Não, pessoal. Não é nada do que alguns possam estar pensando. Trata-se de um texto sobre essas coisas que têm rodas e por enquanto ainda queimam gasolina em sua maioria, não sabemos até quando, chamadas veículos automotores, objetos de nosso entusiasmo. Nesse caso especifico um daqueles exemplares com apenas duas rodas chamados motocicletas, mais parecidos com os de quatro rodas do que pode imaginar quando se olha ou se monta.

Muita gente torce o nariz às motos, e se recusa a aprofundar-se no assunto. Esse texto foi escrito pensando nessas pessoas, às quais eu me incluía até meados do ano retrasado, quando uma semente plantada despretensiosamente começou a germinar na minha cabeça que começou a aventura impensável até então: seria possível viver em uma metrópole e ter uma motocicleta sem que isso implicasse em atentados contra a minha integridade física?

Pois bem. Até então essa questão já estava respondida antes mesmo de ser perguntada, até porque na minha formação médica tive um período de entusiasmo pela cirurgia geral que me levou a ser estagiário no maior hospital de trauma de Belo Horizonte e um dos maiores do Brasil, onde eu era claramente influenciado pelo resultado das barbaridades que a imperícia e a imprudência poderiam causar à saúde humana, mutilando dezenas de pessoas no auge de sua vida produtiva. E reparem que dentro de um hospital ainda se vê aqueles que sobrevivem. No IML a coisa é bem mais taxativa, dizem. Ainda assim já tinha, pois, opinião formada. Moto em cidade grande brasileira não dava.

 

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Eu não queria virar estatística

No entanto, sempre simpatizei com essas engenhocas de duas rodas, meu primeiro contato com um comando de veiculo do qual tenho lembrança foi aos quatro ou cinco anos: numa ladeira, em subida, me ser passado o lado direito do guidão pelo meu tio me pedindo que à medida que o morro fosse acabando soltasse lentamente o acelerador para manter a mesma velocidade. Isso para uma criança nessa idade, com um motor barulhento embaixo das pernas e o cheiro de gasolina que brotava daquele respiro do tanque da XLX 250 deve ter sido o grande evento que me fez amar os automóveis. Uma overdose de sensações quando se tem um cérebro em branco e ávido por informações. Outros tempos aqueles. O que aconteceria nos dias de hoje ao meu pobre tio e a mim se isso fosse flagrado, ou pior, filmado? Chamada no Fantástico, domingo à noite, para a irresponsabilidade? Prisão perpétua? Morte aos dois por apedrejamento? Reciclar a moto e transformá-la em latinhas para plantação de mudas de árvore? Difícil prever.

Cheguei mesmo a tirar carteira de moto, com 19 anos, depois de ser habilitado para automóvel, mas nunca havia me aprofundado em como pilotar. Fui lá, andei naquela pista de malabarismo ridícula, e como um macaquinho amestrado voltei com a carteira A… Pouco andava naquilo, e o pouco que andava, no interior, seja na roça ou cidade tranqüila, era pela praticidade. O entusiasmo se direcionara mais aos carros, mesmo.

 

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Igualzinho ao trânsito de cidades grandes: até placa tem

Então certo dia estava eu em um site daqueles que você só vai quando já leu tudo que presta sobre carros, mas a cachola pede um pouco mais de informação. E no meio dos comentários eis que surge um assunto sobre motos e o risco de pilotá-las no dia a dia, e alguém cita um tal artigo de revista chamado “The Pace”, explicando brevemente a filosofia de obter diversão a bordo de motos, em vias públicas, sem se expor a riscos de acidentes ou multas. Interessante, pensei. Fui atrás do tal artigo, publicado por um instrutor e ex-piloto americano chamado Nick Ienatsch e logo descobri também um livro do mesmo autor explicando sua relação com as motos, lições de sobrevivência em ambientes urbanos e muitas dicas de pilotagem baseadas em suas experiências na pista.

Consiste em aprimorar a técnica de pilotagem, com ajuste fino de frenagem e dirigibilidade, buscando a perfeição, o tangenciamento perfeito, o uso do acelerador e freios como forma de auxilio nas curvas, bem como tirar vantagem da movimentação do corpo sobre a moto alterando o centro de gravidade. Enfim, sintonia fina de pilotagem. A proposta é ser capaz de se colocar a centímetros da trajetória planejada, e conduzir a moto em vez de se tornar um passageiro em potencial em caso de imprevistos. Detalhe importante é que não há um tipo de moto, marca ou cilindrada ideal. O importante é incorporar esse estilo de pilotagem mais aprimorado, respeitando-se as limitações de cada uma.

