DE PELINHO EM PELINHO – POR MARCUS LAHÓZ – 12/02/15

Drag  DE PELINHO EM PELINHO - POR MARCUS LAHÓZ - 12/02/15 Drag

Foto meramente ilustrativa (superstreetonline.com)

O título pode parecer um pouco ousado, mas é um termo muito usado em mecânica automobilística, principalmente na área de preparação de automóveis. Resolvi escrever este texto depois de ler o artigo Para gostar de ter  do Felipe Madeira sobre a troca do filtro de ar em seu alfa 145. Nos comentários vi muita gente falando sobre a troca de tal componente, benefícios e malefícios. Desta forma acredito ser bacana um texto sobre uma melhora no aproveitamento da energia despendida pelo motor.

Antes de mais nada, entenda que você pode ganhar de 0 (isso mesmo zero) até 5 (cinco) cv com a mudança. A sensação que você terá de maior potência é quase nula, então por que fazer isso? Alguns motivos básicos: assistir televisão é chato, ficar o tempo todo no sofá dormindo não traz benefício algum, conhecer o seu carro é algo muito bom, ter um hobby é espetacular para o alívio das tensões do dia a dia, entre algumas.

Quase todos os carros hoje em dia são muito bem planejados e montados, os motores então, nem se fale, são econômicos e potentes. Os sistemas construtivos são muito bem projetados, a execução de montagem é feita sob rigorosos sistemas e controles. Mas então por que a fábrica não aplica estas mudanças? Simples: o benefício é pequeno demais perante o custo.

Bom, chega de papo furado e vamos aos fatos.

Entrada de ar – Tenha por princípio que quanto mais frio e disponível estiver o ar para o motor, melhor; entenda que a parte do frio é essencial. Muitos carros não têm a melhor captação de ar possível, o ideal seria uma tomada de ar no capô (scoop, abertura no capô para admitir o ar direto do ambiente sem passar pelo cofre do motor), mas ninguém quer cortar o capô do seu carro do dia a dia (sem contar que se for grande demais atrapalha a visibilidade). Então, qual a solução? Dentro do cofre existem passagens de ar, quanto mais perto a captação do motor estiver destas passagens melhor. Alguns carros possuem um local muito adequado (como os Fiat Marea e Tempra — o primeiro “pega” o ar na grade antes do radiador, o segundo no pára-lama esquerdo). Com uma tubulação de aço carbono (não use inox, esquenta demais) ou plástico (pode ser até de PVC) troque a tubulação original (que está conectada ao receptáculo do filtro de ar) pela nova, veja que você precisa ligar o filtro de ar direto à passagem de ar para o cofre. Muito importante: jamais diminua a dimensão das tubulações, se ela for de 2 polegadas mantenha ou aumente, mas jamais diminua. Esta tubulação não pode encostar em nenhuma mangueira de água quente (vai esquentar demais) ou qualquer outra parte quente. Aconselho a deixar a ponta do tubo cortada em 45 graus para aumentar a área da “boca” do tubo. Não deixe o tubo para fora do carro, pode até puxar ar mais frio, mas ficará horrível. Também não tenha a brilhante idéia de puxar ar por debaixo do pára-choque, pode até parecer tentador (e bem simples de fazer) mas como moramos no Brasil onde temos chuvas tropicais aos montes, o motor pode puxar água e ocorrer calço hidráulico (por experiência própria falo que fica bem caro). Assim mantenha a captação de ar acima do pára-choque. Com uma tomada de ar na posição correta você consegue reduzir em até 3 °C a temperatura do ar de admissão (com um adaptador OBD e um celular você consegue fazer esta leitura).

Fita térmica. Conhecida no mercado como Termo Tape (em inglês Thermo tape), este artefato nada mais é que um isolante entre partes muito usado na construção civil para isolar telhados e forros. No automóvel a fita é diferente, menor e de constituição diferente. Enrole a fita por toda a admissão, tubulação pré-filtro, filtro, pós-filtro e coletor. A mesma fita pode ser utilizada no escapamento, enrole por todo o coletor de escape, e tubulação (que está dentro do cofre — a parte do escapamento que está embaixo do carro não precisa). Procurando no novo pais dos burros com as palavras-chaves acima existem milhares de ofertas e mais fotos ainda. Para esta tarefa é preciso tempo e paciência. Jamais utilize cinta plástica para fixar a fita térmica ao escapamento, na falta de uma cinta metálica utilize um PDA (Pedaço De Arame). No primeiro uso ela solta muita fumaça. Obs: para veículos turbo, pode enrolar na turbina também, mas neste caso compre um fita com boa qualidade, pois a turbina esquenta demais (muito mais que o escapamento de um carro aspirado) e uma fita de má qualidade irá se deteriorar mais rapidamente. Com a fita térmica, a redução na temperatura de admissão pode chegar a uns 3 °C.

