Era um azul mais claro que este (foto: www.thornleykelham.com)  LANCIA B20 GT www

Era um azul mais claro que este (foto: www.thornleykelham.com)

Há seis ou sete anos, estando numa coleção particular de clássicos, onde eu levara um amigo para ver um reluzente Ferrari 365 vermelho que estava à venda, vi a um canto, ao lado de um Lola T210, um discreto cupê de quatro lugares. Uma fina camada de pó tirava o brilho do azul de suas linhas curvas e assim, quieto, ele parecia se esconder na escuridão daquela garagem. Eu estava num momento de furor provocado pela estonteante extravagância do 365, pois acabáramos de funcionar seus 12 cilindros e o urro daquele motor entre paredes é de deixar a gente meio desbaratinado, meio zoado. Dizem que o urro do leão, propositalmente, tem uma freqüência que, quando perto, deixa a presa paralisada, estática. O urro do 365 deve ter lá alguma coisa a ver com isso, pelo menos para mim, que sou presa fácil dos V-12.

Além do motor, aquela alavanca de câmbio com 1ª em perna de cachorro — dog leg, onde a 1ª é para trás junto ao motorista —, e aquela frente longa, tornam o 365 um dos Ferrari mais fascinantes; carro de velocidade sem fim. Ele vai a 280 km/h ou pouco mais e ainda é da época em que os esportivos mais fortes afastavam quem não fosse um verdadeiro autoentusiasta, pois ele não o saberia guiar e nem gostaria de fazê-lo. E estava à venda por R$ 350.000.

 

Interior confortável (foto: www.collectioncar.com)  LANCIA B20 GT www

Interior confortável (foto: www.collectioncar.com)

Passado o furor, enquanto meu amigo conversava sobre o 365 com o dono dos carros, fui ver que carro azul era aquele. Logo percebi que nunca o vira ao vivo, então fui xeretando. Pelo símbolo vi que era um Lancia. Pelas linhas presumi ser do início da década de 1950. Quatro lugares, amplos, com banco de assento inteiriço na frente (diferente do da foto acima), assentos com molas, confortável. Alavanca de câmbio na coluna de direção, com desenho que indicava ter quatro marchas. Painel completo, com grandes mostradores de rotação do motor e velocidade.

 

Rio-X do B20 GT (Foto: livro Lancia Aurelia e Flaminia, Gold Portfolio)  LANCIA B20 GT DSC094595

Raio-x do B20 GT (Foto: livro Lancia Aurelia e Flaminia, Gold Portfolio)

 

Raio-X do chassi (Foto: livro Lancia Aurelia e Flaminia, Gold Portfolio)  LANCIA B20 GT DSC094661

Raio-x do chassi (Foto: livro Lancia Aurelia e Flaminia, Gold Portfolio)

E daí, como sempre, tratei de me agachar para ver as suspensões. A dianteira era parecida com a dos antigos Morgan 3-rodas, sliding pillar (coluna deslizante), um sistema antigo e há muito não mais usado. E aí fui olhar a da traseira e então vi que a coisa era séria de verdade. A suspensão traseira era independente, o que eu nunca havia visto num carro dessa época, e com um sistema parecido com o dos BMW da década de 70, geometria de braço semi-arrastado, e para complicar a coisa vi que o câmbio estava lá atrás. Era um transeixo, que agregava embreagem e diferencial. Junto a ela iam os grandes tambores de freio, os chamados freios inboard (internos), isso para aliviar o peso não suspenso, deixar mais leve o conjunto de suspensão e roda. Assim, mais leve, a suspensão pode atingir uma freqüência maior e acompanhar melhor o solo, sem pular. Os tambores eram aletados para melhor dissipação do calor. O Jaguar E-type também os têm inboard, que surgiram pela primeira vez, num carro de produção, e já a disco, no Citroën DS 19 em 1955.

 

Freios junto ao câmbio/diferencial (Foto: livro Lancia Aurelia e Flaminia, Gold Portfolio)  LANCIA B20 GT DSC09461

Freios junto ao câmbio/diferencial (Foto: livro Lancia Aurelia e Flaminia, Gold Portfolio)

 

Suspensão traseira, depois substituída pela de Dion (Foto: livro Lancia Aurelia e Flaminia, Gold Portfolio)  LANCIA B20 GT DSC09462

Suspensão traseira, depois substituída pela De Dion (Foto: livro Lancia Aurelia e Flaminia, Gold Portfolio)

Junto ao dono eu tinha a liberdade de mexer nos carros. Eles lá conversando e eu cá na sombra com o Lancia, abismado com o que via. Abri. Era um compacto V-6. Ele estava posicionado atrás do eixo dianteiro, isso certamente para trazer seu peso mais para o centro do carro. Assim já era demais! Então aquele era o famoso Lancia Aurelia B20 GT? Esse era o carro que o genial engenheiro Vittorio Jano projetou sem restrições e Gianni Lancia topou fazer? Foi o carro, a meu ver, mais avançado de sua época. Tudo que melhor funcionava nas pistas havia sido colocado em um cupê de rua de quatro espaçosos lugares. E deu certo, certíssimo.

