UMA DECISÃO NAS ARÁBIAS

 

Vitória de Rosberg adia definição do campeonato de 2015 para a prova final. Times pequenos continuam tentando mudar o sistema de distribuição de lucros da F-1 e isso pode afetar carreira de Felipe Nasr, confirmado como piloto da Sauber para 2015/16. No Brasil Vicar anuncia calendário concentrado para diminuir seus custos.

Rosberg e Hamilton vão decidir título em Abu Dhabi (Foto Mercedes Benz Media)  UMA DECISÃO NAS ARÁBIAS nico rosberg e lewis hamilton

Rosberg e Hamilton vão decidir título em Abu Dhabi (Foto Mercedes Benz Media)

A vitória de Nico Rosberg no GP do Brasil reacendeu timidamente a disputa pelo título da atual temporada e reforçou o debate sobre o formato atual das competições automobilísticas. Se para vencer o título o alemão precisa vencer e torcer para o inglês Lewis Hamilton ficar, no máximo, em terceiro na prova de encerramento da temporada, a F-1 necessita se reinventar se deseja mesmo se apresentar para autódromos lotados — ou com um público considerável —, e evitar uma segunda onda de falências após ter perdido Marussia e Caterham, ambas por problemas financeiros. Dado o segredo que envolve a estrutura financeira do negócio há várias décadas e as frustradas tentativas de diminuir os gastos dos competidores de ponta, o cenário nunca esteve tão próximo de uma crise digna da Bolsa de Nova York em 1929 ou a famosa bolha imobiliária de poucos anos atrás…

Falando sobre a corrida em Interlagos, viu-se mais um domínio exacerbado dos dois pilotos da Mercedes: Nico Rosberg largou na pole position e completou as 71 voltas da prova na liderança, apesar dos ataques de seu companheiro/inimigo de equipe Lewis Hamilton e do desgaste exacerbado dos pneus. Cabe aqui lembrar que o fabricante desse equipamento havia optado por disponibilizar compostos médio e duro, mas cedeu à pressão dos pilotos, notadamente Felipe Massa, para oferecer opções média e macia. A repetição das cenas que marcaram a temporada passada, quando os pneus estouravam com assustadora freqüência, foi sem dúvida uma preocupação considerável. Passada metade da corrida não era apenas o dianteiro direito que mostrava vistosos sinais de desgaste irregular.

Ao contrário do que aconteceu em Austin, quando uma manobra arrojada na primeira curva custou-lhe o primeiro lugar na prova, Rosberg soube aproveitar a vantagem conquistada na prova de classificação e, principalmente, o erro de Hamilton, que saiu da pista na curva Chico Landi na 29ª volta, na iminência de fazer a segunda de três trocas de pneus. No último stint, nas últimas 21 voltas, os dois andaram forte, mas Hamilton não repetiu os bem sucedidos ataques que marcaram suas apresentações mais recentes e acabou cruzando a linha de chegada 1”457 atrás do vencedor, que agora soma 317 pontos, contra 334 do inglês. Com isso ele precisa terminar o GP de Abu Dhabi em segundo lugar para garantir seu segundo título. Se chegar em terceiro e Rosberg vencer, o alemão será campeão graças à pontuação dupla da prova final.

 

UMA DECISÃO NAS ARÁBIAS massa

Massa recuperou-se de dois erros e conseguiu segundo pódio do ano (Foto Williams/LAT)

Dois erros básicos — excesso de velocidade ao entrar nos boxes na sexta volta e se dirigir ao box da McLaren em vez da Williams no terceiro pit stop —, por pouco não o fizeram perder o pódio, o segundo do ano. Um ritmo consistente dentro da pista salvou-o desse prejuízo. O resultado completo do GP do Brasil e a situação dos Campeonatos de Pilotos e Construtores você encontra clicando aqui.

Com relação aos treinos vale destacar o desempenho do novato Max Verstappen, que registrou o sexto tempo no treino livre de sexta-feira, quando substituiu o francês Jean-Éric Vergne na equipe Toro Rosso, onde será titular em 2015.