Mais interessante ainda é o desestímulo a altas velocidades em retas e a ênfase no prazer e desafio de se fazer curvas. Pensando racionalmente até um macaco treinado é capaz de enrolar um cabo de acelerador. Fácil de ser usado e abusado, e com conseqüências muitas vezes difíceis de controlar. Já as curvas são desafiadoras, cada uma tem suas características, e inúmeras variáveis. Grande parte dos acidentes são causados por entrada de curva em alta velocidade seguida de correção intempestiva. Ênfase também na proibição de cruzar a linha amarela contínua. Além de perigoso, seria um pecado desperdiçar as curvas. A proposta era boa demais para ser verdade: buscar prazer ao “volante” sem se expor a grandes riscos de velocidades elevadas, contribuição extra aos cofres públicos, e de quebra ganhando em praticidade e qualidade de vida.

 

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Eis o divisor de águas

O livro foi devorado em poucos dias, e o histórico do navegador foi ficando cada vez mais recheado de sites de motociclismo, e por fim aqueles com classificados de motos usadas. Em poucas semanas meu inconsciente me levou a lojas de moto e estudos, até escolher um modelo ideal para começar. Precisava de algo de cilindrada média, com reserva de potência, e comportamento dócil. Não foi difícil chegar a uma CB500 ano 2000 vermelho Candy (existe nome mais bonito para uma cor do que esse?). No dia de apanhar essa criatura não tinha nem coragem de buscar na pequena cidade vizinha de Mateus Leme, pedi que o antigo dono a colocasse em minha garagem e o levei de carro até a cidade dele. Só ao chegar em casa é que me sentei na frente “daquilo”, pensando no tamanho da lambança que eu tinha feito.

 

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Nova habitante na minha garagem

Essa pinça dianteira da Brembo, para mim, é como uma obra de arte.

 

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Pinça Brembo

Para piorar a situação nem capacete eu tinha. Para dar uma volta enquanto o capacete não chegava foi preciso arriscar: chegando cedo depois de um plantão dei uma volta no quarteirão e nem uma alma viva nas ruas. Óculos escuros e dedo na partida, duas voltinhas no quarteirão, um dedo apontado como se um ser humano andando de moto sem capacete fosse uma ameaça à integridade da raça humana, e de volta à garagem. Só esse micro-passeio já me bastaram para entender que não tinha feito um mau negócio. E foi por Deus essa voltinha, porque na semana seguinte levei um tombo de cavalo cinematográfico que me deixou sem poder levantar a perna do chão por uns dois meses. Se ainda não tivesse andado era bem capaz de eu achar que aquele tombo era um sinal para eu não mexer com moto, e desistir de tê-la. Outro problema foi a, digamos, surpresa da esposa com a novidade na garagem. Não vou entrar em detalhes das dificuldades, mas posso assegurar que hoje em dia ela consegue passar a até 2 metros da moto sem proferir palavra contrária, e dia desses sou capaz de jurar que a borda do seu vestido chegou a tocar na pedaleira. Considerei isso como o primeiro contato físico. Estamos tendo progressos.

Agora, senhores autoentusiastas, tentem conceber do que estou falando: Um veículo com cerca de 5 kg/cv, piloto incluído, com 0-100 na casa de 5 a 6 segundos, com um motor urrando e vibrando debaixo do seu traseiro, com um cabo de acelerador sem nenhum duende entre você e o asfalto que toca os pneus, para o bem ou para o mal. O único algoritmo que rege seus comandos é o que mora dentro dos seus miolos. Câmbio manual seqüencial, com um “punta-tacco” delicioso de ser feito com a ponta dos dedos. Sensação de vento no rosto para conversível nenhum botar defeito. Visto dessa forma parece interessante, não?

Claro que existem problemas. Sérios problemas relacionados à segurança passiva, que para mim é praticamente inexistente em motos. Então precisamos partir do pressuposto que o risco de se machucar seriamente, em caso de acidente é muito alto, e é preciso ser OBSESSIVO em baixar esse risco ao mais próximo de ZERO. Para isso tem de ser paranóico com segurança, e a procura de erros de pilotagem deve ser constante, se perguntando a toda hora o que se está fazendo de errado naquele instante.

