Instrutor  O INSTRUTOR - POR RAFAEL AUN - 11/12/14 Instrutor

Coisa de 60 anos atrás, em uma noite fria e chuvosa na cidade de Santos (SP), houve uma emergência médica na família em que o atendimento imediato não foi possível, nem tanto pela falta de disponibilidade de um veículo, mas pela falta de conhecimento em operá-lo. Isso aconteceu com meu avô, quando ele já era moço, casado e com filhos. Diz a lenda que este acontecimento lhe causou um pequeno trauma, prometendo a si mesmo nunca deixar que isso ocorresse novamente com ele ou com qualquer indivíduo que ele amasse.Por conta disso, eu acabei aprendendo a dirigir muito cedo. Com onze ou doze anos eu já dirigia no seu colo, com treze já conseguia dirigir utilizando os pedais e com dezesseis já dirigia como gente grande, quase sempre dentro de propriedade privada, nas vias de acesso do sítio próximo ao litoral paulista. Concomitante, meus primos e irmãos também tiveram o mesmo privilégio e quando estávamos juntos, revezávamos o volante até quase acabar o combustível do tanque. Lembro que quando estava com dezoito anos, prestes a tirar a carteira de habilitação, fui recomendado pela auto-escola a esquecer quase tudo que havia aprendido para conseguir passar no exame. Acreditem se quiserem.

Além de automóvel, também aprendi a dirigir tratores, manobrar carretas agrícolas, andar de moto, montar a cavalo e navegar dentro de uma geladeira.Meu avô não se apegava ao automóvel, mas sim à sua função. Apreciava tanto um carro como um eletrodoméstico. Todos eram imaculadamente malconservados, encardidos e arranhados, andavam com remendos de arames nos pára-choques, peças faltantes e pneus de diferentes marcas. A manutenção preventiva só era realizada por milagre e a corretiva, por providência divina. O carro era comprado zero-quilômetro e vendido praticamente como sucata após centenas de milhares de quilômetros rodados. Ao que tudo indica, sempre foi assim e ele se tornou maior piloto de testes inexplorado dos testes de resistência dos produtos Volkswagen.

Ele era um “gentleman driver” e viajava semanalmente para cumprir sua agenda de consultorias agronômicas no interior paulista. Nestas andanças, geralmente nas férias escolares do meio do ano, ele convidava um ou dois netos para acompanhá-lo em sua jornada nas fazendas que duravam mais ou menos uma semana. Era fantástico. Andávamos por todo o estado conhecendo inúmeras cidades e apreciando algumas festas locais e nos hospedando todo dia em uma residência diferente. Nestas ocasiões tive lições de vida e volante que guardo com muito carinho e me servem hoje na vida adulta.

Certa vez, pedi a ele para deixar a dirigir um pouco em uma rodovia sem movimento que ligava nada a lugar nenhum. A primeira dificuldade foi ter coragem para pedir, a segunda foi manter o carro entre em linha reta. Que sensação! Uma mistura de medo com realização, inesquecível. Ato inconseqüente? Não. Ele tinha a convicção do meu potencial e depositava uma enorme confiança na minha pessoa, contribuído positivamente na fase de transição entre a infância e adolescência, período geralmente permeado pela insegurança. Isso me ajudou a amadurecer mais cedo e entender a amplitude de ser responsável pelos próprios atos. Foi um gesto de carinho feito com atitudes, já que palavras de incentivo não eram de sua personalidade. Esta essência de ensinar é um legado que eu vou levarei comigo, independente do reconhecimento.

Entre chegadas e partidas da vida, aos 86 anos ele viajou mais uma vez, mas para um destino que ainda desconhecemos. Prefiro acreditar que ele está bem, perambulando de vez em quando em um grande seringal ou realizando uma caminhada longa com sua bota sete léguas, pisando em bosta de búfalo com uma capa de chuva amarela. Ele tinha o costume de acordar cedo e da siesta diária, apreciava um cafezinho preto no meio da tarde e um chocolate “Diamante Negro” em ocasiões especiais. Regia com o dedo indicador músicas clássicas enquanto dirigia e se identificava com trecho da canção de Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Por amor a profissão, foi muito reconhecido e condecorado, porém sua maior conquista foi ser um avô excepcional.

Ao meu instrutor muito especial chamado Jayme Vazquez Cortez,

Com carinho,

Rafael Aun

Foto: arquivo pessoal do autor

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  • Daniel S. de Araujo

    Belo texto. Do meu avô ganhei o meu primeiro carro: Um Fusca 1983 que ele me deu pois sabia que eu era o unico neto que teria carinho para cuidar. E está comigo até hoje. Isso faz 20 anos agora em 2015!

