A partir desta quarta-feira, e nas seguintes, sempre às 10h00, os leitores terão um encontro com Nora Gonzalez, que escreve a terceira coluna semanal do AUTOentusiastas, chamada “Visão feminina”.

Nora Gonzalez é formada em Jornalismo pela Cásper Libero, com pós-graduação em Comunicação Corporativa pela USP. Foi repórter (inclusive de indústria automobilística) e editora da Gazeta Mercantil e de O Estado de S. Paulo durante muitos anos, diretora de Comunicação e Relações Públicas para a América Latina da FICO (Fair Isaac), do Santander e da Alstom e de agências de RP como FSB e S2Publicom, além de ter dado aulas de Comunicação Corporativa em pós-graduação. É fã de carros desde pequena, especialmente de Fórmula 1.

Conheço a Nora há muitos anos e acompanhei seu trabalho quando esteve naqueles dois jornais, o que me deu liberdade para convidá-la a fazer parte do corpo editorial do Ae. O fiz com total certeza de estar trazendo para o Ae uma das mais expressivas jornalistas brasileiras, dona de uma ampla visão (feminina!) e de um texto que, tenho certeza, você vai adorar. E, sobretudo, Nora atendia a um requisito essencial para escrever no Ae: ela é uma autoentusiasta.

Seja bem-vinda ao AUTOentusiastas, Nora!

Bob Sharp e o corpo de editores

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VISÃO FEMININA

woman

Mulher dirige melhor do que homem?

Humildemente, me proponho aqui dar uma visão feminina como autoentusiasta de vários assuntos. Mas vejam bem, feminina, não Luluzinha, que não sou disso. Não defenderei as mulheres necessariamente. Quem me conhece sabe que não sou disso — logo eu, que já mandei mulher pilotar fogão depois de levar uma fechada no Minhocão… Mas eram tempos em que dava para andar com a janela aberta e falar impropérios sem correr o risco de tomar um tiro.

E eu também tinha menos tempo de carteira e a juventude me dava alvará para fazer coisas que hoje não faço mais. Ou não verbalizo, embora ainda passem pela minha mente. Isto posto, pretendo brindar aos leitores com uma visão feminina, sim, mas não obtusa — simplesmente, um outro ponto de vista que, claro, não terá a pretensão de ser o certo.

Isto posto, vamos ao assunto de hoje. E já que é o primeiro, vamos começar com uma polêmica. Mulher realmente dirige melhor do que homem? Minha resposta direta é: veja bem… As seguradoras, oficialmente, dizem que sim, baseadas no índice de ocorrências de seus próprios números e nos indicadores de pagamentos do Seguro  de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre (DPVAT), o seguro que indeniza todas as vítimas de acidentes de trânsito no Brasil.

O último dado disponível por sexo, pasmem, é de 2012. Naquele ano, a seguradora Líder, responsável pelo pagamento das indenizações de DPVAT, destinou 23% do total a mulheres e 77% a homens. No caso de morte, 82% das vítimas foram do sexo masculino, sendo que de acordo com o IBGE a população brasileira masculina naquele ano era de 51%.

Pirâmide

Olhando mais detalhadamente, também em 2012, entre as indenizações pagas apenas aos condutores dos veículos 13% foram para motoristas mulheres e 45% para homens — uma vez que o seguro cobre, ainda, pedestres e acompanhantes no veículo, daí o total não ser 100%.

Indenizações

E agora eu pergunto: com esses dados dá para concluir que mulher dirige melhor, como inclusive muitos jornalistas saem por aí dizendo baseados nesses índices? Na minha opinião, não. O motivo é simples. Em primeiro lugar vamos a uma máxima que sempre norteou minha vida como jornalista da área econômica: os números, sob tortura, confessam qualquer coisa.

Há diversos fatos que provam isso — e ultimamente alguns políticos parece que insistem em provar essa máxima a cada minuto. Mas, voltemos ao assunto desta coluna. Sim, com números pode se provar qualquer coisa. Não, não é que eles mintam, mas podem ser manipulados de várias formas. A mais simples delas, neste caso, pagar mais apólices de seguro não deveria nos levar à simples conclusão de que mulheres dirigem melhor do que homens por diversos motivos.

