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Lá foi o Tio andar de chino novamente. Afinal, cada um tem a especialização que merece. E nem é mais pelo titulo honorário concedido pelo Bob, de “experto em chinos”. Fui de livre e espontânea vontade, o Bob nem pediu ou mandou convite. Conheci a Lifan, em Salto (SP), “perto” de Itu. Se falo “Salto de Itu” vou ser excomungado da cidade.

Em Salto fica o armazém geral de peças e administração da Lifan, ex-Effa. A Effa era a representação da Lifan e o 320 era o mais conhecida desta época. O Lifan 320 é um carrinho que copia o Mini e era bem mais barato, algo como R$ 30 mil. Só que agora, pouco mais de um ano atrás, a própria Lifan chinesa assumiu a operação no Brasil e, pelo que vi, estão trabalhando para se acertar com o mercado. Inclusive tirou o 320 da lista dos importados e recomeçou a operação trazendo o SUV Lifan X60 (custando R$ 55 mil) não por acaso com uma sigla que lembra Volvo.

 

Lifan AUTOentusiastas

Na caravana do teste, quatro Foison com diferentes cargas

Seu segundo produto foi exatamente o que sobrou para o Tio rodar: o mini-truck Foison, um caminhãozinho que pode ser definido com uma Towner grande ou um Kia Bongo pequeno. Até o final do ano deve chegar um sedã do porte do Honda City.

Como quase todo chinês de carga, usa a tradicional configuração de cabine cara chata com o motor embaixo dos bancos do motorista e acompanhante, de novo como Towner ou Bongo.

A primeira vez que vi uma disposição mecânica assim foi lá pelos anos 1960 ou 70 e se tratava de uma picape Tempo Matador. Apesar do nome meio espanhol era um alemão feito em Hamburgo e usava um motor de Fusca/Kombi 1100 da época exatamente embaixo do banco. Achei o máximo dirigir sentado em cima de um motor de Fusca. Sei que eles usaram outros motores, tinham até triciclo, mas esta fábrica independente desapareceu. Só revi um destes Tempo em um encontro de antigos aqui no Brasil e continuava usando o motor VW.

 

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Tempo Matador, motor de Fusca 1100 sob os bancos, tração dianteira

Voltando ao Lifan Foison, seu alvo são os órfãos da Kombi. O Pão de Forma da Volkswagen saiu de linha no final de 2013 vendendo cerca de 30 mil unidades/ano. Um gordo mercado que várias marcas tentam abocanhar. Aliás, não entendi até agora como a VW tira a Kombi de linha e nada apresenta para substituí-la. Uma marca que esta sendo empurrada para a terceira posição pela GM não poderia simplesmente abrir mão de um mercado que ela mesma construiu ao longo de décadas.

Mas este mercado esta sendo suprido pelos furgões, Fiat Fiorino em especial. Mas a Lifan também lança o Foison como proposta para substituir a Kombi VW sob a forma de um mini-truck. Já está nas 42 revendas da marca, mais concentradas na região Sul/Sudeste.

Seu motor quatro cilindros 1,3 de 85 cv (a 6.000 rpm), de 16 válvulas, fica instalado embaixo dos bancos dos dois ocupantes e o Foison leva até 800 kg entre ocupantes e o que vai na caçamba metálica. O motor não parece muito adequado para carga, já que é um 16-válvulas, que normalmente vai melhor em altas rotações. Mas o motorzinho surpreende e torna o caminhãozinho esperto. De modo geral, os chineses tem alguns motores básicos que suprem diversos veículos diferentes: carros, vans, mini-trucks…

 

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Na caravana do teste, quatro Foison com diferentes cargas

O Foison custa R$ 35 mil (básico) ou R$ 38 mil com ar-condicionado e direção com assistência elétrica. Mas a empresa promete descontos para empresas e frotistas (entre 7% e 12,5%) e o preço pode cair para R$ 30.640 e 32.525, respectivamente. Ou seja, quem tiver um CNPJ tem mais moral para pechinchar. O Foison vem sempre equipado com freio ABS e bolsas infláveis, exatamente os equipamentos cuja falta tiraram a Kombi de produção. Vem também de série com rádio AM/FM e painel com mostradores digitais, inclusive conta-giros.