Veja que ganhamos 6 °C, e o trabalho está apenas começando.

Escapamento –  Bom, aqui um assunto à parte, mais importante que a entrada é a saída, pois um erro aqui e tudo vai por água abaixo. Existem várias formas de se fabricar um coletor de escapamento, nos quatro cilindros temos basicamente 4×1 e 4x2x1; o primeiro é muito utilizado em utilitários (a Saveiro a gasolina tinha um quando era a carburador) e o segundo, em veículos de passeio comuns. Na Saveiro o 4×1 era muito curto, favorecendo o torque em baixa, mesmo que com perda em alta. Um 4×1 longo (muito utilizado em preparação de motores) favorece o torque em alta. Em geral, alteração na forma do escapamento vem acompanhada de uma alteração no cabeçote, seja nos dutos ou na árvore de comando de válvulas, o que pode ser feito com poucas alterações e sem prejuízo ao bolso. Basicamente, duas coisas: 1) fita térmica no escapamento e 2) remoção do catalisador. Muito cuidado aqui; a remoção do catalisador é crime ambiental e não deve ser executado. Se a polícia descobrir, dá multa e apreensão do veículo. Abaixo, um texto retirado de um trabalho de pesquisa junto à USP (Universidade de São Paulo):

“Objetivos: Analisar as variáveis de funcionamento de um motor de combustão interna movido a etanol equipado com um catalisador automotivo no sistema de exaustão.

Material e/ou métodos: nos ensaios dinamométricos utilizou-se um motor quatro-cilindros de 1.998 cm³ de cilindrada, taxa de compressão 12:1, injeção eletrônica de combustível monoponto. As variáveis de funcionamento do motor tais como potência, torque, consumo de combustível, rotação e carga foram avaliadas na bancada dinamométrica. O motor foi ensaiado sem catalisador e depois com a introdução do mesmo no sistema de escapamento, sem alterar nenhum outro parâmetro do motor. Resultados: Constatou-se na condição de operação a 50% de abertura de borboleta e a rotação de 1.500 rpm uma potência de 20,83 kW (28,3 cv) no motor sem catalisador. Com aplicação do catalisador houve uma diminuição de 13,3% na potência do motor; mantendo a carga constante e variando a rotação até 3.000rpm, a perda de potência foi de 23,85%. Observou-se ainda que o consumo de combustível, com emprego do catalisador, aumentou 7,5% a 1.500rpm. Conclusões: a aplicação do catalisador no sistema de escapamento do motor, no regime de operação de 50% de carga e rotações variando de 1.500 a 3.500 rpm, ocasionou perda de potência acima de 24%, devido à contrapressão gerada pelo catalisador, o qual afeta diretamente a eficiência volumétrica do motor. Os dados obtidos fizeram parte dos subsídios do trabalho CON04-41013, CONEM/2004 apresentado por Martins, K.C.R. et al.”

O site pode ser acessado aqui.

A remoção do catalisador também acarretará na perda da garantia do veículo. Minha opinião: coloque a fita no escapamento e fique feliz. Demais alterações no escapamento devem vir acompanhadas de mais alterações mecânicas no motor. Tome cuidado com a história de “abrir” o escapamento. Tubulação com diâmetro muito grande traz a curva de torque para baixo e “mata” o veículo em alta. Aconselho a procurar um bom preparador de motores caso deseje alterar mais profundamente o sistema de escapamento do veículo. Com uma fita no escapamento você pode ganhar cerca de 0,5 cv.

Filtro de ar esportivo –  Este é o campeão de vendas na internet; vende mais que picolé no verão, tem de tudo até uns com ventilador de computador dentro. O que realmente é fato: vai deixar a entrada de ar mais livre, a diferença virá apenas na alta rotação, bem baixa ou até 3~4 mil rpm nada muda. Veja bem a posição na qual vai colocar o filtro de ar novo, se for fora do original (como os cônicos) preste atenção ao fluxo de ar, pois se você puxar ar quente vai perder desempenho (e muito). Eu gosto de filtros que se encaixam no sistema original, assim não tenho alteração de ruído e continuo puxando ar conforme providenciou o fabricante; qualquer alteração eu faço apenas na posição de tomada de ar. Na internet há vários artigos sobre isso, vídeos e tudo mais. O que eu fiz: comprei um filtro esportivo fabricado em Santa Catarina, troquei pelo original. O que senti? Quase nada, um pouco mais solto em alta, mas nada demais.

