(Foto: Paulo Keller)  LEMBRANÇAS DOS MEUS TESTES DE 2014 Toyota GT86 02

(Foto: Paulo Keller)

No ano passado testei vários carros. Uns ficaram como estavam, não mudaram, outros tiveram interessantes evoluções, e também carros novos chegaram para disputar o mercado, o que é sempre bem-vindo. Dessa vivência gostaria de destacar o que achei de mais importante entre os carros que testei.

 

Toyota Corolla (foto: autor)  LEMBRANÇAS DOS MEUS TESTES DE 2014 DSC078881

Toyota Corolla (foto: autor)

Toyota Corolla

Evoluiu em todos os aspectos. Além do novo desenho, mais jovem, moderno e de bom gosto, ele melhorou na dinâmica. Sua tocada está mais rápida, mais esportiva, está ainda melhor de curva, e o mais louvável é que esse ganho não foi à custa de conforto. O carro continua com o rodar macio e silencioso. Testei um com câmbio CVT de sete marchas virtuais e entre os CVT oferecidos no nosso mercado, esse sem dúvida é o melhor, pois com ele quase não há aquele incômodo descompasso entre a rotação e o ganho de velocidade, comum a muitos outros, principalmente quando andando mais forte na estrada.

Também testei um com câmbio manual de seis marchas. Esse oferece uma reserva esportiva extra, pronta a dar prazer ao autoentusiasta que gosta de, vez ou outra, dar uma acelerada forte. Agora o Corolla não fica a dever, em termos de esportividade, ao Honda Civic. Ficaram parelhos nisso.

 

Toyota GT86 (foto: Paulo Keller)  LEMBRANÇAS DOS MEUS TESTES DE 2014 Toyota GT86 18

Toyota GT86 (foto: Paulo Keller)

Toyota GT86

Uma lição de como fazer um legítimo esportivo sem apelar para custos altos. O GT86 é um dos melhores esportivos que já guiei, dos mais equilibrados e prazerosos de dirigir, e quando vamos ver o carro não tem quase nada a mais do que tem um sedã nacional médio, como o Toyota Corolla ou Honda Civic. O motor, apesar de moderno, é simples, um Subaru boxer 2-litros de 4 cilindros, aspirado, de 200 cv,  e câmbio manual de seis marchas. O interior tem um viés espartano, com bancos de regulagem manual, por exemplo; nada demais. A grande diferença vem do modo de fazer, de como juntar as coisas, onde colocar o motor, como fazer a melhor distribuição de peso, geometria de suspensão, de como acertar o comportamento do carro, de como definir a curva de torque e potência do motor, de como escalonar as marchas, de como acertar a resposta de direção, a resposta dos freios, do pedal do acelerador etc.

Pequenas sutilezas que demandam esmero e que resultam em sabores especiais ao motorista que aprecia coisas finas. Toda a diferença veio do know-how e não do how much. Não podemos esquecer que acertar um carro para duas pessoas e pouca bagagem (o GT86 é um 2+2, de diminutos bancos traseiros) é mais fácil que acertar um sedã ou cupê, cujo acerto deve prever também carga total, o que muda a dinâmica do carro. E, claro, não esquecer que a tração traseira contribui decisivamente para o ótimo resultado final. Ah, e diante de seu desempenho ele é bem econômico: na cidade fez entre 9 e 11 km/l e na estrada 12 km/l de gasolina.

 

up! (foto: Paulo Keller)  LEMBRANÇAS DOS MEUS TESTES DE 2014 20140601 1046462

up! (foto: Paulo Keller)

Motores 3-cilindros da Ford e VW

Esses motores 1-litro de 3 cilindros chegaram com o que há de mais moderno e o resultado é marcante em termos de desempenho e economia. Só lhes falta a injeção direta, que certamente foi descartada por razão de custo, já que visam equipar as versões de entrada. Ambos têm impressionante pegada em baixa, o que torna o carro “leve”, disposto a boas retomadas desde baixo giro, e não se incomodam nem um pouco em virar em altas rotações. E que têm um belo ronco que lembra o do Porsche 911, têm… Dá satisfação fazer uma viagem de ida e volta de fim de semana e ao chegar ver que nem meio tanque foi gasto, e que com ele ainda dá para rodar a semana de trabalho. Com esse motores os “carros mil” estão definitivamente suficientes. Faltou testar o 3-cilindros 1-L da Hyundai/Kia.

 

Ka+ 1L  LEMBRANÇAS DOS MEUS TESTES DE 2014 Ka  1L

Ford Ka+ 1-L (foto: autor)

 Ka e up!

Aproveitando a deixa dos motores 3-cilindros, falo um pouco dos carros que esses motores equipam. Foi gratificante verificar quão bons de chão estão esses dois compactos lançados no ano passado. Carrinhos pequenos que viajam que nem carro grande. Estáveis, proporcionam viagens descansadas e com baixo nível de ruídos aerodinâmicos e de motor. A vantagem do Ka é ter mais espaço no banco traseiro. A vantagem do up! é o design, que é feliz. Só lhe falta uma cor azul, alegre, como a “azul francês”, para realçar ainda mais suas linhas.