No entanto, ainda no tema segurança, vale lembrar que as motos são imbatíveis em termos de segurança ativa: aceleram melhor, freiam melhor, proporcionam maior visibilidade, que por sua vez permite se antecipar aos movimentos dos outros veículos, o que ficou difícil ao andar de carro, porque se o carro à frente for usuário dos sacos de lixo nos vidros e você estiver de carro atrás pode esquecer. É como estar atrás de um caminhão-baú.

Obviamente não conseguiremos, nem como todo cuidado do mundo, reduzir o risco a zero. Mas a maioria dos fatores necessários para se causar um acidente podem ser controlados por nós, condutores, então melhor parar de se preocupar com os fatores que não podemos controlar, e concentrar naqueles que dependem de nossas escolhas. Nunca, mas nunca mesmo, coloque seu boné onde não possa apanhar. É inadmissível se colocar numa posição que lhe coloque inteiramente nas mãos dos outros motoristas. Em outras palavras, não confie em ninguém, a não ser em você mesmo, e sempre tenha um plano de fuga traçado.

Aprendendo a pilotar eu me tornei também um motorista de carros muito melhor incorporando hábitos simples, como olhar o mais distante possível que puder enxergar adiante. Isso funciona quase como uma máquina do tempo, que lhe faz prever uma frenagem ou situação de emergência preciosos segundos antes. Sutilezas como não se colocar no famoso ponto cego dos retrovisores (um alarme toca na minha cabeça toda vez que estou lado a lado com outro carro, até que as rodas da frente estejam emparelhadas, quando se deixa de ser invisível. Minimizando esse tempo crítico de acidentes se reduz em muito o risco de ser atingido por uma guinada brusca. Saia desse espaço acelerando ou freando o mais rápido possível. Veículo muito “solto” dentro da faixa, ou pior, fora dela, pode indicar alguém desatento. O cuidado inclui até mesmo passar em cruzamentos menos movimentados a uma distância parável em caso de emergência.

 

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Dispensa até legenda. De carro ou de moto, lembre-se disso sempre (Foto do livro Sport Riding Technics)

Carros de outra cidade ou estado também são mais propensos a mudanças bruscas de trajetória ou conversões repentinas. Motoristas perdidos são um perigo: se nem ele próprio sabe pra onde está indo, como é que você vai saber? Cada detalhe conta.

Sua relação com os freios deve ser de uma intimidade quase sexual. Conheça é compreenda a resposta do freio, da suspensão dianteira à medida que o peso é redistribuído e se concentra na frente da moto. Use o freio da frente sempre, e, para início de conversa, nunca use o traseiro, ou pelo menos use pouco, bem pouco.

Hoje depois de quase dois anos fico com a sensação de que segui o caminho certo ao dar uma chance às duas rodas.

Fica então o convite ao entusiasta que me proporciona o prazer de ter sido meu leitor: se você aprecia a sensação de estar ao volante e anda enfastiado com esses carros que dirigem por você, filtram suas ordens e o anestesiam do mundo, dê uma chance às motos: com cautela, responsabilidade e vigilância contínua. Bom passeio!

I have become
Comfortably numb

(Eu me tornei completamente anestesiado)

Roger Waters, David Gilmour

 

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A história dessa estradinha onde aprendi boa parte de como andar de moto merece um texto à parte. Fica para a próxima história

MA

ooooo

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  • $2354837

    Eu arranjando confusão em 3..2..1…

  • Mr. Car

    Escreveu, escreveu, e…não adiantou nada, Alvarenga. Desculpe a brincadeira, he, he, mas também tenho (por acaso, mas tenho) a carteira A há 32 anos, só fazendo uso dela uma meia-dúzia de vezes, em condições bem específicas (umas voltinhas em baixa velocidade em ciclo urbano de cidade pequena, ou dentro de propriedade particular). Por mais que se tome cuidado e minimize as chances de um acidente, não topo um veículo cujo para-choque sou eu, se eu cair (ou for jogado) dele um carro ou até caminhão pode passar direto em cima de mim, se chover tomo um banho, se furar um pneu fico na mão, o carona (se houver) influi na dirigibilidade, etc… Se eu tiver mesmo uma vontade incontrolável de sentir “a liberdade do vento na cara”, compro um conversível, he, he, he! Em todo caso, em condições muito específicas, até terei uma: se eu comprar uma bela e grande fazenda, compro uma XLX 250R para correr a propriedade e ver se meus boizinhos nelore estão engordando direitinho. No máximo, para dar umas voltinhas nas estradinhas vicinais de terra das cercanias.

