BOWLER, O LAND ROVER ESPECIALIZADO

Parece um Defender, mas não é (artcars.com)  BOWLER, O LAND ROVER ESPECIALIZADO tomcat 100 advert17

Parece um Defender, mas não é (artcars.com)

À primeira vista parece um Land Rover Defender modificado, mas não é apenas isso. Baseado em componentes Land Rover, e com muitas peças fabricadas em casa, a Bowler Motorsports iniciou-se nesse interessante mercado de veículos especializados para uso em competições fora de estrada em 1985, e depois de cerca de quatro anos de desenvolvimento da idéia de fazer um Land Rover melhor em provas de alta velocidade, apresentou o Tomcat, que à primeira vista passava facilmente por um Defender alterado, mas não era.

Esse carro começava a ser feito a partir de um Defender com uma estrutura tubular montada nas longarinas e travessas do chassi original de fábrica, eliminando vários componentes de carroceria e adicionando painéis externos de compósito de fibra de vidro.

A estrutura tubular permitia um aumento enorme da segurança passiva, aquela necessária depois que o veículo já está no acidente, pois um dos problemas das carrocerias antigas é uma fraqueza notável quando a característica avaliada é absorção de energia de batidas de todos os tipos. No Defender, com quase todas as chapas de carroceria em alumínio, essa deficiência é mais notável ainda, com capotagens aparentemente não muito graves resultando em dobras preocupantes nas colunas, e achatamentos de teto inadmissíveis em qualquer projeto atual. Como os parâmetros de projeto do Defender com teto fechado têm cerca de sessenta anos, situação normal.

Estrutura do Tomcat  BOWLER, O LAND ROVER ESPECIALIZADO 100 INCH TOMCAT SKELETON JPG

Estrutura do Tomcat. Longarinas e suspensões iguais às do Defender (artcars.com)

Outra vista (tomcatmotorsport.co.uk)  BOWLER, O LAND ROVER ESPECIALIZADO tomcatmotorsport co uk 88 frame full spec

Chassis atual, com  evoluções para resistência ampliada  (tomcatmotorsport.co.uk)

Molas, amortecedores e buchas que permitiam maiores cursos e mais resistência também faziam parte do pacote de alterações. Nesses componentes estamos falando de segurança ativa, aquela que evita o acidente, algo que deveria ser o verdadeiro e mais notável alvo dos legisladores de veículos e trânsito, para qualquer tipo de veículo  e qualquer conjunto de leis e normas. Como isso é pouco divulgado e ignorado pelo  comprador típico, dá-lhe bolsas infláveis e outros badulaques para diminuir os ferimentos em caso de acidente.

Em 1999 veio o Wildcat, uma evolução mais radicalmente voltada às competições, com bitolas maiores que as do Defender, estrutura de tubos otimizada para maior segurança em acidentes, níveis adicionais de preparação de motores e suspensões com peças no estado-da-arte desse ramo, que pede cursos cada vez maiores e amortecedores a gás com regulagens extensas.

Várias opções de motores Rover V-8 de várias cilindradas  e níveis de preparação,  dois lugares apenas, plástico com fibra de vidro na carroceria e chassis com gaiola de proteção. Há painéis em Kevlar opcionais para menos peso, além de vários outros componentes que podem ser pedidos, fazendo as possibilidades de personalização extensas.

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Um Wildcat em uso típico (best art carz)

 

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Interior simples, para uso severo. Vários componentes são de série do Defender (best art carz)

 

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“Pára-choque” traseiro é travessa do chassis, como no Defender de rua, mas com furos de alívio de peso (forum-auto.com)

 

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Poucas coisas no mundo são mais legais que o interior de um carro para ralis (forum-auto.com)

 

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Wildcat voador, como o avião de mesmo nome (carsfotodb.com)

 

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Encarando uma descida de duna (pharaonsrally.com)

 

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Com a câmera inclinada, a descida parece ainda mais forte. Note o ângulo das nuvens (pharaonsrally.com)

 

Drew Bowler é o cara. Piloto de off-road da Grã-Bretanha, fabricava peças de suspensão do TVR Griffith, além de outros componentes metálicos, e resolveu enveredar por esse mercado especializado,  no que deu muito certo. É bacana perceber como um simples início como soldar pedaços de metal pode levar à criação de um carro, e uma operação industrial de sucesso e respeito no meio.

Uma quantidade incerta de Wildcats em uma versão vendida para uso em ruas foi fabricada. Esse carro tem 4 polegadas de curso de suspensão (102 mm) , e o de corrida, 12 polegadas (305 mm), uma diferença bastante grande, e que eu não teria dúvida em escolher o de maior curso para usar nas ruas.

Além dos eixos rígidos dianteiro e traseiro de origem Land Rover, os dois braços longitudinais que apoiam o eixo por baixo, com uma forma de letra C, são usados. Adiciona-se barra Panhard que os Defenders e Discoveries não tem na dianteira. Essa barra limita movimentos laterais de um eixo em relação à carroceria.  Na traseira, tensores longitudinais e paralelogramo de Watt.

