miglia, que reproduz em parte a lendária corrida por estradas e vilarejos italianos. Neste caso, nem todos os carros são originalmente de corrida de suas épocas ou participaram da MM original. O requisito é que na época da corrida original (1927 a 1957), o modelo do carro tenha participado de uma das edições da corrida.

Parte dos carros destes eventos são de museus e parte de coleções particulares, mas todos são usados. Pessoalmente acredito que este meio-termo é a melhor forma de se preservar a história. Se um carro estiver em condições de rodar e não prejudicar sua integridade, deve rodar. A manutenção de um carro de corrida é mais complicada que a de um carro normal de rua, mas geralmente quem possui ou administra uma coleção de carros deste tipo pode bancar tais custos e complexidades. É possível conseguir peças de reposição hoje em dia, de época ou fabricação atual, como pneus, rodas e componentes de motores. O pior mesmo é a funilaria no caso de uma batida, pois recuperar um componente mecânico é uma coisa, reconstruir uma carroceria moldada muitas vezes à mão por artistas italianos, é outra.

Alguns eventos especiais tiram carros raros do repouso profundo para comemorações ou demonstrações. Foi o caso do lendário Mazda 787B, de motor Wankel, o único carro japonês a vencer a 24 Horas de Le Mans, em 1991.

Um carro de corrida parado é como uma orquestra em silêncio. Não podemos apreciar suas melhores características e virtudes. É muito bom ver um Auto Union Typ C V-16 6-litros com compressor de perto, exposto em um display bem iluminado e brilhando de tão limpo? Claro que é, mas é melhor ainda vê-lo de motor ligado acelerando.

É uma experiência única ver de perto um clássico que você admira, motor gritando a plenos pulmões em um circuito. É como uma volta ao passado. Ver na pista um Porsche 917K ou um Ferrari 312 é para muitos a realização de um sonho. Ouvir o ronco de um Chevrolet V-8 da CanAm ou um pequeno quatro-cilindros com compressor dos carros de grand prix dos anos 1930 e 1940 é música para os ouvidos de qualquer entusiasta.

É claro que a conservação de modelos históricos do automobilismo mundial deve ser feita a todo o custo, pois a memória de pilotos e corridas é melhor preservada assim. Mas também é muito importante manter viva a lembrança visual e sonora dos carros que fizeram história nas pistas do mundo. Com um cuidado extra, claro, carros históricos merecem ficar longe da aposentadoria compulsória.

MB

Algumas fotos feitas pelo autor de diversos eventos de clássicos na pista e em museus:



  • Totiy Coutinho

  • Totiy Coutinho

    Esse outro vídeo é para quem, como eu, curte enfiar a mão na graxa. Restauração do Brabham do Piquet…https://www.youtube.com/watch?v=sa96-rneVLI

  • BlueGopher

    Depois de ouvir o som do Mazda 787B, acho que deveria ser promulgada uma lei obrigando o uso de motores Wankel na Formula 1.
    Arrepiante!
    Lembra a F-1 dos anos 70/80.
    Aliás, se o som do motor estiver diretamente ligado aos níveis de audiência, como citam certos comentaristas, a saída para o sucesso é esta.

  • felipe

    A melhor coisa em um carro de corrida é ouvir a potência do ronco do motor e ver o carro ser levado ao limite extremo onde poucos carros conseguem chegar. Acho que no dia que não tiver mais o ronco do motor não valerá a pena ver uma corrida e nem dirigir um automóvel .

  • REAL POWER

    Concordo plenamente. Um carro deve ser usado da forma para qual foi construído. Um 4×4 deve sempre encontrar lama, buracos, levar seu dono a lugares onde os outros não vão. Um esportivo deve ser pilotado, sem dó, o motor tem que gritar. Um carro de corrida então, nem se fala. Foi criado para correr e deve ser assim do 1º ao seu último dia. Não dá para ter uma mulher bonita e só ficar olhando, tem que aproveitar.

    • Marques Guron

      Pior que comparar carro com mulher é dar nome de mulher para carro…

  • Marques Guron

    Você pensa desse modo, mas se alguém prefere manter o carro sobre cavaletes na sala de estar, também tem todo o direito.
    Cada louco com sua mania…

  • Mr. Car

    “Jochen Mass teve um pequeno problema”. Não sei se choro pelo problema, ou se rio pelo humor negro.

  • m.n.a.

    Quanto mais recursos o cara tem, menos pena dos “brinquedos”….

    O princípio do “bateu, compra outro” não é igual para todos os autoentusiastas….

  • César

    Coincidentemente, no fim de semana passado, achei esse vídeo do Mazda 787B. Fiquei impressionado com o seu ronco, especialmente na marcha-lenta.

    Além do Mazda, estava ouvindo o Porsche 917, o Ferrari 312P e mesmo o silencioso Audi R-18 e-tron.

    Sobre carros de corrida, é bom poder vê-los, mas carros foram feitos para estar em movimento.

