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Como fã de carros, porém assalariada, já tive todo tipo de carro, mas confesso que um dos meus favoritos é o zero-quilômetro. Gosto do cheirinho de carro novo, mas principalmente gosto de saber (ou melhor, acreditar) que um veículo recém saído da fábrica não vai apresentar defeito nenhum.

É claro que os seguidos recalls que vemos todos os dias me desmentem, mas Papai Noel, dois elfos e o coelhinho da Páscoa me afirmaram categoricamente que carro novo não dá problema e com tantas pessoas idôneas assim não serei eu a desconfiar.

Tem também um componente de ciúmes. Quem me conhece sabe que não faço o tipo Luluzinha chata nem ciumenta no sentido comum da palavra, mas quando se trata de carro… bem, a coisa muda. Não gosto nem de deixar a chave com o manobrista. E quando isso é inevitável, vou embora olhando por cima do ombro, checando tudo, mas com lágrimas nos olhos.

Tenho, sim, ciúmes do meu carro. E não importa qual seja. O primeiro, comprado com bastante sacrifício, foi um Gol branco com dois carburadores. Um inferno para (tentar) manter o motor regulado. Costumo dizer que troquei um radiador por um carburador e por isso tinha dois deste e nenhum daquele… piada infame. Bem infame, aliás. Além do inconfundível barulhinho que lembrava o de uma Kombi, descobri depois que tinha uma rachadura no motor e vazava óleo. Mesmo assim, gostava dele e o incrementei com umas calotas simpáticas, para fazer de conta que eram rodas bacanas. Mas era tão básico que nem tinha mais o que colocar de opcionais sem parecer um jogador de futebol da terceira divisão em ascensão.

Se bem me lembro, aquele Gol tinha bem uns 70.000 km quando o comprei e demorei a trocá-lo. Mas consegui comprar um zero-quilômetro. Um Uno Mille bem pé-de-boi. Ainda lembro como me senti quando fui buscá-lo na concessionária. Dali para frente sempre optei por carro novo, mesmo que mais simples de forma a caber no meu orçamento.

Já entrei em inúmeras conversas sobre o que vale mais a pena e reconheço que, financeiramente entre outras coisas, não compensa. Quando você cruza a porta da concessionária, já perdeu de 8,5% (Chevrolet Onix) a 24% (C4 Pallas, que deixou de ser produzido e, obviamente, perdeu mais) do valor do carro apenas porque ele passou de “zero” para “usado”.

Outro argumento a favor do seminovo é que a garantia de fábrica acompanha o veículo. Logo, se você compra um carro com dois anos de fabricação e a garantia é de três, ele está coberto – desde que o dono anterior tenha feito as revisões obrigatórias dentro da rede de concessionárias. Vale a dica: cheque isso, pois se não, adeus garantia.

Tem ainda o valor do IPVA que varia de Estado para Estado, e já temos outro problema para fazer comparação. A redução média no valor do imposto em 2015 será de 4,2% — mas alto lá, como vimos acima a desvalorização dos carros é de 8,5% a 24% no primeiro ano. Já viu que a matemática é cruel, não? Precisa fazer mais conta ou procurar exemplos? Acho que, infelizmente, não.

O seguro é outro item que deve ser levado em consideração. Sei perfeitamente que somente 22,5% da população brasileira faz seguro de carro, mas devemos pensar em todos os gastos que devem ser considerados. Neste caso, as variáveis são inúmeras, pois dependendo do veículo um usado pode ser mais visado por ladrões do que um novo de outro modelo, então não consigo fazer uma comparação para meus caros autoentusiastas. Apenas posso mencionar que o preço para um mesmo modelo pode variar muitíssimo. Por exemplo, um levantamento da corretora online Bidu.com.br, que reúne as simulações de diversas seguradoras, achou diferença de até 138% entre o Ford Focus modelo zero e o 2004. Exatamente R$ 7.495 e R$ 3.152 para o mesmo seguro, respectivamente.

Feitas as contas, comprar carro novo geralmente não compensa. Mas quem disse que a aquisição de um veículo é uma decisão apenas lógica? Se fosse, não haveria tantos modelos, cores, nem acabamentos. Bastaria analisar qual a cor que suja menos, aquela na qual os riscos aparecem menos, meia-dúzia de modelos, e pronto, andaríamos todos de Trabant…

 

Trabby

O Trabant

Não. Carro significa sonho, desejo, até status. Para cada um, um punhado de coisas. Para mim tem de ser uma decisão prática e lógica, e só compraria um carro usado se tivesse absoluta certeza da procedência e de como ele foi cuidado. Já tive um carro que eu achava horrorível (um passo além do horroroso misturado com horrível) mas era o único zero-quilômetro que cabia no meu orçamento numa determinada época da minha vida em que a prioridade era investir em outro tipo de bem e bom, paciência. Reconheço que era prático, econômico, bom motor, ar-condicionado, vidros elétricos, nem tão simples assim. Mas achava ele feio, muito feio e o troquei assim que pude. O irônico é que nunca me deixou na mão e até hoje está na família, firme e forte. Um super quebra-galho que me ajuda em caso de revisão do carro “oficial” ou rodízio. Parece até vingança. Toda vez que preciso dele, ele se apresenta. E não decepciona.

Mudando de assunto: acabei não comentando o final do campeonato de F-1. Não a temporada em si, pois neste AUTOentusiastas tem colunista super-gabaritado para isso. Mas queria destacar a lindíssima atitude do Nico Rosberg ao levar o carro até o fim da prova, apesar de que parecia estar remando contra um tsunami num Mercedes cheio de problemas. Gosto dele e acho que pode vir a ser campeão, sim. É talentoso, disciplinado, rápido, focado. Mas o que ele fez foi louvável mesmo. Lembrei do Nigel Mansell quando desceu para empurrar o Lotus em Dallas, em 1984, e tentou cruzar a linha de chegada, o que lhe serviria para a classificação final pelo regulamento, mas desmaiou antes. Claro que é legal ganhar, mas este é o verdadeiro espírito esportivo.

NG

Fotos: huffington.com, autobild.de
A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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