Parte da suspensão dianteira visível (forum-auto)  BOWLER, O LAND ROVER ESPECIALIZADO Bowler f15

Parte da suspensão dianteira visível, a barra Panhard é a branca (forum-auto)

Na foto acima, pode-se ver três radiadores na frente do carro. Dois são de óleo do motor, e o outro do câmbio. O radiador  de arrefecimento do motor está atrás, para escapar da lama e pedras. O ar chega a ele por uma tomada no teto do carro. Um aerofólio na traseira foi desenhado para dois propósitos, um deles auxiliar na extração do ar quente que passa pelo radiador, e o outro prover força para baixo quando dos trechos longos de ralis de velocidade, situação muito comum em dois dos mais importantes da modalidade rali-reide (os de grande distância), o Paris-Dakar, que hoje é apenas Dakar, e o Rali dos Faraós, disputado no Egito,  é a única prova de destaque internacional que restou no continente africano.

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Note o aerofólio traseiro e a dobra transversal no teto, ambos com função de criar área de baixa pressão (forum-auto.com)

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Abertura do radiador visível à frente e abaixo do aerofólio (supacat.com)

 

De acordo com a necessidade do cliente, o motor podia ser o V-8 Rover de 4, 4,6 ou 5 litros, além do diesel 2,5-litros para ralis de maior distância, onde motores ciclo Otto são problemáticos pelo consumo elevado.

O motor mais potente, de 5 litros, tem 350 cv, e 48,4 m·kgf de torque máximo, permitindo aceleração de 0 a 100 km/h em cerca de 7 segundos. A velocidade máxima está por volta de 200 km/h.

Câmbio Rover R380 manual, eixos e sistema de direção do Defender, tudo em acordo com a Land Rover que, sabiamente, nomeou a empresa de Drew Bowler como seu braço armado em competições que geram publicidade acertada e vendas que cresceram muito nos últimos anos. Hoje, a Bowler prepara Defenders para um torneio que ocorre no Reino Unido, o Defender Challenge, algo parecido com o Mitsubishi Motorsports brasileiro, mais uma prova da confiança da empresa administrada pelo grupo indiano Tata.

Bowler f14  BOWLER, O LAND ROVER ESPECIALIZADO Bowler f14

O eterno V-8 da Rover, bem encaixado. Note o capricho das fixações de estrutura tubular (artcars.com)

Sabiamente, a Bowler desenvolveu o carro visando atender também às leis francesas e uma importante opção de escolha para o todo-poderoso e onipresente Paris-Dakar, do tempo em que esse rali era dominado por participantes franceses, país com grande mercado para 4X4 de performances superiores. Hoje, as regras são as do mercado comum europeu.

Se o Tomcat já era de fazer salivar que gosta de fora-de-estrada e mais ainda quem tem ou teve um Defender, o Wildcat trazia mais um detalhe que é daqueles que simplificam a vida de tal forma que nos perguntamos porque isso não existe em todos os veículos de quatro rodas do mundo. Trata-se do dispositivo de desatolamento. Uma placa na parte central inferior, articulada por eixo na dianteira e empurrada para baixo por um pistão hidráulico inclinado. Se o carro perder a tração parado, aciona-se o sistema, e o carro é empurrado para cima. Serve também para trocar pneus de forma fácil.

Bowler f4  BOWLER, O LAND ROVER ESPECIALIZADO Bowler f4

Levantado pela placa de desatolamento, note as duas Panhard no eixo traseiro (forum-auto.com)

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Mais visível de lado, a placa mágica (forum-auto.com)

 

 

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Lindo desenho feito em computador, mostrando o chassis espelhado (Piston Heads)

 

 

 O projeto é tão bom, que Drew Bowler vendeu os direitos do modelo para a QT Services, que se associou à Supacat e desenvolveu uma versão militar, usada em vários cantos do mundo. A QT provê hoje serviço para os Wildcat, da mesma forma que anteriormente Drew vendera os direitos do Tomcat para outra pessoa, que baseado nas qualidades e necessidades de quem tem e usa o carro, fundou a Tomcat Motorsports, responsável por serviços e peças para esse modelo.

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O Wildcat militar, da QT Services – Supacat (supacat.com)

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Note a metralhadora no teto e a placa criada por Drew Bowler (supacat.com)

 

 

Se alguns podem pensar nesse tipo de negócio como um ato de alguém que pode parecer aproveitador, lembramos que os custos envolvidos na criação de qualquer carro hoje em dia são muito maiores que há 15 ou 20 anos atrás, já que os modelos de Bowler são também homologados para uso em ruas e estradas, leis essas que cercam de todos os lados os fabricantes, atolados em normas de segurança e emissões de gases. Isso complica de tal forma a vida, que gerou o quase total desaparecimento de fabricantes de carros por encomenda e de pequena série.