 

Motor V-6 (Foto: livro Lancia Aurelia e Flaminia, Gold Portfolio)  LANCIA B20 GT DSC09471

Motor V-6 (Foto: livro Lancia Aurelia e Flaminia, Gold Portfolio)

Eu sabia que em 1952, na época em que corria na Fórmula 1, o futuro pentacampeão Fangio alugara um desses para ir de Paris a Monza, após perder o vôo, e dizem que ele tinha pressa, pois a corrida era no dia seguinte. Varou a noite guiando e dizem que essa viagem foi num racha de lascar. Nessa corrida, para a qual chegou em cima da hora e cansado da longa viagem de mais de 850 quilômetros, ele pilotaria um Alfetta e teria o grave acidente que o manteve engessado feito uma múmia. Foi o pior acidente dele.

 

B20 Gt competindo (foto: stevemckelvie.wordpress.com)  LANCIA B20 GT stevemckelvie

B20 GT competindo (foto: stevemckelvie.wordpress.com)

Fiquei lá ao lado do B20 GT, pensando em como seria fazer essa viagem com o Fangio nesse carro, e melhor, naquela época ainda desradarizada. Sei que ele não gostava de ficar falando muito enquanto dirigia. Ao menos é o que um amigo dele, Don Barragán, diretor do Museo Fangio, me disse. Fangio gostava de guiar e gostava de se concentrar ao volante. Ele levava a sério dirigir, seja na pista ou onde fosse, mesmo sabendo tudo. Talvez ele, de tanto saber, sabia que não sabia tudo. Além do mais, ele gostava de dirigir e boa.

 

Lancia D24 e Fangio (Foto: livro Lancia Aurelia e Flaminia, Gold Portfolio)  LANCIA B20 GT 1954 lancia sebring

Lancia D24 e Fangio (Foto: livro Lancia Aurelia e Flaminia, Gold Portfolio)

Em 1953 Fangio ganhou a Carrera Panamericana pilotando um Lancia D24, uma barchetta. Esse carro nasceu após o ânimo injetado pelas inúmeras conquistas do B20 GT nas pistas, dentre elas, pilotado por Giovanni Bracco, o 2º lugar na Mille Miglia de 1951, só chegando atrás de um Ferrari America, um spider que, assim como o D24, era específico para corridas e passava fácil dos 270 km/h. E o B20 GT era somente um lindo cupê de rua desenhado por Pininfarina, um carro para levar com conforto uma bela e perfumada italiana ao restaurante, e com espaço de sobra para levar outro casal atrás, ou mais duas lindas e falantes italianas. Na época, 1951, o V-6 do B20 GT tinha 2 litros e produzia pouco mais de 80 cv a 4.500 rpm. Conquistava impressionantes resultados nas pistas e ralis de velocidade a troco de sua estabilidade superior; não devido à potência, que, apesar de para a época não ser pouca, não era grande coisa. Em 1953 aumentaram o motor para 2,5 litros e a potência subiu para 118 cv a 5.000 rpm e o torque foi para 17,4 m·kgf a 3.500 rpm. Aí sua velocidade máxima já passava um pouco dos 180 km/h, o que para a época era estonteante. Quem o dirigiu diz que ele mantinha tranquilamente 160 km/h em velocidade de cruzeiro, algo em torno do dobro da velocidade com se costumava viajar.

 

Excelente nas curvas (foto: bringatrailer.com)  LANCIA B20 GT bringatrailer

Excelente nas curvas (foto: bringatrailer.com)

Em 1954, pilotado por Louis Chiron, venceu o Rali de Monte Carlo. O campeão de F-1, Mike Hawthorn, tinha um; Jean Behra também.

Vicenzo Lancia, fundador da marca, não acreditava muito em obter resultados nas vendas a partir do sucesso nas pistas. Ele faleceu em 1937. Seu filho, Gianni Lancia, sim, acreditava, e logo que assumiu a presidência, em 1947, trouxe o genial Vittorio Jano para a fábrica. Ao assumir, Jano viu que o jovem engenheiro Francesco de Virgilio desde 1943 vinha desenvolvendo um motor V-6, uma proposta do já então falecido Vicenzo Lancia. Francesco descobrira que o motor V-6, com bancadas em ângulo de 60°, e com certa configuração do virabrequim, passava a ter um funcionamento suave, sem vibrações. Jano elegeu o V-6 para a linha Aurelia que nascia. Cabeçotes com câmaras hemisféricas mas com comando no bloco.

