Autoclásica, uma aula de antigomobilismo

 

Coluna 4214     15.out.2014 rnasser@autoentusiastas.com.br        

 

 

Clube de Automóviles Clásicos de República Argentina organizou com brilho a 14ª. edição da Autoclásica, maior exposição de veículos antigos da América do Sul. Festa imponente, sempre em ascensão, neste ano criou novidades, como páreo entre cavalo puro sangue inglês e alsaciano Bugatti de 1926, e volta de 15 Bacquets – carroceria esportiva lembrando ou copiando os carros de corrida dos anos 1920 e 1930 — pelo circuito hípico. E prêmio ao casal vestido mais adequadamente à década de seu veículo exposto, uso dos veículos no circuito do Hipódromo de San Isidro, a 50 minutos de Buenos Aires, onde é realizada.

Seiscentos automóveis e trezentas motocicletas, segmento em expansão. E abriu o leque expositivo com lanchas antigas — uma delas, com motor Maserati, foi premiada.

Nesta edição maior ênfase foi comemorar 100 anos da italiana Maserati, com sóbria reunião destes esportivos, com os 250F e 4CLT utilizados por José Froilán Gonzalez e Juan Manuel Fangio, nomes estelares nas corridas dos anos 1950. Também, marcando os 50 anos do Mustang, meia centena destes. Adicionalmente, resgate aos carros de competição dos anos 1970, com especial atenção a seus construtores e mecânicos, visivelmente envolvidos ao ver seus produtos resgatados e funcionando no hipódromo buenairense. Nos festejos, aniversários dos clubes de Mercedes, de MG, e do Fusca, comemorados na Autoclásica. É festa de clubes, componente de seu sucesso.

Tempo generoso, frio na sombra, quente ao sol. A chuva da metade da semana secou o piso turfoso da rica e variada feira de peças — Autojumble, apropriado aos similares americanos e europeus —, da exposição dos veículos de produção argentina – IAME Justicialista e Rastrojero, motos Puma, Auto Union, incluindo cupê Fissore, aqui desconhecido, Borgward Isabella, Eniak Antique, … Os argentinos, finalmente, deram atenção aos automóveis de produção local. Neste ponto o Brasil foi pioneiro.

Espetáculo visualmente rico e, em alguns casos, também com generosidade auditiva, com as velhas máquinas a vapor tocando apitos, motores de competição despertando provectos cavalos de força.

Bilheteria indicando 50 mil visitantes — destes, com certeza, uns 2.000 brasileiros e, no grupo, alguns levando nossos antigos rodando até lá.

Como todo evento sério, prêmios contidos em critérios universais, sem concessões à originalidade, libertariamente aqui permitidas.

Eleito Best of the Show, raro Voisin V28 Chancellierie Berline de Voyage, motor 6-cilindros, 3,5 litros, de 1936. Automóvel francês, de indústria aeronáutica, insólito ao gosto de época, porém incontroversamente criativo — e raro. Fato curioso, disputava com um Maserati A6 GTS carroceria Fantuzzi o prêmio maior, e pouco antes do julgamento final, a família do designer Gustavo Fusco, desaparecido bestamente neste ano, elegeu o Voisin como o melhor ante os conceitos de Fusco. Ocorreu um aecismo e a escolha virou a premiação para o Voisin, francês como a formação e o emprego do designer — a Renault Argentina. Premiação de duplo espectro: ao automóvel e ao reconhecido Fusco.

Sem trocadilho, Superior entre as motos — segmento em expansão, incluindo área na feira de peças — foi inglesa Brough Superior SS 100, de 1928, 1.000 cm³, motor JAP curso longo, dois cilindros em V, caixa Sturmey Archer, considerada o Rolls-Royce das motocicletas. Era a moto do Lawrence of Arabia.

Uma premiação especial, pelos jornalistas credenciados, é o Germán Sopeña, profissional da imprensa especializada e recém-desaparecido. Identifica o mais expressivo esportivo. No caso, um De Tomaso Pantera 1980, temperamental como seu criador, o ítalo-argentino Alejandro De Tomaso, teve um chilique, não rodou até a rampa de premiação.

