Pai e filho

 

O Dia dos Pais já foi Dia do Papai, assim era chamado, até quando não dá para precisar. Fazia mais sentido, uma vez que “pais” pode se referir tanto ao pai quanto ao pai e mãe. Não se diz “os meus pais”?

Mas isso é só um detalhe. O que importa é mesmo é cumprimentar cada pai, autoentusiasta ou não, pelo dia que lhe é dedicado. Pelo seu trabalho de sustentar a família (quando é o caso, uma vez que esse sustento pode ser provido pelo casal ou pela mãe apenas), de educar, de preparar os filhos para a vida, de protegê-los.

Cumprimentar também aqueles pais que já se foram, mas que deixaram em nós uma parte importante deles e de quem temos tanta saudade.

Para comemorar esse dia, segue um texto escrito em 1932 e que tenho há muitos anos que é bastante pertinente para ser reproduzido hoje e aqui no Ae e que, tenho certeza, ajudará muito os pais (e mães) que têm filhos ainda pequenos na hercúlea tarefa de educar.

Feliz Dia do Papai!

Bob Sharp  e toda a equipe do AUTOentusiastas


Um pai esquece
(Father forgests)
Por W. Livingstone Larned

 

Meu querido filhinho,

Falo enquanto você dorme, a mãozinha encolhida debaixo do rosto e o cacho de cabelo úmido caído sobre a sua testa. Entrei no seu quarto às escondidas, sozinho. Agora há pouco, quando eu estava na sala lendo o jornal, um enorme sentimento de remorso tomou conta de mim. Senti-me culpado e vim até aqui, para seu lado.

Vou dizer a você, filho querido, sobre o que estive pensando: tenho sido exigente demais com você. Dou bronca quando você está se vestindo para a escola porque passou apenas uma toalha úmida no rosto. Censuro você porque seus tênis estão sujos. Chamo sua atenção rudemente quando você joga alguma coisa sua pelo chão.

No café, acho mais faltas suas. Você desperdiça tudo! Come rápido demais! Põe os cotovelos na mesa! Passa manteiga demais no pão! Vivo dando bronca em você, filhinho. E quando você sai para brincar e vou tomar o ônibus para ir trabalhar, você levanta a mãozinha, acena com um gesto de pura amizade e diz: “Tchau, pai!”. E eu, na minha eterna mania de repreender você, franzo a testa e digo: “Endireite esses ombros!”.

E quando volto já no fim do dia, recomeço minhas exigências. Chegando perto de casa, já vejo você. Surpreendo-o de joelhos jogando bola de gude com os seus amiguinhos e descubro furos na sua calça. Diante dos seus companheiros, humilhei você, mandando-o ir para casa. “Calças custam dinheiro! Se você tivesse de pagar por elas teria mais cuidado!”. Imagine só, filhinho adorado, tudo isso dito de um pai para seu filho.

Você se lembra quando, mais tarde, eu estava na sala lendo, como você veio, timidamente, com uma espécie de mágoa brilhando nos seus olhinhos? Quando olhei para o jornal de novo, aborrecido com a interrupção, você parou na porta do corredor. “Que é que você quer?”, perguntei, com visível impaciência.

Você não deu uma palavra sequer e correu para mim, passou os braços no meu pescoço, me deu um beijo e os seus bracinhos me apertaram com todo o amor que Deus colocou florescente no seu coraçãozinho, que nem mesmo toda a minha negligência pode acabar. E então você foi aos pulos para o seu quarto.

Pois bem, filhinho, logo depois disso o jornal caiu das minhas mãos e um arrependimento enorme me invadiu inteiramente. O que estava eu fazendo, tratando-o dessa maneira? Descobrir suas faltas, repreender você pelas mínimas coisas — era a minha maneira de recompensar você, pelo fato de ainda ser uma criança. Não era porque eu não amasse você; era porque eu queria exigir demais da sua infância.

E no seu caráter há tantas coisas boas e verdadeiras! Seu coraçãozinho é tão puro…Melhor prova disso você não poderia ter me dado quando, apesar de tudo, você veio correndo para me beijar afetuosamente e me dar boa-noite. Foi por isso que vim para cá, ao seu lado, no escuro, envergonhado.

Isto é um pedido de desculpas, bem baixinho: não sei se você entenderia essas coisas se as disse quando estivesse acordado. Mas amanhã, filhinho querido, eu vou ser um verdadeiro papai. Vou ser seu companheiro, sofrerei quando você sofrer, vou rir quando você rir. Quando me vierem palavras impacientes, morderei a língua. Vou ficar repetindo para mim mesmo: “Meu filhinho não é nada mais que uma criança, uma pequena criança!”.

Acho que eu pensava que você já era um homem. Entretanto, quando vejo você agora, filhinho querido, todo encolhido e despreocupado na sua caminha, vejo que você ainda é uma criança. Ontem você estava nos braços da sua mamãe, com a cabecinha encostada no ombro dela.

Eu estava exigindo demais de você. Muito! Muito!

 

Foto: www.queromorrer.com

 

 

 

 

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