Fusca, o carro mais versátil já fabricado (foto: miuraclubegauchoeantigos.com.br)
Foi devido aos Fuscas mexidos que comecei a escrever sobre carros. Isso foi em meados da década de 1990; uns vinte anos atrás. Era começo de noite e estávamos no terraço de casa, o Franco Ucelli e eu, tomando uma cerveja para relaxar da pescaria que fizéramos no mar — pegamos umas enchovas —, quando o Franco começou a me contar o que projetava fazer no seu recém-comprado Fusca 1969. O Fusca era verde, pintura original e estava em ótimo estado.
Seu plano, basicamente, era lhe colocar um motor de Porsche 356, isso porque ele se lembrava de que na década de 1960 o bacana era meter motor de Porsche em Fusca, inclusive, para arrematar, mais bacana ainda ficava se colocados os instrumentos do 356, o volante do 356 ou da Motolita com aro de madeira. Tala larga, aro cromado e calota Porsche também.
FuscaVerde
O Fusca vestia a camisa do dono; o Bob é também editor técnico dessa revista (digitalização do Bob)
Ficava mesmo bacana, e andava bem, pois a Porsche tinha um 4-cilindros chamado de Super 90 que rendia os tais 90 cv (líquidos), e 90 cv fazem um Fusca andar forte, dão uma pegada das boas, já que o Fusca pesa pouco mais de 800 kg. Fora que o ronco ficava encorpado, pois junto metiam escapamento de Porsche. O ronco era Porsche, porém, não confunda com o ronco do 6-cilindros boxer, que já nasceu fenomenal, mas já era um belo ronco, inspirador.
O Franco é nascido e criado na Itália, e veio ao Brasil, já casado, nos fim dos anos 1970, daí que conforme conversávamos sobre Fusca mexido notamos que essa receita tinha sido universal, pois tanto a faziam cá quanto a faziam na Europa e EUA.
Mas acontece que naquela noite de pós-pescaria nós já estávamos na década de 1990 e tratei de ir informando ao amigo Franco que comprar um motor de 356 ia custar uma baba, fora que seria difícil de achar, quanto mais achar um bom, difícil de achar peças, peças caras etc., e já havia muita preparação nacional boa feita em cima do motor do Fusca mesmo. E que elas estavam confiáveis, duráveis, sem problemas, se feitas por um preparador consciencioso. Além do mais, com preparação nacional dava para tirar bem mais potência, já que poucos anos antes eu tivera uma Brasília com motor 2100 “a ar” que rendia coisa de uns 160 cv — segundo estimávamos, o Eber Boteon, meu mecânico-preparador em Pirassununga, e eu —, motor que depois meti no meu bugue  Glaspac, que pesa coisa de uns 600 kg e assim ele quase empinava na arrancada, um demônio.
A Brasilia era um carro bacana (foto: saiudagaragem.com.br)
E daí fui desenrolando algumas dicas que sabia pela prática, já que sempre mexia nos meus carros, todos, sempre lhes dava uma mexidinha ao menos. Disse a ele que havia vários graus de preparação, desde um 1600 invocadinho a um 2400 com coisa de 200 cv, tudo motor aspirado, porque turbinar motor de Fusca naquele tempo ainda não estava saindo legal, o motor ficava muito bicudo, só dava pegada em alta, fora que estourava muito motor.
E assim fomos delineando o que ele queria, se era para poder ir para o trabalho de vez em quando, e aí não daria para colocar um comando de válvulas muito bravo, senão o motor ficaria embaralhando demais em baixa, e isso no trânsito é no mínimo chato, ou se ele queria o Fusca para de vez em quando pegar estrada e aí, sim, poder dar uns rachas cá e acolá, então daria para colocar comando americano da Empi, bravo, além de coroa e pinhão do diferencial do SP2 — igual ao do Fusca de 1984 em diante, inclusive o “Itamar” —, o que lhe daria uma relação final de transmissão mais longa, melhor para a estrada. E fomos bolando e bolando, a cerveja descendo goela abaixo, tirando o cheiro de peixe das vias respiratórias, e nelas, através da imaginação, foi entrando cheiro de gasolina e óleo, os nossos ouvidos, que na real escutavam grilos e o marulhar do mar, foram sendo tomados por roncos de Fusca bravo, Fuscas que afundam a traseira na arrancada e partem feito um tiro, e nossas costas, recostadas em cadeiras de praia, foram se apertando contra o encosto e rangendo, e no céu estrelado já não víamos mais estrelas e sim velocímetros acesos da VDO com ponteiros torcendo a ponto de voltar bater no pino do 0 km/h, só que por trás, após ter dado a volta toda, e um conta-giros da Turotest adaptado no painel, com faixa vermelha lá pelas 6.000 rpm, o que para motor de Fusca é muita coisa. E dá-lhe Fusca bravo e mais Fusca bravo. Só quem andou num bom Fusca bravo sabe com é empolgante o danado.
E era meia paquera andada, mesmo! (foto: planetabuggy.com.br)
Bom, resumindo, consegui convencer o Franco a desencanar dos entraves que viriam com um motor Porsche e partir para o de Fusca bem preparado, coisa que ele fez com o Amador, um dos melhores preparadores de Fusca, pioneiro, mestre, que foi dono da famosa Equipe Gledson-Amador. Ele fez um 1800 coisa fina, comando forte, mas que não embaralhava, muito devido à boa alimentação dada pelos dois carburadores Weber 36 duplos, cabeçotes preparados pela Paula Faria etc; motor que nunca lhe deu dissabores, só alegrias, e para acompanhar acertou a suspensão, colocou rodas mais largas, bons pneus, bons freios, caixa de direção novinha. Ficou um bom conjunto, e chique, sem frescuradas, discreto, visual original, uma graça de Fusca.
Acontece que o Franco era sócio e presidente do Jornal Primeiramão e às tantas me disse que no editorial de seu jornal semanal dedicado a veículos, o SuperAuto, ele estava mesmo pensando em ter uma página focada nas preparações, carros especiais, diferentes, e que ela até já tinha nome: Veneno. E assim, ele vendo que eu conhecia isso, me convidou a escrever essa coluna semanal.
Bom, na época eu ainda morava na fazenda e vivera exclusivamente de lavoura e gado, mas tinha um costume que nunca foi muito comum — herdado do meu pai — e que me ajudaria bastante na escrita: eu gostava, como gosto, de ler, e ler bons livros, bons autores, bons escritores, nada de rastaqüeras, nada de baboseiras de escrevinhadores tontos escrevendo para leitores tontos. Logo pensei cá comigo, que, se fosse para escrever, eu escreveria como contando algo a um amigo meu, um amigo que também, como eu, gostasse da máquina carro, um amigo que, como eu, sentisse prazer em guiar e que não tinha paciência de ler besteira.
E então, conhecer preparação eu até que conhecia, e escrever bem, segurar o leitor interessado até o fim, bom, isso só o tempo iria dizer. Mal sabia eu que ao longo desse caminho eu teria a tremenda sorte de ter o Bob como fonte de inspiração, professor e amigo do peito, mal sabia eu.
— OK, Franco! Vamos tentar. Se eu não prestar pra coisa, avise logo! — imediatamente topei.
Agradeço ao Fusca, ao Franco, ao Bob e ao amigo leitor. Obrigado!

AK

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