Assim, Drew Bowler faz seu caixa para futuros desenvolvimentos, vendendo os direitos legais de seus projetos.

O modelo atual é o Nemesis, que no estilo mistura Discovery com Evoque, mas que não tem nada do luxo desses, continuando a ser um modelo radical para andar nos piores pisos do mundo. Tem a versão homologada para uso rodoviário, a EXR.

O Nemesis EXR-S, a versão de topo para andar na rua (bowlermotorsport.co.uk)  BOWLER, O LAND ROVER ESPECIALIZADO EXRS 1 Banner

O Nemesis EXR-S, a versão de topo para andar na rua (bowlermotorsport.co.uk)

JJ

Sobre o Autor

Juvenal Jorge
Editor Associado

Juvenal Jorge, ou JJ, como é chamado, é integrante do AE desde sua criação em 2008 e em 2016 passou a ser Editor Associado. É engenheiro automobilístico formado pela FEI, com mestrado em engenharia automobilística pela USP e pós-graduação em administração de negócios pela ESAN. Atuou como engenheiro e coordenador de projetos em várias empresas multinacionais. No AE é muito conhecido pelas matérias sobre aviões, que também são sua paixão, além de testes de veículos e edição de notícias diárias.

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  • Smooj

    Não ligo muito pra carros offroad, mas depois que vi um vídeo do Bowler EXR-S sendo testado contra um Caterham Supersports na pista eu mudei de idéia. O carro é muito animal.

  • Rogério Ferreira

    Só por curiosidades esse motor 2.5 a diesel, mencionado na excelente matéria, tem relação com aquele que custava a empurrar a primeira S-10? (claro com o devido preparo e maior pressão para render mais) Aquele motor deixou os primeiros proprietários da então novíssima pick up da GM, de cabelo em pé, com a pulga atrás da orelha, cuspindo maribondo, e amaldiçoando até a 5a. geração do engenheiro da LandRover, que projetou a suposta encrenca. Nunca ouvi elogios: é só super-aquecimento, quebra precoce da correira, não chega a 100.000, sem contar com o desempenho que permitia a imponente caminhonete, novidade da época, ser ultrapassado por um singelo Fiesta Endura de 53cv. Curiosamente, a Ranger a Diesel tinha o mesmo motor, andava mais um pouquinho, por conta do intercooler, e o nível de reclamações era menor. Cabe uma ponderação: motores ruins ou proprietários desleixados com a manutenção? Seria a mesma maledicência, injusta, formadora de pré-conceito, ou realmente se trata de uma genuína “encreca com pistões”. Acredito que a Defender, tão famosa no mundo inteiro, e com fama de indestrutível, não seria esse sucesso todo, se não tivesse algo bom para movê-la. Ainda mais se confirmado que se trata de um motor usado em ralis. Aposto na 2a. opção, do desleixo, do consumidor acostumado com o tanque de guerra chamado D20, que sempre aceitou maus-tratos.. apenas dou razão a questão do desempenho, mas qualquer pick-up média daquela época, massarico, ou com turbinas indecisas, faziam o proprietário passar vergonha na estrada.

    • juvenal jorge

      Rogerio Ferreira,
      sim, o motor Maxion das primeiras S-10 era o mesmo de projeto Land Rover, mas há várias diferenças básicas, uma é o trocador de calor ar-ar que faz uma boa diferença de potência.
      Tive um Defender ano 99 com esse motor. Andava razoavelmente, mas até 120 km/h, depois disso ficava claro que se tratava de um jipe e não de um carro.
      Exceto por um vazamento de água causado por uma junta que se aposentou, nunca tive nenhum problema nesse motor em 4 anos de uso, e note que o comprei com uns 120 mil km.

      • Fórmula Finesse

        Creio que esse motor impulsionava a F-1000 também, em sua derradeira versão…115 cavalos de giro alto, eu achava que não deixava muito a desejar na Ford (mas, dirigi apenas uma vez), até a velocidade final era acima dos 145 km/h reais no plano, segundo avaliações da época. Na Ranger de cabine dupla, com mais “jeito” de carro, parecia que sofria mais…

  • Dieki

    lindo… isso é a prova definitiva de que mentes livres rendem mais. Aqui somos cerceados em tudo o que diz respeito a carros.

  • Viajante das orbitais

    Aparentemente essa placa serve para trazer as rodas de volta para cima caso elas afundem no terreno. Uma boa precaução contra dores de cabeça.

  • RoadV8Runner

    Carro bruto, um verdadeiro tanque de guerra, feito para jamais levar desaforo para casa! A foto do modelo militar, no meio dos blocos de concreto, é impressionante. Simplesmente genial a placa para levantar o carro.

  • Fórmula Finesse

    Que máquina impressionante!

  • Leonardo Mendes

    A título de curiosidade, o que são aqueles tubos na dianteira do Wildcat militar?