  • Lorenzo Frigerio

    Recentemente li o relato de um jornalista do Daily Telegraph a quem a Mercedes teve a gentileza de ceder um modelo de corrida dos anos 50, tipo aquele do Fangio, para avaliação. O câmbio tinha as posições totalmente invertidas, deixando-o com medo de estourá-lo, reduzindo ao invés de passar para frente, sendo que para coroar foi instruído a não andar a menos de 4000 rpm, para não fundir o motor. Quando entregou o carro depois de algumas voltas, já saía fumaça do cofre.

  • Fernando

    Acredito que eles mereçam sim andar, porém não em um ambiente de competição(em provas comuns por tempo ou pista cheia), senão a própria esportividade fará com que sejam exigidos de um jeito que o risco não vale essa sensação, até porque, são insubstituíveis.

    O mais legal creio que fossem algumas voltas mais tranqüilas em ruas/circuitos fechados sem grande exigência deles.

  • R.

    O problemas que no caso desses clássicos, geralmente, se bater , não se acha outro para comprar.
    Também sou favorável que se usem .
    Mas, há de se usar, com bastante parcimônia !
    He he

  • R.

    Incrível esses seus 2 vídeos Totiy

  • R.

    Há um tempo atrás vi o Copersucar FD-01 depois de restaurado em Interlagos ..

    Foi pilotado pelo tigrão W. Fittipaldi Jr, que emocionou todos ali presentes

    Memorável !

    http://www.youtube.com/watch?v=z5T1rqXjH7k

    • Só quem viu ao vivo e conhece bem a história, pode sentir a emoção de ver novamente…

  • R.
  • joao vicente da costa

    Esse é pra mim o som mais lindo de todos os tempos… Ferrari 250SWB/Drogo. Me arrepia sempre!

    https://youtu.be/jbBevDHJP14

  • AlexandreZamariolli

    Falando na Mille Miglia, os espectadores deste ano tiveram a honra e o privilégio de ver o Mercedes 300 SLR “722” em ação… com o próprio Stirling Moss ao volante!

  • Eduardo Sérgio

    Há muitos anos li uma matéria na revista Oficina Mecânica sobre um evento com automóveis antigos no autódromo de Interlagos, e um dos participantes disse uma frase que até hoje não esqueci: “O que estraga o carro é deixá-lo parado na garagem.”

  • Milton, parabéns! Uma das postagens mais emocionantes aqui!
    Apesar de já ter visto a maioria dos vídeos na internet, quase chorei ao ver o FD01 e o BT52 novamante. Algo se cria nos carros antigos que não tem explicação, eles se tornam mágicos…

  • Estive lá também, pena não ter gravado um vídeo. Foi mesmo memorável.
    abs,

  • Belo vídeo! Som impressiona mesmo.

  • Obrigado! Esses videos são de arrepiar qualquer um!

  • Estas fotos são do dia que o FD01 andou no evento Clássicos de Competição em 2007.

    • R.

      Milton Belli
      Lindas fotos! Que definição!
      Nesse dia em Interlagos achei o cockpit do carro pequeno para o tamanho do Wilson
      Vendo hoje essas suas fotos parece bem mais proporcional e adequado…
      Mas de qualquer forma a F-1 evoluiu muito, principalmente em segurança dos carros.
      Os pilotos dessa época pareciam mais corajosos e se expunham a riscos bem maiores que os pilotos atualmente, não acha?

    • Roller Buggy .

      Isso foi o mais perto que eu cheguei do FD 01…

  • Lorenzo Frigerio

    Normalmente, acho que roncos de carros de pista não são feitos para agradar o ouvido humano. O do Mazda é único, vale por essa capacidade de rotação absurda. O do Auto Union V-16 parece quase polido, mas tem um certo nível de embaralhamento. O 917 é campeão de NVH – o ronco (incluindo o do câmbio) é medonho, exatamente as freqüências que mais irritariam num carro de rua… esperar o que de três motores de Fusca em série… Mas obviamente soar bem foi a menor consideração nesse projeto; ele cumpriu o que se esperava dele.

    • Maurício Redaelli

      Felizmente o prazer é subjetivo. Pode deformar o tímpano a ponto de doer, mas é emocionante mesmo assim.

  • Eric Darwich

    São dois motores de 911 6 cilindros…nada a ver com 3 de Fuscas.

    • Roller Buggy .

      Não esquenta, tem gente que não tem conhecimento e critica….

    • Lorenzo Frigerio

      O motor do 911 pouco mais é que um motor de Fusca com 2 cilindros a mais. É claro que ele continuou evoluindo até onde não dava mais, enquanto o do Fusca parou no tempo.
      É uma pena que o eufemismo não foi notado.

      • Roller Buggy .

        Quando não se domina bem o assunto, o melhor é pedir desculpas pelo equivoco ou ficar calado, do que tentar consertar e ficar pior ainda…

  • Acho que antigamente não havia a preocupação da forma que é hoje com segurança, logo não se fabricavam carros que protegiam tanto os pilotos.

  • Roller Buggy .

    Puro preconceito de quem não conhece… 3 motores de
    Fusca?