 

É claro que tinha que ter um B20 GT numa aventura do meu herói Tintin (foto: www.pinterest.com)  LANCIA B20 GT www

É claro que tinha que ter um B20 GT numa aventura do meu herói Tintin (foto: www.pinterest.com)

Foi fabricado de 1951 a 1958. Ao todo, 3.121 foram produzidos. Era caro. Custava um Cadillac e meio. Foi um carro feito, sem restrições, para os autoentusiastas, esses seres que ficam extasiados diante de máquinas automobilísticas.

E o Ferrari 365? Que fim levou?, me perguntaria o leitor. Só rindo mesmo… Meu amigo rico achou que seria gastar muito num carro. Considerou uma imprudência. Só que hoje esse impecável 365 deve estar valendo mais de R$ 1 milhão e meio, e pior, muito pior, ele deixou a grana aplicada em ações da Petrobrás…

 

Bye-bye Ferrari 365 (fotoautopolis.wordpress.com)   LANCIA B20 GT autopolis

Bye-bye Ferrari 365 (fotoautopolis.wordpress.com)

 

AK

Sobre o Autor

Arnaldo Keller
Editor de Testes

Arnaldo Keller: por anos colaborador da Quatro Rodas Clássicos e Car and Driver Brasil, sempre testando clássicos esportivos, sua cultura automobilística, tanto teórica quanto prática, é difícil de ser igualada. Seu interesse pela boa literatura o embasou a ter uma boa escrita, e com ela descreve as sensações de dirigir ou pilotar de maneira envolvente e emocionante, o que faz o leitor sentir-se dirigindo o carro avaliado. Também é o autor do livro “Um Corvette na noite e outros contos potentes” (Editora Alaúde).

Publicações Relacionadas

  • Bruno Rezende

    Que texto saboroso!

  • RoadV8Runner

    Bacana o Lancia B20 GT. Gosto de ler sobre esses carros que foram projetados com o que havia de melhor na época, pois muitos deles anteciparam soluções que seriam usadas em maior escala somente muito tempo depois. Sem contar que o bom comportamento dinâmico permitiu desempenho brilhante nas pistas, sem a necessidade de usar um motor com potência elevada.
    Sobre o Ferrari… Doído saber que que seu amigo deixou passar uma oportunidade dessas e aplicou a verba na Petrobrás! Guardadas as devidas proporções, é claro, sempre digo que, em alguns momentos de nossas vidas, precisamos nos permitir algumas extravagâncias. Não atos insensatos, que fique bem claro, mas algo que está a nosso alcance e nos trará imenso prazer, sem que isso signifique causar prejuízos ou aborrecimentos.

    • Lorenzo Frigerio

      Um colega meu QUASE comprou um Pontiac Trans Am 455 numa conhecida loja de antigos na av. Cidade Jardim. Eu o incentivei tanto quanto pude. O carro pertencia a um senhor de uma tradicional família de banqueiros. Quando ele aportou o dinheiro para comprar, depois de muita negociação, o dono da loja disse que iria entregar a documentação “dali a alguns meses”, e que “o proprietário não iria ao cartório assinar a transferência porque não quer dor de cabeça”. Dizem que o dono da loja “trabalha com o dinheiro dos clientes”, e é por isso que age dessa maneira.
      Devido a esse comportamento estranho, meu colega desistiu da compra, e a “extravagância” e a oportunidade ficaram para trás.
      Naturalmente, logo surgiu um louco que aceitou os termos e levou o carro.

  • Jeferson Argenta

    Muito bom!

  • Fórmula Finesse

    Post sensacional; história, cultura e entusiasmo em doses nada homeopáticas!

  • Leo-RJ

    Imagino o prazer que não foi ter visitado essa garagem…

    Leo-RJ

  • Klaus

    Se a ironia da última frase for verdade, o texto ficou perfeito. Se foi só um tempero para arrematar, ficou sensacional. Parabéns, Arnaldo.

    • Arnaldo Keller

      Klaus, a grana estava em ações, não sei quais, mas me permiti essa da Petrobrás para ficar mais divertido para o leitor.

  • Tem coisas que só os italianos sabem fazer!

  • Adriano Rech

    Realmente, quem vê cara não vê coração. Na primeira vez que vi esse carro em ação não dei muita atenção por conta da carroceria antiquada digamos assim, já que estava no meio de Fords, Fiats, Renaults, Audis e cia. quadrados.

    Mas é uma maquina e tanto.

