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O estranho título é, na verdade, nome do capítulo de um livro intitulado “Velocímetro de Emoções”, de Luiz Marinelli Neto (Giostri Editora, São Paulo, 2014), à venda nas boas livrarias por R$ 35,00. É um relato do autor de sua vida, sempre com emoção, às voltas com o automóvel.

 

Speedometer  NAS RUÍNAS Speedometer

Antes que o leitor pense que se trata de “ação comercial”, permita-me contar o por quê desta matéria. Conheci o Luiz por intermédio de uma grande amigo, já falecido, Jorge Lettry, que era o chefe de competições da Vemag. Jorge sempre me falava do Luiz, que costumava o visitar em Atibaia, onde viveu os últimos anos da sua vida (Jorge faleceu em 16 de maio de 2008, aos 78 anos). Foi numa das minhas idas a Atibaia visitar o grande amigo — invariavelmente com um carro de teste para ele conhecer — que conheci o Marinelli, como Jorge sempre se referia a ele e por quem tinha grande admiração.

O Marinelli, de 47 anos, nasceu em São Paulo e se formou em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, mas é um apaixonado por automóveis e daí veio a chegar ao Jorge, que tanto admirava pelo passado ligado às corridas, especialmente pela sua atuação na Vemag de 1958 a 1966. Nasceu aí uma amizade que só a morte separou.

Como tinha de ser, Jorge costumava contar ao Marinelli suas boas e más experiências na fabricante do DKW e uma dessas más foi a fase final antes que passasse para as mãos da Volkswagen, em agosto de 1966.

Nessa fase final Jorge lutava para que a empresa saísse do buraco, que se revitalizasse, e uma das soluções seria um novo motor para o DKW, um V-6 de 1.300 cm³ dois-tempos, que havia na Alemanha e que chegara a ser planejado pela Auto Union. A idéia era comprar os direitos e produzi-lo no Brasil.

Para decidir pela aquisição do V-6, Jorge se reuniu com o influente diretor de Vendas  da Vemag, Waldemar Geoffroy, para lhe mostrar tudo a respeito do V-6. A reunião foi em seguida ao almoço e enquanto Jorge falava olhando para a papelada, viu Geoffroy…dormindo. Pegou o material e, amargurado, deixou a sala. Nunca mais tocou no assunto em nível de diretoria.

Esse fato me foi contado pelo próprio Jorge, na época, e, evidentemente, ele a contou ao Marinelli.

Ao ler o livro, me deparei com o citado capítulo-título desta matéria e ao lê-lo, gelei. Por isso, fiz questão de  compartilhá-lo com o leitor. O autor autorizou o AUTOentusiastas a publicá-lo.

BS

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NAS RUÍNAS

Os dois homens conversam no escritório. Jorge está de pé; o outro, sentado atrás de uma grande escrivaninha. A edificação isolada no meio do gigantesco terreno destoa em meio ao mato alto que tomava tudo ao redor. Jorge se aproxima da janela com vários vidros quebrados e, entre lâminas de uma persiana em frangalhos, olha para a rua. “Talvez mudem o nome dessa rua”, diz em tom de preocupação.

O homem atrás da escrivaninha retruca quase que indignado, e se segue questionando com certa incompreensão. “E por que diabos fariam isso?”.

Jorge dá um sorriso irônico para si mesmo, ainda com o olhar fixo no mesmo ponto. “Ora, meu amigo, é muito simples… Que razão ela teria para continuar a se chamar ‘Rua Vemag’?”.

 

Ruinas 2  NAS RUÍNAS Ruinas 2

O homem na mesa leva uma mão ao queixo. A outra segura um cigarro que não termina nunca. Depois de alguns segundos, entra em ar contemplativo, checando um lustre sem lâmpadas. “Bem.. Poderia ser diferente!”.

Jorge, irritado, permanece na mesma posição, e ainda de costas para o homem retruca um tanto alterado.  “Poderia… Você disse ‘poderia’… Mas não o que aconteceu”.

O homem do cigarro agora sai em ataque argumentativo: “E você queria que eu aprovasse aquela loucura? Que trouxesse aquele motor V-6 para um país faminto e sem condições de encher o tanque de um simples Volkswagen? Me diga!”.