O brasileiro Felipe Nasr fez mais um treino livre com o carro de Valteri Bottas e cumpriu sua missão. Confirmado na equipe Sauber para as próximas duas temporadas, o piloto brasiliense conta com o final feliz da crise que assola a equipe suíça, a Lotus e a Force Índia; os três cobram uma melhor distribuição dos lucros distribuídos pelo detentor de direitos comerciais da F-1, oficialmente a CVC, empresa personificada em Bernie Ecclestone. A ameaça de um boicote no GP dos EUA foi arrefecida com a promessa de novas negociações, ladainha que se repetiu em Interlagos para desespero dessas escuderias.

Não é difícil concluir que enquanto a crise financeira da Sauber, Lotus e Force Índia aumenta, Ecclestone ganha tempo para dar um novo golpe de mestre e resolver a questão. Com essa tática ele não só reduz o valor que poderia eventualmente investir para remediar a situação das equipes como também discute com as cinco grandes — Ferrari, McLaren, Mercedes, Red Bull (agregue-se aqui a Toro Rosso) e Williams — o processo e os custos de que estas teriam para inscrever um terceiro carro em 2015 e negociar a venda de modelos da temporada anterior para equipes privadas, como ocorria no passado.

O que as três equipes em crise parecem não ter se dado conta é que Ecclestone não faz o gênero do empresário que gosta de ser pressionado. Muito pelo contrário: quando isso acontece seu gênio criativo ganha dimensões maiores e seus atacantes correm alto risco de sofrer eliminação sumária. “Nós distribuímos 900 milhões de dólares às equipes. A saída para alguns é administrar suas equipes como um negócio, não como um hobby”, declarou o cartola de 84 anos. Coincidência ou não, um esquema da distribuição de fundos foi publicado pelo jornalista inglês Joe Saward. Certamente não teria sido o ex-chefe de Nélson Piquet quem o forneceu…

Se equipes até então tradicionais ou competitivas já não conseguem acompanhar o desenvolvimento desordenado da categoria, os autódromos do mundo também recebem cada vez menos público e imprensa. Verdade que Interlagos nunca foi um destino predileto dos jornalistas, especialmente dos europeus, mas o fato que as arquibancadas do autódromo terem recebido a média diária de 44 mil pessoas (os dados oficiais não quantificaram os espectadores a cada dia) entre sexta-feira e domingo deixa claro que é preciso mudar alguma coisa. O alto preço dos ingressos, o baixo ruído dos motores e o domínio de uma única equipe não colaboram para reverter o viés de queda de popularidade da categoria são indicativos claros de que nem tudo anda bem.

 

Mario Illien

Personagem dos mais simpáticos da F-1 das décadas de 1990 e 2000, o suíço Mario Illien foi contratado para reforçar o time de engenheiros da Renault Sport, provedora de motores da Red Bull, Toro Rosso, Lotus e Caterham na atual temporada. Após um bem sucedido período na Cosworth, associou-se ao seu colega Paul Morgan para dominar a cena da F-Indy com os motores Ilmor. Em seguida associou-se gradativamente à Mercedes-Benz e assumiu o comando solitário da empresa quando Morgan faleceu, em 2001. Incansável — ele desenvolveu uma turbina de avião em casa em suas horas vagas —, Illien iniciou sua carreira esportiva trabalhando com Jo Bonnier, milionário sueco que vivia na Suíça e que visitou o Brasil nos anos 1960 para entregar o Prêmio Victor, então a principal premiação voltada aos destaques do automobilismo brasileiro.

 

François Guiter

A indústria petrolífera francesa perdeu outro grande representante no final de semana quando faleceu François Guiter, praticamente uma unanimidade na F-1 pelo apoio que deu à modalidade e, ainda mais, na França, onde idealizou e bancou o processo que levou ao renascimento do automobilismo nesse País. Um dos principais nomes de marketing da Elf, há poucos anos incorporada pela Total, Guiter criou o projeto Volante Elf —categoria de base que usava monopostos de mecânica simples e baixo custo de manutenção — e apoiou praticamente todos os seus compatriotas que chegaram e se destacaram na F-1. Seu porte avantajado era amenizado pela maneira discreta com que se apresentava em público; em sua juventude trabalhou para a Resistência francesa como mergulhador de um esquadrão de elite. Há cerca de duas semanas faleceu o presidente da Total, Christophe de Margerie, em consequência de acidente quando o avião que viajava se preparava para decolar no aeroporto de Moscou.

