Bebida que pode inebriar e não deixa gosto serve para descrever o primeiro GP da Rússia. Vitória de Hamilton e título de Construtores da Mercedes foram destaque de prova sem sal e sem açúcar. Os aperitivos nos balcões do paddock estavam mais saborosos que o serviço drive through.

 

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Primeiro GP da Rússia foi mais movimentado fora das pistas (foto Mercedes Benz Media)

Lewis Hamilton dominou de ponta a ponta e aumentou para 17 pontos sua liderança no Mundial de Pilotos. Com a nona dobradinha em 16 etapas já disputadas, a Mercedes garantiu seu primeiro título de Construtores: ao somar 565 pontos a equipe da fabricante alemã está fora do alcance do seu mais direto perseguidor, a Red Bull, que tem 342. O campeonato prossegue no dia 2 de novembro, com o GP dos EUA em Austin, Texas. O resultado completo da corrida em Sochi — onde Nico Rosberg fritou pneus na primeira curva e recuperou-se do penúltimo para o segundo lugar — você pode ver aqui.

 

Mercedes Benz garantiu o título de Construtores por antecipação (Foto Mercedes Benz Media)  Uma corrida digna de vodka 20141014 01 Sochi Mercedes3

Mercedes-Benz garantiu o título de Construtores por antecipação (Foto Mercedes Benz Media)

Disputado em mais uma “pista” criada pelo alemão Herman Tylke, o GP da Rússia teve ares de desenho animado ao mostrar cenas de carros saindo da pista e voltando como se nada tivesse acontecido e tomadas onde as anunciadas 55 mil pessoas que foram ao circuito de Sochi pareciam estar na Sibéria, tão distante que estavam do asfalto. Pela TV o que mais se via eram grades e muros, algo típico de regimes marcados pelo autoritarismo, onde o confinamento e os limites são disfarçados por edifícios mastodôntico-modernosos. Momento filosófico deixado para trás, a corrida russa deixou várias mensagens nas entrelinhas, coisa típica dos tempos da Guerra Fria.

Destacam-se neste quesito o abandono inesperado do japonês  Kamui Kobayashi, a equipe reduzida da Sauber nas viagens fora da Europa, o adiamento da coleção 2015 dos macacões de Fernando Alonso e as disputas entre Williams e Ferrari e McLaren e Force India. Como se vê, tudo referente ao que acontece fora das pistas, o que dá uma idéia da falta de disputas em cima do asfalto e apimenta uma das silly seasons mais silly das últimas seasons. Afinal, como vem ocorrendo desde que a F-1 saiu do armário e assumiu a condição de entretenimento, as fofocas e comentários são o que mais geram declarações interessantes. Chefes de equipe e, principalmente, pilotos, cada vez se expressam em um jogral marcado pelo andamento ditado por seus patrocinadores e do abominável politicamente correto.

Desde que o malaio Tony Fernandez passou à frente os seus interesses na equipe Caterham, o futuro da equipe verde parece ter evoluído o suficiente para cair de maduro.  Primeiro foi a chegada de Colin Kolles, como representante do misterioso consórcio árabe-suíço que assumiu a equipe, a rápida passagem de Christijan Albers como diretor, posição posteriormente assumida por Manfredi Ravetto, parceiro de longa data de Kolles em outros empreendimentos não tão bem sucedidos na F-1. As finanças da equipe não andam lá muito bem: empregados acionaram a justiça britânica para receber atrasados e rescisões mal resolvidas e oficiais dessa pasta visitaram a sede da equipe pouco antes do GP do Japão para arrestar bens. A versão oficial da equipe é que se tratava de problemas com um fornecedor…

 

Kobayashi: incertezas sobre motivo do abandono e futuro da Caterham (Foto Caterham Media)  Uma corrida digna de vodka Kamui Kobayashi 3215867

Kobayashi: incertezas sobre motivo do abandono e futuro da Caterham (Foto Caterham Media)

Não bastasse tudo isso, Kobayashi vive a incerteza de alinhar ou não a cada GP. Já perdeu a vaga para André Lotterer em Spa-Francorchamps e cedeu seu carro para pilotos inexperientes no primeiro treino livre de outras provas. Como que a celebrar as cerejeiras que florescem com pompa e circunstância no seu país, Koba San, a cereja desse bolo, foi o oriental ter sido forçado a abandonar o GP da Rússia para poupar equipamento. Ainda que a informação oficial tenha sido superaquecimento dos freios, o nipônico admitiu que o carro estava oferecendo o desempenho normal de sempre quando recebeu ordem para recolher o CT-05 aos boxes.