Jorge se volta para ele irritado. “Me diga você! Me diga os sonhos que teve naquele longo cochilo depois do almoço, quando marquei com você aquela reunião a portas fechadas e você simplesmente desabou em sono profundo sobre a mesa… Enfastiado pela generosa refeição…”.

O homem de terno preto esboça começar uma explicação e é interrompido por Jorge que, exaltado, lhe aponta o dedo em riste: “Dormindo! Isso mesmo, você estava dor-min-do… Certamente sua cabeça estava naquele interesse doentio por motonaútica… E eu, pateta, explicando coisas importantes, enquanto você desabava de sono em plena reunião… O que você tinha na cabeça? Contava carneirinhos de dois tempos? Me fala!”.

O homem se cala em semblante envergonhado. Tenta se justificar empreendendo um enfoque genérico. “Nós já estávamos liquidados. Só você não percebeu… “.

Jorge, agora com as mãos nos bolsos, começa um movimento inquieto com os pés em nítida irritação. Levanta o queixo e desafia: “Liquidados? Com mais da metade dos táxis da capital ostentando nosso emblema na carroceria? Ora, faça-me o favor!!!”.

Jorge assume certa indiferença e, em seguida, se volta para um velho arquivo enferrujado. Há uma etiqueta indicativa colada na primeira gaveta superior: “Departamento de Competições”. Apóia-se no móvel e puxa uma das folhas amareladas que saem pela fresta. Verifica o documento com ar saudoso. “Ah,… Como eu fui ingênuo!”.

O homem da escrivaninha se movimenta, mas permanece sentado. Recosta-se ainda mais e começa um vai e vem na cadeira giratória. Dá uma tragada no eterno cigarro e exclama em tom disciplinar: “Quando você voltou daquela viagem não percebeu? Não notou que representávamos aqui no Brasil uma empresa cadáver? Uma companhia quase já extinta lá na Europa?”.

O diálogo transcorre como uma partida de xadrez. Jorge diz, em meio a risos:  “Engraçado você falar agora em cadáver… Bem inapropriado…. Como todas as suas decisões! Inclusive, todas as vezes que suas lembranças repletas de mágoas e arrependimentos me trazem pra cá é sempre tudo igual”.

Jorge vai até o banheiro lavar o rosto. Não há água nas torneiras. Olha para o espelho e não vê nada; nem mesmo a própria imagem. Só o reflexo dos exíguos azulejos partidos atrás de si na parede úmida. Passa as mãos no pescoço, com se checasse um barbear malfeito,  e volta para o escritório.

O homem da escrivaninha brinca com uma caneta, girando-se sobre a mesa como se fosse uma roleta. Jorge nota que a cada vez que se volta para falar com ele, um item do mobiliário daquela sala desaparecera. Já não há mais quadros nas paredes; manchas quadradas denunciam que ali havia algo daquele formato, mas agora são só pregos que parecem pendurar sombra. Alheio a isso, retoma do ponto onde parara anteriormente. “E por falar em decisões inapropriadas… O que que fez com que aprovasse um carro com o peso de uma locomotiva chamado ‘Fissore’? Pois é…Foi escolhido inclusive um ‘carrozziere’ italiano, especializado em carros funerários, para o desenho da carroceria. Foi longe mesmo, hein!”. Jorge se senta na cadeira que sobrara. “Agora fiquei curioso. Vai, desembucha… Escolher um rabecão foi porque nós representávamos uma empresa já morta? Afinal, foram essas as suas palavras há pouco, não foram? Esclareça!”.

Rainha agora toma o Bispo, naquele hipotético tabuleiro.

“Bem, eu só queria….”

“Ah, você só queria… Talvez você, no seu ‘querer’, não tenha desejado com o devido bom senso… Quem sabe tenha usado a mesma precipitação que teve quando assinou os papéis de venda de toda a fábrica por um valor que depois diversas vezes confessou ser irrisório.”

O homem agora já não tem a escrivaninha diante de si. Jorge olha para o lado a tempo de flagrar o desaparecimento total daquele arquivo, fecha os olhos e, com o polegar e indicador, aperta o espaço entre sobrancelhas. Quando abre os olhos novamente dá pela falta do lustre. De fato, a sala já não tinha mais o teto…

“Olha, Jorge,… A questão do ciclo ultrapassado dos dois tempos já era um fato consumado!”.