Autoclásica é evento reconhecido pelo governo federal e cumpre agenda social: parte da renda formada pelos 80 pesos como entrada (câmbio paralelo uns R$ 16) e estacionamento, 50 pesos (uns R$ 10) é revertida a equipar hospital infantil e a fundação de cursos profissionalizantes da área do automóvel antigo.

Foto Legenda 01 coluna 4214 -Voisin  Autoclásica, uma aula de antigomobilismo Foto Legenda 01 coluna 4214 Voisin

Voisin V 28. Best of Show. Conhecia?

Foto Legenda 02 coluna 4214 - Brough Superior  Autoclásica, uma aula de antigomobilismo Foto Legenda 02 coluna 4214 Brough Superior

Brough Superior, melhor dentre motos

Foto Legenda 03 coluna 4214 De Tomaso  Autoclásica, uma aula de antigomobilismo Foto Legenda 03 coluna 4214 De Tomaso

De Tomaso. Não pegou, mas levou (foto autoblog.com.ar)

Novas placas no Mercosul

Acordo entre Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela aprovou modelo e operação para placa de licenciamento único no âmbito do Mercosul. Brasil, mais adiantado no tema, pois dimensões das placas nacionais são idênticas às de outro bloco econômico, a União Européia. No visual, fundo branco, letras pretas, combinação de quatro letras e três algarismos.

Em Argentina e Venezuela vige em 2015 — ambos estão no limite das combinações alfanuméricas para licenciar a frota. Aqui, talvez em 2016, aplicável a todos os novos veículos. Falta regulamentação pelo Denatran. Legalmente, serão aplicadas aos veículos licenciados a partir de sua vigência. Entretanto, como os caminhões pesados têm ampla vida útil, a questão principal é de caráter documental. A nova placa dispensará processos de pré-inspeção, hoje exigidos para comprovar que caminhões e ônibus nacionais atendem às exigências dos países vizinhos. Novas placas dispensarão tal documento, com passagem mais rápida pela fiscalização alfandegária.

Automóveis antigos, informa a Fundação Memória dos Transportes, mantenedora do Museu Nacional do Automóvel, em Brasília, estarão protegidos pela regulamentação nacional. Manterão a placa preta, e símbolos alfanuméricos diferenciados em cinza prata refletivo.

 

Foto Legenda 04 coluna 4214 - Patente-Mercosur-Brasil  Autoclásica, uma aula de antigomobilismo Foto Legenda 04 coluna 4214 Patente Mercosur Brasil

Nova placa, 4 letras, 3 números, em 2016

 

RODA-A-RODA

 

Negócio – Oportunidade a pequenos fornecedores brasileiros: vender para a AvtoVAZ, empresa russa controlada por Renault-Nissan, mais conhecida como fabricante dos Lada. Bo Andersson, nº 1 da companhia, quer abrir oportunidades a autopartistas fora da Rússia.

Competição – Em entrevista à alemã Automobilwoche promete três produtos novos em 2015. Conhece pouco do mercado brasileiro e na região foca apenas em Peru e Nicarágua.

Blindagem – No grande programa de salvação, reformulação interna, compra da Chrysler, visto entre o brilhante ou a loucura, a família Agnelli, controladora da Fiat, baixou regra para votação nas assembléias de acionistas: cota de fidelidade a detentores de ações por três anos, a dois votos por ação. Houve um giro grande.

Resultado – A famiglia, por sua holding Exor, ampliou o poder de voto a 46,6%, tornando difícil a tomada de controle por qualquer movimento hostil. Vamos combinar, empresa familiar é empresa comandada pela família, e o recente exemplo dos contemporâneos Peugeot, forçados a se unir ao governo francês para ter maioria em sua empresa, mostrou o acerto da regra.

Crescendo – Na lista das 100 Melhores Marcas Globais, Kia continua crescendo e cravou a 74a posição. Foi 89a em 2012 e 85a em 2013. Um dos fatores de valorização da marca e crescimento de vendas é atribuído à contratação do designer — e hoje presidente — Peter Schreyer em 2007.

