AUDI RS 4 AVANT E BMW 328i TOURING E36, DUAS PERUAS BEM DIFERENTES

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Algum tempo atrás eu e o PK fizemos um passeio com um BMW 320i novinho e a minha perua 328i 1996. Neste passeio, falamos das experiências de andar em ambos os carros, e notamos que, apesar do carro moderno ser melhor em tudo objetivamente, e ser realmente bem divertido de dirigir, subjetivamente perdia para a perua. Claro que o ambiente ajudava: uma estrada cheia de curvas, vazia, em um dia ensolarado, não podia ser lugar melhor para a peruinha. Seu motor seis-em-linha é mais vocal e excitante, seu câmbio manual traz uma conexão intensa com o ato de dirigir. O carro moderno era mais rápido nas curvas, mais seguro e benigno, mas velocidade pouco importava ali. Garanto que se avaliássemos ambos em uma semana de uso normal da cidade nunca preferiríamos o carro velho, mas ali, naquele lugar, ele era positivamente o mais divertido! É só ver o vídeo desse dia no nosso canal do YouTube, e ouvir o som do escape dos dois, para entender: o som do escape traduz perfeitamente a diferença dos dois carros.

Depois disso tive oportunidade de fazer alguns passeios com BMW 328i modernos, tanto GT quanto sedã normal, e os carros continuaram a me impressionar sobremaneira, mais potentes e equipados que são comparados ao 320i, mas mantendo toda a fantástica capacidade de andar rápido em qualquer situação que experimentamos naquele dia. Mas ainda acho que o resultado daquele dia seria o mesmo, mesmo com o mais potente 328i Activeflex.

 

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320i Activeflex e 328i Touring E36, juntos

Mas recentemente acabei por involuntariamente comparar de novo minha velha perua a um carro mais novo, muito diferente dela, mas de certa forma também parecida. A Audi RS 4 Avant azul avaliada pelo Bob recentemente. Involuntariamente porque para chegar nos locais onde estava a RS 4 usei minha perua, que é meu carro de uso diário. E depois de um dia andando com a RS 4, sair dela e rodar mais 100 quilômetros na 328i faz a gente, querendo ou não, comparar.

E também filosofar. Sou conhecido por praticar este esquecido esporte mental, o de elucubrar sentidos ocultos e relações tênues em teorias malucas. Mas como não fazê-los aqui? A minha peruinha e a RS 4 estão na mesma categoria de tamanho (série 3/Série C/ A4), apesar de serem de épocas diferentes. Ambas são representantes bem emblemáticos de duas escolas de prazer ao volante: a antiga, que prega controle total do carro sem intervenção nenhuma entre o homem e a máquina, e a moderna, onde tudo é automatizado e seguro, cheio de babás eletrônicas e computadores que operam câmbio, freio e acelerador à sua revelia, mas compensam isso com velocidades incríveis com toda segurança.

Tradicionalmente, sempre fui um cara meio avesso a qualquer intervenção eletrônica em meus comandos. Acelerar mandando um pedido a um computador, que depois traduz minha necessidade em abertura da borboleta e comanda o componente, sempre foi algo que me apavorava (hoje muitos nem borboleta tem, mas nem vamos entrar nesse assunto…). Me sentia dominado pela máquina, me sentia um protagonista de Asimov, traído por máquinas melhores que eu mesmo, que me protegem de mim mesmo para meu próprio bem, privando-me também de minhas vontades no processo.

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E ainda penso que, talvez, estejamos indo longe demais e deixando as máquinas nos controlarem. Mas como isto não é uma matéria do AAD, não irei muito além neste assunto. O fato é que, por muito tempo, estes computadores com quem dividíamos o controle do carro eram usurpadores vis e ignóbeis, tomando o controle para si de forma obstrutiva, desrespeitosa, inesperada, e com isso se tornando na melhor das hipóteses carros desagradáveis e, na pior, desprezíveis. Certa vez andei num suve com um V-8 de mais de 300 cv em uma pista fechada e ele simplesmente matava o acelerador em toda curva. Você pisava esperando soltar um pouco a traseira, e nada acontecia. Era como se desconectassem o acelerador do motor momentaneamente. E o controle de tração culpado por isso não podia ser desligado. Terrível, maldoso, inaceitável.