 

Calendário concentrado

 

Stock Car terá 12 provas em 2015 e agenda compartida com outras categorias (Foto Vanderley Soares)  UMA DECISÃO NAS ARÁBIAS VitorGenz  78

Stock Car 2015: 12 provas e agenda compartilhada com quatro categorias (Foto Vanderley Soares)

A disputa da penúltima etapa do Campeonato Brasileiro de Stock Car, sábado, em Salvador, deverá ser marcada pelos comentários sobre o calendário de 2015. Como noticiado nesta coluna nas últimas semanas, a Vicar oficializou sua proposta de concentrar a realização de todas as suas cinco categorias (Stock Car, Turismo, Marcas, F-3 e MB Challenge) em uma programação única. Cada uma das 12 etapas da Stock Car será complementada por várias categorias, exceto em circuitos com dimensões reduzidas de paddock. Se por um lado a decisão vai ao encontro da redução de custos demandada pela direção da Time 4 Fun, empresa controladora da Vicar, em um primeiro momento deverá gerar maiores custos e menores receitas às equipes. Se bem conduzido o processo poderá se consolidar e abrir espaço para mais pilotos; o veredicto ainda vai demorar a ser conhecido. O calendário da Vicar para 2015 é o seguinte:

8/2 – Curitiba (PR): Treino Coletivo:       Stock Car, Turismo, F3 Brasil
22/3 – Goiânia (GO): Stock Car, Turismo, Marcas, F3 Brasil, MB Challenge
12/4 – Ribeirão Preto (SP): Stock Car, MB Challenge
26/4 – Brasília (DF): Stock Car, Turismo, Marcas, F3 Brasil
31/5 – Curitiba (PR): Stock Car, Marcas, F3 Brasil, MB Challenge
02/8 – Salvador (BA)/Velopark (RS)*: Stock Car, Turismo, Marcas, F3 Brasil
16/8 – Goiânia (GO),Corrida do Milhão: Stock Car, Turismo, Marcas, MB Challenge
30/8 – Cascavel (PR): Stock Car, F3 Brasil
13/9 – Brasília (DF): Stock Car, Marcas, F3 Brasil, MB Challenge
04/10 – Santa Cruz do Sul (RS): Stock Car, Turismo, F3 Brasil, MB Challenge
18/10 – Curitiba (PR); Stock Car, Turismo, Marcas
08/11 – Tarumã (RS): Stock Car, Turismo, MB Challenge
13/12 – Interlagos (SP): Stock Car, Turismo, Marcas, F3 Brasil, MB Challenge

(*) – A definir

WG

A coluna “conversa de pista” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

Sobre o Autor

Wagner Gonzalez
Coluna: Conversa de Pista

Jornalista especializado em automobilismo de competição, acompanhou mais de 300 grandes prêmios de F-1 em quase duas décadas vivendo na Europa. Lá, trabalhou para a BBC World Service, O Estado de S. Paulo, Sport Nippon, Telefe TV, Zero Hora, além de ter atuado na Comissão de Imprensa da FIA. É a mais recente adição ao quadro de colunistas do AUTOentusiastas.

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  • Fabio Vicente

    Acho essa história de pontuação dobrada horrível! Se a idéia era dar mais emoção, para mim o efeito surtiu efeito contrário. E não é porque torço para o Hamilton – eu acharia estranho se ele fosse campeão por conta da pontuação dobrada vencendo 3 corridas a menos na temporada por exemplo.

    Ecclestone tem toda razão quando diz que as equipes deveriam ser administradas como negócio. Automobilismo é paixão, mas mesmo uma paixão precisa de dinheiro pra sobreviver!
    A Vicar realmente irá insistir na ideia de unificar o calendário de suas diversas categorias, uma pena.

    • Lucas dos Santos

      O objetivo da pontuação dobrada, na verdade, era evitar que um piloto conquistasse o campeonato com muita antecedência, como estava acontecendo com o Vettel. Tanto que a idéia original era dar pontuação dobrada nas três últimas corridas e não somente na última.

