Domingo, 7 horas da manhã, 15 °C. Autódromo de Interlagos, São Paulo.

Desperto de um sono profundo, e naquele estado de transição entre os sonhos e a plena consciência, a primeira coisa que vejo são algumas letras brancas sobre fundo preto, que diziam “P7 Corsa”.

Lembrei-me. Estou acordando depois de duas noites sem dormir, minha cama é um colchonete surrado em cima do chão gelado de cimento, e minha mesa de cabeceira é um par de pneus, já azulados e desfigurados, após a sessão de classificação do grid no sábado..

Tudo começou na quinta-feira anterior. Naquele dia, nosso carro de corrida ainda estava totalmente desmontado, isto é, quase…possuía somente os eixos dianteiro, traseiro, e a carroceria, obviamente. Faltavam somente três coisas: motor, câmbio e o resto. Não havia espaço na oficina, pois precisávamos atender os veículos particulares para poder sustentar o vício da velocidade; o que fazer então?

“Ora, vamos montar o carro no autódromo, caramba! Não sei para que tanto barulho por nada!”, berrou nosso mecânico Celso, o “Chucho”, um senhor de 52 anos (na época) que conseguia carregar sozinho um eixo traseiro montado de Opala, ou levantar um motor de seis cilindros sem ficar com dor nas costas por três dias depois. Sua diversão favorita era zombar dos moleques de dezoito anos que iam à academia, ficavam “bombadões”, como se diz hoje, mas suavam para carregar um cabeçote do 250-S (para quem não sabe, é de ferro fundido). Gente finíssima, o que tinha de rude tinha de bondade no coração.

Uma pausa: naquela época corríamos na Super Stock, que era uma categoria na qual competiam velhos Opalas, e cujo regulamento era limitado, de forma a diminuir custos e manter a competitividade. Em dinheiro de hoje, creio que seria possível montar um carro competitivo com cerca de 20 mil reais, gastando em torno de 4 a 5 mil reais por etapa, já incluídos inscrição, combustível etc. A conta exata não tenho como dizer, só sei que trabalhava numa oficina mediana, e conseguíamos cumprir o calendário completo sem grandes apertos.

Pois bem, após muito malabarismo, conseguimos enfiar toda a tralha dentro do Opala, incluídos aí motor e câmbio. O resto foi dentro de um velho Fiat 147 azul, cuja “trizeta’ do lado direito tinha a mania inconveniente de escapar nas horas mais impróprias. Quem teve 147 velho sabe que as longarinas dianteiras abriam com o tempo, fazendo com que a junta tripóide do lado direito desencaixasse do câmbio. Nada que três arruelas grossas, estrategicamente colocadas entre a homocinética e o cubo, não resolvessem. As vestimentas do piloto e demais luxos iam no Opala da oficina, que também rebocava o carro de corrida.

Equipamento embarcado, partimos em direção do autódromo. Já passava da meia-noite, e chegamos lá por volta da 1 da manhã (ainda bem que a trizeta do 147 não soltou).

Chegando lá, toca a descarregar toda a tralha. Fazia um frio dos diabos, o vento passava pelas portas abertas do boxe já engatando a 4ª marcha. Logo vimos que seria difícil trabalhar à noite inteira naquelas condições, e após uma ameaça de motim, o piloto, que também era dono do carro, concordou em fornecer duas garrafas de conhaque para manter-nos aquecidos, pelo menos até a bebida começar a fazer efeito; depois disso, nem lembrávamos mais do frio.

Trabalhamos a noite inteira e a manhã seguinte, somente parando para o almoço, continuando após breve descanso. O frio continuava, e pelo jeito, seria indispensável providenciar novo estoque de conhaque para a noite.

Chegou a noite, e continuávamos o trabalho. Faltava somente ligar a parte elétrica e montar os sistemas de segurança, mas o ritmo havia diminuído devido ao cansaço.

Finalmente acabamos de montar o carro. Tudo testado e ok, porém sem experimentar na pista, pois já passava de 2 da manhã. Para relaxar um pouco, já que não conseguíamos dormir devido ao barulho das outras equipes, resolvemos sair um pouco do autódromo para ver se conseguíamos achar algum lugar para comer alguma coisa. Andamos pelos arredores, e nenhum lugar aberto. Estávamos prestes a desistir, quando avistamos ao longe uma pequena rua, e percebemos que todas as poucas pessoas que ainda andavam por perto se dirigiam para lá.

“É p’ra lá mesmo que eu vou”, pensei, e toca a ir para a tal rua.

Chegando lá, qual não foi nossa surpresa ao nos depararmos com um boteco lotadíssimo de gente, aberto àquela hora!

Ao chegarmos mais perto, notei algo estranho: quase todos estavam armados e com cara de poucos amigos, mas como já tinham nos avistado, voltar atrás não seria boa estratégia. Então, continuamos e chegamos ao tal lugar.

Pedimos uma cerveja e sanduíches, e de repente fomos abordados por um sujeito mal-encarado que não fazia questão nenhuma de esconder a arma na cintura. Foi logo perguntando:

“E aí, maluco, vocês vão correr domingo?”
“Claro, por quê?”
“Arruma então uns ingressos p’ra nóis aí então”

Por sorte, tínhamos uma boa quantidade de convites, e generosamente distribuímos todos, mesmo porque creio que qualquer outra atitude seria desaconselhável naquelas circunstâncias.

