Um de meus dilemas constantes é encontrar um balanço entre fazer matérias, testar carros, relatar viagens, ou simplesmente trabalhar no conteúdo do Ae, que talvez seja a vontade mais genuína, ou trabalhar nos bastidores, implementando idéias, estimulando, melhorando, e tentando fazer do Ae um meio de vida principal.

Esse post provavelmente vai parecer estranho, pois resolvi escrevê-lo de supetão, diretamente no momento em que estava refletindo sobre vários aspectos do Ae. O Bob um dia me disse que posts assim geralmente são muito bons. Eu marquei isso e fiz força para vencer barreiras como “amadureça a idéia”, “deixe para quando estiver mais tranqüilo”, “há outras coisas mais importantes para fazer agora”, “acho que o tema não é tão bom”, “será que todos vão entender” e outras. De fato não sei se conseguirei dar uma liga a todos os pontos que estão gravitando ao redor da minha cabeça.

A ideia nasceu assim que li o comentário do Fernando Yamaguti no post de lançamento do site. Eu queria agradecê-lo por me chamar de professor. Fiquei emocionado. Não tenho certeza do que eu ensinei a ele no tempo em que trabalhamos juntos. Apesar de eu ser engenheiro, não atuante desde 2000, acredito que não foi nada técnico. O que eu sempre tento passar aos meus colegas é que se façam as coisas, ou trabalhem, com vontade, com entusiasmo, tratando bem as pessoas, sendo sincero e dando o seu melhor. Todas as pessoas têm muito a oferecer, porém a grande maioria não se dá conta disso. Quando existem expectativas muito rígidas sobre os resultados e objetivos a serem alcançados, impostos por uma organização, donos ou acionistas, geralmente as pessoas não conseguem dar o seu melhor. Isso acontece porque tem que sujeitar a críticas e normas preconcebidas. No entanto, é o preço que se paga por alguma estabilidade profissional.

Aqui no Ae não há estabilidade profissional. Formam quase seis anos movidos apenas pela vontade e pelo entusiasmo. E com o sonho de um dia o Ae ser um sucesso comercial. O Ae não tem nenhum padrinho ou investidor. E isso nos garante independência e acima de tudo isenção. Nos permite definir nosso próprio destino com base naquilo em que acreditamos. Acho que todos os editores compartilham comigo que vontade, entusiasmo, tratar bem as pessoas, ser sincero e dar o seu melhor adicionando-se o catalisador paixão por automóveis e afins, são as forças motrizes desse trabalho que fazemos.

Essa reflexão apareceu porque estou pensando na possibilidade de ter o Ae como atividade única e principal. E para isso é necessário que haja um apelo comercial mais forte e eu estou com uma enxurrada de idéias interessantes para o Ae, para possíveis parceiros comerciais e para os leitores. Mas estou pensativo demais na interpretação dos leitores e lembrei de algumas críticas, na verdade sugestões, que recebemos. Então vamos a alguns pontos que eu gostaria de dividir.

Quando leio ou assisto outras publicações vejo críticas excessivas ou bajulação. Com relação às críticas eu percebo que apontar defeitos e se dizer muito mais especialista que os engenheiros que projetaram e desenvolveram o produto são excelentes para audiência que se inflama e faz coro.  O  pior é quando a crítica é infundada mas o veículo tem projeção. Eu entendo que a crítica é um elemento importante no jornalismo, mas em muitos casos eu me confundo com a autenticidade na exposição da crítica versus a necessidade de causar polêmica para aumentar a audiência.  Ou ainda quando colocam a crítica como um serviço, mas sem uma atitude nobre sobre isso e sim apenas comercial. É muito difícil separar isso.  Eu, e de certa forma todo o Ae, prefiro a crítica construtiva. Prefiro valorizar o que deu certo, entender as limitações que fizeram algo não ser tão bom, e apontar oportunidades de melhorias. A grande maiorias dos problemas ou pontos negativos é sabida por quem aprovou um produto para o mercado.