  • Edison Guerra

    Como sempre um texto primoroso. Mas fechou com chave de ouro com as ações da Petrobrás!

  • R.

    O camarada Vittprio Jano, por onde passou, estampou sua marca de gênio da engenharia automobilística!
    Uma engenharia de raiz, que só dispunha de ferramentas básicas, onde imperavam: pranchetas, esquadros, réguas de cálculo etc ….
    A obra desse gênio é imortal e sobrevive até hoje em vários modelos de Alfa Romeo, Lancia, Ferrari e Maserati
    Eu não sabia que ele havia trabalhado para a Lancia. Algumas coisas só se lê aqui no Ae mesmo!

    Parabéns pela reportagem, AK !

  • R.
  • Lorenzo Frigerio

    Eu já vi um Ferrari Daytona andando na av. dos Bandeirantes, lá por 1982; também era vermelho… talvez fosse a mesma.
    Arnaldo, se você tiver acesso a um desses, precisa fazer uma matéria sobre ele em Interlagos, com vídeo 4K, em estéreo, pois nós pobres mortais sequer teremos a oportunidade de chegar perto de um carro desses.

    • RoadV8Runner

      Concordo em gênero, número e grau! E com ênfase ao ronco do motor, principalmente a marcha-lenta gorgolejante e a maravilhosa limpada de garganta numa aceleração mais forte.

  • Marcos Amorim

    O texto estava incrível, até chegar o final. AK, essa do seu amigo doeu em mim, se for isso mesmo que aconteceu então ele deve ter virado um sujeito meio amargo.

    Quanto ao Lancia, as vezes penso que materiais e ferramentas evoluíram, mas projetos nem tanto – ou até mesmo foram para trás. O refinamento da suspensão desse carro – apesar do péssimo costume de alteração de cambagem e convergência desse sistema traseiro – é algo que poderia ter sido trabalhado com o passar dos anos e ser utilizado em outros carros mais baratos. Ao invés disso, ocorreu a massificação de alguns sistemas nos anos 70, o que levou ao fato de sistemas um pouco mais elaborados ficarem quase exclusivos de carros mais caros, com algumas exceções normalmente italianas.

  • RoadV8Runner

    Eu fiz algo parecido, mas não por desconfiar da loja, mas por outras razões. O carro era um Camaro LT 1974, com o raro câmbio manual de 4 marchas, na época (fins de 1999) sendo vendido por R$ 8.000 (como comparação, comprei meu Caravan 1988 por R$ 4.800,00, cerca de um ano depois). Como o carro precisaria de pintura completa e eu estava com o dinheiro curto para combustível, mais receio de encontrar peças de reposição, não comprei o carro. Se arrependimento matasse… Foi esse fato que me faz, hoje, ser um pouco menos racional em algumas coisas.

  • Marcos Alvarenga

    E além de perder dinheiro, as ações da Petrobrás não têm um V-12 e não te levam a lugar algum!

    Péssimo negócio.

  • JT

    A lamentar que a Lancia virou o patinho feio da FCA, que está destinando para ela apenas o mercado doméstico italiano. Mais sorte teve a Alfa Romeo, que está com planos de retornar ao mercado norte-americano e tem uma operação na Argentina.

    É inclusive da Alfa Romeo Argentina que recebi o artigo a seguir, que traduzi para o site que edito, tratando um pouco dos modelos lendários de antigamente:

    http://www.mplafer.net/2015/01/alfaromeo.html

  • joao

    Poucas vezes em minha vida vi uma história tão legal com um final tão horripilante e trágico quanto essa… Petrobrás, lamentável….

  • Pois é! A primeira vez que vi este carro foi em um episódio do Tintin, lá os carros desenhados pareciam mais lindos do que são…Com exceção deste Lancia e muitos outros que nunca vi ao vivo e agora, sabendo sua história e o avanço da sofisticação mecânica para a época me pareceu mais belo ainda…Como nasci no final dos anos 50, carros desta década fizeram parte de minha infância e adolescência…Acredito que deveria ser muito divertida a vida nesta década para um adulto (com um pouco de dinheiro sobrando, claro! ) Carros e mulheres deste período são icônicos e idolatrados…Não deve ser por acaso!

  • Bruno

    Quando bati o olho na foto que abre este artigo, logo me veio à cabeça os quadrinhos do Tintin. O Capitão Haddock sendo atropelado por este carro dirigido por um italiano de terno e luvas de piloto. Tintin e Haddock pegam carona com esse italiano no Lancia e ele afirma que carro italiano e piloto italiano são os melhores do mundo!

  • Gustavo França

    Que carro e que texto. Colocar o herói da infância e uma das minhas marcas prediletas em um texto bem escrito, só aqui no Ae.