 

Jaguar F-Type (foto: autor)  LEMBRANÇAS DOS MEUS TESTES DE 2014 DSC082042

Jaguar F-Type (foto: autor)

Jaguar

Na apresentação à imprensa em Interlagos pude dirigir os modelos à venda no Brasil, menos os de motor de 2-litros turbo de 240 cv. Os sedãs de motor V-6 3-L de injeção direta com compressor, 340 cv a 6.500 rpm e 45,8 m·kgf a partir de 3.500 rpm, velocidade  de 250 km/h limitada — já têm desempenho mais que suficiente para satisfazer todos os caprichos imagináveis. E ainda há o V-8 5-L de injeção direta com compressor, 510 cv de 6.000 a 6.500 rpm e 63,7 m·kgf de 2.500 a 5.500 rpm.

Entre os esportivos F-Type me encantei com o de motor V-6 de 380 cv. É excelente, não lhe falta nada para satisfazer os apaixonados por esportivos ingleses. Torço para que tragam a versão de câmbio manual recentemente lançada na Europa. Com esse câmbio os esportivos da Jaguar voltam a figurar entre meus sonhos de consumo, onde simplesmente não há espaço para esportivos com câmbio automático ou automatizado. Na hora da andar rápido, trocar marcha com alavanca e pedal de embreagem me é essencial.

 

Honda City (foto: autor)  LEMBRANÇAS DOS MEUS TESTES DE 2014 DSC08728

Honda City (foto: autor)

Honda City

É curioso como um carro que não lhe dizia nada, com poucas mudanças pode se transformar num modelo bastante interessante. O City é um desses e em breve o Ae terá um para teste “no uso”. Por ocasião do lançamento do novo modelo, há poucos meses, pude dirigi-lo na estrada e foi o suficiente para passar a vê-lo com olhos interessados. O espaço para o banco traseiro aumentou e agora é área “da diretoria”. Muito espaçoso e confortável, com medidas mais amplas que muitos sedãs de maior porte. Ele teve um aumento no entre-eixos e novo acerto de geometria e calibração da suspensão. Com isso ele ficou muito bom de curva, era frentudo antes. Ficou na mão, digno de ser irmão menor do Civic. Seu câmbio CVT é o sonho do motorista que quer suavidade, e é realmente agradável no trânsito urbano, mas na estrada o autoentusiasta o achará sem graça.

 

Honda Fit (foto: autor)  LEMBRANÇAS DOS MEUS TESTES DE 2014 DSC09110

Honda Fit (foto: autor)

Honda Fit manual

Também, o novo acerto na suspensão o deixou mais macio e melhor de curva. O câmbio manual tira a névoa criada pelo CVT e que encobre o desempenho do belo motor 1,5-litro de 115/116 cv (G/A). Com o câmbio manual esse hatch vira um hot hatch. Tem uma pegada impressionante.

 

Ford Ecosport (foto: autor)  LEMBRANÇAS DOS MEUS TESTES DE 2014 DSC07702

Ford EcoSport (foto: autor)

Ford EcoSport

Outra grande mudança para melhor. O novo desenho é meio controverso, mas em compensação esse suve compacto mudou radicalmente seu comportamento. Está bem mais macio e bem melhor de curva. Antes ele não era bom nem num nem noutro. O câmbio robotizado de dupla embreagem PowerShift, na versão 2-litros, funciona muito bem. Trocas rápidas e suaves, e programação perfeita.

 

Novo Logan (foto: autor)  LEMBRANÇAS DOS MEUS TESTES DE 2014 DSC09064

Novo Logan (foto: autor)

Novo Renault Logan

Para que ser feio se pode ser bonito? A primeira impressão é importantíssima; a história do Mustang que o diga, pois em 1964 venderam uma enormidade só de expô-lo nas concessionárias, sem que suas rodas precisassem mover um centímetro e ninguém nem querendo saber que por baixo daquela linda carroceria estava um modesto Ford Falcon, um compacto familiar, segundo os padrões americanos da época. O antigo Logan era feio. Bom, mas, feio. Com o tempo as boas qualidades do carro foram suavizando a nossa visão, fomos nos acostumando com sua desproporcionalidade, mas agora que deram um acerto geral no design do carro e o deixaram normal, bonitinho; quando voltamos os olhos ao antigo enxergamos a realidade.

O antigo era mesmo feio, apesar de bom. E não foi só no design que melhoraram o carro. Ele manteve as boas qualidades funcionais que lhe renderam admiradores fiéis, entre eles o leitor do Ae “Mr. Car”, e melhorou de estabilidade também. Ficou menos subesterçante e bem mais fiel ao comando. O motor de 1 litro, 4 cilindros e 4 válvulas por cilindro é bem bom em alta, mas não tão bom em baixa quanto os 3-cilindros citados acima. Na estrada, quando se mantém giros mais altos, portanto, ele é tão bom quanto, mas na cidade, quando a pegada em baixa é mais solicitada, ele fica atrás, requer mais mudanças de marcha. Também não é tão econômico. É econômico, sem dúvida, mas não tanto quanto os 3-cilindros.