A avaliação de carros é uma atividade muito complexa. Eu sempre digo ao Bob quando estamos juntos que hoje em dia a fórmula básica de se fazer um bom carro está totalmente dominada. Não me lembro de dirigir um carro realmente ruim no conjunto. Eu também admiro empresas que têm coragem de inovar, de aprender com o mercado, de ir um pouco além, mesmo que cometendo erros.  A construção de um carro é extremamente complexa e envolve uma imensidão de fatores e decisões. Vou dar alguns exemplos.

A questão do estepe temporário foi uma que me intrigou bastante, pois eu tinha impressão de que isso afetaria vendas de carros equipados com eles. Mas a demanda por menor peso e melhor consumo, mais o espaço no porta-malas, e rodas cada vez maiores (que ocupariam o porta-malas inteiro), levaram a essa solução. Eu gostaria de ter um estepe igual as outras rodas? Claro, mas também quero todo o resto. Há sempre uma relação de compromisso. Então após muitas críticas iniciais hoje isso não é um fator decisivo dependendo do segmento de mercado.

Acabamento interno é o que nos salta aos olhos e onde todos somos especialistas. É claro que os fabricantes sabem muito bem que podem ter feito algo melhor na maioria de seus produtos. Mas os consumidores também querem mais equipamentos, rodas maiores, um visual mais bacana, um motor mais potente e assim vai. Na hora de fechar o custo tem algo que não é o fabricante que define. O preço. Para caber tudo de melhor no carro e ainda respeitar uma faixa de preços definida pelo mercado sempre há concessões. Outro dia eu peguei um carro de testes e quando abri o porta-luvas fiquei assustado com a qualidade do projeto. Mas a relação custo-benefício do modelo é excelente e ele é um sucesso de mercado. Provavelmente só vai melhorar quando estiver muito ameaçado por um concorrente. E depois de alguns dias com o carro me empolguei tanto com a pegada geral dele que até relevei o acabamento.

O que não pode acontecer, mas acontece, é um carro normal, sem grandes avanços chegar ao mercado a preço mais alto. E acontece por quê? Por que nem sempre, principalmente em novos modelos onde o investimento é maior, o custo fecha abaixo da faixa de preços praticados e os avanços não são tão perceptíveis para um consumidor comum. Por exemplo, um novo motor com mesma potência mas consumo “apenas” 5% melhor, que representa pouca economia no posto. Mas os fabricantes ainda têm uma variável, o volume.  E é claro que eles sabem de tudo isso. Então também é difícil apontar fracassos de vendas sem saber o que está na cabeça do fabricante.

Outro ponto que me intriga nas críticas são as preferências pessoais. Eu tive carros de um mesmo fabricante por anos. O padrão desse fabricante é que ao desligar a chave o rádio fica ligado (ao menos era assim). Quando troquei de fabricante tive uma surpresa ao desligar a chave, com o rádio desligando também. Eu achava um absurdo só conseguir escutar o rádio com a chave no contato e na posição intermediária. Passaram-se anos até eu dirigir um carro da marca anterior novamente. Quando o fiz, desliguei o carro e me irritei do rádio continuar ligado, necessitando de mais uma operação antes de sair do carro. Eu me adaptei e mudei de opinião. E não há mal algum nisso. Determinadas coisas em um carro são do jeito que são por uma razão, ou simplesmente por uma opção do fabricante. E quando acontece algo que gera uma reclamação unânime e que ninguém consegue se adaptar, os fabricantes corrigem o quanto antes possível, principalmente quando envolve segurança. Lembram da buzina na alavanca do pisca?