Jorge se levanta da cadeira e se aproxima do homem. Bispo agora toma Torre. “Hum… E você, que entende tanto de motonáutica, acha que as lanchas são a vapor, eu suponho”.

Xeque-mate.

O homem de terno preto se cala. Coça a cabeça e retrai o pescoço em expressão de surpresa. Jorge quer voltar a se sentar, mas não encontra aquela cadeira que usar anteriormente. Continua de pé.

Com o cigarro entre os dedos, o homem sentencia: “Nós não tínhamos perspectiva… Ou sorte. Sei lá”.

O técnico em pé amarga aquelas palavras ditas pelo diretor sentado. “Você é bom no hipotético, no abstrato. Daqui a pouco vai dizer que todas as nossas vitórias em Interlagos foram obras divinas da sorte! Ah, mas isso eu não vou tolerar mesmo!”.

Os dois de pé agora se confrontam em uma sala nua de objetos e sem qualquer móvel, entre paredes descascadas e sem pintura.

“Bem, vamos esquecer os rancores”, diz o homem de terno, que esboça um sorriso tímido. Com a mão do cigarro, gesticula, enquanto diz: “Eu ia dizer para o último apagar a luz, mas…”. E aponta para o teto inexistente. “A propósito, Jorge… Que dia é hoje?”.

“Que dia é hoje?!”, Jorge rebate indignado. “Quantas vezes você já me perguntou isso? Por que não pergunta em que ano estamos, já que também não fará qualquer diferença?” Quanto tempo passou, quarenta, cinqüenta anos? Talvez mais!”

Jorge, com lágrimas nos olhos contempla novamente a Rua Vemag. Exclama com um nó na garganta: “Nós fomos esquecidos!”. O homem de terno põe a mão no ombro de Jorge e diz: “Eu talvez…. Mas você, nunca!”.

Mostrando exaustão, Jorge complementa: “Quantas vezes mais vamos ter esse diálogo? Para sempre?”. “Não, acho que esta é a última”, e o cigarro se apaga na mão do homem de terno. “Perdidos na névoa… Fumaça azul…”, diz Jorge. “Quanta ironia! Seremos lembrados?”

“Talvez, meu amigo. Talvez”.

Tudo desaparece. Já não há mais escritório e nem mesmo sinal dos dois homens. No local resta apenas um monte de areia com alguns tijolos. É primavera. Alguns meninos empinam pipas no enorme terreno e olham curiosos a chegada dos primeiros tratores para terraplanagem.

P.S.: Fumaça azul é aquela expelida pelo escapamento dos motores de dois tempos DKW, e é como é chamado o encontro anual dos carros da marca, Blue Cloud (em português, “nuvem azul”).

 

Marinelli  NAS RUÍNAS Marinelli

Luiz Marinelli Neto

 

Imagens: blog Flavio Gomes, imagens-se.blogspot.com

Sobre o Autor

Bob Sharp
Editor-Chefe

Um dos ícones do jornalismo especializado em veículos. Seu conhecimento sobre o mundo do automóvel é ímpar. História, técnica, fabricação, mercado, esporte; seja qual for o aspecto, sempre é proveitoso ler o que o Bob tem a dizer. Faz avaliações precisas e esclarecedoras de lançamentos, conta interessantes histórias vividas por ele, muitas delas nas pistas, já que foi um bem sucedido piloto profissional por 25 anos, e aborda questões quotidianas sobre o cidadão motorizado. É o editor-chefe e revisor das postagens de todos os editores.

Publicações Relacionadas

  • Fabio Vicente

    Hum… Daqui a pouco vou a uma livraria, por acaso, e irei procurar por este título.

  • Fabio Vicente

    Essa história me emocionou. É interessante como em histórias da indústria automobilística existe a batalha entre a razão (executivos) e a emoção (engenheiros e técnicos).
    O mais intrigante é que geralmente a emoção é o lado mais razoável da história!
    Mas cá entre nós, “contar carneirinhos de 2 tempos” foi maldade! rs

    • Antônio do Sul

      A razão é algo que não pode ser esquecido, mas quem faz a diferença é aquele que põe amor, emoção, no que faz. Sem entusiasmo, não se deve começar nada.