Como o veículo era praticamente incapaz de produzir uma morte gloriosa num rastro de fogo que poderia ser visto da estratosfera (ou, mais humildemente, um pouco de sobresterço controlado para contornar a curva mais rápido), tive ganas de queimá-lo numa grande pira em homenagem aos pilotos de rali mortos em 1986, que Deus tenha piedade de suas almas pecadoras. Mas refreei meus instintos cerimonialistas pagãos e tentei perdoar os responsáveis por aquela atrocidade. Perdoar é divino, não podemos esquecer.

Na verdade, toda vez que experimentava estes robozinhos, de câmbios automáticos de várias formas a ABS e acelerador sem cabo, saía extremamente frustrado. Simplesmente nada funcionava bem. E se por milagre funcionava bem em direção tranqüila, o passo seguinte de colocar a faca entre os dentes e dirigir mais rápido terminava em frustração, às vezes xingamentos, e em outras vezes, sentimentos piromaníacos.

 

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Mas isto tudo mudou, sabemos. Hoje tudo funciona maravilhosamente bem com comandos robotizados. Sem entrar em questões filosóficas sobre a realidade robótica de criar máquinas melhores que nós mesmos (que existem e são importantes, mas deixo para outro dia), os comandos eletrônicos hoje funcionam de uma forma tão perfeita que torna impossível criticá-los. São muito melhores, em todos os sentidos lógicos e mensuráveis, que os que substituíram. E o mais legal: agem invisivelmente, sem serem percebidos, às vezes denunciados apenas por luzinhas no painel.

Mas ainda assim naquele dia preferimos a minha perua, com cabo de acelerador e direção assistida hidraulicamente, e aquelas duas coisinhas cultuadas, hoje quase extintas: um pedal de embreagem e um câmbio manual. Preferimos não só porque o motor fazia um som mais correto, e parecia menos elétrico. Preferimos porque andar com a perua ali era um exercício de gerenciamento da aderência disponível e, muitas vezes, de controle sobre o carro depois que ele derrapa. Isto é o que tradicionalmente é o Graal do entusiasta: derrapagens controladas pelo acelerador, principalmente com a traseira tracionada para fora da curva. A perua vivia de lado, e o 320i tranquilão lá na frente, só contornando tudo sem drama. O carro mais rápido e eficiente era o mais chato. Estamos loucos? Claro que não. É um sentimento bem comum num carro moderno.

É por isso que muita gente ainda prefere carros antiguinhos, e é por isso ainda temos carros como o Mazda Miata e o Toyota GT86, carros que, em espírito ao menos, emulam coisas mais antigas, e são maravilhosos exatamente por isso.

 

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Mas aí entra a RS 4 na história. A primeira coisa que você tem que saber sobre a RS 4 é que ela combina uma peruinha Audi com tração integral quattro com motor e câmbio que não fariam feio em um Ferrari. Um V-8 com 450 cv a estratosféricas 8.250 rpm, acoplado a um câmbio robotizado de dupla embreagem e sete marchas. A segunda é que é um carro de 2015, no sentido de que realmente toda a tropa de robôs-guardiães indispensáveis a um carro moderno faz tudo certinho. Mas certinho mesmo, os carinhas acertam exatamente tudo que você quer que eles façam. Em modo sport automático, você chega perto da curva e freia, e ele joga marchas para baixo fazendo punta-tacco para você. Na hora certa, 10x mais rápido que um Senna inspirado. Dá até medo, uma sensação de que os alemães finalmente aperfeiçoaram a leitura de mente e colocaram algum dispositivo lá. Talvez exista um alemão neste momento escondido nos Alpes bávaros lendo o download do meu conteúdo cerebral para estudo futuro. Coitado.

A segunda coisa que você tem que saber é que ela opera num plano de habilidade dinâmica tão superior ao da minha peruinha que chega a ser impossível de comparar. Com pneus enormes, freios idem, tração integral permanente, e suspensão sofisticada, tem uma margem de segurança de aderência inacreditável no seco. Os carros normais se tornam ridiculamente inábeis, parecem tão débeis em sua capacidade de manter altas velocidades de forma segura que parecem bicicletas, estas arcaicas fugitivas de 1880. E o mais incrível: chuva não afeta em quase nada toda esta aderência. Incrível.

As vezes penso que é mágica. Ou tecnologia alienígena. Leitura de mentes e revogação da física. Deixaram só inércia dentro do carro para nos enganar melhor.

