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Maserati 300S (foto kidston.com)

Ontem deixei um comentário na matéria do Juvenal Jorge sobre o avião Vigilante, no qual expressei admiração pelo desenho da aeronave dizendo não haver nada tão belo quanto ela. Fiz um paralelo com o Maserati 300S, repetindo a opinião de que nada se comparava em beleza ao carro esporte italiano, inclusive adicionando a mesma foto de abertura desta matéria.

Pois isso me levou falar a respeito deste Maserati e seu irmão maior em cilindrada, número de cilindros e potência, o 450S.

Tudo começou quando, em seguida ao Campeonato Mundial de Fórmula 1 inaugurado em 1950, a FIA (Federação Internacional do Automóvel) instituiu em 1953 o Campeonato Mundial de Carros Esporte. Com provas lendárias como a Mille Miglia e a 24 Horas de Le Mans incluídas no calendário, o campeonato ganhou enorme força e popularidade. As principais contendoras para o título eram Ferrari, Jaguar e Aston Martin, todas com carros de motores de cilindrada bem acima de 3 litros. A Ferrari conquistou o primeiro título, o que convenceu a rival italiana Maserati a fazer um carro capaz de disputar o novo campeonato.

A Maserati tinha pouca experiência com motores de grande cilindrada. Seu maior motor era o 2,5-litros do 250F de Fórmula 1 e o maior de um carro esporte até então era o 2-litros do A6 GCS, também de seis cilindros em linha, 1.985 cm³ (76,5 x 72 mm). Desenvolvia 170 cv a 6.300 rpm e alcançava pouco mais de 230 km/h; pesava 830 kg.

Um A6 GCS vencera o último Circuito da Gávea, em janeiro de 1954, no Rio de Janeiro, pilotado pelo francês Emmanuel de Graffenried — tinha o título de barão, era radicado na Suíça e contava 41 anos —, corrida que assisti quando tinha 11 anos, pois morava com a família, naquele bairro, numa casa a 50 metros de onde passava o circuito, a rua Marquês de São Vicente.

 

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Maserati A6 GCS (foto conceptcarz.com)

Durante a temporada de 1954 a Maserati correu com um carro “híbrido”, que era o chassi do A6 GCS com o motor do 250F. Este era bem potente, mas sua alta taxa de compressão afetava-lhe a durabilidade em corridas que durassem mais duas ou três horas. A fábrica continuou a trabalhar num motor que oferecesse desempenho semelhante, mas com taxa de compressão bem mais baixa.

 

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Largada do Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro de 1953, realizado em 4 de janeiro de 1954, com o Maserati de Graffenried largando na pole position, ao sei lado, Chico Landi com Ferrari 225 3-litros (foto do livro “Circuito da Gávea”, da Paulo Scali,pág. 106)

Havia duas opções para esse motor maior: chegar à maior cilindrada possível mediante aumento do diâmetro dos cilindros e do curso dos pistões ou projetar num novo motor do zero. Como a primeira opção esbarraria nos 2,8 litros, considerado insuficiente, a Maserati partiu para a segunda opção. O totalmente novo seis-cilindros derivou do projeto do 250F e deslocava 3 litros. Dois comandos de válvulas acionados por engrenagens atuavam sobre duas válvulas por cilindro; a ignição era dupla.

 

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Graffenried no pequeno Maserati “soprando na nuca” do líder Chico Landi na descida da Estrada da Gávea; Landi terminou em terceiro (foto do livro “Circuito da Gávea, de Paulo Scali, pág. 107)

Um novo chassi foi desenhado especialmente para o motor de 3 litros. As maiores mudanças em relação ao A6 GCS foram a adoção de suspensão traseira DeDion e câmbio de 4 marchas ZF, resultando em grande diminuição do peso não suspenso. Montada no chassi ia a carroceria roadster toda em alumínio desenhada e construída por Medardo Fantuzzi e seu irmão Gino. Mais tarde os carros teriam a seção dianteira alongada para maior eficiência aerodinâmica.