Detalhes que dificilmente influenciam na decisão de compra merecem ser criticado, ou apontados, mas com a devida ênfase. E o mais bacana, para mim, é valorizar os pontos positivos. Ainda esses dias eu e o Bob estávamos com um carro com o cofre do motor lindíssimo, pintado exatamente como a carroceria, com verniz e tudo. Foi bonito de olhar e valorizado no filme que fizemos. Os carros com pintura diferente no cofre merecem uma crítica. Principalmente quando são na mesma faixa de preços de outros mais completos. Mas será que alguém deixaria de comprar um carro por causa disso. Acho que não, se o conjunto for muito bom. É um bom paradigma a ser quebrado pois infelizmente apenas uma minoria dos motoristas e donos de carros são autoentusiastas.

Mesmo os carros “perfeitos” tem os seus defeitos. Alguns carros com rodas grandes e tração traseira não tem estepe! Mas podem rodar com pneu furado. Acredito que pouquíssimas pessoas estejam deixando o seu desejo de lado e não comprando esses carros por conta disso. E aqui é um caso de crítica inócua, pois não há solução porque a arquitetura dos carros foi feita assim e o fabricante não demonstra nenhuma intenção de voltar atrás. Um opção bem definida do fabricante.

E existem também os crítico de plantão, feito papagaios que apenas repetem o que escutaram sem ao menos pensar sobre o assunto ou tentar entender melhor a situação ou se a crítica sequer é relevante . Ou seja, não têm opinião própria ou não são abertos a outros pontos de vista. Ter opinião embasada é importante num mundo cada vez mais fútil e superficial. E eu prefiro expor as minhas sempre de uma maneira construtiva. Um exemplo clássico do Ae é a preferência do Bob pelo painel de instrumentos “Wolfsburg” e conta-giros à esquerda. No filme do Gol Rallye ele explica. Ou a crítica ferrenha aos “sacos de lixo” nos vidros.

A compra de um carro envolve um grande número de fatores. E sou capaz de dizer que o filtro é sempre emocional. Outro dia tomando café o cara do meu lado estava contente dizendo que trocara seu A4 por uma Pajero Sport. O consumidor não segue um padrão racional. Ou melhor, ele procura argumentos racionais para justificar algo quase sempre decidido pelo emocional, ou pelo intangível.  É uma combinação de vários fatores que vão de desde a preferência da esposa  (ou do marido se o carro for para a mulher) e filhos, imagem da marca, experiência anterior, recomendação de terceiros e o desenho da carroceria (que é uma questão pessoal). Junte-se a isso as faixas de preço e o tamanho do bolso do comprador. Eu tento quebrar isso quando perguntam minha opinião para ajudar escolher entre dois ou três carros. Se na lista não há nenhum realmente ruim em algum aspecto que eu sei ser importante para quem está perguntando (por exemplo, tamanho de porta-malas) e respondo com outra pergunta. Qual você gosta mais? Decidi fazer assim pois raramente alguém comprou o carro que indiquei baseado em questões racionais. Um dos meus projetos guardados para o futuro é uma avaliação onde cada leitor possa descobrir se o carro seria recomendado para ele ou não. Mas isso é um segredo por enquanto.

Entre a variedade de  atividades do Ae estão os testes de carros. O Bob é o editor-chefe do site e mantém uma coesão nas avaliações, porém sem limitar o caráter pessoal dos editores. Na pesquisa que fizemos com leitores no começo desse ano observamos algumas críticas pela falta de críticas ferrenhas a modelos ou fabricantes. Pois é, nós olhamos os carros testados como um todo e sabemos do empenho dos projetistas e engenheiros além de suas limitações e questões de estratégia comercial das empresas. Procuramos apontar problemas pertinentes ou fazer sugestões de maneira construtiva, apostando na vontade e intenção dos fabricantes em melhorar seus produtos.  É o nosso estilo.

Por isso gostaria de ratificar que fazemos o site para os leitores e que mesmo com possíveis ações comerciais, que sempre serão declaradas quando feitas, o editorial será sempre isento e manterá o seu estilo.

PK

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