UMA VIAGEM RIO–BRASÍLIA – POR CLÁUDIO FISCHGOLD – 27/11/14

UMA VIAGEM RIO–BRASÍLIA – POR CLÁUDIO FISCHGOLD - 27/11/14 DKW plastico paddock red1

Dá para ver que há um “rebocador” na frente do DKW, o Candango 4 da Cota, nessa caso puxando o carro de corrida mediante um cambão; a foto foi feita no paddock do Autódromo do Rio (foto: arquivo pessoal de Bob Sharp)

Este é o relato mais fiel que a memória permite, visto que o fato ocorreu há 45 anos.

A história começa com o Bob Sharp e o Eduardo Ribeiro resolverem participar da Mil Quilômetros de Brasília de 1969, no circuito de rua. Naquela época a corrida se realizava todos os anos para comemorar o aniversário da cidade, 21 de abril, e fazia parte do calendário de festejos oficiais.

Eles correriam com um DKW (foto acima) com as modificações mecânicas de praxe, mas além dessas o carro tinha todas as folhas da carroceria e pára-lamas feitos em compósito de plástico reforçado com fibra de vidro, sob orientação do Rony Sharp, irmão do Bob, que tinha uma firma que produzia itens diversos fabricados nesse material, a Engefibra.

A execução do trabalho propriamente dito coube ao lanterneiro da concessionária VW (Cota Comercial Técnica de Automóveis Ltda., em Botafogo, no Rio), cujos sócios era  o Bob, o Eduardo, seu irmão Maurício e o italiano Luca Bernardi. O funileiro, Antônio Cardoso, português, era muito habilidoso e havia aprendido a trabalhar com o novo material, necessário porque a Cota vendia o GT Malzoni, o Puma GT, de mecânica DKW-Vemag, e Puma GT 1500, de mecânica VW, todos de plástico.

O carro era do Eduardo. Como a concessionária era VW desde abril de 1968 — começara Vemag, mas com a compra da Vemag, pela VW, em agosto de 1966 e o fim do DKW-Vemag em novembro do ano seguinte, passara automaticamente a VW — ele resolveu fazer alguma coisa com seu já algo velho sedã 1965, daí a extensa modificação da carroceria feita. Transformou-o num carro de corrida segundo o regulamento de Protótipo Experimental CBA.

Araken Ribeiro era um sujeito que tinha começado a correr no Autódromo do Rio assim que foi inaugurado em 1966 e logo ele e o pessoal da Cota ficaram amigos. O Araken tinha uns dez táxis DKW-Vemag e oficina no bairro do Catumbi para cuidar da frota. Um cara muito legal e divertido, formou uma equipe de corrida de dois carros chamada Equipe DekaRio. Ele corria com um e um amigo dele, o Alain Joulié, com outro. O Bob andou correndo com o segundo carro quando o Alain não podia devido a compromissos profissionais. O Araken e o Bob até correram a Mil Quilômetros de Brasília do ano anterior com um dos carros da DekaRio, mas não terminaram por quebra de motor.

O fato é que acabou todo mundo envolvido — Bob, Eduardo, Araken e mais um grupo de jovens: eu, meu irmão Gérard, Ronaldo Beicht (já falecido) e Roberto Kastrup. Vivíamos na Cota para os papos de fim de tarde. Como era divertido, grandes tempos!

Foi num desses papos que ficamos sabendo da corrida em Brasília, e que o Eduardo e o Bob ainda não tinham resolvido a questão do transporte do carro. Se hoje Brasília é longe do Rio, imagine-se há 45 anos. Foi aí que eu e o Gérard nos oferecemos para levar o carro. Com o Candango 4 da Cota, um modelo 1962 teto de lona, dos últimos e em perfeito estado, puxaríamos uma carreta com o carro de corrida em cima até Brasília. O Bob e o Eduardo acharam boa idéia e toparam. Só precisavam arranjar uma carreta emprestada, mas conseguiram logo.

Para o trabalho de boxe, o Araken ofereceu dois mecânicos dele, e disse que iria também, para ajudar na cronometragem. Como eu e o meu irmão iríamos, os outros dois amigos, o Ronaldo e e Roberto, aderiram sem pestanejar.

Assim foi que saímos às 3 da madrugada da quarta para quinta-feira. Além do Candango 4 trator, meu Fusca 1300 como veículo de apoio. Pelos nossos cálculos, chegaríamos a Brasília na sexta-feira pela hora do almoço o mais tardar.

Nos dividimos em dois no Candango e três no Fusca. Os bancos traseiros do Candango foram retirados para dar espaço para um monte de peças, rodas e ferramentas, outro tanto no próprio carro de corrida. Decidimos que o banco traseiro do VW seria para algum motorista descansar quando necessário.