 

Peter Sauber pode retornar às origens de sua história como construtor: os protótipos (Foto Sauber Motorsport AG)  Uma corrida digna de vodka 20141014 01 PeterSauber Sauber

Peter Sauber pode retornar às origens de sua história como construtor: os protótipos (Foto Sauber Motorsport AG)

Tudo indica que a Sauber está em uma situação tão crítica quanto a Caterham. Ter um patrocinador de peso nunca foi a marca registrada da equipe de Peter Sauber. Em visita ao seu endereço em Hinwill, arredores de Zurique, perguntei a ele como ele conseguia se manter na F-1 sem grandes marcas anunciadas em seus carros. Sua resposta foi sincera e realista:

“Eu não sei por que as pessoas se preocupam de onde vem o dinheiro que mantém minha equipe.”

Sauber, que ontem completou 69 anos de idade, é apreciador de bons vinhos e charutos bem enrolados; talvez venha desta porção hedonística a tranqüilidade para encarar os momentos difíceis pelos quais sua equipe já passou e passa atualmente. Desta vez, porém, sua caminhada deve percorrer espaços outros que os paddocks da F-1, onde os jantares da equipe suíça eram concorridos pela gastronomia requintada. Comenta-se a sobrevivência da equipe e a manutenção dos empregos seria garantida com a volta ao mundo dos protótipos, categoria que parece ganhar consistência.

Com duas equipes convivendo com o espectro de morte iminente, a F-1 de 2015 poderá finalmente reviver o conceito de equipes com três carros, idéia regularmente relançada em momentos de crise como o atual. Face à proibição de treinos livres e à dificuldade de formar novos pilotos, a proposta ganha peso e, ainda que Ron Dennis tenha declarado que o trem que carregaria essa novidade rumo à temporada de 2015 já passou, Bernie Ecclestone está vivinho da silva para impor a novidade.

 

Dennis (D), joga duro com seus pilotos e pesado contra os rivais (Foto McLaren Media Centre)  Uma corrida digna de vodka 20141014 01 Boullier Dennis McLaren

Dennis (dir.), joga duro com seus pilotos e pesado contra os rivais (Foto McLaren Media Centre)

Se for preciso engordar o cheque para convencer quem precisa ser convencido, Bernie não hesitará em fazê-lo. Quando se lembra que o responsável por autorizar o gordo investimento do Banco Santander na F-1, don Emílio Botín, já não está mais entre nós e por mais que a instituição financeira espanhola tenha ares de empresa de família, o futuro dessa empresa na F-1 é desconhecido. É aqui que entra em cena, sob trilha sonora de guitarras flamencas, o futuro de Fernando Alonso; sua ida para a Scuderia foi costurada com o apoio de Botín, mas o discurso de que “farei o que for melhor para a Ferrari” voltou a ser praticado como um mantra digno de tempos de eleições.

 

Fernando Alonso voltou a declamar o manta "Ferrari acima de tudo" (Foto Ferrari Media)  Uma corrida digna de vodka 20141014 01 Alonso Ferrari

Fernando Alonso voltou a declamar o manta “Ferrari acima de tudo” (Foto Ferrari Media)

No cenário atual de dois carros por equipe, assinar com a McLaren ou permanecer na Ferrari parecem os cenários mais prováveis, nesta ordem.  Tudo mudaria, porém, caso a proposta de aumentar esse número de dois para três vingar, a situação mudaria bastante: apesar de ser vendida com base em abrir espaço para novos valores, quem pode garantir que a Mercedes não gostaria de ter mais um piloto de ponta em suas fileiras ou que a Ferrari (com uma pequena “ajuda” de Ecclestone) não resolva manter em casa um piloto que anda declarando que faria o melhor pela Scuderia?

Famoso por tratar seus pilotos como empregados e discutir valores contratuais pelas por formas surreais (os números de um contrato de Ayrton Senna foram decididos na base do cara ou coroa), Ron Dennis sabe que terá que se superar para trazer Alonso de volta a Woking. Sem um patrocinador principal desde o início da temporada, o ex-mecânico de Jack Brabham também sabe muito bem que quanto mais posições ganhar no Campeonato dos Construtores mais gordo será o cheque que receberá da FOM (ou qualquer que seja a sigla adequada para identificar quem gerencia de fato a F-1…) no final do ano.