  • Rafael Malheiros Ribeiro

    Fui motociclista por 16 anos e há 15 não tenho mais nenhuma motocicleta. Tive motos de rua e fora de estrada, baixa e média cilindradas, participei de passeios, enduros de regularidade (com ótimos resultados, modéstia parte…), mas depois de casado e com filhas, perdi o interesse, por falta de tempo no lazer, e medo de acidentes no uso diário, que eventualmente tirassem o sustento da família. Continuo gostando muito da máquina, mas mesmo jamais tendo quebrado nenhum osso, nenhum ponto sequer na pele em muitos milhares de quilômetros, em quase duas décadas de pilotagem, acho que ainda não chegou a hora de voltar a pilota-las por medo mesmo. Mas entendo perfeitamente o encanto de quem as adora. parabéns pela aquisição!

    • Marcos Alvarenga

      Obrigado!

      Espero desfrutar dela e das outras que eventualmente virão por muito tempo, com moderação e segurança.

      Abraços!

  • Ilbirs

    Andei uma só vez de moto, na qualidade de garupa. Não gostei muito da experiência, mas respeito quem gosta e guia com segurança. Porém, há algo que gosto muito ao analisar esses veículos de duas rodas: as soluções que os fabricantes desenvolveram para que o máximo possível de peças coubesse no menor espaço possível.
    Como fã de carros de tração traseira, a cada vez que vejo um conjunto motriz motociclístico bem ajambrado, só lamento o quanto de conhecimento é desperdiçado ao não se levar essas soluções para os carros de tração traseira. Eles ficariam mais espaçosos, sem túneis protuberantes, com os pesos mais equilibrados e melhorariam seu apelo até mesmo para quem é leigo, mas que reconhece quando um carro é melhor de dirigir que outro.

  • Felipe Parnes

    Penso em comprar uma todos os dias, mas a falta de dinheiro vindo de um salário de estagiário e a ânsia que nós jovens temos temos por buscar nossos limites, mesmo eu sendo cuidadoso me fazem pensar se não estou comprando minha sentença de morte.
    No futuro terei pelo menos uma com certeza, mas hoje não, ainda não.

    • Marcos Alvarenga

      Felipe, com responsabilidade é possível se divertir.

      E lembre-se, o “barato” da condução de um veículo não está em velocidades finais estratosféricas. O bom mesmo é fazer curvas com trajetórias perfeitas, trocas de marcha sem trancos, frenagem oportuna e reaceleração nas saídas de curva na hora certa.
      Aceleração em linha reta é fácil de ser feita, e com conseqüências muitas vezes difíceis de serem controladas.

      Abraço,

  • Victor

    Bom, moto é isso, é a atração o prazer e o perigo. Sou motorista e motociclista há muitos anos, já viajei bastante de moto, vários encontros de moto, fiz muitos amigos, aprendi a fazer várias coisas de mecânica na moto, conheci muitos lugares sempre gostei de moto trail e estradas de terra do interior com muito verde e paisagens legais. Mas é o seguinte: eu gosto muito das minhas pernas e braços inteiros. Sou muito cuidadoso, tenho todas essas dicas de segurança na mente, mas tem uma coisa que não se pode controlar, que é a ação alheia e é terrível isso. Por uma estupidez você pode se ferrar bonito. Então é este o dilema. Estou para me desfazer da menina há um tempo, ainda ando uma vez por semana para manter a gasolina nova e óleo circulando. Mas…

  • Antonio Gonçalves

    Saudades da minha RD350 YPVS

  • Marcos Alvarenga

    Mr. Car, pensava exatamente como você antes. E tinha motivos pra isso, como contei no texto.
    Mas a partir do ponto que se percebe que a grande maioria dos riscos, mas não todos, está sob o controle de quem pilota a moto, fica mais interessante a ideia de pilotar. Mas risco zero nem mesmo com sua XLX no meio do pasto.

    Nem mesmo no banheiro tomando banho. Já vi muito traumatismo craniano debaixo do chuveiro, acredite.

    E obrigado ao Ae pela oportunidade.

    • Mr. Car

      Não me preocupam os riscos que eu posso controlar com minhas ações, mas os que eu não posso, fruto das ações de terceiros. Valeu a tentativa, mas esta ovelha você não leva para seu rebanho, he, he!
      Abraço.

  • Marcos Alvarenga

    Ilbris,

    Nunca tinha pensado dessa forma a respeito da forma de projetar motos.

    Curioso que a indústria automobilística tem se apossado ou associado a fabricantes de motos. Caso recente foi a aquisição da Ducati pelo grupo Volkswagen. Seria a busca desse “Know-how” um dos motivos?