Concluindo, se você, fabricante, quer correr menos riscos, trate de fazer um carro que seja bonito. O consumidor até aceita um carro feio, desde que logo de cara ele seja muito bom, enquanto um carro bonito ganha tempo para provar que é bom.

 

BMW R nine T (foto: Paulo Keller)  LEMBRANÇAS DOS MEUS TESTES DE 2014 BMW NineT AUTOentusiastas 23

BMW R nine T (foto: Paulo Keller)

Motos

Testei a moto mais linda que já vi, a BMW R nine T, e a mais gostosa, a mais visceral, a Ducati Diavel.

 

Ducati Diavel (foto: autor)  LEMBRANÇAS DOS MEUS TESTES DE 2014 DSC09258

Ducati Diavel (foto: autor)

Carros malucos

Puxa vida! Não me lembro de ter testado nenhum carro maluco nesse ano que passou! Nenhum esportivo clássico, nenhum hot rod altamente inflamável, nada disso. Mas isso não vai ficar assim, não. Ao caro leitor autoentusiasta prometo me redimir neste ano que começa.

Os testes citados podem ser buscados nesta lista aqui.

AK

Sobre o Autor

Arnaldo Keller
Editor de Testes

Arnaldo Keller: por anos colaborador da Quatro Rodas Clássicos e Car and Driver Brasil, sempre testando clássicos esportivos, sua cultura automobilística, tanto teórica quanto prática, é difícil de ser igualada. Seu interesse pela boa literatura o embasou a ter uma boa escrita, e com ela descreve as sensações de dirigir ou pilotar de maneira envolvente e emocionante, o que faz o leitor sentir-se dirigindo o carro avaliado. Também é o autor do livro “Um Corvette na noite e outros contos potentes” (Editora Alaúde).

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  • Mr. Car

    Agradeço a citação, Keller, he, he! E confirmo que o Logan é feio, mas é bom. Aliás, é muito melhor do que muita gente pensa, quando o julga apenas pela aparência. O meu é 1,6 8v.
    Abraço..

    • R.

      Dizia minha finada avozinha …Quem vê cara, não enxerga o coração!
      No meio automobilístico isso também é verdadeiro!

  • Fabio Vicente

    Desses o Toyota GT86 é o que habita meu sonho.
    Mas minha realidade diz que devo prestar mais atenção no Ka+ 1,0.

    • R.

      To contigo …
      Esse GT 86 é demais!
      Pena que, se chegar a ser vendido por aqui, vai custar uma pequena fortuna!

  • CorsarioViajante

    Gostei dessa “passada em revista” de 2014. Direto ao ponto!

  • André Andrews

    A estratégia do câmbio da Toyota – muito bem explicada pelo André Dantas – deveria ser adotada por todos os fabricantes. Em D (que é o que mais vamos usar) não há aquela falta de relação entre aceleração e velocidade.

    Arnaldo, dê a sua pitada do que foi para você o Mégane R.S, nem que seja só nos comentários.

    Abraço.

    • Arnaldo Keller

      André, o que mais me impressionou no RS é o modo como ele viaja no trilho. Pena que não tenhamos como viajar do jeito que ele pede, que é para cruzeiro acima de uns 180 km/h. Pena que o preço que sairia aqui, caso seja trazido pela Renault, acho que o deixaria muito caro.

  • Daniel S. de Araujo

    Ak, gostei da retrospectiva. E sobre a dupla Honda Fit/City, nunca dirigi um nem nunca me senti atraido para ir ver um de perto. Mas sua avaliação no Ae me levou a um concessionário para ver um de perto, entrar dentro, ver o acabamento, confesso que coloquei na lista de futura aquisição (para a minha mulher – eu não abro mão do caminhãozinho e nem quero correr o risco de deixar ela escolher outro carro bonitinho mas ordinário como é o carro atual dela). Passei a considerar um Fit completo ou um City intermediário ou um Civic semi-novo como opção.

  • Marcelo

    Acho que este, o Golf GTI e o GT 86 mereceriam uma avaliação multipla pelos integrantes, mas entendo que uso é complicado.

  • Antônio do Sul

    Também ainda sou fiel à Quatro Rodas, mas tenho saudade dos anos 90, quando as fichas técnicas eram muito mais ricas, embora não tanto quanto as do Autoentusiastas. A revista impressa que fazia o melhor detalhamento dos dados técnicos, dentre todas as que eu tive a oportunidade de conhecer, era a argentina Parabrisas, no início dos anos 2.000.

  • Rolim

    Já estava estranhando a ausência do Altima, quando fui checar qual
    “Keller’ escreveu a matéria “UM LUGAR ÚNICO, UM PARCEIRO ESPECIAL, UM
    CARRO EXCELENTE E UMA VIAGEM INESQUECÍVEL”
    http://autoentusiastas.com.br/2014/01/um-lugar-unico-um-parceiro-especial-um-carro-excelente-e-uma-viagem-inesquecivel/
    e vi que foi Paulo.
    Tá explicado! rsrsrs

  • Danilo Antonio Frasson

    AK, a posição dos pedais do Corolla é favorável para punta-tacco? Pois no Etios não é.