  • Leister Carneiro

    Este DKW V-6 ia ser legal!!! Apesar da história triste eu trabalhei no pátio do metrô Tamanduateí, é ao lado, é triste ver uma unidade de produção daquele jeito

  • Lorenzo Frigerio

    Coisa de filme… esse escritor deve ter assistido muito “Além da Imaginação”, “Arquivo X” e “Millenium”. Onde aliás nunca falta um sujeito aflito com um cigarro.

  • Mr. Car

    Eu tenho um certo (diria um grande, até) fascínio por ruínas, antigas instalações abandonadas, cidades-fantasma, coisas assim. Acho que existe poesia nelas. Uma poesia triste, soturna, mas existe. Como se os fantasmas daqueles que viveram os dias de glória destes lugares vagassem por eles, espreitando os passos daquele estranho que invadiu seus domínios, se perguntando o que fazem ali. Me sinto também como um arqueólogo em busca de informações sobre o passado, tentando imaginar como eram as coisas por ali. Um lugar que adoraria visitar, por exemplo, é a Fordlândia. E já que falamos de carros, não sei vocês, mas eu não posso entrar em um ferro-velho, e ver aqueles carros que jazem ali, sem começar a “viajar”, imaginar ele na linha de montagem, quem seriam os operários que os fabricaram, ele “zerinho” no salão de uma concessionária, o primeiro comprador, quem seria esta pessoa, quantos donos teve, os passeios que fez, os lugares por onde esteve, enfim toda sua trajetória de “vida” até terminar ali, apodrecendo debaixo de sol e chuva…Tem mais algum maluco por aí, ou sou só eu, he, he, he?!

    • CCN-1410

      Tem mais Mr. car… Tem mais!

    • RoadV8Runner

      Mr. Cr,
      Tem muito mais gente assim. O que você acha que me levou a buscar um Opala SS-4 1980 a mais de 500 km de casa, que praticamente precisará ser reconstruído do zero?!!!

    • CorsarioViajante

      Mr. Car, existem muitos sites da internet com fotógrafos especializados em entrar (ou mesmo invadir) lugares abandonados e fotografar. É bem interessante.
      O Lorenzo lembrou o nome deles, exploradores (ou arqueólogos) urbanos.

  • Leonardo Mendes

    Parafraseando Jonny Quest e seu Ministério das Perguntas Cretinas:
    Essa fachada ainda está em pé?

    Só consigo imaginar duas coisas lendo este texto: o que teria sido esse V6 no mercado e a decepção do Jorge vendo o cidadão dormindo a sua frente… falta de consideração total, mesmo que a Vemag estivesse na extrema-unção era obrigação do distinto ouvir o profissional a sua frente.

    • guest

      Sim, está (ainda) em pé: procure por Rua Vemag (em SP) e veja no Street View do Google Maps.

      O terreno da Vemag é de propriedade de uma operadora de shopping centers, a Savoy, por intermédio de uma empresa subsidiária.

    • Lorenzo Frigerio

      “Ministério das Perguntas Cretinas” é um termo do humorista Leon Eliachar (ou será que era Millôr?). O complemento era “Com Respostas Engatilhadas”. Eu tinha isso guardado, foi publicado na revista Manchete lá por 1974 ou 75.
      – Se existe diagrama, por que não existe noitequilo?
      – Pela mesma razão que existe terço, e não quarto de rezar.
      É a única que eu lembro.

      • Leonardo Mendes

        Usaram esse termo do Ministério na dublagem de um dos episódios do Jonny Quest (O mistério dos Homens-Lagarto)… passou semana retrasada no Tooncast e eu acabei lembrando disso ao escrever o post.

        Um dos meus tios gostava bastante do Leon Eliachar.

    • Roberto Pisa

      a revista MAD tinha uma sessão “respostas cretinas para perguntas imbecis”. me rachava de rir!

  • Bob Sharp

    Lorenzo
    É claro que foi um exercício de ficção, mas eu que vivenciei o período vi nesse conto um incrível quê de factibilidade, os dois espíritos se encontrando naquele ambiente discutindo o que havia se passado. Achei incrível todo o desenrolar da conversa, como tudo casa. Agora, sabe por que a questão do cigarro? Diz-se que quando se passa para outra todas as nossas sensações e necessidades vão junto. No caso do fumante fica a vontade mas ele nunca mais poderá fumar. O melhor exemplo dessa ânsia que já vi foi em “Ghost, do outro lado da vida”, quando o herói do filme encontra um “colega” numa estação de metrô e este fala da vontade de fumar e não poder. Até vê uma máquina de vender cigarros e blasfema contra ela.