O 300S , assim chamado, estreou em 1955. Mesmo que seu desempenho fosse promissor, o carro não foi muito bem no primeiro ano devido a problemas de resistência e de desenvolvimento. Depois de uma temporada difícil foram feitas algumas modificações, incluindo a citada frente mais longa e também aumento de potência. Alguns dos melhores pilotos o dirigiram em 1956, entre eles Stirling Moss, Jean Behra e Caroll Shelby.

 

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Tela a óleo do pintor Nicholas Watt, retratando uma das paradas no box do Maserati 300S vencedor da 1000 Quilômetros de Nürburgring de 1956 (maserati-alfieri.co.uk)

Os dois anos de muito trabalho compensaram na temporada de 1956. A primeira vitória importante do 300S foi na 1000 Quilômetros de Nürburgring, com o quarteto Moss, Behra, Harry Schell e Piero Taruffi conduzindo o 300S vencedor. Vieram mais vitórias e a Maserati terminou o campeonato num honroso segundo lugar, atrás da quase imbatível equipe Ferrari.

Fangio ganhou uma corrida em 1957, mas o desenvolvimento do 300S havia parado em favor do 450S de motor ainda maior. Ironicamente, em 1958 a FIA impôs limite de cilindrada de 3 litros, o que tornou o 450S inelegível para o campeonato daquele ano e contribuiu para a saída da Maserati da categoria de carros esporte.

 

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Juan Manuel Fangio tinha acabado se sagrar pentacampeão mundial de F-1, com Maserati 250F, quando correu com um 300S no Circuito da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, em 1957; venceu a prova (foto do autor)

Nessa corrida houve um fato incrível. Fui assisti-la com meu irmão e  uns amigos, todos adolescentes, e ficamos numa determinada curva do circuito. O Fangio já era nosso ídolo e cada vez que ele passava acenávamos. Até que numa das passagens ele deve ter me visto com a câmera e fez um powerslide, derrapagem por aplicação forte de potência, para sair bem na foto e retribuir nossos acenos. Tivemos certeza disso por ele estar folgado na frente, em ritmo tranqúilo, não precisava aplicar potência tão cedo. Coisas que não se esquece!

 

Fangio  MASERATI 300S E 450S, OBRAS DE ARTE DE UM TEMPO QUE NÃO VOLTA Fangio

Uma acelerada mais forte só para soltar a traseiro, “posar” para a foto e cumprimentar uns garotos (foto (ruim) do autor)

O 300S pesava apenas 750 kg e o motor seis-em-linha de 2.991 cm³ (84 x 90 mm) desenvolvia 260 cv a 6.000 rpm. Alcançava 290 km/h.

Hoje, muitos dos 28 300S fabricados ainda correm em eventos históricos.

O 450S

Foram fabricados apenas nove 450S (algumas fontes citam dez) entre 1956 e 1958. O plano era desenvolver o 300S para usar um motor maior, um V-8 de 4.478 cm³ de curso curto com quatro carburadores Weber 45 IDM e que desenvolvia 400 cv a 7.200 rpm, com câmbio ZF de cinco marchas. A suspensão traseira continuava DeDion. Era basicamente o mesmo 300S.

 

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O notável motor V-8 4,7-litros duplo-comando de 400 cv (foto Wikipedia)

O modelo correu no Campeonato Mundial de Carros Esporte de 1957 mas novamente terminou em segundo, atrás da Ferrari.

Sua estréia foi na 1000 Quilômetros de Buenos Aires, com Fangio e Moss. Lideraram com facilidade metade da corrida, mas a embreagem não agüentou  e depois de andarem algum tempo trocando marchas no tempo, o câmbio acabou quebrando.