Mesmo com um boa relação custo-benefício, as metas da Lifan são inicialmente modestas, de apenas 200 a 250 unidades/mês. Montado no Uruguai, tem isenção de impostos de importação graças aos acordos do Mercosul.

O Foison permite facilmente a colocação de um baú de alumínio, o que aumenta o espaço para cargas de grande volume e baixo peso. Este baú, feito por empresas especializadas, custa cerca de R$ 5 mil. Claro, com o baú se aumenta o consumo de combustível na estrada, devido ao maior arrasto aerodinâmico, e o Foison fica bem mais ao sabor de ventos, devido à maior área lateral. A garantia é de dois anos, porém no segundo ano vale só para motor e câmbio. E a Lifan tem razão: o ponto alto parece ser o conjunto motor-câmbio, bem superior à montagem geral do mini-truck.

Com carga

Rodamos cerca de 100 km com o mini-truck, carregado com cargas variadas, inclusive como o máximo de 800 kg. Claro que estamos no Brasil, o coitado do china vai rodar com muito mais peso. Muita Kombi velha encara mais de uma tonelada e não chia.

O motorzinho do Foison se mostrou bem disposto, apesar do torque baixo (de 11.3 m·kgf entre 3.000 e 5.000 rpm) mantendo velocidades em torno de 100 km/h em auto-estradas, mesmo com carga máxima. Ninguém informou, mas seu comportamento indicava comando (no cabeçote, claro) variável. Segundo a Effa, seu consumo varia entre 9 e 10 km/litro apenas com gasolina, já que não é flex.

 

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Já vem com caçamba metálica e pode levar até 800 kg de carga

Mesmo sendo um veículo comercial — que merece uma analise diferente de um automóvel — e mais urbano, alguns pontos pedem maior cuidado. A posição para dirigir tem os limites do pequeno espaço da cabine, inclusive para os pés. As grandes caixas de roda, assim projetadas para garantir grande esterço das rodas, invadem o pequeno assoalho da cabine. Como no Dauphine, para quem boa memória. A posição para dirigir é praticamente fixa, já que os bancos têm regulagem apenas longitudinal, com os encostos fixos, obrigando os ocupantes a manter as costas bem eretas.

Acabamento e montagem feitos no Uruguai são os pontos críticos no Foison. Não são problemas de projeto, já que cada um dos quatro Foison testados apresentava deficiências diferentes. Em um deles, o ruído e calor do motor invadia a cabine pela portinhola embaixo do banco do motorista, que dá acesso à mecânica para manutenção. Apesar de bem vedada com encaixe perfeito e guarnição de borracha, os fechos não davam pressão. Esquentavam muito as pernas, muito incômodo. Em outro dos quatro Foison testados, o volante de direção estava desalinhado, novamente denunciando falta de cuidado na montagem. Plásticos da cabine têm acabamento apenas razoável, sendo que uma das junções do painel com a coluna do pára-brisa caiu durante o teste de rodagem. Já um terceiro Foison apresentava ruídos na suspensão traseira (com feixes de molas). A dianteira é McPherson.

 

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Acabamento é típico de veiculo de trabalho, com espaço restrito para duas pessoas

Mesmo assim, o Foison é agradável de dirigir (eu sei, sou suspeito já que gosto de coisas diferentes sobre rodas). Suas dimensões (4.580 mm de comprimento e 1.610 mm de largura) facilitam seu deslocamento em áreas urbanas congestionadas. Fica em posição intermediaria entre o Kia Bongo (para 1.500 kg de carga, diesel, por mais de R$ 60 mil) e o Hafei Towner (com motor 1-L, que custava a partir de R$ 30 mil). A Towner só poderá voltar a ser comercializada quando for equipada com bolsas infláveis e ABS.