    • ccn1410

      Uma coisa que eu nunca consegui entender, foi a Vemag não ter conseguido se tornar um fabricante associado das empresas de veículos que um dia chegou a montar, como a Massey-Ferguson a Kenworth e a Scania-Vabis.

    • $2354837

      Esses espíritos estão perturbados, precisam de muita oração nossa. Deveriam parar de perder tempo e construir a fábrica da Vemag no além para que respondam minha pergunta pouco antes de morrer: “No céu tem 2 tempos? “

      • Antônio do Sul

        Se tiver, talvez eu tenha a oportunidade de, um dia, dirigir um DKW Belcar, coisa que nem o meu pai, já com 70 anos e entusiasta da marca, conseguiu fazer. Ele só andou de carona numa Vemaguet “emprestada” pelo proprietário ao seu filho, amigo do meu pai na época da adolescência.

    • Lorenzo Frigerio

      Não me lembrava desse detalhe em “Ghost”, mas existe um capítulo em “Millennium” em que Lance Henriksen, que tinha visões (e as usava para ajudar as pessoas), tenta encontrar lógica para alguma coisa de quando era garoto, e encontra um fantasma daquela época que enquanto fala está o tempo todo fumando. Creio que o oposto da situação que você descreveu.

    • Aldo Júnior

      Bob, acredito que não apenas sensações e necessidades, mas também frustrações, magoas, preocupações, ansiedades. Talvez a única diferença “daqui para lá”, seja a ausência do nosso “corpo físico”. Abraços a todos;

  • BlueGopher

    O capítulo acima nos faz pensar.
    Após uma certa idade é comum passarmos por situações como a descrita, sentimos o coração apertado ao voltarmos a locais que no passado nos foram de tanta importância, nos trouxeram tantas alegrias, e que hoje simplesmente desapareceram ou, na melhor das hipóteses se transformaram em meros fantasmas do passado.

    Sabemos que o mundo é dinâmico e impermanente, mas às vezes a velocidade desta impermanência nos choca…

    A casa de nossa infância, derrubada e substituída por um edifício, o tradicional e charmoso prédio de nosso antigo colégio (que se mudou para novas e grandes instalações), bastante abandonado e mal cuidado pelos atuais donos, a fábrica que fez parte da nossa vida profissional e que hoje, silenciosa, é apenas o depósito de uma grande loja, e assim por diante.

    Fusões, aquisições, desmobilizações, reduções de custo, otimizações, e assim por diante reduzem a vida útil de tudo que o homem constrói.
    Ainda bem que catedrais e castelos têm grande importância histórica e turística, senão…

    Posso imaginar o que pessoas como Jorge Lettry, que viveram tão intensamente certas épocas de sua vida, sofreram ao ver seus sonhos se dissolverem diante de seus olhos.
    Acredito que o próprio Bob também teria boas e nostálgicas lembranças para nos contar.

    • Lorenzo Frigerio

      A Cidade de São Paulo é o supra-sumo desse sentimento… “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”. Para construir o MASP, foi demolido um belo prédio – chamado Trianon – construído por Ramos de Azevedo, que dava vista para o Centro e a Cantareira mais adiante. Devia ser uma vista chocante nos anos 30. Encheram aquilo de prédios e o Trianon e sua vista ficaram sem sentido, engolidos pelo “progresso”. O MASP não destruiu o mirante, mas, sem a vista, o foco passou a ser o novo prédio.

    • CorsarioViajante

      EU nasci e cresci no Itaim BIbi, em SP. Na época, era um bairro tranquilo, classe média, a gente jogava bola na Tabapuã. Toda vez que passo lá sinto isso. Sumiu tudo.

    • Leonardo Mendes

      o tradicional e charmoso prédio de nosso antigo colégio (que se mudou para novas e grandes instalações)

      No meu caso é o prédio onde cursei Jornalismo, que foi derrubado e no lugar construíram um prédio residencial… me corta o coração passar por lá.

  • ccn1410

    Eu sempre considerei o Fissore um dos carros mais belos fabricados no país, mas não sabia que pesava “como uma locomotiva”.

