Está lembrado da máquina de escrever? Marcas famosas como Olivetti, Remington e Underwood dominavam o mercado mundial. Por falar nisso, qual sua idade? Você ouviu música num disco de vinil em uma vitrola da RCA Victor?

Quem diria, num passado nem tão distante, que Olivetti, RCA Victor e outras marcas importantes desapareceriam e iriam parar nos museus de tecnologia? E o anúncio recente de um relógio desenvolvido pela Apple, para concorrer com Samsung, LG, Sony e Motorola? O que o futuro reserva para a japonesa Citizen?

O automóvel estará a salvo desta invasão da eletrônica em todos os setores produtivos? Ele já está, a rigor, na alça de mira das poderosas empresas de informática. A Google já roda com seu carro autônomo, que dispensa motorista. A Apple desenvolve projeto semelhante.

Detroit foi, no passado, a capital mundial do automóvel. Mas o centro de inteligência da indústria automobilística mundial deslocou-se para a Califórnia. Mais exatamente para o Vale do Silício: além da Google, Apple e Microsoft, várias fábricas de automóveis como Mercedes-Benz, Ford, Nissan, GM e outras estão estabelecendo parcerias ou seu próprio centro de pesquisas na região.

A rigor, já existem hoje no mercado vários modelos mais sofisticados em que a eletrônica assume o papel do motorista e reage com mais eficiência diante de situações perigosas como um carro que vai à frente e pára subitamente. Ou controla o volante e conduz o automóvel numa estrada. Percebe a sonolência do motorista e o alerta com o desenho de uma xícara de café no painel. Criou sistemas que estacionam o automóvel, o start-stop que liga e desliga o motor e dezenas de outros. Na segurança, air bags e freios ABS, entre outros. Em termos de conectividade, ela permite conexão entre automóveis, com a internet, liga para o SUS no caso de um acidente e explica ao motorista como desviar de congestionamentos. No Brasil, o uso do álcool como combustível só vingou quando a eletrônica deu asas ao carro flex, que pode ser abastecido com álcool ou gasolina. O projeto Proálcool (década de 70) não vingou pois o motorista brasileiro perdeu a confiança no álcool quando ele faltou nos postos. E os carros não podiam ser abastecidos com gasolina.

Ponto crucial da questão: o carro do futuro será um computador que se move ou um automóvel controlado pela eletrônica?

Por enquanto as duas indústrias, de informática e automobilística, desenvolvem projetos semelhantes e já investiram centenas de milhões de dólares para rodar seus carros autônomos. Mas existem obstáculos. O primeiro é a legislação específica: quem é responsável no caso de um carro sem motorista envolvido num acidente de trânsito? O segundo: o consumidor estará disposto e sem receios diante da perspectiva de comprar um automóvel totalmente controlado por computadores?

Segundo especialistas, derrubar a indústria automobilística como fizeram com as máquinas de escrever será missão praticamente impossível para as empresas de informática. Elas deverão continuar estabelecendo parcerias e acelerando o futuro do automóvel. Mas não possuem know-how para a manufatura de um produto tão complexo. E menos ainda na distribuição que envolve marketing específico, assistência técnica, treinamento de técnicos, logística de peças e acessórios etc. O automóvel do futuro, com ou sem motorista, vai incorporar muita eletrônica desenvolvida pelas empresas de informática. Mas deverá, segundo eles, continuar ostentando os mesmos logotipos na grade.

Será que os especialistas do passado também asseguravam que a Olivetti jamais entregaria os pontos para a Microsoft?

BF

Boris Feldman, jornalista especializado em veículos e colecionador de automóveis antigos, autoriza o Ae a publicar sua coluna que sai aos sábados no jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte (MG).

Foto da abertura: chicago.reader.com
A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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