    Abraço e obrigado pela leitura.

    • Ilbirs

      No caso das motos, recentemente estava pesquisando sobre a Honda Gold Wing e o que me chamou a atenção nela foi a transmissão montada embaixo do motor e dela saindo um cardã. O detalhe é que a saída de força do motor da Gold é para trás, como em um motor de carro (e diferente do que era em um Saab 900, que também usava transmissão embaixo do motor, mas com saída de força apontando para a frente do veículo).
      Achei essa solução tão elegante que adoraria vê-la em carros. Em tese daria para ter uma única transmissão que servisse tanto para tração dianteira quanto traseira, bem como tanto para motores longitudinais como transversais (bastando apenas ter uma saída diferente, tal qual uma redutora que você acopla a uma transmissão convencional e a faz pode ser usada em um jipe).

      Ainda que tenhamos fabricantes menores de moto sendo adquiridos por grandes grupos automotivos (poderíamos aqui também lembrar da participação que a Daimler AG adquiriu na MV Agusta), o que me faz lamentar até agora é que fabricantes com longa história de fabricar carros e motos não usam as boas soluções das duas rodas para seus carros. A BMW, por exemplo, poderia ter usado um monte de boas soluções da Motorrad em seus carros (aqui entendendo-se não como usar motor de moto em um carro, mas sim usar os princípios construtivos desenvolvidos), mas o máximo que usou em temos recentes foi um motor de scooter no i3 REx. A Honda até usa algumas (vide a incomum boa disposição dos motores automobilísticos da marca em atingir altas rotações sem que isso comprometa a durabilidade), mas poderia usar mais. Talvez (e ponha talvez nisso) possamos ver boas soluções motociclísticas em automóveis quando a Yamaha começar a produzir o Motiv em série, ainda mais que é um carro bem pequeno.
      A VW até que começou a usar algumas soluções motociclísticas, ainda que em pequena série, vide o uso de motor Ducati no protótipo XR1 (versão esportiva do ultraeconômico XL1). Se irão continuar a usar isso, só o tempo dirá.

      Algumas soluções motociclísticas que gostaria de ver em carros:

      1) A tal transmissão embaixo de tudo, que liberaria espaço interno em carros de tração traseira, mas também poderia ser uma transmissão universal para tração dianteira e traseira e motores transversais e longitudinais, conforme o implemento que se agrega à caixa (vide aí princípio de redutora de jipe);

      2) Transmissões transversais que, em vez de ficarem na mesma linha do motor, ficam atrás dele. Isso inclusive permitiria um maior equilíbrio de massas e um posicionamento mais perto do centro do veículo, além de evitar um conjunto motriz que fique muito largo.

      Peguei só duas soluções que seriam perfeitamente exequíveis, mas há outras que também o poderiam ser.

      • Domingos

        A Honda chegou a usar transmissões de moto nos seus primeiros carros.

        Acho que existe algum fator de ganho de escala ou mesmo comodismo que faz com que não tenhamos transmissões em locais mais favoráveis como por baixo do motor ou englobando o motor, que realmente melhorariam muita coisa.

        A tração dianteira meio que solucionou o carro moderno, mas também criou uma série de estagnações que as fabricantes preferem contornar do que mudar.

        • Ilbirs

          Se formos nos concentrar só em uma marca especialista em produzir carros de tração traseira e motocicletas, cujo nome significa Fábrica de Motores da Baviera, mas conhecemos pela sigla alemã BMW, temos na Motorrad soluções geniais que simplesmente nos fazem perguntar por que raios não aplicam isso nos carros:

          http://www.toutsurlamoto.com/photogallery/photoinnovation2007/boite+vitesse+semi+automatique+fjr+1300+3.jpg

          Ou mesmo se considerarmos a mais clássica solução da BMW Motorrad, que é o boxer bicilíndrico, em que podemos comparar a geração antiga (arrefecida a ar e a óleo, no lado esquerdo) e a nova (arrefecida a água e ar, no lado direito):

          http://www.motorcycle.com/gallery/gallery.php/d/365708-2/2013-BMW-R1200GS-Engine-Old-New.jpg?g2_GALLERYSID=TMP_SESSION_ID_DI_NOISSES_PMT

          Observe-se que o conjunto arrefecido a água é mais curto por ter a transmissão incorporada à carcaça do bloco, mas mesmo o boxer clássico com sua transmissão dedicada é também extremamente curto, com a própria transmissão também sendo bem pequena. Compare-se isso com a disposição de elementos de um carro da mesma marca:

          http://www.jbcarpages.com/bmw/5series/2005/pictures/images/2005_bmw_5series_picture%20(39).jpg

          http://www.jbcarpages.com/bmw/3series/2006/pictures/images/2006_bmw_3series_picture%20%2819%29.jpg