    • Bob Sharp

      ccn1410
      Pesava pouco mais de 1.150 kg, 200 kg mais que o Belcar. Foi preciso encurtar a 4ª para poder ter alguma desenvoltura, e “mexer” no velocímetro, mesma tática usada no Del Rey.

      • Sil vino

        Lembro de uma matéria em que mencionava o velocímetro “otimista” do Fissore. Digno mesmo era a enorme área envidraçada.

      • RoadV8Runner

        Só fico aqui imaginando como ficaria o Fissore com o V6 2-tempos… Não sabia que o Fissore era tão pesado assim, mais que um Opala SS 1972!

        • Mr. Car

          Mérito do desenho. A grande área envidraçada e as colunas muito estreitas davam uma impressão de leveza ao belo DKW.

      • Antônio do Sul

        Uma pena não haver, no Brasil, um motor mais potente para movê-lo. Sob o ponto de vista estilístico, que também depende muito do gosto pessoal de cada um, é claro, o resultado foi muito bom. Acho que aquele desenho seria atual mesmo na década de 70.

    • Leonardo Mendes

      A respeito do Fissore consta – isso eu li numa revista especializada em Fusca – que os faróis redondos do Zé do Caixão eram as sobras do dele que ficaram nas prateleiras da Vemag após a compra desta.

  • Mr. Car

    Conheço este sentimento. A casa do meu avô no interior de São Paulo desfigurada em sua fachada e interior, e transformada em uma auto-escola, a casa da fazenda completamente abandonada pelos novos proprietários e se deteriorando, o clube da cidade, onde me divertia na piscina e nos bailinhos aos sábados, foi demolido e seu enorme terreno loteado, os colégios onde estudei também demolidos para darem lugar a um apart-hotel e um hotel…restam apenas as lembranças dos momentos vividos nestes lugares. Nítidas como se fosse ontem.

    • ccn1410

      Recentemente fui visitar a cidade onde passei minha infância e vi tudo mudado. No lugar do campinho e das aroeiras onde brincava, tem uma fileira de prédios. Até o “meu” caminhão antigo deram fim.
      Esses prédios enfeitados não são nem sombra daquilo que era antes. Até a casa que era do meu pai e a que mais gostei de morar até hoje, deu lugar a uma mansão enorme, que esbanja opulência, mas que parece fria e sem amor.
      Eu lembro que a minha rua vivia cheia de crianças a correr e a brincar, eu inclusive, e que hoje está vazia de gente. Só se vê pessoas, sempre em seus carros, a correr como formigas perdidas na vida.
      Isso é nostalgia, meu caro Mr. Car, que às vezes nem é bom lembrar.

  • Ilbirs

    Bob, lembro-me de ter lido em revistas antigas que a Vemag chegou a tentar licenças para fabricação de carros da BMW ou da Fiat quando estava chegando ao fim a Auto Union. Confere?

    • Bob Sharp

      Ilbirs
      Fiat, sim, BMW não posso dizer.

    • Rafael

      Eu vi que eles tentaram a Citroën também.

  • $2354837

    Muito bom o discurso. No entanto diverge o que diz a história. A Vemag estava a caminho da falência iminente.

    Transcrevo aqui o texto sobre a venda da Vemag do Wikipedia:

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    Após a venda da Vemag para a Volkswagen em 1967 seu ex-presidente Lélio de Toledo Piza (1913-2008) foi nomeado pelo ex-governador de São Paulo Abreu Sodré para a presidência do Banespa – Banco do Estado de São Paulo. Nos idos de 1968, Lélio veio a Florianópolis para fazer uma visita à agência do Banespa da cidade. Para apanhá-lo no aeroporto Hercílio Luz, foi designado pelo Gerente da agência um funcionário que a pouco tempo havia adquirido uma Vemaguet 1967 0 Km de cor azul tramandaí, um azul bem clarinho. Ao desembarcar Lélio e o funcionário se dirigiram ao carro para guardar as malas no porta malas da Vemaguet. Ao chegar na Vemaguet, Lélio ficou muito constrangido e deu um sorriso desconcertado. Embarcaram na Vemaguet e rumaram ao centro de Florianópolis. Timidamente Lélio tomou a iniciativa de começar uma conversa:

    – Bonita Vemaguet!