Frota superdimensionada

Em primeiro lugar, O DPVAT paga todas as vítimas, motoristas, pedestres ou passageiros, sem apuração de culpa. Logo, o fato de alguém receber indenização simplesmente significa que se envolveu num acidente. E ponto. Não se sabe se o provocou ou se foi vítima. Pode ter sido uma coisa ou outra. Não há como concluir uma coisa ou outra. Um piano pode ter caído sobre um carro estacionado e matado o ocupante.

Mesmo quando estava na condição de motorista não se pode concluir que a mulher se envolveu menos em acidentes. Uma pessoa que dirige 2.000 quilômetros por ano certamente corre menos riscos do que outra que dirige 12.000 quilômetros — seja como vítima seja como causadora de acidentes.

Mas torturemos mais um pouco os números e, talvez, você, leitor. Qual é a base de dados? Se somente em São Paulo o governo estima que 30% dos veículos transitem irregularmente, sem licenciamento nem pagamento de IPVA nem DPVAT, de quantos veículos fora das estatísticas estamos falando? Essas mulheres estão, obviamente, fora desses índices — assim como os homens, é claro. E tem mais. Como basear a proporção de seguros pagos no total da frota circulante no País? Alguém acredita que a frota de automóveis do Pais seja de 45 milhões? É claro que não, pois o Denatran não dá baixa e milhares deles simplesmente estão encostados por aí, quando não no fundo dos rios.

E ainda tem a faltas de fiscalização. Quantas pessoas saem por aí atrás do volante sem ter habilitação e por isso mesmo não entram nas estatísticas de motoristas? Deveríamos saber primeiro qual é a porcentagem de motoristas homens e qual a de mulheres e ai fazer as contas. Mas se nem isso sabemos…Com números errados podemos concluir qualquer coisa. Aliás, mesmo com os certos.

Outra coisa que deve ser separada: dirigir bem não significa apenas não se envolver em acidentes. É muito mais do que isso. A fechada que eu tomei no Minhocão não gerou um acidente porque eu fiz uma manobra que a evitou — habilidade minha, não da outra condutora. Por sinal, fechada numa via elevada podia ter sido fatal. Então, o fato de a outra motorista não ter se envolvido num acidente (a rigor, nem eu, pois não chegou a ocorrer um) significa que ela dirige bem? Não, nem um pouco. Sem modéstia, apenas daria para concluir que eu dirijo bem pois evitei um, mas nem isso entra para as estatísticas porque não houve acidente.

Tanto isto é verdade que há por aí vários (e bons) cursos de direção defensiva. A idéia é mais ou menos essa: já que você não consegue fazer com que os outros dirijam bem, aprenda a evitar os acidentes que eles podem provocar.

Conhecimentos mecânicos

Basta uma conversa com mecânicos ou funileiros para verificar que as mulheres são as que mais geram reparos “menores”. Já quando homem bate na maioria das vezes é para valer. E então, dá para concluir que mulher dirige melhor porque ela rala duas vezes o pára-choque, uma porta e dois retrovisores ao longo de um ano dirigindo 2.000 quilômetros, enquanto um homem acaba com o capô, a grade e o radiador no mesmo período, mas numa única batida depois de ter dirigido 11.000 quilômetros num ano? Na maioria das vezes, os prejuízos provocados pelas mulheres não são contabilizados pelos seguradoras pois ficam abaixo do valor da franquia e são realizados em oficinas não credenciadas ou muitas vezes sequer são realizados pois não oferecem riscos mecânicos.

E outra, seja por machismo, seja por hábito, observem: quando há um casal num carro, quem está atrás do volante, o homem ou a mulher? É razoável supor — e estatisticamente comprovável — que os homens dirigem mais do que as mulheres, logo, mais tempo ao volante, mais tempo expostos a riscos.

Ainda tenho outro reparo a fazer que não entra nas estatísticas mas é fruto, exatamente, da observação. Dirigir bem não é apenas não se envolver em acidentes ou não ralar o carro, mas ter conhecimentos mecânicos e usar corretamente o veículo. Significa não subir uma ladeira íngreme em quarta marcha, usar o freio na hora certa e sem exagero, usar o freio-motor nas descidas, reduzir a marcha, não frear nas curvas, fazer a manutenção do carro e, coisa que poucas pessoas sabem, trocar a marcha na hora certa. Eu tive ótimos professores de condução.