Só para lembrar, em abril a temperatura à noite ainda era suportável no Rio, mas subindo a serra de Petrópolis àquela hora a história mudava de figura. Com o teto de lona fazia um frio danado no Candango, que nunca teve ar quente no Brasil.

O Bob, o Eduardo e o Araken viajariam na sexta-feira de madrugada. O Araken e um mecânico numa Vemaguet (perua DKW-Vemag), e o Bob e Eduardo, com as esposas, na Vemaguet do Bob.

Logo no início da viagem descobrimos que o Candango não podia passar de 60 km/h no plano, senão não parava. Nas subidas o limite era 40 km/h (também, com aquele peso todo!) e nas descidas, 60 km/h, com muita reza para os freios a tambor funcionarem.

Assim, levamos quatro horas para chegar em Areal (mais ou menos 80 km desde a oficina), quando descobrimos que a junta do cabeçote do Candango havia queimado. Graças à presença do mecânico e das ferramentas, foi feita a troca da junta rapidamente e prosseguimos. Naquele ritmo chegamos em Juiz de Fora às 14 horas, paramos para comer alguma coisa e reabastecer, e seguimos. Dali a Belo Horizonte, como dizem os mineiros, foi um pulo. Chegamos por volta de 3 horas da madrugada de quinta para sexta-feira. (até este ponto, 24 horas de viagem!). E ainda havia 720 km até o nosso destino.

Como o Gérard ainda não tinha carteira, ele nunca tinha a chance de dormir no banco traseiro do Fusca. Assim, ele resolveu que o mais confortável seria ir dentro do carro de corrida para tirar sonecas à vontade, apesar de o único banco, tipo concha, não se prestar muito para isso.

Faltando uns 250 km para chegar, o mecânico do Araken foi dirigir o Candango e em determinado trecho em descida perdeu o controle e acabou saindo para o acostamento que, obviamente, não era asfaltado. Por sorte conseguiu voltar para o asfalto sem maiores danos. Nesta hora o Gérard acordou com o carro aos pulos e cravou o pé no freio, esquecendo que o carro estava em cima da carreta…

Um pouco depois dessa desastrosa manobra descobrimos que a lança da carreta havia quebrado. Por sorte, apareceu o Araken, que vinha na Vemaguet, e depois de alguma busca no entorno ele arranjou um caminhão-cegonha para levar a carreta e o carro até Brasília a tempo para o treino de classificação, que teria sessão noturna obrigatória.

Deste ponto em diante seguimos com o Candango e o Fusca, só parando para abastecer, ir ao banheiro e comer alguma coisa. Finalmente chegamos a Brasília na sexta-feira por volta de 4 horas da tarde — “apenas” 37 horas de viagem — mas o caminhão-cegonha só chegou à pista às 18h30, tempo suficiente para a vistoria técnica e para o Bob e o Eduardo treinarem, se classificarem e poderem largar no dia seguinte, às dez da noite de sábado.

Infelizmente na época ninguém se lembrou de levar uma câmera fotográfica, daí não termos fotos, uma pena. Se fosse hoje, com os telefones celulares, daria até para termos feito um vídeo!

A viagem de volta, iniciada no domingo pouco depois da corrida, que terminou às 9h30, e depois de soldarmos a lança quebrada da carreta usando o equipamento de solda de uma equipe — do Boris Feldman, amigo do Bob até hoje e que terminou em sexto —, transcorreu sem percalços e na segunda-feira 21 de abril chegamos à Cota às quatro da tarde. Desta vez só 29 horas…

 

UMA VIAGEM RIO–BRASÍLIA – POR CLÁUDIO FISCHGOLD - 27/11/14 DKW Plastico Brasilia

No topo da foto, o DKW de Bob e Eduardo na corrida, a curva é a de 90° que dava para a parte  de baixo da Rodoviária (foto: arquivo de Sidney Cardoso)

E a corrida? Todo o esforço praticamente não compensou. O DKW “de plástico” teve problemas de embreagem e de juntas universais e eles terminaram em 10º lugar apenas, a 20 voltas dos vencedores José Carlos Pace e Marivaldo Fernandes, com Alfa Romeo GTA.

Mas que a experiência, valeu, sem dúvida! Tanto que eu faria tudo de novo…

ooooo

 

 

 

 

 

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  • Lafayette Veiga

    Muito boa a história, dá até roteiro de filme!
    Um pergunta, a quem souber: Na época todo o percurso (Rio-Brasília) já era asfaltado?

    • claudio fischgold

      Lafayette,

      sim, já era asfaltado, mas ainda não existia a palavra “privatização”. A dúvida era se tinha mais asfalto ou buracos.

  • Acelera!

    Fantástico o texto. E ainda me perguntam se sou louco, quando digo que quero ir de Opala de MG ao RS…

  • Bob Sharp

    Lafayette Veiga,
    Sim, totalmente.