          Se fosse só pelo motor, tudo bem, pois motores de carros de tração traseira são mesmo mais recuados que os de carros de tração dianteira, mas o problema é o quão invasiva é a transmissão e o quão alto é o eixo de saída da transmissão para o cardã. Com certeza daria para criar uma transmissão de tração traseira mais compacta e com saída de força baixa, o que faria um bem imenso ao carro, que teria túnel mais baixo e inclusive permitiria à BMW falar umas boas loas a respeito de espaço interno e acomodação do passageiro central traseiro.
          No caso da Honda, poderíamos fazer comparações entre a Gold Wing e o S2000:

          http://vroum52.com/vroumjaponaises.img/moteurtransmissiongl1500_06%5B1%5D.jpg

          http://spi1uk.itvnet.lv/upload/articles/13/132801/images/_origin_Masinas-26.jpg

          Novamente dá para comparar a elegância da moto viajadora com o tanto que o S2000 é empalado pela transmissão (como o entre-eixos é curto, deu até para usar cardã inteiriço). Caso o S2000 usasse uma transmissão embaixo do motor como a da Gold Wing, ficaria ainda mais livre e poderia até mesmo ser mais curto sem prejuízo de espaço para motorista e passageiro.
          E, como em carros o quesito de durabilidade fala mais alto que em motos, nada impediria usar essas soluções motociclísticas devidamente adaptadas ao contexto dos carros, como óleos separados para motor e transmissão (coisa que já existia no Saab 900, cuja transmissão era embaixo do motor). Mesmo carros de tração dianteira também ficariam favorecidos se soluções motociclísticas fossem usadas nos projetos, desde que devidamente adaptadas. Veja a primeira transmissão, que é de uma moto BMW de motor transversal, e diga se não dá para perfeitamente imaginar algo assim em um carro. Em vez de uma transmissão ao lado do motor, poderia ficar atrás do motor e nessa, diminuir o grau de projeção lateral que um trem de força transversal tem. Com isso dá para pensar em motores mais compridos para um mesmo cofre, bem como caixas de roda mais largas, que ajudam na hora de conseguir ângulo de esterçamento das rodas.
          Enfim, que se note o quão mais interessantes são os posicionamentos de trens de força motociclísticos e o quanto que eles ensinam aos projetistas de carros e que está sendo jogado fora.

  • Domingos

    Deve mesmo existir uma divisão nata entre as pessoas. Eu não vejo graça alguma em moto a não ser a praticidade e o barulho/puxada das esportivas. Mas não me imagino gostando daquilo também “ao vivo”, já que nas primeiras marchas o negócio quer empinar e nas últimas a resistência e barulho do vento devem ser realmente incômodos.

    Já carro eu acho interessante quase qualquer um, aquele interesse entusiasta vem mesmo quando não se gosta ou se admira mesmo assim.

    Outra coisa que percebo é que o entusiasta de moto gosta muito de coisas como vento na cara, cheiro de gasolina etc. que na verdade vão bem ao oposto de um carro – que tenta eliminar isso ao máximo, mesmo num aberto conversível.

    Não tem coisa que me incomoda mais que cheiro de gasolina constantemente, tanto que evito participar de certas competições e dirigir certos veículos porque sei que depois de me divertir vou ficar com o estômago e olhos enjoados por alguns dias.

    O barulho de vento eu gosto por 5 minutos também. Depois parece que tem alguém gritando na sua orelha o tempo todo.

    Realmente são coisas que podem parecer similares mas atraem públicos completamente diversos esse negócio de moto e carro.

  • marcus lahoz

    Muito bacana o texto.

    Já me aventurei até com uma irmã da sua, mas na cor preta.

    Pensei estes tempos em comprar uma Lead, ou qualquer outra deste tipo, para escapar destes motoristas lixos que temos.

    O grande problema é o perigo.

    • Marcos Alvarenga

      Marcus, comecei com uma moto maior, mas ao mesmo tempo dócil, e não me arrependo da escolha, porque muitas vezes é preciso ter uma reserva generosa de potência (potência de frenagem e aceleração) para se afastar de eventuais perigos. Não tenho muito parâmetro de comparação, porque depois que estou com a CB não andei mais em nenhuma outra moto.

