Meca megulhado

Certa vez, conversando com o Bob Sharp, eu disse que acreditava que os leitores achariam bem legal ler sobre coisas pessoais, trabalhos, coisas pitorescas das nossas vidas profissionais. Por exemplo, como aquele post superlegal contando sobre os apêndices aerodinâmicos dos Vemag. Ou como no outro sobre o Santana branco com interior marrom e vidros verdes. Muitos outros na mesma linha fizeram a alegria e a satisfação de muitos leitores aqui no Ae.

Como, por exemplo, não se sentir quase presente nas descrições do Carlos Meccia sobre a Ford, sua visão como participante de todo aquele processo e momento para nós histórico? Um contraste sensacional com os posts do MAO, por exemplo.

Quando ficamos muito tempo persistindo num mesmo labor, vamos aprendendo e desenvolvendo coisas que têm, digamos assim, a nossa cara, e que outras pessoas ao verem eventualmente acham bem legal e curtem um monte coisas simples que fazemos, desenvolvemos e temos como normal.

Bem nessa linha, eu já vinha trabalhando há um bom tempo com preparação de motores, e na maioria das vezes motores mexidos, alterados, que sempre acabam com sinal de vácuo na lenta baixo, resultado de comandos com bem mais duração e cruzamento de válvulas que os normais. Este sinal de vácuo fraco, válvulas grandes, mais taxa, carburadores maiores e velas frias, sempre facilitam, vez por outra, que uma vela suje e o motor falhe. Se você tem ainda escapamentos dimensionados, a tarefa de tirar e limpar velas acaba sendo mais chata.

Foi aí que notei, de forma bem clara e óbvia, que, ao falhar, os tubos do coletor de escapamento ficavam frios no cilindro morto.

Aí ficou muito fácil ver que com o auxilio de um pano molhado se determinava facilmente quem não estava vivo e era só tirar aquela vela especifica, providenciar a limpeza ou sua troca e o problema estava resolvido de forma bem rápida e simples.

Isso foi lá nos idos dos anos 1990, coisa de vinte anos atrás, portanto, quando eu comecei de verdade a futucar motores grandes, com preparação bem maior que o usual até então.

Um dia estava na casa de um amigão, o Camaro dele falhando bastante, pelo menos uns três cilindros mortos, ele meio cansado e desanimado com a situação, quando calmamente pedi: “Roberto, traz um pano molhado para a gente resolver isso.” Como falei de forma meio jocosa, meio sarcástica, ele foi buscar e desafiadoramente disse que queria ver como um pano molhado ajudaria em alguma coisa ali.

Aí, calmamente liguei o carro, acelerei um pouco ele, esperei uns 2 ou 3 minutos, e fiz o meu truque: pano molhado de cano em cano, vendo qual estava frio e, conseqüentemente, com falha de ignição.

A cara que meu amigão fez, a surpresa e o desconcerto ao ver como um truque, um detalhe tão simples era capaz de fazer tanta diferença, não vou esquecer nunca.

Passaram-se alguns anos, e volta e meia usava o artifício sempre que necessário. Até que bem recentemente, na oficina de um amigo, chegou um outro amigão com um Fiat coupé. Depois de muita conversa, entendi que ele estava voltando devido a falhas intermitentes.

Com muita calma, pedi um pano molhado. Claro, ninguém de cara entendeu o que tinha a ver. Enquanto o mecânico foi buscar o pano, pedi ao dono do coupé que ligasse o carro e deixasse ele em marcha-lenta enquanto isso. Na chegada do pano molhado, mostrei o truque, sai encostando ele e vimos que o cilindro nº 2 estava morto.

Neste ponto, foi só tirar a vela e verificar, primeiro se ela estava encharcada, depois se o injetor individual do cilindro estava injetando e, por fim, foi possível ver com absoluta certeza quem estava ruim e causando a falha.

Um método de diagnóstico simples, arcaico, que permite saber de imediato onde está a falha e com isso facilitamos muito o seu conserto. Num motor normal isso também pode ocorrer e, neste caso, no nosso cenário atual de injeção, bobinas direto na vela etc., o diagnóstico às vezes acaba até sendo mais difícil ou necessitando de ferramentas de diagnóstico complexas às quais que nem sempre temos acesso ou estão disponíveis em nossa garagem.

Mas o paninho molhado, este sim, é sempre fácil de arranjar!

AG

 

Foto ilustrativa: www.123rf.com
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