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Tenho como hábito reler frases de Millôr Fernandes — seja pela genialidade, seja pela variedade. E me reencontrei com uma que me levou a escrever esta coluna e que se aplica a diversos administradores públicos: “Vossa Excelência chegou ao limite da ignorância e, no entanto, decidiu prosseguir”.

Infelizmente preciso voltar ao tema das árvores que caem durante as chuvas. Digo infelizmente porque nada foi feito, apesar de todas as reclamações da imprensa, do Procon, da sociedade no Facebook, Instagram e outros lugares do cyberespaço que eu não freqüento, sem falar nas manifestações de pessoas fechando ruas e queimando pneus (aliás, alguém pode me explicar quem estoca tanto pneu que surge nessas horas? Por isso não se acaba com a dengue!).

É claro que o mal maior é a perda de vidas humanas. Não há dúvidas sobre isso. Mas talvez porque os corpos são removidos com relativa rapidez parece que as autoridades se esquecem do que aconteceu. Restam os troncos, os congestionamentos, seguidos das bocas-de-lobo entupidas, parte pelos galhos e folhas, parte porque não foram limpas durante todo o ano anterior, embora tenha sido o mais seco das últimas oito décadas. Parece que não deu tempo…

Na queda, as árvores arrastam fios elétricos que em São Paulo deveriam ser subterrâneos há tempos. Por lei desde 2005 e por lógica desde sempre. Gostaria de saber qual o custo de podar árvores e deslocar equipes cada vez que cai uma árvore e deixa um bairro inteiro sem luz — isso sem falar em eventuais multas e, claro, os prejuízos para a população, mas sabemos que este último item nem entra na lista de preocupação dos administradores. Duvido que no médio prazo já não seria mais barato enterrar os fios. Uma calha simples custa R$ 4.000 o metro linear e inclui também os cabos de TV, telefone e internet. Tem a galeria, que é melhor, e um pouco mais cara.

É questão de fazer conta, somando todos os prejuízos: tempo individual perdido no trânsito, maior consumo de combustível, fiscais da CET deslocados para organizar o trânsito onde não tem energia para os sinais, pessoal para consertar os sinais, jardineiros para podar as árvores antes e depois que elas caem, motoristas para dirigir os caminhões com os restos vegetais, combustível para estes caminhões, uso desnecessário de aterros sanitários com troncos e galhos, mais atendentes no call center da prefeitura para receber os pedidos de poda, mais atendentes do call center da concessionária para receber as ligações de reclamação de falta de energia, custo da telefonia… tudo isto sem considerar algo que está acima do ponderável financeiramente que é o valor da vida humana.

Anos atrás eu trabalhava numa empresa que ia lançar um produto e, a cada vez que acontecia isso era um furdúncio. As ligações para o call center aumentavam com dúvidas e reclamações, o pessoal da área comercial não conseguia cumprir as metas e as reclamações do público nos levavam aos píncaros no órgão federal que nos fiscalizava. Passamos uma manhã inteira no comitê de qualidade discutindo como nos preparar. O pessoal do call center fez os cálculos e pediu x pessoas a mais durante dois meses, nós da área de Comunicação pedimos informações para colocar na intranet e desanimados já nos preparávamos para a chuva de pedidos de esclarecimentos e reclamações que viria dos jornais, o pessoal da área Comercial pediu redução das metas para o trimestre, e por aí ia. Depois do almoço chegou um recém-contratado com um cargo relativamente baixo e disse: “E se nos preparássemos melhor? Podemos intensificar o treinamento interno e fazer simulações na intranet durante um tempo, assim quando fizermos o lançamento não haverá dúvidas. E podemos caprichar mais no material do Marketing”. Simples assim. Mas assim o call center não teria verba extra, o comercial não teria habeas corpus para as metas, o Marketing não teria verba extra para aplacar a ira dos consumidores com anúncios e campanhas. Deu para entender? É a mesma coisa com as árvores e o enterramento de cabos.