    Ao que respondeu o funcionário:

    – Pois é seu Lélio, eu acreditei na Vemag e comprei esta Vemaguet 0 Km recentemente, pouco tempo depois vocês venderam a Vemag para a Volkswagen e prometeram de que a fabricação do DKW continuaria. Agora, estou com um carro semi-novo desvalorizado que ninguém quer.

    Lélio vendo o inconformismo do proprietário da Vemaguet pediu que ele encostasse no acostamento e disse-lhe:

    – Vou lhe contar o que houve meu filho. Em 1964 fomos à Alemanha conversar com o presidente da Volkswagen alemã Heinz Nordhoff, pois a Volks havia comprado da Daimler Benz o Grupo Auto Union, que foi quem nos deu a licença para produzir o DKW no Brasil por 10 anos. Chegando lá, ele nos avisou que a produção do DKW seria encerrada na Alemanha e que a Volkswagen não renovaria a concessão para a Vemag, concessão que se encerrou no ano passado (1967). Ele nos ofereceu a concessão dos carros da Audi, mas a Vemag estava muito endividada e os carros DKW já não vendiam tanto no Brasil, não tínhamos capital de giro para adequar o maquinário da fábrica para a fabricação dos Audi, portanto a Vemag estava inviabilizada comercialmente. Daí num domingo de 1966 eu estava no Jóquei Clube de São Paulo onde também se encontrava o Presidente da Volkswagen do Brasil. Circulando entre os convidados se encontrava um colunista social importante da cidade de São Paulo que veio me cumprimentar e me perguntou se eu tinha alguma novidade sobre o desfecho das negociações da Vemag com a Volkswagen. Eu respondi que as negociações com a FIAT estavam concluídas e que todo o parque industrial da Vemag a partir de 1967 passaria a produzir os carros FIAT no Brasil sob o comando da FIAT. Na mesma hora o tal colunista foi contar ao Presidente da Volkswagen que ficou branco, pois eles têm muito medo que a FIAT se instale no Brasil e prejudique a hegemonia deles no mercado brasileiro. Na 2ª feira ele me ligou e chamou para uma conversa em que fez uma proposta irrecusável pela Vemag, pois com o montante pagaríamos todas as dívidas da Vemag e ainda saímos com algum dinheiro para os acionistas da companhia. Se não tivesse feito isso, eles teriam feito uma proposta ridícula pela Vemag. Durante a negociação eles prometeram que por um período manteriam o DKW em linha no Brasil, bem como suas peças de reposição, mas infelizmente não honraram a palavra empenhada. Então meu filho foi isto que aconteceu.

    De fato, a Volks adquiriu a subsidiária argentina que montava os DKW na argentina para produzir peças de reposição e entregaram a terceiros a fabricação das peças do DKW no Brasil, mas as peças eram de péssima qualidade e isto eliminou mais rapidamente os DKWs das ruas brasileiras.

    A FIAT instalou-se no Brasil na década de 70, em Betim – MG, e em 1977 lançou seu 1° carro no Brasil o FIAT 147 que faria concorrência com o Fusca, carro chefe da Volks no Brasil até o fim dos anos 70. E daí em diante a história automobilística recente conta o resto, a FIAT conseguiu superar em vendas a Volkswagen, e é líder de mercado há muitos anos no Brasil com carros inovadores e bem acabados.

    Depois de comprar a Vemag em 1966, a Volkswagen comprou a Chrysler do Brasil em 1980 e tirou de linha os Dodge nacionais: o Polara e a linha Dart em 1981.

  • RoadV8Runner

    Caramba, essa passagem do livro me deu um nó na garganta… Magistral a forma como o autor escolheu para descrever essa parte da história da Vemag! Como já disseram, mais um título para acrescentar à minha biblioteca (e fila de leitura!).

  • Lorenzo Frigerio

    Nos Estados Unidos, nas grandes cidades, existem bairros inteiros desertos, sem ninguém morando, cercados por bairros normais. As edificações continuam ali, inteiras, com madeirit nas janelas; vê-se um ótimo padrão de construção, e nos perguntamos: para onde foram todos? Não é Detroit, vi isso em Chicago e na Filadélfia. Inclusive em Buffalo existe uma mega-estação de trem, do nível da Grand Central em NYC, vazia. Não há mais trens, nem pessoas. Ela já apareceu em programas de exploradores urbanos.

    • ccn1410

      Será que essas casas um dia foram ocupadas, ou foi um erro estratégico de construção onde nenhuma foi vendida?