      Aliás, já reparou que sempre surge alguma regra com o claro objetivo de “parar” algum piloto ou equipe? Alguns exemplos: Regra dos pneus em 2005: para “parar” o Schumacher e a Ferrari; Regra dos amortecedores de massa em 2006: para “parar” o Alonso e a Renault; Regra dos difusores duplos em 2009/2010: para “parar” a Brawn GP; Regra dos difusores “soprados” em 2011: para “parar” a Red Bull. Regra da pontuação dobrada: para “parar” o Sebastian Vettel. E por aí vai…

      Quanto ao campeonato atual, temos de lembrar ainda que o Rosberg só está próximo ao Hamilton na pontuação porque abandonou uma corrida a menos que o inglês. Se estivéssemos no tempo dos “descartes”, o cenário seria outro!

  • Wagner Bonfim

    Essa questão de um piloto ter que ficar até certa posição para que um outro seja campeão não ocorreu por várias vezes na F1, mesmo em seu período áureo? Será que esta é a verdadeira causa da falta de interesse na categoria? Não sei se li, e não entendi, mas várias temporadas passadas foram decididas assim.

    E essas equipes menores vão e voltam … há tempos.

    Acho que a falta de interesse na F1, e no automobilismo talvez, acompanhe a falta de tesão da sociedade em geral nos veículos automotores.

  • André

    Não dá para esquecer a proibição da suspensão ativa, freio ABS e controle de tração no anos 90.

    • Lucas dos Santos

      Exatamente. Com o objetivo de: “parar” a Williams!

  • Francis_ms

    Alguém sabe por que não há mais corridas no autódromo de Campo Grande – MS?

    • Wagner Gonzalez

      Francis,

      A pista necessita ser modernizada, assim como os sistemas de comunicação local precisam funcionar a contento. Sei que o presidente da federação de Mato Grosso do Sul, o Valdemir Terra, trabalha para fazer as reformas necessárias.

  • Lucas dos Santos

    Wagner,

    Isso é inerente a qualquer campeonato decidido por pontos e não é isso que estaria causando a falta de interesse na categoria. Tal falta de interesse é atribuída à previsibilidade e ao domínio de uma única equipe ou piloto.

    Ou seja, todos já “sabem”, por exemplo, que quem vencerá a próxima corrida em Abu Dhabi será uma das Mercedes, a menos que algo atípico ocorra. É essa “previsibilidade” que, segundo alguns, estaria afastando os fãs da Fórmula 1.

    • Wagner Bonfim

      Lucas, entendo que essa previsibilidade possa ser a razão para a falta de interesse, mas isso é recorrente na F-1, mesmo nos períodos áureos. Nas temporadas (4) vencidas pela dupla Senna-Prost, o domínio da McLaren era total.

      Era sempre um dos dois que vencia. Algo previsível.

      Na época de Schumacher então, era pior: o domínio era da Ferrari, e com apenas 1 piloto.

      • Lucas dos Santos

        Exato. E creio que foi justamente na “era Schumacher” que o interesse pela Fórmula 1 começou a cair.

  • Carlos Eduardo

    O problema de uma prova de pontuação dobrada é que você torna ela mais especial que as outras, sendo que é apenas mais uma corrida do calendário.
    Ela não tem nada de especial, correndo-se o risco de acontecer o bizarro: um piloto ganhar um campeonato porque ganhou esta corrida específica e andou atrás o ano inteiro!

    • Lucas dos Santos

      Sim. Isso é realmente possível de acontecer. É um efeito colateral dessa medida. Mas foi a solução que encontraram para evitar que o campeonato se decida precocemente.

      Quanto a um piloto poder ganhar o campeonato estando atrás o ano todo, nem precisa de pontuação dobrada. Basta um regulamento que premie a regularidade. Vide, por exemplo, o primeiro título do Sebastian Vettel, em 2010, que ele conquistou sem nunca ter liderado o campeonato. Ou ainda a temporada de 2013 da GP2, em que havia a real possibilidade do Felipe Nasr conquistar o título sem ter vencido uma única corrida sequer.

      E note que, mesmo com pontuação dobrada no final, ainda tivemos uma equipe dominando a temporada e conquistando o título antecipadamente. E, se não fosse pelo fato do Rosberg ter um abandono a menos que o Hamilton, o campeonato desse ano talvez já estivesse decidido antes da última etapa. Não descarto a possibilidade de aumentarem a “janela” de corridas com pontuação dobrada para o ano que vem.