      • Domingos

        Isso vale com qualquer veículo e, na verdade, qualquer coisa na vida. A pior besteira é achar que veículos com pouca potência são os mais seguros.

        Potência e capacidade são essenciais. É melhor ter do que não ter, basta saber usar.

  • Fernando

    Acho que o maior risco não é nem o que o ser consciente faz, mas sim, o que com você pode ser feito.

    De imprudência dos outros motoristas, motociclistas ou qualquer obstáculo (buracos novos a cada dia, lombadas invisíveis, pedras de caminhões, terra) ao pior que são os roubos/furtos, também tendo contato com acidentados, vejo uma proporção assustadora de latrocínios com motos, mesmo que o motociclista não tenha reagido. Isso porque a fuga é quase certa de ter “sucesso”, e o desmanche ou de ser “esquentada” também.

    Eu nunca fui do mundo das 2 rodas (com motor não) e até teria vontade de ter alguns poucos modelos, mas são esses efeitos que desanimam, tudo exposto no texto para mim seria de menor preocupação.

    • Marcos Alvarenga

      Fernando, pode acreditar. Os fatores que você pode controlar são muito maiores do que aqueles que você não pode. Eu só entendi isso plenamente depois que comecei a pilotar.

      Um motorista desatento pode ser identificado até pela postura. Olhando nos retrovisores se percebe se a pessoa está desatenta (ou pio ainda se os retrovisores estão refletindo o asfalto), pode se escolher não andar nos pontos cegos dos carros ao lado, e se preciso for passar por eles, que se passe o mais rápido possível. Freadas bruscas dos carros À frente podem ser antecipadas se olhando longe no horizonte. É preciso sempre ter um plano B caso alguma coisa dê errado, mas com atenção e cuidado é possível identificar situações de perigo antes que elas aconteçam.

      Abraço,

  • Bob Sharp

    Antonio Gonçalves
    E eu da minha RD350 1973, mesmo sem o YPVS nas janelas de escapamento. Que motor! Me deu muitas alegrias.

  • Newton (ArkAngel)

    Já pensou em escrever um livro?

    Gostei da forma como abordou um capítulo de sua vida, de forma leve e agradável. Em um tempo de radicalismos sem embasamento como os de hoje, nada melhor do que ler uma história que nos faça sentir bem.

    Parabéns. Quem sabe um dia a medicina não perca um médico e ganhe um escritor?

    • Marcos Alvarenga

      Obrigado, Newton!

      FIco feliz que tenha gostado. Pretendo escrever mais por aqui, sempre que houver oportunidade.

      Em breve o texto sobre a estrada da qual falo no texto. Só estava esperando meu carro ser consertado para fazer um video “on-board” e levar a todos de carona.

      Abraço,

  • Michell Aristobolo de Mello

    Piloto há quase 10 anos, estou na minha terceira moto. Tive duas de baixa cilindrada e uma de média/ alta. Antes da necessidade surgir, tinha horror a esses veículos, mas quando precisei e comecei a pilotar, percebi que meu preconceito era totalmente infundado. De moto, conheci lugares onde nunca sonhei em ir, pessoas que nunca conheceria de outra forma, amigos de verdade… Hoje me considero um MotoEntusiasta em primeiro lugar e um AutoEntusiasta em seguida.

    Se recomendo a quem me pergunta? Não necessariamente… Se o pretendente deseja apenas se livrar do trânsito ou algo assim, é forte candidato a se tornar estatística, recomendo que continue usando outro meio de transporte e mude sua vida em outros aspectos para ganhar tempo. Agora, se quer se entregar as sensações que só uma moto pode oferecer, sair por aí sem rumo, recomendo que experimente.

    • Marcos Alvarenga

      Realmente moto não é para todos. E acho que esse seja um dos motivos dos acidentes: as motos acabam caindo na mão de quem quer chegar rápido, não quer depender de ônibus etc. Não nas mãos de quem tem habilidade e interesse em aprender a andar.

      Por isso são raros os acidentes envolvendo motos maiores. Geralmente são pessoas que andam de moto porque gostam de andar de moto e investem tempo e energia no aprendizado.

  • Marcos Alvarenga

    Domingos, pelo menos comigo não existe essa divisão. Se fosse preciso escolher, ficaria com os carros. Mas a moto hoje me dá sensações ao volante que dificilmente teria em um carro atual. Um antigo ou esportivo com câmbio manual, talvez. Mas aí o custo seria proibitivo.