  • Lorenzo Frigerio

    Eu também sou doidão assim, Mr. Car. Não existe “normalidade”, essa que é a verdade. Senão, não existiria Arte, tampouco Ciência.

  • Maick Rodrigues

    Bob eu achei o livro fantástico já o li 2 vezes são 18 contos super interessantes.. tem desde técnica avançada até muito humor aventura e romance…..recomendo mesmo!

  • Bob Sharp

    Luiz_AG
    Os fatos abordados na “na conversa” foram em 1962, portanto distante dessa história que você postou. Tivesse sido concretizada a negociação do motor V-6 a história poderia ter sido diferente.

    • Lorenzo Frigerio

      Bob, a história da Fiat foi inventada pelo presidente da Vemag? Ele já estava se preparando em 1962 para quando esses carros saíssem de linha na Alemanha, ou ia ejetar os DKW de qualquer jeito para fabricar Fiat enquanto a Vemag ainda estava sã? Ou essa é uma parte do relato que não corresponde à realidade?
      Outra coisa (Luiz AG): a Chrysler do Brasil foi comprada pela VW AG, para usar as instalações para produzir caminhões Volkswagen. Alguns Chrysler fabricados em 1981 trazem na plaqueta “Fabricado p/ Volkswagen Caminhões Ltda.”. Posteriormente, a empresa foi transferida para a VWB.

    • AGB

      O motor Mueller-Andernach V6 exigiria um pesado investimento para ser utilizado em carros de uso diário, capital que a Vemag não dispunha. A própria Auto Union preferiu desenvolver um 3 cilindros de 1200 cc para seu modelo F102, lançado em 1963; entretanto esse auto apresentou diversos problemas e causou graves prejuízos para a companhia, resultando na entrega do controle acionário para a VW em 1964. De modo que o destino da Vemag já estava selado bem antes. Mesmo na Alemanha o motor de 2 tempos estava superado, devido ao consumo e às emissões de poluentes.

  • Bob Sharp

    Maick
    Vale mesmo a pena.

    • ary

      Sabe o que me “irrita”? Você sempre esteve nos lugares certos, conheceu as pessoas realmente importantes da nossa história automobilística.”Invejo-o”, quem não o conheceu, ao menos pela imprensa, não pode dizer que conhece a história do automóvel no Brasil.
      Sinto orgulho de tê-lo “conhecido” lá atrás na Autoesporte.

  • Mr. Car

    Sim, Corsário, existem, e claro que já andei dando meus passeios virtuais, he, he!

  • Lorenzo Frigerio

    Triste o que aconteceu com o Sanatório Bela Vista, originalmente casa do “Bibi”, que foi parcialmente demolida na calada da noite (entre 1985 e 1988, não lembro ao certo) pelo novo proprietário antes que o Condephaat e o Compresp pudessem tombá-la. Conseguiram parar a demolição com uma liminar, mas sobrou apenas uma ruína impossível de restaurar, que ficou anos abandonada. Aquela casa que forçou à mudança do projeto do Brascan Plaza, após muita discussão, é praticamente uma reconstrução da original. O novo prédio tem uma abertura para que a casa possa ser vista da Faria Lima, mas a casa é uma farsa. Ridículo. Essa é a maneira que as coisas acontecem no Brasil.

  • vstrabello .

    Tem o link do Street View? Achei esta matéria na Internet ao procurar: http://www.saopauloantiga.com.br/vemag-uma-fabrica-que-agoniza-no-tempo/

  • Fat Jack

    Sensacional Bob, obrigado por compartilhar!

  • adriano

    RoadV8Runner você poderia nos contar esta busca pelo Opala no histórias de leitores , um espaço muito interessante deste site

  • Maycon Correia

    Essa história aqui de florianopolis eu ouvi algumas vezes, diz que o dono da vemaguet estava bem bravo e o ex presidente depois que ficou mais bravo ainda! Lembro quando criança que existiam muitos desses carros em otimo estado por aqui andando! Inclusive um vizinho que havia vendido um corcel 86 verde nos tempos de inflação galopante duas semanas depois conseguiria apenas comprar um belcar azul clarinho ano 66 com apenas 29 mil km rodados! Pena que foram sumindo um a um sinto muita falta em não ver aqueles lindos veículos com aquele som maravilhoso e aquela fumaça característica