Brazuka – Motores produzidos por acordo entre a chinesa JAC divisão de caminhões, e a holding  americana Navistar, é projeto de engenheiros da MWM Brasil. Eram montados e serão produzidos à base de 200 mil/ano.

Quais – Inicio com engenhos de 2,8; 3,2; e 4,8 litros, potência entre 88 kW (110 cv), 118 kW (147 cv) e 140 kW (175 cv). Motor maior, 7,2 litros em 2016.

Peculiaridade – Analistas do setor interpretam sinais do mercado: compradores urbanos querem veículos pequenos — não exatamente baratos — mas com diferenças visuais, de conteúdo, conforto e elegância. PSA Peugeot Citroën interpretou na linha DS, agora transformada em marca.

Ajuste – Visão da Renault foi criar novo pacote de decoração e conteúdo, o Initiale Paris. Aplicou-o ao Clio — o atual, francês, duas edições mais novas relativamente à sul-americana — custando quase 20% mais.

Caminho – Aqui sabíamos disto. Basta ver os 1.0 topo de linha — e de preço.

Ditadura PP – Parece, ares da democracia automobilista arejam a Ditadura PP — a dos carros preto ou prata. Informa portal WebMotors, pelos anúncios de carros usados com valor entre R$ 20 mil e 40 mil, os prata caíram 10,66%, enquanto azuis e brancos baixaram  menos, uns 8%.

Clima – Revenda Hyundai Rodobens comemorou vender mil HB20 em dez meses de operação. Fez festa em São José do Rio Preto, SP, origem do poderoso grupo — banco, financeira, consórcio, corretora de seguros, leasing, locação, 4.000 colaboradores e faturamento anual de R$ 4B.

Ponte – Ducati, a Volkswagen em motos, novo plano de financiamento: 30% de entrada, 23 meses para pagar e, na 24ª prestação, de 50% do valor inicial. Nessa ocasião, possibilidade de recompra garantida pela revenda, servindo de entrada para exemplar dois anos mais novo.

Mercado – É fórmula de baixar o valor das prestações – afinal, financia apenas 20% da moto; fomentar vendas, fidelizar clientes. Com tantos fabricantes, moto grande se tornou segmento e deixou de ser nicho.

Comemoração – Bardhal, de aditivos e lubrificantes, inicia festejar seus 60 anos no Brasil, e o faz pelo Facebook Bardahl/Br. Exibirá peças publicitárias marcantes da história e da evolução da marca.

Mais – Sede da empresa, beiradas de São Paulo, em Cajamar, mantém centro de memória com detalhes de sua história. Agendar visitas, (11) 4698-8611.

Imprensa – Auto Agora, programa especializado no setor automobilístico, expandiu-se. Além do blog Autoagora (www.autoagora.blogspot.com.br), vai ao ar pela rádio Transamérica Light de Curitiba, 95,1 MHz. Á frente o jornalista Edison Ragassi.

Antigomobilismo – Eugênio Leite, jeitoso, interessado, sempre disponível às causas institucionais, tratado como o Príncipe dos Advogados do Litoral Norte paulista, aposentou. Dedicar-se-á, tempo quase integral, a seu rico acervo de veículos antigos, integrando o Museu do Automóvel em Ubatuba.

VW Group deve ser líder mundial antes de 2018

O projeto mundial da empresa focava número emblemático, 10 milhões de unidades, entendido bastante para assinalar superioridade sobre os principais concorrentes, a GM e, acima, a Toyota.

Entretanto o projeto, inicialmente visto apenas uma bandeira de marketing, mostrou-se factível, verdadeiro, e tem-se sido favorável. O conglomerado de 12 marcas, de motocicletas a caminhões pesados, vistos os números conseguidos até setembro, decorridos ¾ do ano, acredita atingir os 10 milhões de unidades ainda neste 2014. No cenário de hoje a VW ultrapassou a GM, exibindo crescimento de quase 6% sobre período idêntico ao do ano passado, enquanto a GM expandiu-se em torno de 2%, e Toyota à volta de 2,5%.