Além de um do Touring Club, os chatos do meu pai e meu supertio César, ambos apaixonados por carro. Os dois me ensinaram, entre outras muitas coisas, a trocar de marcha de ouvido. Sei lá, engatar a segunda quando o carro atingisse exatas 2.587,756 rotações. Claro que o número é fictício, mas a precisão com que meu tio me ensinou não. E ai se engatasse a marcha com 2.587,755 rotações…

Ter conhecimentos de mecânica e de física também ajuda. Quando você sabe porque deve tirar o pé antes da curva, não frear dentro dela e sim acelerar, tudo fica mais fácil. Não, eu não sei explicar todos os detalhes do funcionamento de um motor, mas sei o que faz ele funcionar e como ele funciona. E troco pneu na boa, principalmente depois que joguei fora minha chave em L por uma em cruz, que me permite pular nela quando a porca está muito apertada. Mas justiça seja feita, apenas um par de vezes precisei fazer a operação até o fim e mesmo assim em lugares ermos.

Sempre algum gentil cavalheiro se ofereceu para me ajudar. E já troquei o cabo de embreagem de um carro. Meu maior orgulho foi não somente ter feito isso, mas principalmente ter detectado o defeito. Claro, levei uns 40 minutos e qualquer mecânico faria em 10, e ainda quebrei duas unhas, mas vá lá, ainda acertei o ponto e nem o deixei muito esticado nem muito frouxo.

OK, mas eu sei que sou exceção no mundo das quatro rodas. Ainda hoje o frentista onde abasteço há anos me diz que posso esperar dentro do carro enquanto ele completa o tanque e não cansa de me dizer que sou a única cliente mulher que pede para calibrar o estepe. E mesmo meu marido rateia em fazer isso.

Vodu

Por isso para mim as estatísticas das seguradoras são apenas isso. Estatísticas. Valem matéria nos jornais, e, claro, se encaixam em algumas teorias feministas como que mulher é mais cuidadosas, mais delicada, mais atenta… Mas, como já disse, os números sob tortura confessam qualquer coisa. Certamente há outras estatísticas que provam que mulheres entre 1,60 e 1,65 metro de altura que dirigem carros vermelhos com quatro portas e teto solar se envolvem em menos acidentes do que homens albinos entre 1,75 e 1,80 metro de altura que dirigem carros sedãs azul marinho e que estiveram nos últimos seis meses na região do ABC paulista. É só uma questão de procurar, mas aposto que existe essa estatística.

Dizer que mulher dirige melhor porque aciona menos o seguro é a mesma coisa que alegar que alguém pode ser considerado um bom motorista porque nunca tomou uma multa. Não, isso significa que apenas nunca foi flagrado — somente isso. Não é chancela de boa condução. E ainda depende de quanto e onde dirige. Quem não conhece algum senhor de idade que tem um Monza 1994, quase certamente vermelho, com uns 40.000 quilômetros, sem um arranhão, lataria original, que nunca tomou uma multa? Garanto que o possante só sai da garagem nos feriados nacionais…

E o que falar da enorme parcela de motoristas que não entram nas estatísticas das seguradoras (embora sim dos DPVAT, se estiverem em dia com o licenciamento), aqueles 78% dos carros que não têm seguro? O que sabemos sobre essas pessoas que quando batem o carro fazem acordos entre si? Os motoristas são homens? São mulheres? Quem provocou o acidente? O que sabemos sobre eles? Nada, rigorosamente nada. E são um universo muito considerável.

Certamente, a estas alturas do campeonato várias mulheres devem estar fazendo bonequinhas de vodu com meu rosto e espetando alfinetes, assim como outros tantos psicólogos e sociólogos que adoram dar entrevistas sobre este assunto cada vez que saem estes números. Sorry.

Mudando de assunto – Bom, acho que já ficou claro aqui que sou mesmo vidrada em carros. Minha categoria favorita é a Fórmula 1, mas como fã da velocidade assisto quase qualquer coisa. Se inventarem Fórmula Caramujo e estiver com insônia, capaz de eu assistir. Mas achei interessante a iniciativa da Fórmula E. Mas, ainda saudosa do ronco dos motores da Fórmula 1, os da Fórmula E me remeteram à minha infância por dois motivos: ao barulhinho dos carrinhos de Autorama e, lembrança mais dolorosa, ao motor do dentista…

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
 Foto: wsmseguros.com.br
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