Quanto ao projeto, a assistência da direção elétrica opcional indexada à velocidade precisa ser repensada. Em baixa velocidade, a assistência é perfeita, com o volante leve permitindo um dirigir agradável e sem esforço. Porém, ao chegar aos 60 km/h a assistência elétrica parece ser desligada, deixando o volante excessivamente pesado. A curva está claramente errada, com uma queda abrupta de assistência em velocidade muito baixa.

 

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Painel do mini-truck é bem completo, inclusive com conta-giros digital

Porém, a apresentação do Foison foi honesta e tanto diretoria (com vários executivos vindos de fábricas maiores) como a engenharia queria mais ouvir do que falar depois do teste de rodagem. Antes do teste, a engenharia destacou bastante a confiabilidade do conjunto motor e câmbio (com tração traseira) mostrando testes de mais de 40 mil km rodados com carga. Eles parecem ter razão, o motor gosta de rodar, os engates de câmbio são precisos… mas o restante do mini-truck precisa urgentemente de um controle de qualidade bem mais rigoroso na montagem uruguaia. Exatamente um país vizinho conhecido pela qualidade e capricho de seus mecânicos, habituados com carros antigos e restaurações criativas. Inclusive um país onde o presidente José Mujica usa um velho e saudável Fusca. Ou seja, mão de obra qualificada não deve faltar.

 

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Utilitário esporte marcou a reentrada da Lifan no Brasil e custa cerca de R$ 55 mil

 

JS 

 

FICHA TÉCNICA LIFAN FOISON 1,3L
 
MOTOR
 
Instalação Dianteiro, longitudinal
Material do bloco/cabeçote Ferro fundido/alumínio
Configuração/nº de cilindros Em linha / 4
Diâmetro x curso 78,7 x 69 mm
Cilindrada 1.299 cm³
Taxa de compressão 9,5:1
Potência máxima 85 cv a 6.000 rpm
Torque máximo 11,2 m·kgf de 3.000 a 5.000 rpm
Nº de válvulas por cilindro Quatro
Nº de comandos de válvulas Um
Formação de mistura Injeção eletrônica no duto
Combustível Gasolina comum
TRANSMISSÃO
Rodas motrizes, câmbio Traseiras, manual
Nº de marchas Cinco à frente + ré
SUSPENSÃO
Dianteira Independente, McPherson
Traseira Eixo rígido com feixes de molas semi-elípticas
DIREÇÃO
Tipo Pinhão e cremalheira (opcional: assistência elétrica indexada à velocidade)
FREIOS
Dianteiros A disco
Traseiros A tambor
Controle ABS
PESOS
Em ordem de marcha 1.000 kg
Carga útil 800 kg
CONSTRUÇÃO
Tipo Cabine de 2 portas e caçamba, de aço, montados sobre chassis
DIMENSÕES EXTERNAS
Comprimento 4.580 mm
Largura 1.615 mm
Altura 1.892 mm
Distância entre eixos 2.800mm
Bitola dianteira/traseira 1.310/1.320 mm
Distância mínima do solo 155 mm
CAÇAMBA
Comprimento 2.800 mm
Largura 1,520 mm
Altura 335 mm
CAPACIDADES
Tanque de combustível 40 litros
CONSUMO
Médio 9 a 10 km/l

        

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Sobre o Autor

Josias Silveira

Um dos mais respeitados jornalistas automobilísticos brasileiros, Engenheiro mecânico e jornalista, foi editor da revista Duas Rodas e publisher da revista Oficina Mecânica. Atualmente é um dos editores da revista TOP Carros além de colaborador da Folha de S. Paulo e de diversos outros meios. Também é autor do livro "Sorvete da Graxa".

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