VELOZ (MUITO), MAS NADA DE FURIOSO


Como o MAO, sou grande admirador do jornalista inglês Leonard John Kensell Setright, ou L.J.K. Setright, como ele assinava suas incríveis matérias e análises de automóveis. Conheci seus textos na Car and Driver americana nos anos 1970 e 1980. Ele foi controlador de tráfego aéreo na Royal Air Force, advogado, autor de livros e jornalista automobilístico. Como eu, apreciava um bom cigarro, no caso o russo Sobranie Black. Viveu de 10 de agosto de 1931 a 7 de setembro de 2005, bons 74 anos.

Era inglês filho de pais australianos, talvez a razão de minha afinidade com ele, ambos temos a constelação do Cruzeiro do Sul no nosso céu.

Não, não é o da foto, de quem falarei daqui a pouco. A foto de L.J.K. Setright é esta:

 

LJK

L.J.K. Setright (foto autouniversum.wordpress.com)

Dez anos atrás, quando eu escrevia para o Best Cars a coluna semanal “Do banco do motorista”, uma delas foi “Dirigir com suavidade, uma arte”, em que começo falando de algo que havia lido do L.J.K. Setright ligado ao tema e em seguida estendendo o assunto. Vale a pena ler, http://migre.me/nve5W .

Agora volto ao mesmo assunto daquela coluna no Best Cars, desta vez uma experiência que vivenciei na última quinta-feira com a pessoa da foto de abertura como tema central. Ele é Cláudio Lobão, engenheiro da PSA Peugeot Citroën na fábrica de Porto Real (RJ), vizinha a Resende.

 

Setright

Foi a apresentação prévia de novo produto Peugeot (que só poderei revelar bem no final do ano, conforme acordado com a fabricante) que me levou a Engenheiro Passos (RJ), praticamente divisa com São Paulo, para, com outros sete jornalistas, dirigir quatro desses carros para as primeiras impressões.

Aconteceu que o programa que consistiu em rodar por várias estradas no entorno de Engenheiro Passos — algumas magníficas, que eu não conhecia — atrasou um pouco e eu tinha hora marcada para voltar a São Paulo e poder chegar a tempo para um evento às 20 horas.

Em vez de voltar dirigindo um dos novos carros, em comboio, ao hotel-base em Engenheiro Passos, o que levaria muito tempo, a Peugeot me colocou num 408 Griffe THP, com o Cláudio Lobão dirigindo. Um tipo enorme, 1,90 m, muito simpático.

Esse 408 fora usado naquele dia como carro-câmera, o fotógrafo Pedro Bicudo procurando os melhores ângulos até se valendo do teto solar aberto para o registro fotográfico de todo o evento, e além de mim e do Cláudio estavam o Rodrigo, motorista do carro-câmera, e a assessora de imprensa da Peugeot, a Giselli Cardoso.

Saímos logo depois do almoço em Maria da Fé (MG) rumo a Engenheiro Passos, a 138 quilômetros. Eram duas da tarde e pelo Google Maps o tempo de viagem previsto era de 2 horas e 7 minutos, uma vez serem estradas de mão dupla e sinuosas. Fiquei preocupado, pois havia planejado iniciar a viagem de volta a São Paulo no máximo às 4, de modo a chegar ao evento às 8, esperando o trânsito normalmente congestionado na chegada a São Paulo nesse horário, agravado pelas fortes chuvas naquele dia.

O Lobão entendeu a minha pressa e eu fiquei preocupado em estar no banco direito nesse retorno a Engenheiro Passos, pois não gosto realmente de ser conduzido rapidamente por quem não sei como dirige. Mas no primeiro quilômetro — sem exagero — qualquer preocupação ou temor desapareceu.

Eu só havia conhecido, de fato, o Lobão de manhã cedo, na palestra sobre o novo Peugeot (pode ser que o tenha visto em outros eventos, mas não me lembrava dele). Ele, inclusive, trabalha com Transmissão na PSA, e lhe pedi que me explicasse a questão da árvore intermediária do câmbio Aisin AT6 3ª-geração do C4 Lounge flex, no que fui prontamente atendido com o envio de um desenho didático de como é a disposição dela no câmbio, que publicarei ainda hoje, mais tarde. Leitores como o Lorenzo Frigério ficaram curiosos, com razão, e logo terão a explicação.

O Lobão acelerou para valer, com uma suavidade digna de nota. Nenhum tranco longitudinal ou transversal. Freava para as curvas no último instante freando do jeito certo, pressionando o pedal de freio em vez de apertá-lo, da mesma maneira que se deve fazer com o gatilho de uma arma de fogo. Ao voltar a acelerar, o fazia como se faz com o manete do acelerador dos aviões, num crescendo e não de repente. A entrada nas curvas era a síntese da concordância de uma curva — uma reta de raio infinitamente longo — para outra. Na saída, mesma coisa. Absolutamente show! O 408 mostrava o comportamento impecável já comentado aqui, neutro e com rolagem desprezível. Os pneus cantavam apenas levemente.

Usava o Aisin AT6 2ª-geração misturando Automático com Manual. Mais do que ninguém ele sabia o que estava fazendo, pois é ele quem calibra os câmbios automáticos na PSA. Nas aproximações sob frenagem, deixava o câmbio decidir a redução ou a comandava manualmente, nas saídas subia uma marcha e deixava o resto por conta do câmbio. Um verdadeiro balé da mão direita!

E tudo isso conversando normalmente, a paisagem passando em câmera-lenta (Jackie Stewart disse isso, que quando se está bem num carro de corrida o mundo passa em câmera-lenta, não importa o ritmo em que se esteja). Comentei sobre a rapidez das trocas de marcha no Aisin do C4 Lounge e ele explicou (enquanto andava no limite) que no 2ª-geração o processo levava em conta a posição do acelerador e que no de 3ª era baseado em tempo, daí a diferença.

Na descida da serra antes de Engenheiro Passos não percebi menor desaceleração das freadas apesar do mesmo ritmo, sinal de que não havia fading. Seria excelência da engenharia francesa? Eu havia experimentado o mesmo no lançamento do Renault Mégane, em março de 2006, ao descer a Serra da Graciosa em ritmo de corrida, nada de fading.

Chegamos ao hotel às 4 e 20, completamente relaxados (a foto do Lobão foi feita logo após chegarmos), voltei a São Paulo 20 minutos depois e cheguei a tempo para o compromisso.

Obrigado, Lobão, por me proporcionar momentos maravilhosos vendo-o dirigir. Parabéns pela pilotagem magnífica. E parabéns também, Peugeot, pelo 408 com esse incrível motor THP.

 

408 cop

BS

(158 visualizações, 1 hoje)