Henrique Casini, piloto carioca e industrial (Borrachas Casini) tinha um dos nove 450S. Vi-o correr no Circuito da Barra da Tijuca em 1957 ou 1958 e o berro do motor era de impressionar. Lembro-me que não tinha som rachado de V-8 americano e hoje, com mais conhecimento (eu só tinha 15 ou 16 anos), acredito que seu virabrequim fosse plano.

A impressão que esses Maserati deixaram está viva na minha memória até hoje, mais de 50 anos depois. Nunca mais mais vi nada tão belo em matéria de carro de corrida.

BS

(Atualizado em 6/10/14, 00:23 horas, acréscimo de foto e texto)

Sobre o Autor

Bob Sharp
Editor-Chefe

Um dos ícones do jornalismo especializado em veículos. Seu conhecimento sobre o mundo do automóvel é ímpar. História, técnica, fabricação, mercado, esporte; seja qual for o aspecto, sempre é proveitoso ler o que o Bob tem a dizer. Faz avaliações precisas e esclarecedoras de lançamentos, conta interessantes histórias vividas por ele, muitas delas nas pistas, já que foi um bem sucedido piloto profissional por 25 anos, e aborda questões quotidianas sobre o cidadão motorizado. É o editor-chefe e revisor das postagens de todos os editores.

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  • Tony Belviso

    Bob, bela matéria! Que tal uma sobre a carretera número 18 do Camilo?

    • Bob Sharp

      Tony
      Boa idéia!

  • Josenilson Veras

    Linda matéria, Bob.
    Já ouvi dizer que toda máquina que é bela é aerodinamicamente eficiente, esse Maserati deve seguir a receita.
    Na segunda foto, me chamou atenção a beleza da curva do pára-lama dianteiro e a proporção das rodas em relação ao carro. Tudo perfeito, equilibrado.
    Da para ver também onde Carroll Shelby se inspirou para criar o Cobra.

    Parabéns!

  • KzR

    Como disse em resposta ao Bob, considero os Maserati dessa época na lista dos carros de corrida mais bonitos de todos os tempos. Essas barchettas são absurdamente lindas e bem delineadas. Devem ter uma aerodinâmica fantástica.

    Esta foto pertence ao acervo do AE, da matéria (nestor-salerno-o-mestre-em-unir-o-belo-ao-bom):
    http://1.bp.blogspot.com/-aMOLdRdJFwc/Tjall6UxTNI/AAAAAAAAAis/Gq3weVZ9RN8/s1600/Maserati%2B300%2BS%2Bdo%2BMuseu%2BFangio.jpg

  • KzR

    Em termos de motores, este V8 deve ser fantástico de se ouvir. O seis-em-linha com certeza o é.
    Aproveitando a deixa… Bob, qual seria o ganho em adotar dois comandos de válvulas para movimentar apenas duas válvulas por cilindro? Este foi o esquema adotado pela Fiat nos motores do Uno e Tempra Turbo.

    • Bob Sharp

      KzR
      Com duplo comando de válvulas têm-se, inerentemente, câmara de combustão hemisférica e acionamento de válvulas direto, ressalto-sobre-tucho, o melhor arranjo possível para rotação elevada. Exemplos são vários, de Porsche 356 Carrera a FNM 2000 JK, além dos Fiat citados.

      • KzR

        Entendo Bob. Agora há casos em que mesmo com um só comando para 8 ou 16V os motores tem facilidade para girar, caso dos Fiat Fiasa e Sevel e do motor do Honda Civic 1.5. Entretanto, deva prevalecer sobretudo a relação R/L.

  • Fórmula Finesse

    Levar um powerslide na lata, cortesia de Fangio…que privilégio hein? Carros fantásticos, muito trabalho atrás da direção, e um ronco que deveria ser hipnótico…não há como um garoto não ser levado a gostar muito de carros ao presenciar ao vivo tais cenas.

  • RoadV8Runner

    Linda história, digna de um modelo belíssimo como os Maserati 300/450S.

  • Helton Oliveira de Moura

    Sensacional ! bellísima historia.