Na mesma hora, o sujeito que havia nos abordado mandou servir uma porção de calabresa em nossa mesa, e o que mais quiséssemos. Como o bom senso manda nessas horas, aceitamos, mesmo estando a porção engordurada e fria, e ainda agradecemos, mandando oferecer uma garrafa de vinho para a mesa do tal indivíduo.

Nunca fomos tão bem servidos e em tal quantidade! E sem pagar nada!

Após tão farta refeição, nos despedimos e voltamos para o autódromo para tentar descansar um pouco, o que obviamente não conseguimos.

Sábado de manhã, hora dos treinos classificatórios..

Saem todos os carros ao mesmo tempo, e na última volta, nosso carro chega devagar aos boxes; diagnóstico: embreagem torrada!

Toca a levantar o carro, soltar cardã, desaparafusar câmbio…

Felizmente, já prevíamos uma possível manutenção, e havíamos feito aberturas no túnel de transmissão, bem na direção dos parafusos que prendem o câmbio ao motor, o que facilitou a remoção do mesmo. Em três pessoas, trocamos a embreagem em cerca de 30 minutos.

Seguiu-se então o almoço, e logo após, o inevitável sono, ainda mais estando duas noites sem dormir. Eis então que chega a notícia que ninguém queria ouvir: Inspeção técnica surpresa, para verificar se nenhum carro estava fora do regulamento. Correria imensa por todos os lados, com certeza havia muitos “ladrões”, como eram chamados aqueles que violavam as regras. Havia uma infinidade de métodos ilegais para melhorar o desempenho: aditivos no combustível, suspensão traseira articulada com pivôs, chave que desligava o alternador etc. Enfim, seriam necessárias muitas páginas para citar todas as mutretas, se alguém tiver interesse em saber, pode me perguntar que eu ensino a fazer, hehehe!

Como nosso carro estava 100% legal, não nos preocupamos, mas precisávamos ficar acordados até a inspeção acabar…

Somente conseguimos dormir lá pelas 8 da noite, obviamente perdemos a consciência antes da cabeça chegar a tocar o colchonete.

Na manhã seguinte, na hora da corrida, após a volta de apresentação, notei que um dos carros tinha um barulho diferente dos demais, um ronco grosso, bem distinto do urro do 6-cilindros girando acima de 6.000 rpm. Na hora não dei atenção ao fato, mas ficou gravado no meu subconsciente, e no de mais alguém também, pois tal carro ganhou a disputa com uma vantagem muito grande sobre o segundo lugar, e logo após os veículos entrarem em parque fechado, alguém solicitou que abrissem o motor do tal carro.

Cabeçote removido, eis o segredo do tremendo desempenho: aquilo que era chamado de “virabrequim de curso”, ou seja, usaram virabrequim de caminhão, que possui curso maior, chegando a cilindrada do motor 250-S perto de 4.800 cm³. O curso era tão grande que creio que precisaríamos de uma luneta para enxergar o pistão no PMI…

Bem, desclassificaram o sujeito, assim nossa colocação ficou em 2° lugar, excelente tendo-se em vista nossos parcos recur$os

E os “manos” para os quais demos os ingressos?

Compareceram, sim, à corrida, mas faziam tamanha algazarra quando nosso carro passava, que acabaram sendo expulsos das arquibancadas, não sem antes armarem um tremendo barraco!

Quanto a nós, terminamos o dia na padaria que fica próxima aos portões dos boxes, bebendo cerveja e comendo frango assado com o pessoal das outras equipes, pois a rivalidade acabava assim que saíamos do autódromo, todos ansiosos pela próxima corrida!

ooooo

Foto: autor

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  • Fernando

    Muito legal a história!

    Bons tempos de anos 80 e 90 com zilhões de equipes que montavam carros para irem lá.

    Conheço um preparador da época que tinha muitos carros legais pelas ruas do bairro, era um movimento vivo e que não parecia chegar ao que é hoje. Ele fazia “mistos quentes” também, mas o sem queijo… hoje infelizmente atende alguns poucos carros em manutenções comuns, quase a portão fechado.

  • Oli

    Obrigado pelo ótimo texto.

  • claudio fischgold

    Newton,

    corrida, ou qualquer outro tipo de competição (subida de montanha, rallye, kart, etc…) em geral trás um monte de lembranças, nem todas boas, mas em geral engraçadas.

    Me lembro de uma corrida em Petrópolis em que o Sidnei Cardoso (se a memória não me falha) morreu quando encarou o muro de pedra da Catedral no treino, e o Bob não teve tempo de treinar, já que o treino foi encerrado devido ao acidente. Acabamos acertando o DKW do Bob na Estrada do Contorno (antiga BR-040) por volta de 2:00 hs da madrugada quando descobrimos que uma junta de um dos carburadores Weber 40 tinha sido montada invertida.

    No dia seguinte a corrida terminou na segunda volta com a morte do Cacaio, atropelado pelo Luiz Pereira Bueno quando tentava orientar o motorista do caminhão de bombeiros sobre um acidente ocorrido na primeira volta, com outro competidor.

  • Felipe Parnes

    Boa história

  • RoadV8Runner

    História bacana, de uma época que deixou saudades. Era tudo feito na raça, sem frescuras.