Óleo de motor – Aqui todo mundo sabe um pouco, do dentista ao engenheiro, passando pelo mecânico. Quanto mais fino o óleo, menor a força que o motor faz para girar, afinal o óleo (com a sua viscosidade) gera atrito nas partes móveis. Obviamente que sem o mesmo o motor trava, a questão é que o óleo reduz o atrito das partes móveis, mas não o elimina. Entenda também que um óleo muito fino pode não ser suficiente para formar um “filme” entre as peças metálicas, assim gerando mais atrito e posterior dano permanente (necessitando de retífica). Veículos mais antigos (anos 1990) utilizavam óleo 20W50 (não vou entrar em detalhes sobre o significado, pois quem lê este site já deve saber de cor). Hoje a grande maioria parte para o 5W30. Se o seu veículo foi fabricado para utilizar o óleo fino (5W30 ou 0W30) não aumente a viscosidade, pois haverá aumento de consumo, esforço extra na bomba de óleo e redução na lubrificação.

Reduzindo a viscosidade: comece aos poucos, procure baixar a viscosidade a cada 10.000 km, até chegar no valor desejado. Como saber quando parar? Medições semanais no nível de óleo: se estiver baixando óleo mais que o normal, volte ao antigo. Partida a frio: se ao ligar o veículo pela manhã ouvir algo diferente (batendo algo metálico, por exemplo) volte ao antigo. Atenção na troca de óleo: se possível analise o óleo, veja se não há nenhuma limalha de bronzinas ou algo assim. Analise as velas (veja se não estão impregnadas de óleo). E, por último, verifique a cor da fumaça que sai pelo escapamento pela manhã: se for azul é óleo. Eu consegui um melhora de 0,5 km/l em um antigo Fiesta quando voltei a utilizar o óleo recomendado.

Aumentando a viscosidade: motores mais cansados merecem maior atenção, fique sempre atento ao consumo de óleo, se estiver baixando demais está na hora de subir a viscosidade. Veja que em motores cansados é sempre bom preencher a folga (causada pelo uso) com óleo, isso vai aumentar a vida útil e trazer potência de volta (sem contar que reduz o consumo de óleo).

Um motor bem cuidado roda fácil 200.000 km com óleo recomendado pelo fabricante, troque o mesmo com freqüência correta (eu troco a cada 5.000 km), compre óleo de boa qualidade; troque o filtro junto.

Aditivo para óleo: não acredite em milagres, seu motor vai travar se você tirar todo o óleo. Existem vários tipos. Se seu motor é novo e é utilizado um óleo de qualidade, aditivo não é necessário. Motores cansados podem se beneficiar do uso de aditivos específicos (em geral para motores cansados vale qualquer coisa para tentar prolongar a vida do mesmo — ainda mais se o caixa estiver baixo). Eu utilizo um aditivo à base de grafite, não percebi nenhum ganho de potência, mas a principio (pelo método super-válido de esfregar os dedos com óleo) a viscosidade do óleo se manteve muito boa mesmo próximo ao período de troca.

Veja, basicamente o que se pode fazer sem alterar demais o veículo é o que foi exposto acima. Para ganhos maiores de potência é preciso uma intervenção maior. Veículos com turbocompressor de fábrica podem receber um chip de potência para aumento de pressão de turbina (a vida útil do motor é extremamente reduzida). Não acredito em chip de potência para veículos aspirados, não acredito em ganho de potência sem intervenção mecânica. Tudo que foi comentado acima é uma intervenção mecânica.

O melhor de tudo, ao fazer qualquer alteração citada acima, é saber que você tem um carro na melhor condição possível, com a máxima otimização do conjunto.

E naquela ultrapassagem saber que passou três em vez de dois caminhões, dá um prazer enorme!

ML

ooooo

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  • m.n.a.

    PDA – curti bastante ! !

    TCDM poderíamos usar para “tira de câmara de pneu”….

  • Lucas dos Santos

    Muito bom! Simples e direto ao ponto!

    “Procurando no novo pais dos burros com as palavras-chaves acima existem milhares de ofertas e mais fotos ainda”.

    “Novo pai dos burros”! Sabe que eu nunca tinha pensado nisso?

    • André K

      O pior de tudo é que tem burros que não sabem nem mesmo consultar o novo “pai”…