    Em tempo, não existe cheiro de gasolina na minha moto, a não ser quando não se quer descer ao abastecer. E um bom capacete praticamente elimina o ruído de vento, com a viseira fechada, mantendo um grau de conforto bastante aceitável.

    Abraço,

    • Domingos

      Já pensou em uma réplica? Para quem é bem purista e não se importa com conforto (perfil de quem costuma apreciar motos), é uma opção interessante. Dá para comprar uma nova, sem problemas, por algo que é acessível.

      Vejo que a divisão que falo é algo assim: quem gosta de moto pode até gostar de carro, mas é muito difícil o contrário.

      Do capacete, não posso falar muito, mas do que tenho de experiência em karts não me anima muito não. Aquele ruído da turbulência reduz bem, mas não acaba – embora nunca tenha usado um senhor capacete para afirmar…

      O problema é que o vento bate no peito, no braço e tudo mais. Acredito que aí uma boa roupa solucione, porém também tiraria a graça da coisa que é justamente sentir isso.

      É essa questão da divisão mesmo. Quem gosta não se importa de tomar o vento etc. Quem não gosta procuraria como se isolar e acaba sendo sem sentido logo de cara…

    • Domingos

      Abraço e boa páscoa!

  • César

    Pois é Marcos, muito produtivo o seu texto. Fiz carteira de habilitação categoria “A”, não me envergonho em dizer, aos 35 anos de idade, embora já tivesse vez ou outra pilotado ora uma CG, ora uma Neo, por vezes uma Twister, de alguns colegas menos zelosos com seus veículos de duas rodas. Idade na qual, segundo a minha paciente e competente instrutora (isso mesmo, acredite, minha instrutora de moto escola foi uma garota de 27 anos), já teria juízo suficiente para discernir o que poderia ou não fazer em cima de uma moto. E por que resolvi tirar a carteira depois de velho? Porque no local onde trabalho tive um estagiário de 19 anos que me convenceu. Deu-me uma aula sobre todas as vantagens da motocicleta, da economia, da agilidade, dos cuidados que deveria ter – tudo fundamentado e fortemente argumentado. Expressou suas justificativas com uma propriedade até então por mim nunca vista numa pessoa da idade dele.
    Acabei comprando uma Lead, não digo que esteja arrependido, mas é um scooter que tem um uso extremamente limitado. Não tem como andar longos trechos em calçamento de pedra. Não tem a menor condição de trafegar em rodovias. Entretanto, logo descobri que ela acelera muito melhor do que freia.
    Mas fui consolado pelo sujeito que me vendeu novos pneus para ela. Motociclista experiente, disse-me ele: “primeiro aprenda sobre os perigos do trânsito. Sobre a realidade que é conduzir uma motocicleta. Primeiro descubra se é isso mesmo que você quer. Depois compre a maior motocicleta que puder…” Pois é, ando de olho numa Suzuki DL-650…
    Meu objetivo jamais foi fugir do trânsito. Moro numa cidade média do interior, na qual o tráfego é cada vez mais trágico e insuportável. Ando muito a pé. Pelo menos, as vias asfaltadas estão em sua maioria em ótimo estado. Gosto de subir no meu scooter e sair sem rumo, aos sábados pela manhã, quando as ruas não estão tão cheias. É uma sensação engraçada para quem começou a fazer isso somente depois de uma idade já meio que avançada. Mas estou gostando. Em um ano, ainda não levei nenhum susto. Espero continuar assim.

    • Marcos Alvarenga

      Quando estiver em uma moto maior vai gostar mais ainda dos seus passeios. Tenha certeza!

      Abraço,

  • Lucas Garcia

    No texto está: Um veículo com cerca de 5 cv/kg.
    Não seria 5 kg/cv?

  • Fórmula Finesse

    Excelente texto! Moto é um barato diferente e legal…só demanda mais cuidados.

  • Sou motociclista, e uma das coisas que mais gosto na moto, sem dúvida, é a tração traseira!

    Comprei meu primeiro carro recentemente, quando pego alguma estradinha de terra e sinto as rodas dianteiras perderem tração acho muito estranho, algo parece fora do lugar 😀

  • Francisco Passarini Junior

    Adorei o texto pois sou apaixonado pelas máquinas de duas rodas, mas depois dos 30 anos passei a ter medo delas, atualmente comprei um scooter para ir trabalhar, mas fui vencido pelo medo e num aperto financeiro ela foi a primeira a ir embora, mas ainda tenho planos de comprar outra moto e começar a andar, afinal de contas a sensação de liberdade é indescritível 😉