 

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Faltam cuidados com as árvores e falta enterrar a fiação. Nos dois casos, falta cumprir a lei (foto Diário do Aço)

A prefeitura de São Paulo disse que 65% das árvores que caíram estavam sadias. Vejam bem, o número é dela. Mesmo assim, 35% das 1.000 que caíram em 20 dias é árvore prá caramba cuja responsabilidade só pode ser atribuída a ela. E a cada vez tem menos árvores, não apenas em São Paulo, no Brasil inteiro. Aqui mesmo, no Ae, dois anos e pouco atrás o Bob Sharp escreveu sobre o sumiço das lindas árvores no “retão” de Resende, na Rodovia Presidente Dutra, que liga São Paulo ao Rio. O que era um caminho maravilhoso, com paisagem de primeiro mundo, virou um “Minhocão” no nível do chão. Na zona Sul de São Paulo, a entrada do Panamby tinha como marca registrada uma linha de palmeiras imperiais. Agora, para dar lugar a uma ponte (necessária, mas mal localizada, para variar) foram removidas 28 palmeiras imperiais e plantadas mais adiante, num canteiro onde mal caberiam pés de manjericão. Claro que várias já morreram. E serão compensadas (sério? Onde?) com plantinhas mirradas de outras espécies e que levarão décadas até ficar do tamanho das que foram removidas.

Mas voltemos às chuvas. A desculpa das forças da natureza não se sustenta. Segundo os meteorologistas, em dezembro e janeiro tem chovido abaixo da média histórica, portanto, não é culpa da água. Mesmo que fosse, cabe aos administradores públicos se prepararem. Afinal “são as águas de março fechando o verão” já tem quase meio século, não?

Raios? Sim, claro que caem muitos no Brasil. É um país tropical e já era quando Pedro Álvares Cabral aqui chegou. E já faz mais de cinco séculos. Será que não deu tempo de fazer algo? É como o prefeito de Montreal reclamar que não pode fazer umas hipotéticas Olimpíadas de Verão em janeiro, ao ar livre. Ora, neve no Canadá, em janeiro? Que surpresa!

 

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Adeus palmeiras imperiais, olá… manjericão? (foto www.facebook.com/sospanamby)

Os prédios têm para-raios e se bem me lembro das minhas aulas do segundo grau, o raio procura o ponto mais alto — tanto que ele é colocado no topo dos edifícios. E a zona de proteção é igual a um cone com vértice na ponta do para-raio, raio no solo e altura equivalente do chão à ponta do para-raio. Do cálculo exato do raio no solo não me lembro, mas grosso modo, para um prédio com 60 metros de altura ou uns 20 andares, o raio (sem trocadilhos) de proteção é de 30 metros. Está certo que fiquei de exame em Física, mas fiz Exatas e passei logo em dezembro, portanto, acho que não estou errada, não… E meu marido engenheiro me deu aulas à época e confirma meus cálculos. Pelo que vi na televisão, exceto no caso do Parque do Ibirapuera, as árvores eram mais baixas do que os prédios que estavam a poucos metros de distância, o que lhes garantiria a proteção dos para-raios. E mesmo um para-raio sem manutenção colocado mais alto vai atrair o raio. Não vai conduzi-lo com segurança para a terra, mas vai atrai-lo. Logo, raio está descartado na maioria dos casos.

Vento? De novo, exceto no caso do Ibirapuera, onde sim há uma área mais exposta, não se pode atribuir a isso a queda de árvores caso elas estivessem sadias. Se não teríamos quedas de postes, que só foram derrubados por árvores ou de outdoors, o que não se viu. O prefeito de São Paulo chegou a falar em furacão e meteu os pés pelas mãos. Disse que as rajadas de dezembro foram do nível de um furacão, comparáveis às do Katrina, que devastou a Flórida com ventos de 120 km por hora. Os ventos tupiniquins chegaram a 90 km/h, o Katrina atingiu 233 km/h e devastou a Louisiana. Tanto não foi furacão que não houve quebra de vidros nem objetos voando. Pelo relato dele, parecia o filme Twister, só faltaram as vaquinhas …

Mudando de assunto – Venho de uma família de pragmáticos. Quando minha bisavó disse ao meu avô para não deixar cair sal porque dava azar, ele passou dois dias observando tudo para ver se algo mudava para pior. Constatou que não e nunca deu bola para essa frase. Tinha oito anos. Fiz a mesma coisa com a história das crianças trancadas em carros depois da minha coluna da semana passada. Não me coloquei no lugar dos pais porque é opção deles ter filhos, colocá-los na creche e até mesmo levá-los de carro até lá. Os pequerruchos não optaram por nada disso. Fiquei no carro no sol quando estava ao redor de 30 graus fora. Em pouco tempo a temperatura chegou a 46 dentro do carro. Não aguentei nem 15 minutos e como adulta meu corpo consegue regular a temperatura mais facilmente que o de uma criança. Daí para a frente só consigo imaginar como seriam as 6 ou 8 horas seguintes.

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas
Foto da abertura: huffingtonpost.com

 

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