    • rafaelaun

      Daniel, que legal!

      E o meu avô emprestou o carro dele para minha lua de mel.

      Muito obrigado pelo comentário,

      Um abraço,

      Rafael Aun

  • Roberto Neves

    Parabéns pela tocante homenagem!

    • rafaelaun

      Roberto. Foi um trabalho filtrar tantas memórias. Muito obrigado!

  • Burke M. Hyde

    Ter pessoas assim na família, que são uma referência e formadores do nosso caráter, é um privilégio, que infelizmente a maioria das pessoas que vemos por aí não pode compartilhar. Meus parabéns ao seu avô e também a você, que aproveitou e pôs em prática seus ensinamentos.
    Estou cansado de ver montes de jovens babacas que consideram seus “velhos e idosos” apenas como um peso em suas vidas. Esses com certeza penarão bastante num futuro próximo…

    • rafaelaun

      Burke, tive muita sorte.

      Independentemente dos desvios que acontecem nas nossas vidas, creio que o mais importante é preservar a Família e na medida do possível, buscar fortalecer uma base religiosa.

      Até onde vejo, de uma maneira geral, muitos dos valores que estão sendo ensinados são controversos e ajudam a criar um ambiente de hostil e individualista, mas têm muita coisa boa também que precisamos valorizar.

      Tenha paciência para lapidar essas pedras. Ensinar o caminho correto aos menos afortunados e dar bons exemplos de conduta para a próxima geração é uma tarefa que cabe a nós.

      Obrigado pelo comentário,

      Um grande abraço,

      Rafael Aun

    • Antônio do Sul

      O exemplo e o companheirismo são a melhor herança que podemos receber dos avós e pais. O primeiro nos ensina como devemos nos conduzir na vida, e o segundo é a parceria de nos dar força e de nos ensinar coisas como dirigir, escrever, andar de bicicleta, nadar…
      Na minha vida motorizada, tive como instrutor o meu pai e como incentivadores tios e primos que me permitiam dirigir seus carros (picape Willys, D-20, Caravan, Omega, Gol quadrado e bolinha, Versailles). O meu avô materno aprovava e incentivava o gosto pela direção, mas, como ele era muito ciumento com seus carros, eu nem pensava em lhe pedir para dar uma voltinha. Até que um dia, lavando o seu último carro, um Santana GLS, 4 portas, AP-2000, ano/modelo 88, comprado usado de um ex-marido de uma de minhas tias, ele me pediu para manobrá-lo…Fiquei muito contente.

  • Juvenal Jorge

    rafael Aun,
    Belo texto e linda homenagem.
    Pode estar certo que o Sr. Jayme está olhando e ficando muito feliz

  • André

    Parabéns, Bela Historia.

  • marcelo

    Belíssimo!!

  • Fernando

    Parabéns pela bela história Rafael!

    Como disseram, nada como um contato com uma pessoa que o forme assim para ir muito além das lições de direção, são diversos pontos formadores para suas novas gerações.

    Tive enorme prazer de ter um avô que fez também tanto por mim e a quem dedico muito do que sou. Como falei em um outro post, foi quem me buscou na maternidade com um Chevette, em que também me ensinou a dirigir, e quando ele perdeu o dono passou a ser meu, e faço o que puder de melhor para continuar com ele como nas minhas memórias ele sempre foi.

  • Rodrigo Huidobro

    Parabéns Rafa pelo texto maravilhoso!!! Esse seu texto me levou a viajar no passado e relembrar todos esses momentos que vivemos juntos no sítio do Vovô. Eu também tenho algumas lições de vida e algumas experiências que o vovô me proporcionou, como por exemplo aos 05 anos de idade, a Andrea e eu ficamos com ele e ele nos mandou comprar jornal na banca que ficava em outro quarteirão. Morávamos na casa onde seus pais vivem hoje e tivemos que atravessar a rua sozinho. Até hoje lembro desse momento!!
    Parabéns e saudades de você!! Abraço

  • Aldo

    Rafael:
    Como dizia meu falecido sogro, o que efetivamente fica são os exemplos. Seu avô deixou-lhe vários, da melhor qualidade, além de ótimas recordações. Sinto que você é muito grato à vida por isso, e é assim que tem que ser. Belo texto, meus parabéns;

    Aldo