Numericamente projeções indicam produção de 10.350.000 Toyotas; de estimados 10.165.000 VW; e calculados 9.844.000 GM. A VW abriu espaço sobre a GM às voltas com seus problemas de recall, e esta distância parece difícil de ser reduzida. Será a primeira vez que uma fabricante — no caso duas — venderão mais de 10 milhões de unidades num ano.

A pretensão da empresa pode se viabilizar antes do ano 2018. A distância percentual a separá-la da Toyota é de 1,65 ponto porcentual e, em tradição recente a marca alemã tem crescimento superior à japonesa — neste ano a diferença deve ser em torno de 3 a 3,5%. Em prática otimista significa disputa renhida em 2015, com possibilidades de atingir a liderança três anos antes.

A VW tem-se preparado com incremento técnico em seus produtos, e ações de sedimentação nos mercados com vendas desfavoráveis, como o continente americano. Ao norte a empresa quer implementar sua presença industrial, e ao sul do continente, afina a linha de produtos, motores e transmissões no Brasil e Argentina e focará nos demais mercados para ampliar sua presença. Será a primeira vez que empresa nascida no pós-guerra lidera ante as tradicionais.

 

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VW pode ser líder antes do prazo

 

RN

 

A coluna “De carro por aí” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

 

 

Sobre o Autor

Roberto Nasser
Coluna: De carro por aí

Um dos mais antigos jornalistas de veículos brasileiros, dono de uma perspicácia incomum para enveredar pelos bastidores da indústria automobilística, além de ser advogado. Uma de suas realizações mais importantes é o Museu Nacional do Automóvel, em Brasília, verdadeiro centro de cultura automobilística.

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  • Mas a pergunta que não quer calar: nas placas brasileiras ainda será grafado a cidade e o estado de registro?

    • Eduardo Mrack

      Pela informação que eu tenho, não mais, apenas o país de origem, como acontece no resto do mundo.

    • marcus lahoz

      Parece que não; somente o país. Provavelmente vai acabar também a questão de placa regional; tipo para A do Paraná.

    • Leo-RJ

      País e estado. Por exemplo: “Brasil – RJ” e “Argentina – BA”.

      Leo-RJ

  • Mr. Car

    Neste negócio de unificar as placas, já sabemos duas coisas: vamos morrer em uma grana para a troca, e uma meia-dúzia vai ganhar muuuuuuuuuito dinheiro nos vendendo as novas. Quais são os prós e os contras? Isso vale um post.

    • Leo-RJ

      Mr. Car,
      Compartilho sua opinião. Antes de ser aprovado no meu atual concurso, trabalhei por 7 anos (1997-2004) no Detran/RJ, e sei que lá só se pensa em uma coisa: dinheiro.

      Leo-RJ

  • M Rios

    Veja o lado bom da unificação das placas: mesmo sem nunca ter ido no seu carro ao Paraguai, você poderá receber uma multa por infração de trânsito cometida em Ciudad Del Leste, por exemplo. Resta saber em que moeda poderá ser paga…

    • Leo-RJ

      M. Rios, as normas de Direito Tributário já tratam o assunto, de modo que eventual multa deverá ser paga na moeda do país em que residir o infrator, convertida no momento do lançamento.

      Leo-RJ

  • André

    Placa de licenciamento único?? Nem combustível igual (e decente) aos outros países do bloco temos o direito de ter, e agora temos que ter placas iguais? PIADA DE MAU GOSTO, para dizer o mínimo.

  • Leonardo Mendes

    Interessante essas placas unificadas… espero estar vivo até lá para vê-las nas ruas.

  • César

    De onde saiu essa informação de que “dimensões das placas nacionais são idênticas às de outro bloco econômico, a União Européia”? Não é a primeira vez que leio isso.
    As placas brasileiras possuem 13 x 40 cm, enquanto as europeias possuem 12 x 52. Quem divulgou essa informação ignora totalmente o assunto. Acho que nem precisa entender de carro para notar que o tamanho das placas é bem diferente.
    Quanto à omissão do município de registro, duvido: o brasileiro é muito bairrista e valoriza muito essa informação na placa de seu veículo.