 

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Uma coisa que tenho que mencionar também: a evolução dos pneus. Não há muito tempo atrás, pneus de perfil tão baixo ou seriam impossivelmente duros, ou rasgariam três vezes por km, ou ambos. Hoje são macios e absorventes, além de extremamente aderentes, com sol ou chuva. Não ando muito contente com a minha escolha de pneus para a minha perua (Yokohama), por serem meio durinhos e sem dar mais aderência de volta. Na verdade, pneus de tecnologia atual para a medida 205/60 R15 não existem mais, e as opções são reduzidas. Vou precisar fazer um upgrade para aro 17 com pneus perfil 40, para, incrivelmente, por conta de pneus mais modernos, ter mais aderência e conforto numa tacada só.

 

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Mas, voltando à RS 4, a pergunta é: mas e aí, só aderência e motor… Vai dizer de novo que é chato? A resposta a esta pergunta é condicional. Eu tenho que dizer aqui que a inércia é minha lei da física preferida. E gosto realmente de andar rápido, principalmente se com segurança e controle total sobre o carro.

Então para mim o carro não é nada chato. Mas não mesmo. Achei fantástico na verdade. Fabuloso. O som que emana daquele motor em carga plena é sensacional, devia ser adotado oficialmente como o grito de acasalamento do macho humano adulto, e vem acompanhado de uma subida de giro super-rápida, e um empurrão contra a cadeira que deixa qualquer um feliz. As marchas são engolidas por um câmbio rápido e positivo, e se você tentar trocar você mesmo vai acabar batendo no limitador; melhor deixar a caixa sob seus próprios desígnios. O carro é vocal, girador e suave acelerando, a trinca de adjetivos que é o que realmente importa para se gostar de um motor.

E em curvas, o limite da velocidade que você vai fazer está em você e não no carro. É simplesmente ultra-aderente, neutro e benigno. Isso normalmente soaria como chato para muitos, mas confesso que para este viciado em velocidade e inércia, é nirvana. Um motor maravilhoso, uma caixa idem, toda segurança do mundo nas curvas e freios de tirar os olhos de seus soquetes. Numa perua. O que mais alguém pode querer?

Aparentemente, derrapagens. Embora tenha sido fisgado por esta combinação incrível de motor, aderência, conforto e segurança, o PK, por exemplo, já não. Ele prefere ter sua diversão a velocidades mais baixas, da forma tradicional, explorando os limites de carros menos capazes mas mais benignos após o limite. E sei que ele não está sozinho. Eu mesmo já rezei muito para este credo.

Mas hoje estou convencido de que são duas coisas totalmente diferentes. Adoro meus passeios sozinho na 328i velhinha. Mas eu realmente poderia viver com uma RS 4 bem feliz, obrigado. O pessoal julga que, como se anda mais rápido no Audi para se divertir com ele, automaticamente corre-se mais riscos. Eu acho justamente o contrário. A RS 4 tem tanto freio a mais, tanta estabilidade a mais, tanta margem de segurança em seu fantástico pacote dinâmico, que é muito mais difícil se meter em encrenca, mesmo andando muito mais rápido. Bem mais seguro, a velocidades bem maiores, sempre.

 

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Um exemplo bem legal e real: sábado passado vim com a RS 4 de Araçariguama para São Paulo pela rodovia Castello Branco, debaixo de muita chuva, com o Milton Belli. Viemos na boa, no limite da rodovia, mas na saída dos pedágios acelerava com força, e sem drama algum o carro ignorava o chão molhado e acelerava reto, sem desvio, sem nem deslizar pneu algum. Deixei o carro na Audi em São Paulo e voltando pelo mesmo caminho na Castello, com a minha BMW 328i, comecei a pensar: acho que o PK está certo. Aqui andando nessa estrada, meu carro velhinho é tão bom quanto a RS 4. Silêncio, conforto, motor bom, forte e vocal quando preciso… Só andando realmente rápido em curvas ia gostar mais da RS 4 e mesmo assim a BMW é legal lá também, de uma forma diferente. Aqui, tanto faz… E a direção da BMW, como é leve e precisa! A direção da Audi é comparativamente muito pesada e sem vida, se bem que extremamente eficiente em variar peso para manter o carro reto.

E foi pensando isso que diminui para os regulamentares 40 km/h para passar pela cancela de pagamento automático do segundo pedágio, depois de Jandira. Quando a cancela abriu, fiz algo que fizera repetidas vezes sem medo naquele dia molhado com a peruinha Audi de 450 cv: cravei o pé para sentir um pouco a deliciosa aceleração… mas eu estava na velha 328i e não na RS 4. Na hora a traseira bagunçou (molhado pacas o chão) e quase fui parar no muro. Ops!

Deleta tudo. Eu quero uma RS 4 para mim. Ah, como quero!

MAO

Fotos: Paulo Keller

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