 

Toto Wolff tem nas mãos o futuro de Williams, McLaren e Force India (Foto Mercedes Benz Media)  Uma corrida digna de vodka 20141014 01 TotoWolff Mercedes

Toto Wolff tem nas mãos o futuro de Williams, McLaren e Force India (Foto Mercedes Benz Media)

Nesta briga a competência e a influência política são armas tão valiosas quanto o desempenho dos pilotos das quatro equipes que disputam a terceira (Williams e Ferrari) e quinta (McLaren e Force India) posições entre os construtores. Ironicamente, a decisão está concentrada nas mãos de Toto Wolff, o bam-bam-bam da Mercedes, que fornece motores para Williams, McLaren e Force India. Garantido o título de construtores, a marca alemã certamente dará alguma atenção extra à primeira, não só para bater a Ferrari como também pelos laços entre Wolff e a equipe britânica: sua esposa, Susie, é piloto-reserva da equipe onde ele já foi um dos acionistas… Com relação às outras duas, certamente o fato da Force India prosseguir como cliente em 2015 poderá significar alguma vantagem sobre a McLaren, que terá motores Honda na próxima temporada.

 

Force India e McLaren disputam o quinto lugar entre os Construtores (Foto Force India)  Uma corrida digna de vodka jm1412oc524

Force India e McLaren disputam o quinto lugar entre os Construtores (Foto Force India)

 

WG

A coluna “De carro por aí” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

Sobre o Autor

Wagner Gonzalez
Coluna: Conversa de Pista

Jornalista especializado em automobilismo de competição, acompanhou mais de 300 grandes prêmios de F-1 em quase duas décadas vivendo na Europa. Lá, trabalhou para a BBC World Service, O Estado de S. Paulo, Sport Nippon, Telefe TV, Zero Hora, além de ter atuado na Comissão de Imprensa da FIA. É a mais recente adição ao quadro de colunistas do AUTOentusiastas.

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  • Rodolfo

    Faz tempo que não vejo F-1… quando o Senna corria dava vontade de até acordar de madrugada para vê-lo.

    E quando o Felipe Massa estava ficando bom o Rubinho fez a mola quebrar para variar e acidentalmente atingiu o Massa, que depois disso nunca mais foi o mesmo.

    Velhos tempos… quando vai vir um piloto brasileiro a altura?

    • Alex Hawking

      Eu lembro bem das críticas negativas quando Senna abandonou nas duas primeiras provas de 1994. Os comentários no trabalho e na “mesa de bar” eram os mesmos que vemos hoje sobre o Rubinho e o Massa na Internet. E também era assim quando Piquet perdia uma corrida…

    • Smooj

      Você só acompanha o esporte quando tem um brasileiro ganhando? Acho que apoiar um esportista tem que ser igual a amizade e casamento: na riqueza e na pobreza, nos momentos bons e nos ruins.

      Eu acompanho o desempenho do Massa (assim como fazia com o Rubinho), mas quando ele não ganha eu não critico e nem deixo de acompanhar as próximas corridas.

      Se eu fosse um atleta e meus fãs só torcessem quando eu ganhasse eu ia pedir para eles pararem de me apoiar de vez. Isso é tipo ter amigo interesseiro que só comparece quando tudo está indo bem.

  • Cebobina

    Na minha opinião brasileiro nunca gostou de F1. Gostam apenas de ver um brasileiro na frente ganhando, como qualquer outro esporte. Lembram do Guga? Quando foi que o tênis passou novamente no ”Globo Esporte”?

    • Rodolfo

      Cebolina,

      Mas o Senna era diferente… ganhou 3 mundiais e na verdade era pra ser 4 mundiais, pois a FIA roubou um mundial porque o Senna não passou pela pista e foi por um desvio. Só que todo mundo que perde a trajetória da pista vai por aquele desvio do Japão.

      E outra… o Presidente da FIA era amigo do rival do Senna (Alain Prost) que acabou ganhando injustamente o título no lugar do Senna.

      Se puder veja o documentário do Senna: http://busca.saraiva.com.br/saraiva/Documentario-Senna

      • Cebobina

        Já assisti muito bom.

    • Smooj

      Mas isso é típico do brasileiro em quase tudo. Só apoia quando ganha. Como outro exemplo no esporte, veja a ginastica olímpica quando tinha aquelas meninas.

      Até no ativismo político a galera vira manifestante rábico e fervoroso quando vários outros já estão na rua… desaparece o movimento nas ruas e esses manifestantes desaparecem também.

      Em inglês chamam esse tipo de fã de “fairweather fan”, ou “fã de tempo bom”, que só acompanha um esporte, um atleta ou uma equipe quando eles estão ganhando.

  • RoadV8Runner

    “… abominável politicamente correto.”
    Só esse trecho já valeu a leitura do texto todo. Fico extremamente irritado com essa moda hipócrita atual de tudo certinho, mas todos esquecem de mencionar que é somente da boca para fora…
    A corrida da Rússia foi mesmo bem insossa, bem na linha do “mais do mesmo”. E ficou bem evidente que o Rosberg pipoca sob pressão. Qual era a idéia do cidadão em forçar a ultrapassagem daquela forma, logo após a largada? Não fosse o Mercedes tão superior aos demais carros, teria simplesmente jogado fora o campeonato todo.